As cortinas abrem-se, sai um médico.
- Madame não-sei-quê?
- Sim, sou eu.
- Sou o médico YZ.
- Sim.
- Está numa cadeira de rodas?!
- Como?
- A senhora está numa cadeira de rodas?!
- Sim.
- Mas porquê?
- Foi o enfermeiro que me deu esta cadeira, não sei.
- Mas não consegue andar?
- Consigo.
- Ah, estava a ver!
- ...
- Bom, não sei se vai compreender o que lhe vou dizer…
- Compreender?
- Bom, não sei se consegue reter alguma informação neste momento.
- Informação?!
- Sim, por causa do choque e assim… Vamos então para esta sala aqui ao lado, por favor.
- É preciso ir para outra sala?
- Sim, é melhor. Como deve perceber, não lhe trago notícias excelentes.
A senhora e o médico saem de cena. Pas d'excellentes nouvelles.
Há semanas que a narradora deste texto anda a pensar na senhora das urgências, no seu dedo indicador. Na sua voz.
Estamos cá sozinhos.
Realmente...
Sozinhos…
quarta-feira, 22 de maio de 2013
terça-feira, 21 de maio de 2013
Uma senhora nas urgências II
A certa altura, procurando entretenimento enquanto o seu duplo queixo comia arroz com almôndegas, a senhora da receção meteu conversa com a senhora da cadeira de rodas. Um diálogo lento, de longas pausas. A narradora deste texto ouviu e narrou:
- Está sozinha?
- Como?
- Se está sozinha...
- O meu marido está lá dentro.
- Eu sei, eu sei, mas não tem família?
- Sim, tenho, mas não é uma família grande… É pequena...
- Tem família aqui em Bruxelas?
- Aqui em Bruxelas? Não, não tenho…
- Ah, c'est dommage.
- Sim, é… Mas porquê? Por que me está a perguntar isso?
- Bom, é sempre mais agradável ter a família perto de si nestas situações.
- Sim, seria mais agradável, mas…
- Mesmo para socializar.
- Para socializar?
- Sim. Seria importante para si.
- Pois, talvez… Tenho cá um cunhado!
- Um cunhado?
- Sim, irmão do meu marido. Mas não tenho estado com ele...
- Ele está cá em Bruxelas?
- Não, mas vive cá na Bélgica.
- Ah…
- Mas de resto, não. De facto, não... Estamos cá sozinhos. Realmente... Sozinhos…
- Está sozinha?
- Como?
- Se está sozinha...
- O meu marido está lá dentro.
- Eu sei, eu sei, mas não tem família?
- Sim, tenho, mas não é uma família grande… É pequena...
- Tem família aqui em Bruxelas?
- Aqui em Bruxelas? Não, não tenho…
- Ah, c'est dommage.
- Sim, é… Mas porquê? Por que me está a perguntar isso?
- Bom, é sempre mais agradável ter a família perto de si nestas situações.
- Sim, seria mais agradável, mas…
- Mesmo para socializar.
- Para socializar?
- Sim. Seria importante para si.
- Pois, talvez… Tenho cá um cunhado!
- Um cunhado?
- Sim, irmão do meu marido. Mas não tenho estado com ele...
- Ele está cá em Bruxelas?
- Não, mas vive cá na Bélgica.
- Ah…
- Mas de resto, não. De facto, não... Estamos cá sozinhos. Realmente... Sozinhos…
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Uma senhora nas urgências I
Há semanas que a narradora deste texto anda a pensar na senhora das urgências.
Deviam ser três da manhã, mais coisa menos coisa. A autora e a narradora deste texto foram ao hospital. Às vezes, acontece. Nada de grave.
A mulher da receção era gorda. Tinha duplo queixo e braços insuflados. Era preciso esperar, por causa de um acidente, os médicos estavam muito ocupados. Tudo bem, nós esperamos. Aguardem na sala de espera.
Meia dúzia de pessoas na sala de espera, à espera de qualquer coisa. Uma espera longa, de ouvir passar o tempo. A narradora, dada a sua natureza narrativa, não aguentou muito tempo no seu lugar e pôs-se a caminhar pela sala. Três-quatro passos para lá, três-quatro passos para cá. Reparou então na senhora da cadeira de rodas. Uma senhora de vestido e colar de pérolas, o cabelo grisalho e muito composto, metido num carrapito. Uns brincos de brilhar no escuro. Dir-se-ia que a mulher se tinha aperaltado para vir às urgências. Para impressionar os médicos. Não parecia magoada nem inquieta. De súbito, os olhos da mulher olharam para os olhos da narradora. Um olhar de reconhecimento. De ver alguém a ver. A narradora sorriu e a senhora também. Um sorriso triste e cansado. De sala de espera, a ouvir passar o tempo.
