quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Um casal comprido e narigudo

Um casal comprido e narigudo vem aos beijinhos no metro. São 8h da manhã e as pessoas afastam-se do casal, incomodadas com os beijinhos alheios (barulho, lábios, saliva, credo!). Uma rapariga de casaco vermelho fica a olhar para eles e ri-se. Acha curioso observar pessoas de narizes compridos a darem beijinhos, parecem passarinhos e não se atrapalham nada. Observa-os atentamente: Ela de rugas fininhas mas profundas na ponta dos olhos e dos lábios, caracóis ao alto, ele de cabelo grisalho e bem composto. Têm ambos, à vontade, idade para ter juízo. Dão beijinhos curtos e sonoros - chuac, chuac, pio, pio - um som entre o assobio de pássaro e o grasnar de ganso.
A rapariga de casaco vermelho ri-se outra vez. É infantil, apesar de já ser bem grande.
A carruagem vem cheia de gente de hálitos e hábitos esquisitos. Uma mulher com ar de quem começa a dar ordens ao marido às 6h da manhã e lava o chão da cozinha todos os dias porque os três filhos rapazes não sabem comer para cima da mesa encolhe os ombros, sobe e desce as sobrancelhas num tique nervoso, está verdadeiramente irritada com os beijinhos curtos e sonoros do casal comprido e narigudo.
Um senhor de óculos pequeníssimos vem a ler a Economist. De vez em quando suspira e lança um olhar enfastiado para o casal comprido e narigudo. Também lança um olhar enfastiado para a rapariga de casaco vermelho, que se vem a rir (é infantil). Afinal lança um olhar enfastiado para todos os passageiros (nothing personal).
As pessoas estão cada vez mais próximas umas das outras porque querem afastar-se o mais que podem do casal comprido e narigudo (barulho, lábios, saliva, credo!). Uma senhora baixinha e muito magra, de franja pelos olhos para fingir que tem 30 anos, embora seja visível que tem, no mínimo, 50, masca uma pastilha acelerada e olha para o mapa do metro com um ar muito concentrado. Claramente, esta senhora de franja pelos olhos não está a olhar para o mapa do metro, até porque é impossível ver alguma coisa através daquela franja farfalhuda. Está mesmo só à procura de uma distração. Os beijinhos destabilizam-lhe os ouvidos e a senhora já tem problemas de equilíbrio por causa de não-sei-quê nos tímpanos.
A carruagem vem cada vez mais cheia e as pessoas estão cada vez mais unidas contra o casal comprido e narigudo, conspiram e suspiram contra os beijinhos sonoros no metro, uma vergonha.
A mulher dos três filhos está tão enervada que, ao sair do metro, abalroa a rapariga do casaco vermelho, que ainda vem com um sorrisinho parvo no semblante. A rapariga do casaco vermelho, que, apesar de infantil, é grande, vai projetada contra a senhora da franja pelos olhos que, por ser franzina e ter problemas de equilíbrio, acaba mesmo por cair nos braços do senhor dos óculos pequeníssimos. Na carruagem paira brevemente uma esperança de romance que afinal não é mais do que isso: uma esperança de romance. Senhora e senhor dão às asas como pombos assustados, cada um para seu lado. Desolada, pas de soucis.
O senhor dos óculos pequeníssimos dá o último suspiro e guarda a revista debaixo do sovaco, o que é um claro sinal de que o senhor desistiu de se cultivar. Trata-se portanto de uma perda de conhecimento valioso, tanto para o senhor dos óculos pequeníssimos como para a comunidade no geral. A carruagem apoquenta-se.
O casal comprido e narigudo com idade para ter juízo continua aos beijinhos - chuac, chuac, pio, pio. Ela de rugas fininhas, ele de cabelo grisalho, não reparam em nada disto: na mulher dos três filhos, no senhor dos óculos pequeníssimos, no estado do mundo, na senhora da franja pelos olhos, na rapariga de casaco vermelho.
As pessoas que dão beijinhos sonoros passam a vida a transformar o mundo mas nem dão por isso, porque não querem saber de nada e, muito provavelmente, não leem a Economist. São burras.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Conto infantil para adultos: A alegoria da caixa de fósforos

