Um senhor sobe a rua. É um daqueles senhores repetidos que vestem fato e gravata e bebem vinho branco na Place Lux a partir das cinco e meia. O senhor repetido usa por cima da gravata o cartão de identificação do Parlamento Europeu ou da Comissão Europeia ou do Conselho da União Europeia ou de outra instituição a acabar em –eu ou –eia, com a sua fotografia e com estrelinhas, acho (não dá para ver daqui). O senhor repetido não está a beber vinho branco, está só a subir a rua. A narradora deste texto, que está aborrecida, fica a vê-lo subir. De repente, assim do nada, o senhor repetido cai, o que é muito incómodo para quem vê e para quem cai, porque o senhor é elegante e não devia ter caído. Além disso, não tinha propriamente razão para cair, porque não escorregou nem tropeçou. Ainda assim, cai. E o mais curioso é que nunca mais se levanta, porque também nunca mais aparece. O senhor, pura e simplesmente, desapareceu. Tipo Tcharam!, um truque de magia. É possível até que não tenha chegado a cair. A narradora espera, espera e nada acontece. Conclui: Só pode ter sido um qualquer truque de magia. Isso ou o senhor caiu efetivamente num buraco muito fundo, coitado. Nesse caso, talvez esteja vivo ainda e deve estar muito aflito, enfiado naquele buraco. Fica preocupada, a narradora, quer ajudar o senhor repetido. Mas eis se não quando aparece, no fundo da rua, um outro senhor repetido. Não será, com certeza, o mesmo (descubra as diferenças), mas também deve beber vinho branco na Place Lux a partir das cinco e meia. Fica a vê-lo da janela, a narradora. Infelizmente, este senhor não cai nem desaparece. Deve ser o suplente.
terça-feira, 5 de junho de 2012
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Estiveste na creche?
- Olá, Rodrigo!
- Olá!
- Estás bom?
- Xim.
- Então, o que fizeste hoje? Estiveste na creche?
- Não.
- Não estiveste na creche?!
- Não.
- Então não estiveste hoje na creche?!
- Não.
- De certeza, Rodrigo? Andas muito esquecido... Não estiveste na creche?!
- Não.
- Então estiveste onde?
- Na escola.
- Aaaaah, pois é, tens razão. Estiveste na escola.
- Pois.
- Olá!
- Estás bom?
- Xim.
- Então, o que fizeste hoje? Estiveste na creche?
- Não.
- Não estiveste na creche?!
- Não.
- Então não estiveste hoje na creche?!
- Não.
- De certeza, Rodrigo? Andas muito esquecido... Não estiveste na creche?!
- Não.
- Então estiveste onde?
- Na escola.
- Aaaaah, pois é, tens razão. Estiveste na escola.
- Pois.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Lançamento do Livro «Cem anos - 100 palavras»
Hoje, pelas 18h45, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade do Porto (Praça Gomes Teixeira) será lançado o livro «Cem anos - 100 palavras», editado pela U.Porto editorial no âmbito das comemorações do centenário da Universidade e do concurso literário com o mesmo nome.
A apresentação do livro será feita por Francisco Ribeiro da Silva, Presidente do Júri do Concurso Cem Anos, 100 Palavras e autor do prefácio da obra.
terça-feira, 6 de março de 2012
Sting - Mensagem numa garrafa
Ora bem, eu nunca fui grande fã do Sting. Não gosto lá muito de homens com mente e corpo sãos, parecem-me bonecos de brincar e não meninos de verdade. Além disso, os gritinhos do Sting sempre me incomodaram um pouco, porque tenho tímpanos muito sensíveis e não associo gritinhos aos homens de verdade. A juntar a isto devo dizer que, se a canção do Desert Rose fosse uma coisa de verdade, já a tinha atirado pela sanita abaixo porque acho a canção um bocado parola e pretensiosa, de English man em Nova Iorque que quer muito ser um cidadão do world music. É claro que na minha pré-adolescência suburbana e pobre de espírito achava a letra da canção Every Breath You Take absolutamente genial, mas isso depois passou.
Tudo isto para dizer que, quando me anunciaram que o Sting vinha a Bruxelas, bocejei e pedi uma bica cheia, porque me deu um sono incrível. Mas passados estes meses, como sou uma verdadeira Ana-vai-com-as-outras, acabei mesmo por ir ver o Sting ontem à noite numa sala acolhedora e muito redondinha, a uns 30 metros do senhor.
E a verdade é que até me deu uma aguda parolice no peito quando o vi entrar. O Sting ali estava, mente e corpo sãos, a dizer umas patacoadas em francês e neerlandês e eu fiquei nervosinha como um passarinho, porque nunca pensei ver o Sting logo ali à mão de semear e apalpar para ver se é de carne e osso. O Sting afinal existia e mexia as pernitas enquanto tocava no baixo. Era um bonequinho de brincar, mas afinal o Sting não é um boneco de brincar, é um homem a sério, uma voz a sério, uns braços e pernas que, aos 60 anos de idade, upa-upa, são de facto um assunto de grande seriedade.
Os outros músicos também eram pessoas a sério: uma tipa loura que não precisava dos seus saltos de 10 centímetros para se fazer ver e ouvir, um baterista brutalíssimo bate-bate-coração, dois guitarristas irrepreensíveis e um violinista com muita pinta, saído de um Spaghetti Western.
A voz do Sting não envelheceu, o que é outro assunto sério. E os gritinhos do Sting, afinal, não incomodam nada, são bem queridinhos. Fez-se então luz no meu coração suburbano e pobre de espírito, porque andava a negar um amor antigo e o Sting - mente e corpo sãos - é um amor de verdade.
