quinta-feira, 2 de maio de 2013

No outro dia ajudei um homem cego.

No outro dia ajudei um homem cego. Eu vinha a descer a rua e vi que o homem estava bloqueado em frente a um poste. Parecia um daqueles bonecos de corda que ficam a dar à perna contra a parede. Enchi-me de bons sentimentos, pobre senhor. A vida é difícil para os invisuais. Agora diz-se invisuais. Cego é coisa do passado. Não vejo nada de mal na palavra cego, por isso digo cego.
Eu sempre quis ser escuteirinha. Penso que teria bastante jeito para ser escuteirinha, mas nunca fui escuteirinha, por isso pensei que esta seria a minha oportunidade. Aproximei-me do homem e agarrei-o pelo braço. O senhor soltou um grito, bruxo, que grande susto. Pedi-lhe desculpa, desolée, expliquei-lhe que o ia ajudar e o senhor agradeceu. Disse-me que ia para a praça não sei quantas. Fingi que esse também era o meu caminho e seguimos em frente. Logo a seguir ao poste, havia um outro poste e o senhor foi direitinho a ele, pimba contra o poste. Eu pedi desculpa, desolée, não estava à espera que o senhor não se desviasse. Os transeuntes olharam-me de olhos atravessados. Alguns até abanaram a cabeça, que pessoa visual mais incompetente. Esforcei-me mais um pouco e desviámo-nos dos postes seguintes, de braço dado, agora para aqui, agora para ali. Aos poucos já estava perita em evitar obstáculos e conquistei a confiança do senhor. A certa altura, estávamos em amena conversa.
O senhor é daqui? Não, sou irlandês, mas vivo em Bruxelas há mais de 20 anos. E gosta? Gosto muito. Irlanda, que bom! Boa gente. Pois é. Conhece? Só Dublim, estive lá num fim de semana, choveu imenso. Sim, chove muito. É como aqui. Pois é. Gosto de beber Guiness. É uma cerveja forte! Pois é. Eu gosto. Tem de voltar à Irlanda. Sim, tenho. Você tem uma voz agradável. Obrigada. Vem de onde? Sou portuguesa. Ai, sim? Sim. De onde? De Lisboa. Que maravilha! Pois é. E vive em Bruxelas? É verdade. Coisa estranha, a vida. Sim, estranha. Conhece Lisboa? Sim, estive uma vez, gostei muito. É uma bonita cidade, não é? O senhor não respondeu logo, coitado, não devia saber o que dizer. Como explicar a beleza que não se vê? Corrigi: É uma cidade simpática, não é? O senhor sorriu um sorriso bonito. Sim, muito simpática. As pessoas são todas muito amáveis, incrível. Os portugueses são um povo bom. Sim, são. Os irlandeses também. Sim, também. Mas estamos na cauda da Europa. Pois é. Não podemos ser bons em tudo. Pois não.
Chegamos à praça não sei quantas e eu larguei o senhor. Olhe, chegamos ao seu destino. Já? Sim. Que bom, muito obrigado pela ajuda! Ora essa. Foi um prazer. O senhor desdobrou a sua bengala e avançou atrás dela, toc-toc, toc-toc. Fiquei a vê-lo caminhar pela rua e reparei que o homem era muito mais lento quando caminhava atrás da sua bengala. Mas muito mais lento. Incrivelmente mais lento. O homem era o ser vivo mais lento em Bruxelas.
Nesse momento apercebi-me de que o homem devia estar cheio de medo nos meus braços desconhecidos e desatentos. Na verdade, deve ter sido horrível para ele acompanhar os meus passos firmes e rápidos.
É portanto provável que eu não tenha ajudado o homem cego.
Visivelmente eu não seria uma boa escuteririnha.
Sou uma visual incompetente.
Não vejo a maior parte das coisas.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Karateca na Kolômbia

A karateca foi a Bogotá e agora já não é uma menina nem uma rapariga. É uma chica karateca, cujo mayor sueño es ser cinturón negro y ganar todos los campeonatos de karate.


El cuaderno foi impecavelmente traduzido pelo Jerónimo Pizarro, conhecida pessoa com tendências pessoanas, e marca presença na Feira Internacional do Livro de Bogotá, onde Portugal é o país convidado.
As ilustrações do Bernardo Carvalho continuam a ser rijas e rojas numa edição que ficou a cargo da editora colombiana Taller de Edición Rocca.
O pontapé de lançamento será já mañana, pelas mãos (e pelos pés) de Bernardo Carvalho e Jerónimo Pizarro.
Yáááá!

quarta-feira, 27 de março de 2013

O Planeta Tangerina é a melhor editora infantojuvenil da Europa

O Planeta Tangerina foi a melhor coisa que aconteceu à literatura infantojuvenil em 2013 na Europa.

É verdade! Agora já não parece mal dizer, é oficial. Não fui eu que disse. Também não foi um júri qualquer. Também não foi uma instituição qualquer. Foram mesmo as outras editoras presentes na Feira do Livro Infantil em Bolonha, que é, por sinal, a maior feira de livros infantojuvenis.

Eu, por acaso, também acho que o Planeta Tangerina foi a melhor coisa que aconteceu à literatura infantojuvenil e, como sabem, a minha opinião, além de qualificada, é com-ple-ta-men-te imparcial.

Aqui há umas semanas, A Ilha, do João Gomes de Abreu e da Yara Kono, também recebeu nesta mesma feira uma menção honrosa como primeira obra.