Era uma vez uma caixa de fósforos, onde viviam encarceradas centenas de fósforos que muito raramente viam a luz do dia. Certa manhã de sol e nuvens pequeninas, por obra de um milagre ou de uma mão desajeitada, caíram dois fósforos da caixa que, eufóricos, rebolaram pelo chão da cozinha a festejar a sua liberdade. De seguida, como tinham frio e calor, correram um para o outro e acenderam-se. Ambos ficaram encandeados com a chama admirável que, juntos, emitiam.
Passados dez segundos - mais coisa, menos coisa - morreram.
Moral da história: O excesso de luz embrutece.

domingo, 15 de janeiro de 2012

vil vendaval vertebrado

varrendo

vilas vales ventres

vozeando

viçoso

vocais vocábulos vocativos

verbos versos versículos

vira vigia venera

vigorosas valquírias

virgens venéreas

véus vestidos vaidades

vento valente vetusto

veloz voraz veraz

vem vai volta

vê vive vence

vigorosos veteranos

viúvas vindouras

vós vosselências vencidas

vulgares vassalos

vivendo vergados

vagares vigilantes

virtudes viciosas

valores virtuais

ventania vidente vacilante

veio vigorosa vasculhando

virilhas vaginas vísceras

veleiros vimeiros vitrais

varrida ventaneira vingativa

voejando verdes várzeas

vindicando veemente

vida

vanguarda

vitória

vaivém viandante

viagem vertical vulcânea

vidas vãs

ventres vazios

viravolta

vácuo

vice-versa

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Texto com monossílabos - Um mar sem fim

não tem
ar
nem pés
nem céu
é
só um mar
sem sal
nem
pôr
do
sol
que cai
em mim

um mar
de dor
e fé
que vai
de cá           pra lá
sem pé
sem ar
sem céu
e não tem
fim

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O Rodrigo e o carro


- Olá, Rodrigo! Tens uma Sininho?!
- Sim.
- Queres brincar com a Sininho?
- Sim.
- Sabes que a Sininho tem poderes mágicos?
- Sim.
- A Sininho voa.
- Carro.
- Como?
- O carro.
- Mas a Sininho não anda de carro.
- ...
- A Sininho voa, não anda de carro. E tem uns pozinhos mágicos para nós podermos voar também.
- ...
- Olha a Sininho a pôr uns pozinhos mágicos em mim. Plim, plim, plim! Agora estou a voar, vês? Olha eu a voar: Vrrrrrruuuuummm…
- Vrrrrrruuuuummm… (risos)
- Vrrrrrruuuuummm…
- Vrrrrrruuuuummm… (ainda mais risos)
- Vrrrrrruuuuummm…
- Carro.
- Isto não é um carro, Rodrigo, há outras coisas no mundo além de carros. Isto somos nós a voar. Queres voar com a Sininho?
- Não.
- Não queres?!
- Não. Vrrrrrruuuuummm… (risos)
- Vrrrrrruuuuummm…
- Carro.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Rua do Alecrim com Gonçalo M Tavares

No ano passado, no final do mês de dezembro (há uns dias, vá), vínhamos (eu e o homem ilimitado) a descer entusiasmados a Rua do Alecrim, quando reconheci à minha frente os caracóis do Gonçalo M Tavares. Palavra de honra, reconheci-lhe os caracóis antes de lhe reconhecer as lunetas, até porque o senhor Tavares estava de costas, não dava para lhe ver o frontispício.

Gosto de caracóis no geral e dos caracóis do senhor Tavares em particular.

Antes de dar de caras com os caracóis do Gonçalo M Tavares, já vinha toda contente a descer a Rua do Alecrim. A bem dizer, não precisava do senhor Tavares para ganhar o dia, até porque estava sol e eu vinha a descer a rua com o homem ilimitado, falávamos animadamente sobre coisas da vida, o rio brincava ao longe com a luz e nós íamos apanhar o comboio para Cascais. Isso tudo (sol, rua, coisas da vida, rio, luz, comboio) já era suficiente para descer a Rua do Alecrim aos pulinhos.

Além disso, quando desço a Rua do Alecrim lembro-me sempre da canção do alecrim-aos-molhos e essa canção dá-me logo vontade de andar aos pulinhos.