No final, cantei o Message in a Bottle como se não houvesse canção mais bonita. E hoje apeteceu-me escrever sobre isto, no estilo SOS to the world, porque sou sensível e parola como uma autêntica rosa do deserto.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
mãos grandes e inseguras
Quatro poemas:
da esquerda para a direita,
coluna da direita,
coluna do meio
coluna da esquerda.
grandes e inseguras
unhas
curvilíneas
sempre
o medo da folha
branca e vazia
como um princípio
a ponta da vontade
pega na folha
com o final dos dedos
linhas ilegíveis e tremeluzentes
como um princípio
no final
dos dedos
e não
na folha branca e vazia
dobra a folha ao meio
contempla
é agora metade de si própria
dobra
as pontas
da folha
com a ponta
dos dedos
e é agora uma outra coisa
um avião
o final
dos dedos
não acaba
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Um casal comprido e narigudo
Um casal comprido e narigudo vem aos beijinhos no metro. São 8h da manhã e as pessoas afastam-se do casal, incomodadas com os beijinhos alheios (barulho, lábios, saliva, credo!). Uma rapariga de casaco vermelho fica a olhar para eles e ri-se. Acha curioso observar pessoas de narizes compridos a darem beijinhos, parecem passarinhos e não se atrapalham nada. Observa-os atentamente: Ela de rugas fininhas mas profundas na ponta dos olhos e dos lábios, caracóis ao alto, ele de cabelo grisalho e bem composto. Têm ambos, à vontade, idade para ter juízo. Dão beijinhos curtos e sonoros - chuac, chuac, pio, pio - um som entre o assobio de pássaro e o grasnar de ganso.
A rapariga de casaco vermelho ri-se outra vez. É infantil, apesar de já ser bem grande.
A carruagem vem cheia de gente de hálitos e hábitos esquisitos. Uma mulher com ar de quem começa a dar ordens ao marido às 6h da manhã e lava o chão da cozinha todos os dias porque os três filhos rapazes não sabem comer para cima da mesa encolhe os ombros, sobe e desce as sobrancelhas num tique nervoso, está verdadeiramente irritada com os beijinhos curtos e sonoros do casal comprido e narigudo.
Um senhor de óculos pequeníssimos vem a ler a Economist. De vez em quando suspira e lança um olhar enfastiado para o casal comprido e narigudo. Também lança um olhar enfastiado para a rapariga de casaco vermelho, que se vem a rir (é infantil). Afinal lança um olhar enfastiado para todos os passageiros (nothing personal).
As pessoas estão cada vez mais próximas umas das outras porque querem afastar-se o mais que podem do casal comprido e narigudo (barulho, lábios, saliva, credo!). Uma senhora baixinha e muito magra, de franja pelos olhos para fingir que tem 30 anos, embora seja visível que tem, no mínimo, 50, masca uma pastilha acelerada e olha para o mapa do metro com um ar muito concentrado. Claramente, esta senhora de franja pelos olhos não está a olhar para o mapa do metro, até porque é impossível ver alguma coisa através daquela franja farfalhuda. Está mesmo só à procura de uma distração. Os beijinhos destabilizam-lhe os ouvidos e a senhora já tem problemas de equilíbrio por causa de não-sei-quê nos tímpanos.
A carruagem vem cada vez mais cheia e as pessoas estão cada vez mais unidas contra o casal comprido e narigudo, conspiram e suspiram contra os beijinhos sonoros no metro, uma vergonha.
A mulher dos três filhos está tão enervada que, ao sair do metro, abalroa a rapariga do casaco vermelho, que ainda vem com um sorrisinho parvo no semblante. A rapariga do casaco vermelho, que, apesar de infantil, é grande, vai projetada contra a senhora da franja pelos olhos que, por ser franzina e ter problemas de equilíbrio, acaba mesmo por cair nos braços do senhor dos óculos pequeníssimos. Na carruagem paira brevemente uma esperança de romance que afinal não é mais do que isso: uma esperança de romance. Senhora e senhor dão às asas como pombos assustados, cada um para seu lado. Desolada, pas de soucis.
O senhor dos óculos pequeníssimos dá o último suspiro e guarda a revista debaixo do sovaco, o que é um claro sinal de que o senhor desistiu de se cultivar. Trata-se portanto de uma perda de conhecimento valioso, tanto para o senhor dos óculos pequeníssimos como para a comunidade no geral. A carruagem apoquenta-se.
O casal comprido e narigudo com idade para ter juízo continua aos beijinhos - chuac, chuac, pio, pio. Ela de rugas fininhas, ele de cabelo grisalho, não reparam em nada disto: na mulher dos três filhos, no senhor dos óculos pequeníssimos, no estado do mundo, na senhora da franja pelos olhos, na rapariga de casaco vermelho.
As pessoas que dão beijinhos sonoros passam a vida a transformar o mundo mas nem dão por isso, porque não querem saber de nada e, muito provavelmente, não leem a Economist. São burras.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Conto infantil para adultos: A alegoria da caixa de fósforos
Era uma vez uma caixa de fósforos, onde viviam encarceradas centenas de fósforos que muito raramente viam a luz do dia. Certa manhã de sol e nuvens pequeninas, por obra de um milagre ou de uma mão desajeitada, caíram dois fósforos da caixa que, eufóricos, rebolaram pelo chão da cozinha a festejar a sua liberdade. De seguida, como tinham frio e calor, correram um para o outro e acenderam-se. Ambos ficaram encandeados com a chama admirável que, juntos, emitiam.
Passados dez segundos - mais coisa, menos coisa - morreram.
Moral da história: O excesso de luz embrutece.
Passados dez segundos - mais coisa, menos coisa - morreram.
Moral da história: O excesso de luz embrutece.
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