sexta-feira, 1 de março de 2013

Dia Mundial dos Elogios

Hoje, além de sexta-feira, é o dia de aniversário de Justin Bieber e - last but not least - o Dia Mundial dos Elogios.
São três desejos que se concretizam de uma só vez, daí as pessoas andarem por aí mais satisfeitas do que é costume. Também andam mais aprumadas, na esperança de receberem um elogio, claro.


Os entendidos dizem que dar um elogio transmite um sinal de apreciação e respeito e que receber um elogio faz bem à pele e reduz o colesterol mau. Isto quer dizer que todos ficamos a ganhar com este intercâmbio de louvores.
Um elogio é um miminho de palavras, por isso não vale oferecer flores nem garrafas de champanhe.
Eu pessoalmente prefiro miminhos de chocolate belga com recheio de avelã, mas aparentemente o chocolate não transmite apreciação nem respeito.
Por favor, elogiem-me. Careço de açúcar.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Justiça

Sou da geração que cresceu a ver o MacGyver aos domingos à noite e a música do genérico sempre foi uma inspiração para mim. Também cresci a ver o Justiceiro, mas o David Hasselhoff, ainda que bem-intencionado, já era ridículo nos anos 80 e o Kitt era mais um papagaio do que outra coisa.
O MacGyver, sim, fazia Justiça. Era um agente secreto e não usava armas, utilizava antes a cabeça e uns pedaços de fita-cola e cordas e clips. Bom, também usava uns explosivos de vez em quando, vá. Do alto dos meus 10 anos, aprendi que nem sempre a Justiça é justa, que não há uma justiça absoluta. Mas, ainda assim, sempre acreditei no princípio da coisa, mesmo quando eu própria não cumpria as regras (e até gostava bastante de não cumprir as regras). Catch me if you can. Quando me apanhavam, cumpria a pena. A bem da Justiça.
É preciso acreditar na Justiça para acreditar na igualdade.
Não há democracia sem Justiça. Não há Estado sem Justiça. E, por isso, é injusto quando a Justiça tarda ou não funciona. Não dá para acreditar numa sociedade que não tenha um sistema judicial capaz.
Quando li a notícia da Grécia, senti-me inspirada. Há que punir os corruptos. Com rotativos na cabeça ou com clips e explosivos ou então com a prisão perpétua, que é uma forma de tratamento aparentemente mais justa.
É preciso acreditar na Justiça em tempos de crise. Tal como é preciso acreditar na paz em tempos de guerra (imagino eu).
Quando a Justiça funciona, sinto-me esperançada e começo logo a cantarolar o MacGyver.
É preciso rebentar com os injustos.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A felicidade é escrever um postal

A felicidade é escrever um postal.
Escrever um postal é dizer tudo dentro de um quadrado. 
É como fazer um puzzle, mas não tem nada a ver com um puzzle.
É como andar de mão dada a alguém, mas não é como andar de mão dada.
Gosto especialmente de lamber o selo.
Lamber o selo é felicidade.
Infelizmente, já não é preciso lamber o selo. 
Os selos agora são proativos. Já vêm pegajosos.
Mas antes, quando era preciso lamber, eu lambia e tinha bastante jeito, parece-me.
Se houvesse um concurso de lamber selos, eu chegaria, pelo menos, às semifinais.
Sou lambona.
Hoje estava à procura de uma coisa que não tinha nada a ver com isto e encontrei um postal gratuito da Coca-Cola. 
Tenho esta mania dos postais gratuitos. É piroso, eu sei.
O postal trazia o Pai Natal original e a frase Share happiness. 
O Natal é quando uma mulher quer, por isso decidi partilhar felicidade.
Enviar um postal a alguém é felicidade.
Receber um postal também é felicidade.
Escrever um postal é gostar de alguém dentro de um quadrado.
E eu gosto disso.
Sou quadradona.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Pessoa em frente a uma máquina

