segunda-feira, 4 de março de 2013

Música a fingir que não é

Gosto de música a fingir que não é, de vozes que quase não são. De música mascarada de história contada ou assim. 
Como é óbvio, não percebo nada de música, o que deve fazer de mim uma pessoa ainda mais pobre de espírito. Mas cada um é como cada qual e eu sempre fui dura de ouvido e bruta de voz.
Aparte comprido: Lembro-me bem dos dias passados na escola de música. Até gostava das aulas práticas, de aprender os acordes novos e de decifrar as músicas dos outros, mas as aulas de solfejo eram um martírio. A professora dava-nos música e nós tínhamos de distinguir o si bemol de outra coisa qualquer e fazer contas às semi-colcheias. Os ditados de figuras e pausas eram uma arte da adivinhação. Era como jogar à batalha naval, mas sem perceber se tínhamos acertado ou não no porta-aviões. Não tinha a semínima piada. Além disso, era impossível copiar pelos colegas do lado, porque os colegas do lado eram bons de ouvido mas maus de coração. 
Felizmente, não é preciso perceber de pautas musicais para gostar de música. Sou dura de ouvido, mas ando pela rua com headphones na cabeça. Uns headphones grandes, que também servem de bandolete. 
Gosto de ter uma banda sonora para os meus dias.
Uma boa banda sonora para os meus dias é a do filme Juno, porque as canções deste álbum induzem em erro, fingem que são outra coisa. Gosto em particular da canção fofinha dos Moldy Peaches, porque os Moldy Peaches têm o Adam Green lá dentro e o Adam Green é sempre uma boa coisa. 
Gosto das canções do Adam Green, da sua voz muito grave e muito fácil ao mesmo tempo (nada é grave e fácil ao mesmo tempo). Gosto dos caracóis do Adam Green, das suas maluquices. O Adam Green é um músico a fingir que não é. 
Gosto à brava do Adam Green. 
Eu e o Adam Green.
We sure are cute for two ugly people. 

sexta-feira, 1 de março de 2013

Flocos de Neve


Quando penso em miminhos, lembro-me sempre de uma menina lá da escola. Era uma menina muito pequenina, devia ter uns 5 anos. Por vezes - não sei por que carga de água - a menina muito pequenina ia até ao bar da escola e comprava dezenas de Flocos de Neve com uma moeda grande. A menina enchia então os bolsos do casaco e das calças com os rebuçados e depois andava pela escola a distribuí-los pelos outros meninos. Queres um rebuçado? Toma, é para ti! Papelinhos vermelhos por todo o lado, era uma autêntica festa de Flocos de Neve.
Claro que a menina ficava à espera que os seus Flocos de Neve fossem retribuídos com miminhos. Era pequenininha, mas não era parva. E a verdade é que a menina recebia sempre miminhos de volta. Os mais velhos faziam-lhe cócegas, por exemplo, e fazer cócegas é dar miminhos para rir.
No fundo, as relações humanas não vão muito além disto: dar e receber Flocos de Neve para depois dar e receber Flocos de Neve.
Dizemos Gosto de ti! e ficamos à espera que os outros também gostem de nós.
Dar para receber para dar para receber para dar para receber para dar para receber.
Já os mercados financeiros não são nada assim. Os mercados financeiros nem sequer sabem apreciar Flocos de Neve.
Mas, enfim, os mercados financeiros não têm nada a ver com a natureza humana.
Não têm?!
Não, não têm.
Os mercados financeiros pertencem a outra espécie e do cruzamento entre seres humanos e mercados financeiros não saem mulas nem seres humanos híbridos.
Saem monstros.
Não dá para fazer cócegas a monstros nem para alimentá-los a Flocos de Neve.
Conclusão?
Não há, era mesmo só isto.

Dia Mundial dos Elogios

Hoje, além de sexta-feira, é o dia de aniversário de Justin Bieber e - last but not least - o Dia Mundial dos Elogios.
São três desejos que se concretizam de uma só vez, daí as pessoas andarem por aí mais satisfeitas do que é costume. Também andam mais aprumadas, na esperança de receberem um elogio, claro.


