terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O narrador desajeitado

As pessoas passam pelo narrador deste texto e abanam a cabeça, porque o narrador deste texto é claramente desajeitado, caminha de pernas e braços afastados, escorrega aqui e ali, torce o nariz e os pés. Parece um urso a caminhar na neve, mas não é um urso, porque um urso saberia caminhar na neve e, se calhar, nem precisaria de provar isso a ninguém, estaria a hibernar ou assim. O narrador, se pudesse, também hibernaria, mas não pode, coitado, porque, além de não ser um urso, nem sequer dorme bem à noite, é ansioso, não sabe ausentar-se das coisas. Não havendo comparação melhor, o narrador parece um urso desajeitado. Tem os dedos gelados, porque as suas luvinhas de algodão estão completamente encharcadas e já se sabe que um narrador com os dedos gelados não serve para nada, já que não consegue escrever e, portanto, não cumpre, não narra. As pessoas sabem disso e abanam a cabeça. Param durante uns segundos no meio da rua e ficam a observar o narrador com um sorrisinho no canto dos olhos, na esperança de que ele caia de vez e parta o cotovelo ou o cóccix. As pessoas mais cruéis esperam, aliás, que ele parta o cóccix e não o cotovelo, porque partir o cóccix é mais humilhante. Infelizmente, o narrador não chega a partir o cóccix nem a estatelar-se no chão, desaparece atrás de uma porta. A neve continua a cair devagarinho como se não caísse, e é branca, imaculada, pura, não há nada mais bonito do que a neve. Aaaaah!, exclamam as pessoas com cara de inverno. Depois seguem caminho, já esquecidas do narrador e da candura da neve. São pessoas cruéis e egoístas. No fundo, só queriam uma boa história para contar. Na falta de um entretém, o narrador deste texto bem pode morrer. De bate-cu ou de pneumonia. É indiferente.
Ninguém gosta do narrador deste texto.
Esta é a mais pura das verdades.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Mostra dos Jovens Criadores 2012




Apareçam e digam como foi!



Eu lá estarei no dia 22, para o café literário, que é assim um café com cheirinho, servido em chávena escaldada por onde sai uma nuvem de vapor que conta histórias de encantar.

Acho eu...
Não tenho bem a certeza.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Lançamento - Avenidas sem sentido - 19/12/2012

Uma folha tem frente e verso. Uma direção tem dois sentidos.
Mas nem todas as direções têm nexo. Nem todos os sentidos têm setas. 
E nem todos os livros acabam.
Eu estou sempre a mudar de página. Mas nem sempre de capítulo.

Sei lá, apeteceu-me escrever isto.

Na próxima quarta, às 18h30, no piso 7 do El Corte Inglês, uma Avenida sem Sentido para cada um de vós.

Apareçam!


A queda de um ovo

Uma mulher tira do frigorífico uma caixa de seis ovos com quatro ovos lá dentro. Data de validade: 15/12, não há tempo a perder. Pega no primeiro ovo que é, infelizmente, de natureza irrequieta: foge da mão e cai. A mulher insulta-o (Ovo estúpido!). Logo a seguir, ainda o ovo não chegou ao chão, desiste dele, parte para outro. Mas-eis-senão-quando, o improvável acontece: o ovo não atinge logo o chão, demora-se um bom bocado com a ajuda das suas asas inexperientes e, antes de completar a queda, percorre metade da queda e, antes disso, metade da metade da queda e, antes disso, metade dessa metade e logo o pequeno ovo se distrai e assobia, porque não há fim para aquela matemática de cair a metade da metade da metade. O desenlace é ainda mais extraordinário, porque o ovo pousa inteiro e direitinho no chão. A mulher espanta-se, qual é coisa qual é ela. Quando pega no ovo, há nos seus dedos um outro respeito, um outro cuidado, uma outra dedicação. A mulher pensa em várias coisas ao mesmo tempo: na galinha dos ovos de ouro, no ovo de Colombo, no Kinder Surpresa. Decide, depois, não partir o ovo. Para adiar a queda, talvez. Para acreditar num milagre, certamente.
O narrador deste texto encolhe os ombros, acha tudo isto extremamente patético. Por ele, atirava o ovo contra a parede. Só para ver o que está lá dentro.
A mulher guarda o ovo milagroso no frigorífico. Parte o segundo o ovo com uma só mão e esse lá cai redondo e amarelo na frigideira. Infelizmente, amanhã o ovo milagroso já passou da validade, será um ovo podre como os outros. Mas disso não se lembra a mulher, que nunca sabe a quantas anda.
Exaltado, o narrador entra pelo texto adentro, abre o frigorífico e atira o ovo contra a parede. Mistério resolvido: era um ovo como os outros, só que mais resistente. O narrador sai do texto, satisfeito.
A vida, afinal, prosseguia como antes.
Sem mistério, sem romance. Sem milagres.
Aaaah, pensou o narrador, muito melhor assim.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O meu amigo de inverno

O meu amigo novo é preto e tem metade do meu tamanho. Gosto de me abraçar a ele, de lhe apertar os botões. Tem pelo por fora e penas por dentro, é fofinho como uma almofada. Sim, o meu amigo novo é um casaco de inverno, que me assenta tão bem como um amigo de verdade. O meu amigo a fingir é feito de poliéster e poliamida, tem um capuz de pelo que me faz comichão no nariz e eu espirro e rio-me ao mesmo tempo. Andamos abraçados pela rua, damos beijinhos um no outro, contamos segredos. As pessoas olham para nós com as suas caras ruçadas e puídas, cheias de cobiça e preconceito, mas eu e o meu amigo não as vemos nem as ouvimos, estamos de cabeça enfiada no capuz. Nada me aquece como o meu amigo de inverno. Nada nos afeta. Nem a chuva, nem a neve, nem a gente. Tenho as mãos frias e o coração quente. Graças ao meu amigo de inverno.

E também porque passo a vida a perder as luvas.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Passatempo Karateca na Visão Júnior

O objetivo consiste em escrever numa folha A5 a página do diário de uma pessoa famosa.

Aceitam-se trabalhos de meninos e meninas com idades entre os 10 e os 14 anos.
Prazo: 21 de novembro de 2012.

Os autores dos seis melhores trabalhos receberão um exemplar do fantástico livro «O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca».

Mais informações sobre o passatempo na imagem infra (página dupla da Visão Júnior de novembro).

Yááá! Eu cá vou concorrer (adoro este livro)!

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

III Encontro de Escritores de Língua Portuguesa em Natal – Missão TP003

O antetítulo deste encontro induz em erro. Dá a entender que aconteceu em Natal o terceiro encontro de escritores, o que não é correto. Este não foi o terceiro encontro, foi o primeiro, o primordial, porque eu só acredito no que vejo e esta história é escrita na minha perspetiva. Eu não sou escritora, sou agente secreta. Visto gabardina e chapéu de abas, tenho sotaque russo. (...)

(Continua no JL desta quinzena - 31.10.2012-13.11.2012)