terça-feira, 12 de junho de 2012

Chove para aí um lago ou um rio, a ver se eu me ralo.

Chove tanto fora da cabeça que nem dá para ouvir os pensamentos que correm dentro, o que não é uma coisa nada má, pelo contrário, porque os meus pensamentos – já de si pobres de espírito – em dias de junho com chuva têm um certo Q de dilúvio e eu não gosto nada de pensamentos torrentosos, blargh. Portanto, olha, chove para aí um lago ou um rio, a ver se eu me ralo. No final do dia, passo aí a ver se dá para pescar uma sardinha assada, por exemplo, mas até nem faço questão, porque as espinhas às vezes ficam encravadas no esófago e uma pessoa fica com os olhos vermelhos, farta-se de tossir, é horrível. Se bem me lembro, eu não gosto nada de ir aos Santos. Está sempre montes de gente expansiva nas ruas, não dá para ouvir o telemóvel, é uma confusão. E, se me distraio, vou de sandalinhas e ainda me arrisco a cortar o dedo grande num vidro ou assim. Nah, é muito melhor estar aqui. A trovejar dentro da cabeça sem sentimentos nem nada, só trovões e chuvinha boa para lavar as ruas. Pelo menos, olha, sempre poupo uma tempestade num copo de água. E não fico a choramingar do cérebro como os outros emigrantes, que se estão sempre a queixar do tempo, todos manjericos. Eu não. Eu gosto.
Chuvinha boa para lavar as ruas. 
Não sou nenhum peixe fora de água aqui. Não sou. É que não sou. Não sou mesmo.
Juro.
Pá, agora a sério: não sou.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Vampira cusca

Suga sumo de laranja por uma palhinha de plástico amarela que mordisca enquanto ouve. Também ajeita os seus óculos muito grossos para se verem bem ao longe. Prefere ouvir a falar, esta moça que suga sumo de laranja. Por causa disso, faz perguntas. Muitas perguntas. Sobre isto, sobre aquilo. Sobre os outros. Sobretudo, sobre os outros. É uma vampira cusca, conheço o estilo. Posso perguntar-te uma coisa? Conheces aquela? E a outra? E aqueloutra? Faz o quê? Ai sim? É solteira? Vive onde? Também exclama, a moça, porque os outros falam mais quando exclamamos, especialmente se formos teatrais. A sério? Meu Deus, não fazia ideia! Que horror! Coitada! Um certo comprazimento preenche-lhe a voz, por causa da fofoquice e também da vitamina C. Sente-se mais forte, agora. Por causa dos outros, que se sentem visivelmente mais fracos. Suga o seu suminho de fruta, a moça, e mordisca. A vida dos outros faz-lhe bem. É como ter vida própria, mas é muito melhor do que ter vida própria, porque não é preciso ter uma opinião ou tomar uma atitude ou gastar energia com coisas mundanas, como seguir uma receita de cozinha ou lavar as janelas. É só preciso estar em companhia, num barzinho de vampiros, a beber sumo de laranja e a fazer perguntas. É uma vampira cusca, sem dúvida, conheço bem aqueles dentes compridos. Tem também a tez muito branca, porque nunca apanha sol. E, por ser eterna, não tem grandes ideias, faz perguntas. Precisa de matar o tempo em barzinhos assim. Ri-se, exclama, cada vez mais forte, os outros cada vez mais fracos. Parecem pessoas de verdade, mas não são. As vampiras cuscas são das maiores pragas nas grandes cidades. Os pombos também. Infelizmente, as pessoas continuam a dar-lhes de comer. E já se sabe que, tanto no caso das vampiras cuscas como no caso dos pombos, a capacidade de reprodução está estreitamente associada à sua alimentação. Nunca mais dou de comer a vampiras cuscas.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Senhor repetido

Um senhor sobe a rua. É um daqueles senhores repetidos que vestem fato e gravata e bebem vinho branco na Place Lux a partir das cinco e meia. O senhor repetido usa por cima da gravata o cartão de identificação do Parlamento Europeu ou da Comissão Europeia ou do Conselho da União Europeia ou de outra instituição a acabar em –eu ou –eia, com a sua fotografia e com estrelinhas, acho (não dá para ver daqui). O senhor repetido não está a beber vinho branco, está só a subir a rua. A narradora deste texto, que está aborrecida, fica a vê-lo subir. De repente, assim do nada, o senhor repetido cai, o que é muito incómodo para quem vê e para quem cai, porque o senhor é elegante e não devia ter caído. Além disso, não tinha propriamente razão para cair, porque não escorregou nem tropeçou. Ainda assim, cai. E o mais curioso é que nunca mais se levanta, porque também nunca mais aparece. O senhor, pura e simplesmente, desapareceu. Tipo Tcharam!, um truque de magia. É possível até que não tenha chegado a cair. A narradora espera, espera e nada acontece. Conclui: Só pode ter sido um qualquer truque de magia. Isso ou o senhor caiu efetivamente num buraco muito fundo, coitado. Nesse caso, talvez esteja vivo ainda e deve estar muito aflito, enfiado naquele buraco. Fica preocupada, a narradora, quer ajudar o senhor repetido. Mas eis se não quando aparece, no fundo da rua, um outro senhor repetido. Não será, com certeza, o mesmo (descubra as diferenças), mas também deve beber vinho branco na Place Lux a partir das cinco e meia. Fica a vê-lo da janela, a narradora. Infelizmente, este senhor não cai nem desaparece. Deve ser o suplente.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Estiveste na creche?

