quarta-feira, 4 de julho de 2012

Passatempo karateca: yaaaa!

Atenção, o Planeta Tangerina preparou um kestionário para os que quiserem uma karateca só para si.

Sempre quero ver quem acerta na pergunta 4...
Eu cá tenho dúvidas, mas vou ganhar!

Passatempo karateca: yaaaa!: http://planeta-tangerina.blogspot.pt/2012/07/passatempo-karateca-yaaaa.html

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Ir ou voltar

Dezoito e quarenta e cinco, lá estão os ecrãs gigantes, TAP Portugal, números, letras. Malas grandes e coloridas, pequenos mistérios. Turistas de boné, rostos escarlates, pessoas com ar importante, óculos escuros, missão impossível. Arrasto as minhas rodinhas para a fila. Olho para o meu BI, estava com o cabelo diferente naquela altura, foi naquele cabeleireiro da Flagey. Felizmente, o drop off tem pouca gente, vai ser num instante. Sorriso chapa cinco, boa viagem. Quando é que voltas? A pergunta confunde-me, não sei se estou a ir ou a voltar. Como? Por ser bonita e formosinha, tenho direito à fila prioritária da segurança, o que é ótimo, dá para choramingar mais rápido. Olho para trás, adeus, adeus, sorriso chapa cinco, vou. Um segurança bem-parecido. Computador? Líquidos? Um cremezinho para as mãos, se calhar? Uma garrafinha de água? Digo Não quatro vezes, tiro o relógio. Nunca sei se é para tirar o relógio. Uns dizem que sim, outros dizem que não, não é coerente. Passo no raio-x, não apito, yeeeah, ninguém apalpa o meu terreno hoje. Tenho tempo. Caminho devagar, devagarinho, o mais devagarinho possível, estou quase parada, sou uma tartaruga. Passo na Alma Lusa. Nunca compro nada na Alma Lusa, mas gosto de ver os turistas escarlates a comprarem canequinhas do 28, carteiras de cortiça, um pin do Santo António, um azulejo. Turistas felizes em Lissabon, ridículos. Porta de embarque 22, vou andando. Compro uma água Luso no café, 50 centilitros. Não tem 65 cêntimos ou 15 cêntimos? Faço-me difícil, Não, não tenho (preciso de trocos para a máquina dos chocolates). Nunca percebi o problema dos trocos em Portugal. Onde andam as moedas? Penso na piscina do tio Patinhas, grandes mergulhos que eu dei no mar. Porta 22, cá estamos. Afinal não, é um voo para Porto Santo. Pergunto à farda da TAP, muito composta atrás do balcão. O voo para Bruxelas é na 23, mudaram de porta. Aaaaaah, a praia de Porto Santo. Fico indecisa, era bem bom. Passageiros para o voo TAP Portugal com destino a Milão, por favor, queiram embarcar na porta Y. Porquê embarcar se já não há caminhos marítimos por descobrir? Devíamos dizer aviar, por exemplo. Passageiros para o voo X queiram aviar na porta Y. Assim é que era. Chego à porta 23, pessoas sentadas. Olho para o chão, vou super-mega-rápido até a um banquinho vazio e sento-me sossegadinha. Abro uma revista, espeto o nariz lá dentro. O meu objetivo é nunca olhar à minha volta, para não dar de caras com caras conhecidas, porque depois tenho de participar num diálogo monossilábico muito chato e eu não sei assim tantos monossílabos como isso: Olá, olá. Já vai pra lá, né? Pois, tem de ser. Com o sol que tá por cá… Pois é. Cruzes canhoto, que neura, não me apetece. Leio um artigo sobre qualquer coisa. Uma criancinha aproxima-se de mim com um balão vermelho, não dá para ignorar. Tiro os olhos da revista, sorriso chapa cinco. A criancinha atira-me o balão desajeitado, levo com ele no trombil, sensação agradável. Os pais riem-se, que filhote tão atrevido. Brinco um bocadinho com a criancinha e depois dou uma pancadita mais forte no balão para me livrar dos dois (do balão e da criança, sorry). Espeto o nariz na revista. Senhores passageiros, não-sei-quê, problema na aeronave, temos pena, atraso e tal, voo previsto para as dez e cinco. A moça à minha frente desata num pranto daqueles, até tira os óculos para chorar melhor, tinha provavelmente um compromisso importante em Bruxelas ou então só uma birra de sono, não sei. De qualquer forma, merecia um abracinho, mas ninguém lhe dá um abracinho, pessoas insensíveis. Os turistas escarlates em Lissabon ainda não sabem de nada, porque não falam português, continuam felizes e ridículos. Aí vem a versão em inglês, ladies and gentlemen, mega suspense. Fico a olhar para os turistas, I see you baby, a ver o pôr-do-sol nos seus rostos, sou cruel. Os passageiros frequentes vão logo para a filinha indiana, têm direito a um voucher de 16 euros para comerem uma pizza ou um hambúrguer enquanto esperam, bem bom. Olha, sempre dá para ver a final. Espanha ou Itália? Não consigo escolher, é aborrecido não torcer por ninguém. Atiro mentalmente uma moeda ao ar, Espanha cara, Itália coroa, e sai-me Itália, o que até faz sentido, porque inventaram o tagliolini e o fettuccine e eu gosto das duas coisas. Também quero comer e ver o jogo, mas a fila dos índios nunca mais anda, é sempre assim. Já não há lugares em frente às televisões e não me apetece ficar de pé. Fico então de costas e peço um hambúrguer com molho à café ou lá como se chama, come-se. As pessoas aplaudem cada vez que os espanhóis marcam golo, parecem contentes. Os portugueses contentam-se com pouco. Misteriosa alma lusa. Levanto-me, vou à casa de banho. A utilizadora anterior da sanita que me calha na rifa não puxou o autoclismo, primorosa menina. Lavo as mãos e saio. O ecrã diz-me que afinal o voo é só às vinte e três horas. Uma senhora atrás de mim repete umas vinte e três vezes: Vingt-trois heures, vingt-trois heures, vingt-trois heures. Não tarda, leva uma lambada. Concentro-me, faço contas: um pacote de maltesers deve ter praí uns 10 maltesers. Se eu comer uma bolinha de 12 em 12 minutos, tenho maltesers para duas horas, pensei, nada mau. Vou então comprar maltesers na máquina, sento-me algures e ponho-me a escrever este texto da treta. Também compro um café para não me dar o sono antes de entrar no avião. Entretanto reparo que já não tenho maltesers. Devo ter comido um malteser por segundo, não faz mal, estava distraída. Os espanhóis ganharam 4-0, surreal. O resultado lembra-me as cabazadas que eu levava do meu irmão naqueles jogos de computador. O ecrã diz-me que o voo vai sair a horas, salvo seja. Finalmente, o embarque começa, é a aviar. Entro no avião e sento-me no meu cantinho à janela: 13 A. Bem-vindos a bordo. A sua segurança é muito importante para a TAP. Continuo a escrever este texto da treta, porque não me apetece inventar coisas novas, estou muito bem assim, nesta história de verdade, eu gosto. Neste avião, existem 8 saídas de emergência, dá sempre jeito saber. De repente, apagam-se as luzes, fico às escuras com o meu caderninho. Eu bem queria escrever este texto da treta, mas assim não dá. Nos lavabos também existem máscaras de oxigénio, também é bom saber. Descolamos a horas, quer dizer, às vingt-trois heures. Lá em baixo, a cidade com luzinhas. Lá em baixo, dava para escrever, penso. Cá em cima, não dá. Isto de estar às escuras dá-me um sono incrível. Aviei.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Previsão Meteorológica, Bruxelas