Os entendidos dizem que dar um elogio transmite um sinal de apreciação e respeito e que receber um elogio faz bem à pele e reduz o colesterol mau. Isto quer dizer que todos ficamos a ganhar com este intercâmbio de louvores.
Um elogio é um miminho de palavras, por isso não vale oferecer flores nem garrafas de champanhe.
Eu pessoalmente prefiro miminhos de chocolate belga com recheio de avelã, mas aparentemente o chocolate não transmite apreciação nem respeito.
Por favor, elogiem-me. Careço de açúcar.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Justiça

Sou da geração que cresceu a ver o MacGyver aos domingos à noite e a música do genérico sempre foi uma inspiração para mim. Também cresci a ver o Justiceiro, mas o David Hasselhoff, ainda que bem-intencionado, já era ridículo nos anos 80 e o Kitt era mais um papagaio do que outra coisa.
O MacGyver, sim, fazia Justiça. Era um agente secreto e não usava armas, utilizava antes a cabeça e uns pedaços de fita-cola e cordas e clips. Bom, também usava uns explosivos de vez em quando, vá. Do alto dos meus 10 anos, aprendi que nem sempre a Justiça é justa, que não há uma justiça absoluta. Mas, ainda assim, sempre acreditei no princípio da coisa, mesmo quando eu própria não cumpria as regras (e até gostava bastante de não cumprir as regras). Catch me if you can. Quando me apanhavam, cumpria a pena. A bem da Justiça.
É preciso acreditar na Justiça para acreditar na igualdade.
Não há democracia sem Justiça. Não há Estado sem Justiça. E, por isso, é injusto quando a Justiça tarda ou não funciona. Não dá para acreditar numa sociedade que não tenha um sistema judicial capaz.
Quando li a notícia da Grécia, senti-me inspirada. Há que punir os corruptos. Com rotativos na cabeça ou com clips e explosivos ou então com a prisão perpétua, que é uma forma de tratamento aparentemente mais justa.
É preciso acreditar na Justiça em tempos de crise. Tal como é preciso acreditar na paz em tempos de guerra (imagino eu).
Quando a Justiça funciona, sinto-me esperançada e começo logo a cantarolar o MacGyver.
É preciso rebentar com os injustos.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A felicidade é escrever um postal

A felicidade é escrever um postal.
Escrever um postal é dizer tudo dentro de um quadrado. 
É como fazer um puzzle, mas não tem nada a ver com um puzzle.
É como andar de mão dada a alguém, mas não é como andar de mão dada.
Gosto especialmente de lamber o selo.
Lamber o selo é felicidade.
Infelizmente, já não é preciso lamber o selo. 
Os selos agora são proativos. Já vêm pegajosos.
Mas antes, quando era preciso lamber, eu lambia e tinha bastante jeito, parece-me.
Se houvesse um concurso de lamber selos, eu chegaria, pelo menos, às semifinais.
Sou lambona.
Hoje estava à procura de uma coisa que não tinha nada a ver com isto e encontrei um postal gratuito da Coca-Cola. 
Tenho esta mania dos postais gratuitos. É piroso, eu sei.
O postal trazia o Pai Natal original e a frase Share happiness. 
O Natal é quando uma mulher quer, por isso decidi partilhar felicidade.
Enviar um postal a alguém é felicidade.
Receber um postal também é felicidade.
Escrever um postal é gostar de alguém dentro de um quadrado.
E eu gosto disso.
Sou quadradona.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Pessoa em frente a uma máquina

