quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O meu amigo de inverno

O meu amigo novo é preto e tem metade do meu tamanho. Gosto de me abraçar a ele, de lhe apertar os botões. Tem pelo por fora e penas por dentro, é fofinho como uma almofada. Sim, o meu amigo novo é um casaco de inverno, que me assenta tão bem como um amigo de verdade. O meu amigo a fingir é feito de poliéster e poliamida, tem um capuz de pelo que me faz comichão no nariz e eu espirro e rio-me ao mesmo tempo. Andamos abraçados pela rua, damos beijinhos um no outro, contamos segredos. As pessoas olham para nós com as suas caras ruçadas e puídas, cheias de cobiça e preconceito, mas eu e o meu amigo não as vemos nem as ouvimos, estamos de cabeça enfiada no capuz. Nada me aquece como o meu amigo de inverno. Nada nos afeta. Nem a chuva, nem a neve, nem a gente. Tenho as mãos frias e o coração quente. Graças ao meu amigo de inverno.

E também porque passo a vida a perder as luvas.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Passatempo Karateca na Visão Júnior

O objetivo consiste em escrever numa folha A5 a página do diário de uma pessoa famosa.

Aceitam-se trabalhos de meninos e meninas com idades entre os 10 e os 14 anos.
Prazo: 21 de novembro de 2012.

Os autores dos seis melhores trabalhos receberão um exemplar do fantástico livro «O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca».

Mais informações sobre o passatempo na imagem infra (página dupla da Visão Júnior de novembro).

Yááá! Eu cá vou concorrer (adoro este livro)!

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

III Encontro de Escritores de Língua Portuguesa em Natal – Missão TP003

O antetítulo deste encontro induz em erro. Dá a entender que aconteceu em Natal o terceiro encontro de escritores, o que não é correto. Este não foi o terceiro encontro, foi o primeiro, o primordial, porque eu só acredito no que vejo e esta história é escrita na minha perspetiva. Eu não sou escritora, sou agente secreta. Visto gabardina e chapéu de abas, tenho sotaque russo. (...)

(Continua no JL desta quinzena - 31.10.2012-13.11.2012)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Na ponta dos dedos, a arte começa

Para a mãe, a maior artesã.


Na ponta dos dedos, a arte começa. Um pedaço de tecido, um pedaço de arame, uma planta, uma obra de arte. Concentra-se, sonha, faz. Sem música, sem nada, só a arte na ponta dos dedos. Um colar, uma flor, uma borboleta, uma outra natureza paralela. Abre as mãos amplas, põe um anel grande. Dedos longos, um anel grande. Faz as suas próprias unhas: corta, lima, trata, pinta, sopra. Unhas fortes e bonitas. As misteriosas mãos da minha mãe, uma obra de arte. A minha mãe, os pequenos prazeres da vida: um petisco, um café, um gelado, um mergulho, uma cerveja, ameijoas à bulhão pato, uma ginjinha. Caminha em frente, sempre em frente. Não sabe para onde vai nem por onde vai, esqueceu-se, vai em frente. Fala alto, ri-se alto, encolhe os ombros, Estou-me nas tintas. Dentes fortes e bonitos, gargalhadas fortes e bonitas. Um nariz sensível a todos os cheiros: ai, cheira-me a isto, ai, cheira-me àquilo. Cheiros paralelos. Sonha, cresce, faz, cheira, caminha em frente. As suas mãos cada vez maiores, cada vez mais belas, a minha mãe cada vez maior, cada vez mais bela, a ocupar todas as coisas no mundo – o mar, o sol, as montanhas –, a minha mãe igual a uma obra de arte. As misteriosas mãos da mãe, dedos longos, unhas fortes. Uma gargalhada. E na ponta dos dedos, a arte começa.