Meia dúzia de pessoas na sala de espera, à espera de qualquer coisa. Uma espera longa, de ouvir passar o tempo. A narradora, dada a sua natureza narrativa, não aguentou muito tempo no seu lugar e pôs-se a caminhar pela sala. Três-quatro passos para lá, três-quatro passos para cá. Reparou então na senhora da cadeira de rodas. Uma senhora de vestido e colar de pérolas, o cabelo grisalho e muito composto, metido num carrapito. Uns brincos de brilhar no escuro. Dir-se-ia que a mulher se tinha aperaltado para vir às urgências. Para impressionar os médicos. Não parecia magoada nem inquieta. De súbito, os olhos da mulher olharam para os olhos da narradora. Um olhar de reconhecimento. De ver alguém a ver. A narradora sorriu e a senhora também. Um sorriso triste e cansado. De sala de espera, a ouvir passar o tempo.
A narradora encaminhou-se para a receção, 10 ou 15 passos. Fez perguntas. Se ainda demorava muito, se ia ser atendida em breve. A mulher da receção, além de duplo queixo e braços insuflados, tinha uma caixa ao colo com almôndegas e arroz lá dentro. Mais meia horinha, talvez menos. De certeza? Bom, não há garantias. E alternativas? A esta hora, nenhumas. Merci. A narradora afastou-se. Quando passou pela mulher do carrapito, esta chamou-a com o dedo indicador. Psiu, psiu, psiu, como se faz aos bichos, mas sem o psiu, psiu, psiu. Depois chamou-a com a boca: Mademoiselle.
A narradora deste texto hesitou, claro.
A mulher do carrapito talvez fosse louca ou até uma feiticeira daquelas que transformam as pessoas em bichos. A narradora ficou meio segundo naquela hesitação: Vou, não vou; vou, não vou; vou, não vou. Respondeu com uma pergunta: Oui? A senhora apontou para o saco que trazia consigo. Quer um livro ou uma revista? Como? Se queria ler qualquer coisa. Se queria distrair-se. Trazia uma revista e um livro no saco. Quer?, perguntou a mulher. Não, não, disse a narradora. C'est très gentil, mas não, obrigada. A senhora sorriu o mesmo sorriso triste, de cadeira de rodas. A narradora deste texto voltou a sentar-se no seu lugar, os olhos ainda sobrevoando a senhora do carrapito.
Uma mulher elegante, mesmo àquela hora, sentada numa cadeira de rodas. As pernas longas, o pescoço longo, toda ela um prolongamento de classe.
Estava certamente à espera de alguém. À espera de alguma coisa.
A narradora deste texto também.
A narradora e a senhora da cadeira de rodas tinham qualquer coisa em comum.
Sorriram novamente uma para a outra.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
O céu serve para ter nuvens
O céu serve para ter nuvens. As nuvens servem para chover. A chuva faz barulho. Um saco de plástico também. Um balão pode subir. Um ovo pode cair. Cair nem sempre dói. Se dói, é para chorar. Chorar é chover no rosto. O rosto é para ter bochechas. As bochechas apertam-se. Os dedos servem para estalar. Os pés são para dar chutos. As árvores são para trepar. Uma estrada é para correr. A boca é para gritar. Um grito vai muito longe. Um barco também. A areia é para fazer castelos. Os castelos são para destruir. O mar vai sempre em frente. Uma onda é para mergulhar. Debaixo de água não se ouve.
É que não se ouve mesmo.
Eu, pelo menos, não ouço nada.
Tirem-me desta chuva.
É que não se ouve mesmo.
Eu, pelo menos, não ouço nada.
Tirem-me desta chuva.
terça-feira, 14 de maio de 2013
Seasick Steve
Gostava de andar de trator.
De trator?!
Sim, de trator.
De preferência, com o Seasick Steve.
Ou então ao som de Seasick Steve, que toca guitarra e bate com o pé no chão.
Gosto.
É um americano como outros, mas não é um americano como outros.
Começou com nada e ainda lhe sobra quase tudo.
Em dias azulados (blues), ouço Seasick Steve e também bato com o pé no chão.
De trator?!
Sim, de trator.
De preferência, com o Seasick Steve.
Ou então ao som de Seasick Steve, que toca guitarra e bate com o pé no chão.
Gosto.
O Seasick Steve, quando era pequeno, levava porrada do padrasto.