E se as cortinas da sala não estivessem fechadas, mas sim abertas?
E se afinal não estivesse uma noite fria lá fora, mas sim uma manhã de Primavera?
Seria uma bela surpresa.
Eis duas perguntas dentro da cabeça de uma pessoa que está em frente a uma máquina.
Outras perguntas:
E se no parapeito da janela não estivesse uma orquídea sem flores, mas sim uma gaiola com um periquito amarelo lá dentro?
E se eu abrisse a janela e depois a gaiola e depois os meus braços e eu fosse afinal o periquito amarelo e saísse a voar pela rua?
Seria ótimo, claro.
A pessoa em frente a uma máquina pensa sobre isto e é como se voasse pela rua.
O pensamento é como voar pela rua e sempre dá para fugir da vizinha de cima, que não dorme de noite nem de dia, está sempre acordada.
A vizinha de cima deve ser uma coruja, até porque roda o pescoço mais do que o normal.
Outras perguntas dentro da cabeça da pessoa que está em frente a uma máquina:
E se isto não fosse uma cidade cheia de betão e gente, mas sim um bosque repleto de árvores e barulhinhos misteriosos? E se isto não fosse um planeta, mas sim um meteoro ou uma estrela cadente?
Sempre dava para cair por aí como um periquito amarelo.
A pessoa em frente a uma máquina ri-se. É evidente que não gostaria de ser um periquito amarelo nem uma estrela cadente. A pessoa em frente a uma máquina nem gosta de periquitos. Nunca teve um periquito, sequer. Nem mesmo na infância.
Mas agora deu-lhe a fraqueza e achou que seria muito mais giro ser um periquito do que uma pessoa em frente a uma máquina.
Nas cabeças extremamente avançadas dos seres humanos, a ficção é sempre melhor do que a realidade.
Eis o perigo.
Há numerosos estudos que comprovam que ser um periquito não é melhor do que ser uma pessoa em frente a uma máquina. Os dados existentes parecem indicar aliás o contrário: não há nada melhor do que ser uma pessoa em frente a uma máquina. Nada é mais eficiente nem mais resistente nem mais felizardo do que uma pessoa em frente a uma máquina.
Em especial no inverno, em noites frias como esta. Um periquito já estaria morto, coitado.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