E se as cortinas da sala não estivessem fechadas, mas sim abertas?
E se afinal não estivesse uma noite fria lá fora, mas sim uma manhã de Primavera?
Seria uma bela surpresa.
Eis duas perguntas dentro da cabeça de uma pessoa que está em frente a uma máquina.
Outras perguntas:
E se no parapeito da janela não estivesse uma orquídea sem flores, mas sim uma gaiola com um periquito amarelo lá dentro?
E se eu abrisse a janela e depois a gaiola e depois os meus braços e eu fosse afinal o periquito amarelo e saísse a voar pela rua?
Seria ótimo, claro.
A pessoa em frente a uma máquina pensa sobre isto e é como se voasse pela rua.
O pensamento é como voar pela rua e sempre dá para fugir da vizinha de cima, que não dorme de noite nem de dia, está sempre acordada.
A vizinha de cima deve ser uma coruja, até porque roda o pescoço mais do que o normal.
Outras perguntas dentro da cabeça da pessoa que está em frente a uma máquina:
E se isto não fosse uma cidade cheia de betão e gente, mas sim um bosque repleto de árvores e barulhinhos misteriosos? E se isto não fosse um planeta, mas sim um meteoro ou uma estrela cadente?
Sempre dava para cair por aí como um periquito amarelo.
A pessoa em frente a uma máquina ri-se. É evidente que não gostaria de ser um periquito amarelo nem uma estrela cadente. A pessoa em frente a uma máquina nem gosta de periquitos. Nunca teve um periquito, sequer. Nem mesmo na infância.
Mas agora deu-lhe a fraqueza e achou que seria muito mais giro ser um periquito do que uma pessoa em frente a uma máquina.
Nas cabeças extremamente avançadas dos seres humanos, a ficção é sempre melhor do que a realidade.
Eis o perigo.
Há numerosos estudos que comprovam que ser um periquito não é melhor do que ser uma pessoa em frente a uma máquina. Os dados existentes parecem indicar aliás o contrário: não há nada melhor do que ser uma pessoa em frente a uma máquina. Nada é mais eficiente nem mais resistente nem mais felizardo do que uma pessoa em frente a uma máquina.
Em especial no inverno, em noites frias como esta. Um periquito já estaria morto, coitado.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