Um dia fugiu de casa e nunca mais voltou.
Bem feito.
Já passou dos 70 e ainda está aí para as curvas.
Antes tocava guitarra no metro.
Agora toca guitarra no palco.
Usa boné e barba longa.
É um americano como outros, mas não é um americano como outros.
Começou com nada e ainda lhe sobra quase tudo.
Em dias azulados (blues), ouço Seasick Steve e também bato com o pé no chão.
terça-feira, 7 de maio de 2013
A casa (VIII)
No último dia, lavei o chão. Já não havia nada na casa.
Só eu, o balde e a sabrina. Se eu falasse, a minha voz faria eco, mas eu não falei.
Lavei só o chão. Depois fechei a porta.
Dentro do meu bolso, um porta-chaves sem chaves. Um porta-chaves que é uma casa fofinha.
Uma casa dentro do bolso.
Quando cheguei cá abaixo, olhei para ela. A casa olhava para mim de janela aberta.
Malandra!
Quem, eu?
Não, a casa!
De janela aberta.
Agora já não há nada a fazer.
Não tenho chaves. Não vai dar para fechar a janela.
Paciência.
Não foi por mal.
Foi, foi.
Não foi, não.
Foi esquecimento.
O esquecimento é um mal menor.
É, não é?
É.
Os nossos nomes na caixa do correio. Pas de publicité!
Depois virei as costas e fui-me dali. Com o Homem Ilimitado.
Ele sim, uma casa.
Bons alicerces.
Não há lobo mau que o derrube.
Só eu, o balde e a sabrina. Se eu falasse, a minha voz faria eco, mas eu não falei.
Lavei só o chão. Depois fechei a porta.
Dentro do meu bolso, um porta-chaves sem chaves. Um porta-chaves que é uma casa fofinha.
Uma casa dentro do bolso.
Quando cheguei cá abaixo, olhei para ela. A casa olhava para mim de janela aberta.
Malandra!
Quem, eu?
Não, a casa!
De janela aberta.
Agora já não há nada a fazer.
Não tenho chaves. Não vai dar para fechar a janela.
Paciência.
Não foi por mal.
Foi, foi.
Não foi, não.
Foi esquecimento.
O esquecimento é um mal menor.
É, não é?
É.
Os nossos nomes na caixa do correio. Pas de publicité!
Depois virei as costas e fui-me dali. Com o Homem Ilimitado.
Ele sim, uma casa.
Bons alicerces.
Não há lobo mau que o derrube.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
À espera do autocarro
Estou impecavelmente parada, ao frio e ao vento, não mexo um dedo, sou uma estátua.
O melhor da vida é esperar por um autocarro.
Olho à volta para contemplar melhor a espera. A moçoila de cabelo enrolado num novelo deve estar à espera do 38, só pode.
Eu gostava de enrolar o meu cabelo num novelo, mas não sei enrolar o meu cabelo num novelo. Há muitas coisas que eu não sei fazer.
Também não sei andar direitinha dentro de uma gabardina direitinha como este senhor que deve estar à espera do 95. É com certeza trabalhador por conta de outrem e não gosta do que faz, coitado. Acontece. A vida, às vezes, é chata.
A senhora bruta e gorda com caspa nos ombros deve ser do 27. Tem pelo menos cinco filhos, dois frigoríficos, duas máquinas de lavar roupa e um marido que nem se vê bem ao perto.
Há ainda mais pessoas na paragem. Três, sete, dez, somos uns quinze.
Três equipas de pessoas à espera.
Esperar é bonito de se ver. Ninguém sabe estar parado como as pessoas da paragem.
Hoje, jogo na equipa do 95, porque enfim, gosto de torcer pelos fracos.
O 95 é sempre o último a chegar.
Estou a comer amêndoas, não sei porquê. Deu-me para aí. Estavam à venda num supermercado dentro de um saquinho engraçado. São amêndoas a sério, não são das outras, a fingir. As amêndoas da Páscoa, por exemplo, são a fingir.
A Páscoa já acabou há montes de tempo e as lojas belgas continuam a vender ovinhos da Páscoa e coelhinhos da Páscoa e amêndoas da Páscoa. Com 50% de desconto.
Aaaah, finalmente! Uma coisa grande no horizonte, aos solavancos. Qual é coisa qual é ela.
É um autocarro, claro.
O 27, mais precisamente. A senhora com caspa nos ombros está contentinha, não me enganei. A senhora bruta joga no 27, pega nos sacos com garra. O 27 vem sempre apressado, não há tempo a perder. Logo a seguir, outra coisa monstra no horizonte. O 38. É mais pachorrento. As equipas do 27 e do 38 desaparecem, é sempre assim.