Sete horas e só o tempo acontece, nada mais. No céu, nuvens densas e escuras. Não, uma só nuvem densa e escura. Possibilidade de precipitação: 80%. Cada vez mais densa, cada vez mais escura. Períodos de céu muito nublado. Máximas previstas para hoje: 18º C. Sete e três. Trevas. Condições favoráveis à ocorrência de trovoada e aguaceiros fortes. Qualquer coisa surge, mas não o dia, não o sol. No céu, branca e intermitente, uma luz acende e apaga. Uma luz acende e apaga, mas ninguém vê, porque as pessoas não veem quando dormem. Humidade: 60%. As pessoas dormem. Qualquer coisa acontece. Sete e um quarto. Um estrondo magnífico, de Juízo Final. As pessoas que dormem acordam. As pessoas que dormem levantam-se, descabeladas, espreitam o céu com os seus olhinhos pequenos. Nos seus olhinhos, qualquer coisa acontece. Qualquer coisa terrível, terminante. Previsível. O vento sopra moderado de sudeste. Sete e dezoito. Eventual formação de lençóis de água. As pessoas que dormem tomam banho. Penteiam os cabelos, vestem-se, saem de casa. Possibilidade de cheias rápidas em meio urbano. As pessoas que dormem enfiam-se num buraco muito fundo. Sete e trinta e nove. Um homem toca saxofone no buraco muito fundo. As pessoas que dormem ouvem. Um bramido de outro mundo e o metro chega. Previsível. Possibilidade de inundações de estruturas urbanas subterrâneas. As pessoas que dormem entram no metro e partem. Qualquer coisa acontece. Qualquer coisa terrível, terminante. Mas as pessoas que dormem não veem. Dentro dos seus olhinhos, um céu muito nublado, possibilidade de aguaceiros. Uma luz intermitente que acende e apaga. Mínimas: 12º C.
Farta desta terra.
(A chamada gota de água.)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Senhora Coisinha