As pessoas urbanas

As pessoas urbanas andam de metro. Algumas vêm sentadas e outras vêm de pé. 
Entre as pessoas que vêm de pé, umas vão encostadas à porta, outras agarradas ao varão, no centro da carruagem. As pessoas mais urbanas ouvem música, outras leem um livro. As pessoas ainda mais urbanas fazem as duas coisas ao mesmo tempo: ouvem e leem, leem e ouvem. As pessoas mais ou menos urbanas não fazem nada disto, olham no vazio; os olhos abertos e desfocados. 
Um homem lê um jornal e está visivelmente zangado com qualquer coisa que poderá não ter nada que ver com o jornal. Coça a testa, suspira. 
Uma senhora traz um chapéu na cabeça que é quase uma cartola, está absolutamente ridícula. 
Uma mulher de cabelo muito comprido segura as duas alças da sua malinha elegante com as suas duas mãos elegantes. A mala cintila e os lábios da mulher também. 
De repente, o metro pára, mas não numa estação. Fica parado no meio do nada, entre uma estação e outra, no escuro. 
As pessoas urbanas olham para o vidro do lado direito e para o vidro do lado esquerdo, mas só se vêem a si próprias, porque não há luz do lado de lá, só há luz dentro do metro. 
As pessoas urbanas ficam a ver o seu próprio reflexo e depois entreolham-se através do espelho. Os olhos das pessoas urbanas olham para o reflexo de outros olhos. São muitos pares de olhos que dizem uns aos outros: 
"Eu estou a ver-te a ver-me a ver-te a ver-me."
Uma voz off anuncia em francês que o metro partirá assim que possível. Merci de votre compréhension. A voz off repete a mesma informação em neerlandês e depois em inglês. 
Ouvem-se os primeiros suspiros aqui, ali e acolá, uf, buf, pffff, mas ninguém diz nada, ninguém refila, ninguém reclama. As pessoas urbanas são civilizadas e pacientes. 
A senhora do chapéu ridículo aperta um pouco mais o varão com a sua luva de cabedal preto. A luva faz um som de cabedal, chuiiiic. O rapaz que vem encostado à porta enterra as mãos ainda mais nos bolsos do casaco e roda as pontas dos pés para dentro. Calça uns All Stars verdes e um deles vem desapertado. 
As pessoas estão muito caladas e respiram menos, é preciso poupar  oxigénio. 
O homem do jornal ajeita os óculos e sacode o jornal que, apercebendo-se de qualquer coisa, endireita as folhas. 
A mulher dos cabelos muito compridos tosse duas vezes para a sua mão elegante, cof, cof
Um moço despenteado a rigor cerra os dentes várias vezes seguidas. As pessoas urbanas percebem que o rapaz cerra os dentes, porque os maxilares do moço mexem-se. 
Uma senhora asiática que lê um livro abana a cabeça sem tirar os olhos do seu livro. Talvez não tenha gostado da passagem que acaba de ler.
Um homem gordo com ar de escocês que produz o seu próprio whisky olha para o teto, parece concentrado em alguma coisa.
A senhora do chapéu ridículo lança um olhar reprovador à rapariga magra, que olha explicitamente para o seu próprio reflexo. Vários passageiros ficam a observar a rapariga magra, que não observa mais ninguém, só o seu reflexo no vidro. A rapariga magra decide refazer o seu penteado urban casual, o que implica tirar pelos menos seis ganchos da cabeça e voltar a colocá-los na cabeça. O penteado da rapariga fica exatamente igual, mas a rapariga está contente com o resultado. 
A primeira pessoa a olhar para o relógio é a mulher dos cabelos muito compridos. Mas há pelo menos quatro pessoas a olhar para o telemóvel e essas não precisam de consultar o relógio para saberem as horas. 
Um homem abana a perna por baixo de uma mochila grande que, devido à trepidação, também estremece. A mochila e a perna fazem barulho, tecido contra tecido, zuique, zuique, zuique, zuique
Ainda só passaram três minutos, talvez quatro. 
As pessoas urbanas sabem perfeitamente que poderão ficar ali fechadas uns quinze minutos ou até meia hora ou mesmo uma hora seguida ou mais ainda. Tudo pode acontecer dentro de um túnel escuro. As pessoas urbanas estão preparadas para isso. Olham para o vidro. Algumas pessoas hesitam, parecem estar com receio. 
A verdade é que não sabem bem onde estão nem qual das estações fica mais perto da sua posição atual: se a anterior,  se a seguinte. Poderá ser necessário andar a pé pelo túnel, na escuridão. Como é óbvio, não será necessário andar a pé pelo túnel, na escuridão. Haverá, pelo menos, uma ou outra lanterna. 
Para passarem o tempo, as pessoas urbanas pensam nas suas vidas ou então na distância entre a localização do veículo debaixo de terra e a estação seguinte. Também mexem em coisas: na carteira, no telemóvel, na agenda. 
Um homem careca estala os dedos das mãos, um por um, claque, claque, claque. E nesse momento, como que por milagre, o metro soluça e retoma a marcha. Primeiro avança muito devagarinho, mas a seguir já vai lançado como habitualmente. As pessoas urbanas suspiram de alívio, descomprimem devagar, sorriem. 
O metro pára na estação seguinte. Umas pessoas entram, outras saem.
Entretanto, o senhor da mochila grande mete conversa com a mulher dos cabelos muito compridos. A mulher ri-se e responde. Ele diz outra coisa e ela responde. A mulher do chapéu ridículo lança um olhar reprovador ao senhor da mochila e à mulher dos cabelos muito compridos. As pessoas urbanas não devem falar umas com as outras.
Uma senhora pequenina atende o telemóvel e diz uma série de coisas muito rápido numa língua não identificada. 
A vida volta progressivamente ao normal. Urban casual.
No final do dia, nenhuma das pessoas urbanas se lembrará dos minutos que passou no túnel, no meio do nada, na escuridão. 
Ainda bem! 
É melhor não pensar no escuro, na falta de luz ao fundo do túnel.
Sensação estranha, aquela, a de estar enfiada num buraco rodeada de estranhos. Zuique, zuique, tecido contra tecido.

As pessoas urbanas não entram em pânico.

Não é que não tenham vontade.
É mesmo só porque parece mal.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Charlotte Chocolat

No outro dia uma amiga ofereceu-me um pacote de biscoitos.
Dentro do pacote estavam os ditos biscoitos mas eu ainda não sabia disso, porque o pacote estava fechado, e do lado de fora do pacote, mesmo a olhar para mim, estava uma moça sardenta de cabelo escuro com ar de quem conhece uma receita sofisticada de biscoitos de chocolate. Olhei melhor. A senhora tinha nome. Chamava-se Charlotte Chocolat.