Nós, os do 95, ficamos sós e abandonados na paragem, a inalar o fumo e o pó e o perfume e o pólen que os felizardos deixam para trás.
Estou impecavelmente parada e olho à volta para usufruir da espera. Dois adolescentes mascam pastilha. Gostava de pedir uma pastilha aos adolescentes, mas tenho medo deles. Ainda me espremem uma borbulha para cima e depois tenho de ir à farmácia comprar antídoto.
A adolescência pega-se.
Olhos postos no fundo da praça, uma espécie de horizonte. Os que fumam acendem cigarros, na esperança de enganarem o destino. Os que não fumam fazem outras coisas. Mexem no telemóvel, comem amêndoas, consultam o horário, olham para o relógio. O 95 já devia cá estar e não está. O 95 não vale um. Está muito atrasado, se calhar não vem. Paciência, não faz mal, há de vir o seguinte ou o outro a seguir.
Há autocarros de 6 em 6 minutos. Qual é o stress?
Nenhum, não há stress nenhum, a espera é longa e previsível. A espera é como a vida.
Não, não é.
Sim, é.
Não, não é.
A vida, às vezes, é chata. A espera não.
Eu gosto de esperar.
Um autocarro chega, mas não é o desejado, é o 27. O 27 é injusto. Passou um ainda há pouco. O autocarro pára e as pessoas entram, ainda bem. Eu só quero o bem das pessoas. Ide em paz.
A equipa do 95 bufa em uníssono. Já não sou uma estátua. Agora caminho de um lado para o outro. Dois passos em frente, um para trás. Rodo na pata traseira, mais dois passos em frente. A manada do 95 deve estar ali há coisa de 15 minutos.
Ao longe, no horizonte que é o fundo da praça, outro autocarro à vista. Os que não são míopes já perceberam que é o 95 e avançam com as suas malas e mochilas e pastas e saquinhos. Os míopes apercebem-se agora e avançam também. O autocarro pára e abre as portas, é um autocarro acolhedor.
Não, afinal não é um autocarro acolhedor. O autocarro vem cheio, não há lugar para todos.
Algumas pessoas respingam, há uns buraquinhos ali e acolá. As pessoas, se fossem gente, apertavam-se mais um bocadinho e cabíamos todos. Mas as pessoas não são gente.
As pessoas não valem um.
Os mais magrinhos e atrevidos conseguem entrar. Os mais gordos e tímidos não. O condutor consola os meninos gordos e tímidos com um sorriso. Diz: Não se preocupem, vem outro já aí atrás!
Os mais gordos e tímidos ficam na paragem. Eu e os dois adolescentes.
Entreolhamo-nos. Tantas borbulhas, credo.
Penso noutra coisa.
Penso: Antes não gostava tanto de amêndoas, que engraçado.
E de novo se instala a paciência da espera e também a impaciência da traição, porque não vem um 95 já aí atrás. Não vem nenhum 95, ponto. Em dez minutos, passam dois 38 e um 27.
Os jogadores da equipa 95 chutam pedrinhas, porque estão zangados. No entanto, não arredam pé. Ficam ali, à espera. Esperar por um autocarro é um ato de esperança.
Quem nunca esperou por um autocarro não sabe o que é a vida.
Esperar enrijece. Eu, pelo menos, estou mais rija, olhem para isto. Pareço uma pedra. Para a próxima entro no autocarro e levo tudo à frente.
Vão ver.
Estou aqui bruta como as casas.
O melhor da vida é esperar por um autocarro.
Olho à volta para contemplar melhor a espera. A moçoila de cabelo enrolado num novelo deve estar à espera do 38, só pode.
Eu gostava de enrolar o meu cabelo num novelo, mas não sei enrolar o meu cabelo num novelo. Há muitas coisas que eu não sei fazer.
Também não sei andar direitinha dentro de uma gabardina direitinha como este senhor que deve estar à espera do 95. É com certeza trabalhador por conta de outrem e não gosta do que faz, coitado. Acontece. A vida, às vezes, é chata.
A senhora bruta e gorda com caspa nos ombros deve ser do 27. Tem pelo menos cinco filhos, dois frigoríficos, duas máquinas de lavar roupa e um marido que nem se vê bem ao perto.
Há ainda mais pessoas na paragem. Três, sete, dez, somos uns quinze.
Três equipas de pessoas à espera.
Esperar é bonito de se ver. Ninguém sabe estar parado como as pessoas da paragem.