É do caneco!

quinta-feira, 21 de março de 2013

21 de março - Dia Mundial da Poesia

O dia 21 de março também é o Dia Mundial da Poesia.
Seja.
Eu não sou muito de ler poemas, fico sempre perdida num poema. Não sei o que fazer com ele. Se devo comê-lo ou abraçá-lo, se devo levá-lo comigo, se devo deixá-lo em paz. Fico insegura em frente a um poema.
Mas à falta de raios de sol e árvores farfalhudas, fui ler poemas ali e acolá. Um poema não é um raio de sol, mas sempre ilumina por dentro.

Nunca me canso do amor nem do Espaço, por isso hoje lembrei-me deste poema do Jorge Sousa Braga e perguntei por ele ao Senhor Google:

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que ele não
te coubesse no dedo

Gosto destes versos. Eu, se fosse um homem de jeito e quisesse casar com um mulherão como eu, gostaria de ter escrito este poema.
Infelizmente não sou um homem de jeito e não quero casar com um mulherão como eu.
Ainda assim, gostaria de ter escrito este poema.

E a cintura de asteróides? Se calhar não há nenhum poema sobre a cintura de asteróides.
A cintura de asteróides tem pano para mangas.
É capaz de dar um poema bonito.

21 de março - Primavera

Gosto à brava do dia 21 de março.
Não estou sozinha nisto, claro. Toda a gente gosta à brava do dia 21 de março!
O dia 21 de março é dia para tudo e mais alguma coisa.

Por exemplo, no calendário do hemisfério norte a Primavera começa hoje e isso, para mim, é motivo suficiente para festejar. Todos os anos bato palmas e sopro as velas no dia 21 de março. É óbvio que a Primavera ainda não chegou a Bruxelas (very cloudy, max. 8 ºC, min: -1 ºC,  feels like 4.º C), mas aqui não se olha para o céu, olha-se para o chão ou então para dentro. É muito mais giro. Neste momento, por dentro, é só raios de sol para uns e para outros, pintos e passarocas ao rubro, amem-se para aí.

Alto! STOP!

Estava aqui a escrever este texto à la século XXI (no Word) e o corretor ortográfico acaba de sublinhar a palavra Primavera a verde. Fui lá cheirar com o rato: o corretor aconselha-me «a utilização de minúscula inicial».
Digo: Aaaah, pois, o Acordo Ortográfico! (feels like -10 ºC)

As estações do ano agora não são ninguém, coitadas. Vêm minúsculas. Não tenho nada contra um outono comum mortal e acho muito bem que o inverno fale baixinho. O próprio verão nunca teve muita credibilidade, anda de chinelo no pé, já perdeu o estatuto há muito. Mas isto de escrever Primavera com minúscula parece-me ligeiramente desrespeitoso.

A Primavera é mãe desta gente toda e tem um certo nível de requinte. É ver as flores de cerejeira no Japão, por exemplo. A Primavera é uma lady (e também uma louca). Não é um nome comum.
Custa-me escrever Primavera com minúsculas.
É como cometer uma gafe protocolar numa visita de Estado. Ou dizer o nome de Deus em vão.
Cruzes canhoto!

quarta-feira, 20 de março de 2013

A concretização pessoal

A concretização pessoal é apanhar o metro no último momento. Nada me realiza mais do que este sprint final. É preciso imaginar o cenário: as portas do metro a fechar, o metro a apitar por cima e por baixo. É que não vale a pena sequer tentar. Mesmo as pessoas mais apressadas e atarefadas já desistiram, são bons perdedores. Descem as escadas devagar com as suas muitas pernas, minhoquinhas debaixo de terra.
Mas eu hoje dei um sprint final e, contra todos os prognósticos, apanhei o metro. A boca fechou mesmo atrás de mim, foi impressionante. Um milímetro ao lado e eu já não teria sido engolida pelas portas, teria sido triturada ou, pelo menos, trincada. O perigo era, pois, eminente.
Uma vez, as portas do metro deram-me uma trinca no ombro e doeu bastante. Fiquei com uma nódoa negra bem gorda durante vários dias. Mas, desta vez, saí (entrei) ilesa.
Fiquei tão feliz com este meu feito que me esqueci das regras da coexistência urbana e meti logo conversa com estranhos: Ufa, foi por um triz!*
As minhoquinhas perdedoras ficaram para trás, coitadas. Acenei-lhes. Tchaaau! 
Eu até nem sou de correr para o metro. Não percebo muito a filosofia de correr para o metro. Tenho a mentalidade das pessoas atrasadas: mais cinco minutos ou menos cinco minutos é igual. De manhã, sou lenta como uma tartaruga, não me mexo muito. Quando saio de casa, evito até olhar para as pessoas, porque de vez em quando lá vem mais uma ave-rara de mapa na mão e faz-me perguntas. Isto irrita-me muito, porque de manhã não me apetece nada ajudar as pessoas. Ajudar as pessoas de manhã é extremamente cansativo.
Mas hoje, não sei, estava mais desperta e deu-me para um sprint final.
Era ver a tartaruga a sair da casca, num fôlego de esperança.
E apanhei o metro.
Foi espetacular!

*Bem, eu não disse Ufa, foi por um triz! Eu disse qualquer coisa menos espontânea num francês de nono ano e não obtive resposta.



quarta-feira, 13 de março de 2013

Hoje vi o sol

O sol olhou para mim e eu olhei para ele.
Depois o sol desapareceu e eu fiquei outra vez sozinha.
A vida continua sem o sol.
As minhas plantas, por exemplo, sobrevivem.
Eu também sobrevivo.

É possível viver da saudade.
A saudade é como a Vitamina D.
Permite a absorção do cálcio ou assim.

No sol também chove.

É verdade.
Descobri outro dia.