As pessoas urbanas

As pessoas urbanas andam de metro. Algumas vêm sentadas e outras vêm de pé. 
Entre as pessoas que vêm de pé, umas vão encostadas à porta, outras agarradas ao varão, no centro da carruagem. As pessoas mais urbanas ouvem música, outras leem um livro. As pessoas ainda mais urbanas fazem as duas coisas ao mesmo tempo: ouvem e leem, leem e ouvem. As pessoas mais ou menos urbanas não fazem nada disto, olham no vazio; os olhos abertos e desfocados. 
Um homem lê um jornal e está visivelmente zangado com qualquer coisa que poderá não ter nada que ver com o jornal. Coça a testa, suspira. 
Uma senhora traz um chapéu na cabeça que é quase uma cartola, está absolutamente ridícula. 
Uma mulher de cabelo muito comprido segura as duas alças da sua malinha elegante com as suas duas mãos elegantes. A mala cintila e os lábios da mulher também. 
De repente, o metro pára, mas não numa estação. Fica parado no meio do nada, entre uma estação e outra, no escuro. 
As pessoas urbanas olham para o vidro do lado direito e para o vidro do lado esquerdo, mas só se vêem a si próprias, porque não há luz do lado de lá, só há luz dentro do metro. 
As pessoas urbanas ficam a ver o seu próprio reflexo e depois entreolham-se através do espelho. Os olhos das pessoas urbanas olham para o reflexo de outros olhos. São muitos pares de olhos que dizem uns aos outros: 
"Eu estou a ver-te a ver-me a ver-te a ver-me."
Uma voz off anuncia em francês que o metro partirá assim que possível. Merci de votre compréhension. A voz off repete a mesma informação em neerlandês e depois em inglês. 
Ouvem-se os primeiros suspiros aqui, ali e acolá, uf, buf, pffff, mas ninguém diz nada, ninguém refila, ninguém reclama. As pessoas urbanas são civilizadas e pacientes. 
A senhora do chapéu ridículo aperta um pouco mais o varão com a sua luva de cabedal preto. A luva faz um som de cabedal, chuiiiic. O rapaz que vem encostado à porta enterra as mãos ainda mais nos bolsos do casaco e roda as pontas dos pés para dentro. Calça uns All Stars verdes e um deles vem desapertado. 
As pessoas estão muito caladas e respiram menos, é preciso poupar  oxigénio. 
O homem do jornal ajeita os óculos e sacode o jornal que, apercebendo-se de qualquer coisa, endireita as folhas. 
A mulher dos cabelos muito compridos tosse duas vezes para a sua mão elegante, cof, cof
Um moço despenteado a rigor cerra os dentes várias vezes seguidas. As pessoas urbanas percebem que o rapaz cerra os dentes, porque os maxilares do moço mexem-se. 
Uma senhora asiática que lê um livro abana a cabeça sem tirar os olhos do seu livro. Talvez não tenha gostado da passagem que acaba de ler.
Um homem gordo com ar de escocês que produz o seu próprio whisky olha para o teto, parece concentrado em alguma coisa.
A senhora do chapéu ridículo lança um olhar reprovador à rapariga magra, que olha explicitamente para o seu próprio reflexo. Vários passageiros ficam a observar a rapariga magra, que não observa mais ninguém, só o seu reflexo no vidro. A rapariga magra decide refazer o seu penteado urban casual, o que implica tirar pelos menos seis ganchos da cabeça e voltar a colocá-los na cabeça. O penteado da rapariga fica exatamente igual, mas a rapariga está contente com o resultado. 
A primeira pessoa a olhar para o relógio é a mulher dos cabelos muito compridos. Mas há pelo menos quatro pessoas a olhar para o telemóvel e essas não precisam de consultar o relógio para saberem as horas. 
Um homem abana a perna por baixo de uma mochila grande que, devido à trepidação, também estremece. A mochila e a perna fazem barulho, tecido contra tecido, zuique, zuique, zuique, zuique
Ainda só passaram três minutos, talvez quatro. 
As pessoas urbanas sabem perfeitamente que poderão ficar ali fechadas uns quinze minutos ou até meia hora ou mesmo uma hora seguida ou mais ainda. Tudo pode acontecer dentro de um túnel escuro. As pessoas urbanas estão preparadas para isso. Olham para o vidro. Algumas pessoas hesitam, parecem estar com receio. 
A verdade é que não sabem bem onde estão nem qual das estações fica mais perto da sua posição atual: se a anterior,  se a seguinte. Poderá ser necessário andar a pé pelo túnel, na escuridão. Como é óbvio, não será necessário andar a pé pelo túnel, na escuridão. Haverá, pelo menos, uma ou outra lanterna. 
Para passarem o tempo, as pessoas urbanas pensam nas suas vidas ou então na distância entre a localização do veículo debaixo de terra e a estação seguinte. Também mexem em coisas: na carteira, no telemóvel, na agenda. 
Um homem careca estala os dedos das mãos, um por um, claque, claque, claque. E nesse momento, como que por milagre, o metro soluça e retoma a marcha. Primeiro avança muito devagarinho, mas a seguir já vai lançado como habitualmente. As pessoas urbanas suspiram de alívio, descomprimem devagar, sorriem. 
O metro pára na estação seguinte. Umas pessoas entram, outras saem.
Entretanto, o senhor da mochila grande mete conversa com a mulher dos cabelos muito compridos. A mulher ri-se e responde. Ele diz outra coisa e ela responde. A mulher do chapéu ridículo lança um olhar reprovador ao senhor da mochila e à mulher dos cabelos muito compridos. As pessoas urbanas não devem falar umas com as outras.
Uma senhora pequenina atende o telemóvel e diz uma série de coisas muito rápido numa língua não identificada. 
A vida volta progressivamente ao normal. Urban casual.
No final do dia, nenhuma das pessoas urbanas se lembrará dos minutos que passou no túnel, no meio do nada, na escuridão. 
Ainda bem! 
É melhor não pensar no escuro, na falta de luz ao fundo do túnel.
Sensação estranha, aquela, a de estar enfiada num buraco rodeada de estranhos. Zuique, zuique, tecido contra tecido.

As pessoas urbanas não entram em pânico.

Não é que não tenham vontade.
É mesmo só porque parece mal.