Percebi logo que eu e a Charlotte Chocolat íamos ser amigas. 
O pacote dizia que os biscoitos eram feitos de chocolate e flor de sal.
Sim, é verdade: chocolate e flor de sal. 
Fiquei tão entusiasmada com a ideia de comer um biscoito doce e salgado ao mesmo tempo que abri o pacote e comi os biscoitos todos em dez minutos. Foi uma amizade fugaz, de facto, mas mudou-me para sempre.
Estou com vontade de tomar chazinho com a Charlotte Chocolat todos os dias. De tal forma que fui ao sítio dos generosos fabricantes e descobri outras companhias simpáticas para a hora do chá: a Céline Citron, o Sylvain Speculoos, o Viktor Vanille e a Nicole Noisette.
Ainda não interagi com estas personagens comestíveis, mas gostaria de beber chá com todas elas. 
Quem será o autor destas personagens?
Alimentada pela inspiração que me crescia na boca, comecei a imaginar possíveis nomes para outros biscoitos:
Amélia Amêndoa, José Café, Henrique Gengibre, Laura Laranja, Margarida Manteiga, Carolina Canela...
Deve ser engraçado inventar nomes para biscoitos.
Infelizmente, eu não dava grande nome para um pacote de biscoitos, porque já não há paciência para Ana Banana.
Voltei ao sítio generoso agora mesmo e acabo de descobrir que o café ao lado de casa tem destes pacotes generosos para a hora do chá.
A minha boca entusiasma-se, começa a fazer planos.
Pequeno intervalo para notícias sobre o tempo: amanhã, em Bruxelas, vão estar zero graus. A minha boca pensa: "Vai-me saber bem o chá!"
Claramente, eu nunca hei de ser magra nem sofisticada, sou um mamífero bruto a comer.
Por isso, olha! Mais vale cair numa depressão profunda. 
E buscar consolo nos ombros da Charlotte Chocolat. 
A minha boca diz de si para si: "Mmmmmmh..."

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Amor ortográfico: Caneta vibratória

A propósito de tudo isto, descobri aqui há uns dias mais um desenvolvimento prodigioso da era da técnica:

uma caneta vibratória.

O tema interessou-me, porque no geral gosto de vibrar com as novidades. Fui ver.
Era isto:

Imagem e artigo aqui (em inglês).

O conceito é mais ou menos simples, embora a solução técnica seja para mim um mistério. Trata-se basicamente de uma varinha de condão da escrita, que vibra quando deteta erros ortográficos.
Bem, não é bem uma varinha de condão, porque só deteta erros, não realiza os nossos desejos mais desejados. Mas se pensarmos bem, detetar erros ortográficos já é um dos três desejos mais desejados de muita gente, ou não? Uma pessoa está muito bem a escrever um recado para a mãe a dizer: «A mousse estava óptima» e, quando vai a desenhar o «p», a caneta estremece irritadinha. Fica talvez por realizar o desejo de corrigir o erro, mas a dúvida já é meio caminho andado.
Por mim, nada contra, eles que tremam para aí. Há de certeza quem goste de levar reguadas vibratórias. E as reguadas vibratórias, além de não aleijarem ninguém, devem ser inspiradoras. Além disso, percebo a utilidade do instrumento para pessoas imaturas, iletradas, inseguras.
No entanto, fico com pena dos erros ortográficos. Por este andar, vão ser coisa do passado, mesmo entre os alunos da primária. E eu gosto bastante de erros ortográficos. E também de gralhas, falhas, fífias, fendas. É como jogar às escondidas com o texto. Quando apanho um erro, grito contente: Tcharam, apanhado! E muitas vezes acontece-me gostar mais do erro do que da palavra aperaltada.
Por exemplo, enquanto estava à escrever este texto à mão, em vez de «erros ortográficos», escrevi «eros ortográficos». Exclamei: «Ai, que giro!», porque realmente eros é um erro amoroso. Fiquei a pensar no deus grego e cheguei rapidamente ao amor, daí ter apelidado estas minhas «postas» de «Amor Ortográfico». Pronto, não é assim uma expressão tão inovadora como «caneta vibratória», mas é um título válido e tem a particularidade de homenagear o erro.
Eu saúdo os erros. Fazem-me sentir mais carne e osso, não sei.
O Neil Gaiman, vibratório autor British, diz que a ideia de chamar a sua famosa personagem Coraline surgiu precisamente quando se enganou a escrever o nome Caroline. Para os que falam estrangeiro, vale a pena ouvir o seu discurso, que é também uma varinha de condão.
De resto, reconheço que uma caneta vibratória pode ajudar os mais pequenos nesta difícil e interminável tarefa de aprender a escrever. E, mais importante do que isso, vai com certeza gerar boas vibrações ortográficas no intelecto dos mais afetados.