Era muito magra e curta, a Senhora Coisinha. Acabava logo ali, pela anca dos outros, o que era francamente caricato, tendo em conta que a Senhora Coisinha batia frequentemente com a cabeça nas nádegas ampliadas das outras mulheres ou nos gigantones órgãos masculinos, que se atarantavam a seguir, de cabeça no ar. Por estas e outras razões, a presença da Senhora Coisinha, ainda que quase insignificante, era muito incomodativa e tão indesejada como a de um inseto: aparecia em sítios e ocasiões inesperadas e as pessoas, por vezes, assustavam-se, ainda que fossem muito maiores do que ela.
A Senhora Coisinha não era anã. Sabemos isto porque as suas pernas e a sua cabeça eram proporcionais ao resto do corpo. Também não era uma criança nem uma jovem franzina, nada disso. A Senhora Coisinha era uma senhora para os seus 55 anos, vá, e tinha mamas, vagina e útero como as outras mulheres, embora em menor dimensão, proporcionais ao resto do corpo. A Senhora Coisinha era, aliás, atraente quando vista ao perto através de um monóculo especializado ou de uma lupa e não tinha quaisquer complexos por ser tão pequenina. Por exemplo, se fosse preciso saltar para chegar a um balcão, ela saltava. Se fosse preciso gritar para a ouvirem, ela gritava. Se fosse preciso subir a um banco para ver um concerto, ela subia. Sem qualquer problema. A Senhora Coisinha era, portanto, uma pessoa prática e esforçada, vislumbrava em cada desafio uma oportunidade. Em dias promissores, que eram muitos, chegava até a sentir que a sua pequenez era a sua maior grandeza, porque valia tanto como as restantes pessoas perante a lei e a moral, mas era pequena o suficiente para ver os pormenores. E isso, no entender da Senhora Coisinha, era uma mais valia, um grande privilégio, um recurso preciosíssimo, diga-se, porque os pormenores, pensava a Senhora Coisinha, eram mais importantes do que o todo.
No entanto, as outras pessoas, que eram colossais e meio cegas como ciclopes, não estavam de acordo. O todo era fundamental, o horizonte era fundamental, assim como o contexto, o panorama, a macroeconomia, a sociedade. Por causa disso, os encontros com a Senhora Coisinha na farmácia ou no supermercado estragavam-lhes o dia. Eram minudências desnecessárias que as distraíam da visão geral.
Mas a verdade verdadinha é que as pessoas grandes se sentiam ridículas ao pé da Senhora Coisinha. Estavam constantemente a dar-lhe empurrões e pisadelas porque não a viam no seu caminho. Contudo, porque estavam em maioria, apontavam os seus dedos gordos na direção da Senhora Coisinha e riam-se.
O riso das pessoas grandes fazia imenso barulho, mas a Senhora Coisinha estava-se nas tintas. Fazia as suas comprinhas minúsculas e seguia em frente, concentrada como uma formiga. Pensava: Ainda hei de rir melhor. E acreditava nisso, ainda haveria de rir melhor.
Infelizmente, nunca chegou a rir melhor, porque certa manhã de luz amena, um homem maljeitoso sentou-se num banco de jardim e matou a Senhora Coisinha, que estava descansadamente a ler um livro pequenino. Era um acidente evitável, lamentável, lastimável, diziam as pessoas grandes, que gostavam de falar a rimar. Depois, cavaram um pequeno buraco no jardim e atiraram a Senhora Coisinha lá para dentro. A seguir lavaram as mãos, porque eram muito asseadas.
Nunca mais ninguém falou da Senhora Coisinha e, de repente, era como se a Senhora Coisinha nunca tivesse existido, para o bem da visão geral, da sociedade, da macroeconomia.
Mas tinha existido, a Senhora Coisinha. Existia ainda, existiria sempre. Continuava na memória das pessoas grandes, incomodativa como um inseto, como um pormenor.
E as pilas dos homens grandes nunca mais foram as mesmas.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Chove para aí um lago ou um rio, a ver se eu me ralo.