- Olá, Rodrigo! 
- Olá! 
- Estás bom?
- Xim.
- Então, o que fizeste hoje? Estiveste na creche? 
- Não.
- Não estiveste na creche?! 
- Não. 
- Então não estiveste hoje na creche?! 
- Não.
- De certeza, Rodrigo? Andas muito esquecido... Não estiveste na creche?! 
- Não.
- Então estiveste onde? 
- Na escola. 
- Aaaaah, pois é, tens razão. Estiveste na escola. 
- Pois.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Lançamento do Livro «Cem anos - 100 palavras»

Hoje, pelas 18h45, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade do Porto (Praça Gomes Teixeira) será lançado o livro «Cem anos - 100 palavras», editado pela U.Porto editorial no âmbito das comemorações do centenário da Universidade e do concurso literário com o mesmo nome.

A apresentação do livro será feita por Francisco Ribeiro da Silva, Presidente do Júri do Concurso Cem Anos, 100 Palavras e autor do prefácio da obra.


terça-feira, 6 de março de 2012

Sting - Mensagem numa garrafa

Ora bem, eu nunca fui grande fã do Sting. Não gosto lá muito de homens com mente e corpo sãos, parecem-me bonecos de brincar e não meninos de verdade. Além disso, os gritinhos do Sting sempre me incomodaram um pouco, porque tenho tímpanos muito sensíveis e não associo gritinhos aos homens de verdade. A juntar a isto devo dizer que, se a canção do Desert Rose fosse uma coisa de verdade, já a tinha atirado pela sanita abaixo porque acho a canção um bocado parola e pretensiosa, de English man em Nova Iorque que quer muito ser um cidadão do world music. É claro que na minha pré-adolescência suburbana e pobre de espírito achava a letra da canção Every Breath You Take absolutamente genial, mas isso depois passou.

Tudo isto para dizer que, quando me anunciaram que o Sting vinha a Bruxelas, bocejei e pedi uma bica cheia, porque me deu um sono incrível. Mas passados estes meses, como sou uma verdadeira Ana-vai-com-as-outras, acabei mesmo por ir ver o Sting ontem à noite numa sala acolhedora e muito redondinha, a uns 30 metros do senhor.

E a verdade é que até me deu uma aguda parolice no peito quando o vi entrar. O Sting ali estava, mente e corpo sãos, a dizer umas patacoadas em francês e neerlandês e eu fiquei nervosinha como um passarinho, porque nunca pensei ver o Sting logo ali à mão de semear e apalpar para ver se é de carne e osso. O Sting afinal existia e mexia as pernitas enquanto tocava no baixo. Era um bonequinho de brincar, mas afinal o Sting não é um boneco de brincar, é um homem a sério, uma voz a sério, uns braços e pernas que, aos 60 anos de idade, upa-upa, são de facto um assunto de grande seriedade.

Os outros músicos também eram pessoas a sério: uma tipa loura que não precisava dos seus saltos de 10 centímetros para se fazer ver e ouvir, um baterista brutalíssimo bate-bate-coração, dois guitarristas irrepreensíveis e um violinista com muita pinta, saído de um Spaghetti Western.

A voz do Sting não envelheceu, o que é outro assunto sério. E os gritinhos do Sting, afinal, não incomodam nada, são bem queridinhos. Fez-se então luz no meu coração suburbano e pobre de espírito, porque andava a negar um amor antigo e o Sting - mente e corpo sãos - é um amor de verdade.

No final, cantei o Message in a Bottle como se não houvesse canção mais bonita. E hoje apeteceu-me escrever sobre isto, no estilo SOS to the world, porque sou sensível e parola como uma autêntica rosa do deserto.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

mãos grandes e inseguras

Quatro poemas:
da esquerda para a direita, 
coluna da direita,
coluna do meio
coluna da esquerda.


mãos
grandes e inseguras
unhas
curvilíneas

sempre
o medo da folha   
branca e vazia
como um princípio

a ponta da vontade


pega na folha
com o final dos dedos

linhas ilegíveis e tremeluzentes

como um princípio
no final
dos dedos 
e não
na folha branca e vazia

dobra a folha ao meio

contempla

é agora metade de si própria

dobra
as pontas
da folha
com a ponta
dos dedos

e é agora uma outra coisa

um avião

o final
dos dedos
não acaba