Hoje, jogo na equipa do 95, porque enfim, gosto de torcer pelos fracos.
O 95 é sempre o último a chegar.
Estou a comer amêndoas, não sei porquê. Deu-me para aí. Estavam à venda num supermercado dentro de um saquinho engraçado. São amêndoas a sério, não são das outras, a fingir. As amêndoas da Páscoa, por exemplo, são a fingir.
A Páscoa já acabou há montes de tempo e as lojas belgas continuam a vender ovinhos da Páscoa e coelhinhos da Páscoa e amêndoas da Páscoa. Com 50% de desconto.
Aaaah, finalmente! Uma coisa grande no horizonte, aos solavancos. Qual é coisa qual é ela.
É um autocarro, claro.
O 27, mais precisamente. A senhora com caspa nos ombros está contentinha, não me enganei. A senhora bruta joga no 27, pega nos sacos com garra. O 27 vem sempre apressado, não há tempo a perder. Logo a seguir, outra coisa monstra no horizonte. O 38. É mais pachorrento. As equipas do 27 e do 38 desaparecem, é sempre assim.
Nós, os do 95, ficamos sós e abandonados na paragem, a inalar o fumo e o pó e o perfume e o pólen que os felizardos deixam para trás.
Estou impecavelmente parada e olho à volta para usufruir da espera. Dois adolescentes mascam pastilha. Gostava de pedir uma pastilha aos adolescentes, mas tenho medo deles. Ainda me espremem uma borbulha para cima e depois tenho de ir à farmácia comprar antídoto.
A adolescência pega-se.
Olhos postos no fundo da praça, uma espécie de horizonte. Os que fumam acendem cigarros, na esperança de enganarem o destino. Os que não fumam fazem outras coisas. Mexem no telemóvel, comem amêndoas, consultam o horário, olham para o relógio. O 95 já devia cá estar e não está. O 95 não vale um. Está muito atrasado, se calhar não vem. Paciência, não faz mal, há de vir o seguinte ou o outro a seguir.
Há autocarros de 6 em 6 minutos. Qual é o stress?
Nenhum, não há stress nenhum, a espera é longa e previsível. A espera é como a vida.
Não, não é.
Sim, é.
Não, não é.
A vida, às vezes, é chata. A espera não.
Eu gosto de esperar.
Um autocarro chega, mas não é o desejado, é o 27. O 27 é injusto. Passou um ainda há pouco. O autocarro pára e as pessoas entram, ainda bem. Eu só quero o bem das pessoas. Ide em paz.
A equipa do 95 bufa em uníssono. Já não sou uma estátua. Agora caminho de um lado para o outro. Dois passos em frente, um para trás. Rodo na pata traseira, mais dois passos em frente. A manada do 95 deve estar ali há coisa de 15 minutos.
Ao longe, no horizonte que é o fundo da praça, outro autocarro à vista. Os que não são míopes já perceberam que é o 95 e avançam com as suas malas e mochilas e pastas e saquinhos. Os míopes apercebem-se agora e avançam também. O autocarro pára e abre as portas, é um autocarro acolhedor.
Não, afinal não é um autocarro acolhedor. O autocarro vem cheio, não há lugar para todos.
Algumas pessoas respingam, há uns buraquinhos ali e acolá. As pessoas, se fossem gente, apertavam-se mais um bocadinho e cabíamos todos. Mas as pessoas não são gente.
As pessoas não valem um.
Os mais magrinhos e atrevidos conseguem entrar. Os mais gordos e tímidos não. O condutor consola os meninos gordos e tímidos com um sorriso. Diz: Não se preocupem, vem outro já aí atrás!
Os mais gordos e tímidos ficam na paragem. Eu e os dois adolescentes.
Entreolhamo-nos. Tantas borbulhas, credo.
Penso noutra coisa.
Penso: Antes não gostava tanto de amêndoas, que engraçado.
E de novo se instala a paciência da espera e também a impaciência da traição, porque não vem um 95 já aí atrás. Não vem nenhum 95, ponto. Em dez minutos, passam dois 38 e um 27.
Os jogadores da equipa 95 chutam pedrinhas, porque estão zangados. No entanto, não arredam pé. Ficam ali, à espera. Esperar por um autocarro é um ato de esperança.
Quem nunca esperou por um autocarro não sabe o que é a vida.
Esperar enrijece. Eu, pelo menos, estou mais rija, olhem para isto. Pareço uma pedra. Para a próxima entro no autocarro e levo tudo à frente.
Vão ver.
Estou aqui bruta como as casas.
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