Chove tanto fora da cabeça que nem dá para ouvir os pensamentos que correm dentro, o que não é uma coisa nada má, pelo contrário, porque os meus pensamentos – já de si pobres de espírito – em dias de junho com chuva têm um certo Q de dilúvio e eu não gosto nada de pensamentos torrentosos, blargh. Portanto, olha, chove para aí um lago ou um rio, a ver se eu me ralo. No final do dia, passo aí a ver se dá para pescar uma sardinha assada, por exemplo, mas até nem faço questão, porque as espinhas às vezes ficam encravadas no esófago e uma pessoa fica com os olhos vermelhos, farta-se de tossir, é horrível. Se bem me lembro, eu não gosto nada de ir aos Santos. Está sempre montes de gente expansiva nas ruas, não dá para ouvir o telemóvel, é uma confusão. E, se me distraio, vou de sandalinhas e ainda me arrisco a cortar o dedo grande num vidro ou assim. Nah, é muito melhor estar aqui. A trovejar dentro da cabeça sem sentimentos nem nada, só trovões e chuvinha boa para lavar as ruas. Pelo menos, olha, sempre poupo uma tempestade num copo de água. E não fico a choramingar do cérebro como os outros emigrantes, que se estão sempre a queixar do tempo, todos manjericos. Eu não. Eu gosto.
Chuvinha boa para lavar as ruas. 
Não sou nenhum peixe fora de água aqui. Não sou. É que não sou. Não sou mesmo.
Juro.
Pá, agora a sério: não sou.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Vampira cusca

Suga sumo de laranja por uma palhinha de plástico amarela que mordisca enquanto ouve. Também ajeita os seus óculos muito grossos para se verem bem ao longe. Prefere ouvir a falar, esta moça que suga sumo de laranja. Por causa disso, faz perguntas. Muitas perguntas. Sobre isto, sobre aquilo. Sobre os outros. Sobretudo, sobre os outros. É uma vampira cusca, conheço o estilo. Posso perguntar-te uma coisa? Conheces aquela? E a outra? E aqueloutra? Faz o quê? Ai sim? É solteira? Vive onde? Também exclama, a moça, porque os outros falam mais quando exclamamos, especialmente se formos teatrais. A sério? Meu Deus, não fazia ideia! Que horror! Coitada! Um certo comprazimento preenche-lhe a voz, por causa da fofoquice e também da vitamina C. Sente-se mais forte, agora. Por causa dos outros, que se sentem visivelmente mais fracos. Suga o seu suminho de fruta, a moça, e mordisca. A vida dos outros faz-lhe bem. É como ter vida própria, mas é muito melhor do que ter vida própria, porque não é preciso ter uma opinião ou tomar uma atitude ou gastar energia com coisas mundanas, como seguir uma receita de cozinha ou lavar as janelas. É só preciso estar em companhia, num barzinho de vampiros, a beber sumo de laranja e a fazer perguntas. É uma vampira cusca, sem dúvida, conheço bem aqueles dentes compridos. Tem também a tez muito branca, porque nunca apanha sol. E, por ser eterna, não tem grandes ideias, faz perguntas. Precisa de matar o tempo em barzinhos assim. Ri-se, exclama, cada vez mais forte, os outros cada vez mais fracos. Parecem pessoas de verdade, mas não são. As vampiras cuscas são das maiores pragas nas grandes cidades. Os pombos também. Infelizmente, as pessoas continuam a dar-lhes de comer. E já se sabe que, tanto no caso das vampiras cuscas como no caso dos pombos, a capacidade de reprodução está estreitamente associada à sua alimentação. Nunca mais dou de comer a vampiras cuscas.