Ao avistar os caracóis do Gonçalo M Tavares, fiquei ainda mais contente (Alecrim, alecrim aos molhos...). Por momentos, até achei que lhe ia dar assim uma palmada bem dada nas costas. Mas depois pensei outra vez e não dei uma palmada bem dada nas costas do senhor Tavares, fiquei só a vê-lo descer a Rua do Alecrim.

O senhor Tavares trazia pela mão, não um cãozinho, não um gatinho, mas uma misteriosa mala preta e vinha assim curvado para a frente, a falar e a rir, muito debruçado sobre outro ser humano que também falava e também ria, mas a quem não prestei atenção absolutamente nenhuma.

Durante esta observação atenta (Alecrim, alecrim, aos molhos, por causa de ti...), reparei que o Gonçalo M Tavares tem um ar bonacheirão. Tem mesmo um ar bonacheirão, deve gostar de comer bom queijo e beber bom vinho, imaginei logo um respeitável caderno Moleskine cheio de nódoas de tinto, extremamente difíceis de tirar. Depois reparei que, ao contrário do que eu imaginava, os ombros do Gonçalo M Tavares são muito magrinhos. Isto, primeiro, surpreendeu-me, depois assustou-me.

Uma pessoa com ar bonacheirão não tem ombros magrinhos. Fiquei logo apoquentada. Seria isto um indicador de que Gonçalo M Tavares afinal não é bonacheirão? Ou que o Gonçalo M Tavares não come bom queijo? Teria o senhor Tavares perdido a vontade de comer? Estaria a criatividade do senhor Tavares a alimentar-se dos ombros do senhor Tavares? Estaria o senhor Tavares a alimentar-se exclusivamente de papel não reciclado?

Em qualquer dos casos, os ombros do senhor Tavares não mereciam uma palmada bem dada e eu perdi logo a vontade de lhe dar uma palmada bem dada nas costas. Na verdade, substituí essa vontade por uma outra vontade: a de fazer uma sopa de cenoura para o senhor Tavares. No entanto, não fiz uma sopa de cenoura para o senhor Tavares, porque afinal a vontade não era assim tão grande e também não havia por ali cenouras nem batatas nem cebolas à mão de semear.

Por causa de todas estas coisas (sol, rua, coisas da vida, rio, luz, comboio, Gonçalo M Tavares, cenouras, batatas, cebolas), eu e o homem ilimitado íamos muito lançados rua fora (Alecrim, alecrim, aos molhos...) e não conseguíamos abrandar o passo, de maneira que acabámos por ultrapassar o senhor Tavares.

Ao passar pelos seus ombros magrinhos assim pela esquerda, olhei para o senhor Tavares e o senhor Tavares, sentindo-se observado por comuns mortais, aguçou o olfato, parou de rir e de falar e olhou para mim. Sorri envergonhada como uma menina de 8 anos e meio (até me saiu um risinho agudo de menina de 8 anos de meio e corei). De seguida, desatei a correr pela Rua do Alecrim a cantar a canção do alecrim aos berros.

Ora, este episódio serve para demonstrar, mais uma vez, que a criatividade é um bicho muito cruel, instala-se no corpo de repente e é muito difícil uma pessoa livrar-se do bicho.

Estou muito preocupada com os ombros magrinhos do Gonçalo M Tavares.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Um homem que era uma árvore

Um parque que não é bem um parque, que talvez tenha sido um parque porque há restos de árvores e bancos de jardim. Do céu cai agora mesmo o resto de uma chuva que não chega a molhar o chão. Um homem antigo caminha pela lama que já foi relva mas não vê nada disto: o parque, os bancos, o resto da chuva. É um homem magro, macilento, comprido, parece o tronco velho de uma árvore moribunda. Traz no alto da cabeça um emaranhado de cabelos que já não são bem cabelos, que talvez tenham sido cabelos, mas que agora são ervas daninhas ou o ninho abandonado de pássaros cruéis, um cabelo feito de caruma e lama e folhas pisadas de Inverno sujo. Aproxima-se cada vez mais do nosso banco de jardim e os seus olhos não olham para nós, têm outras coisas dentro. Olhos cheios de nuvens e água, uma luz que não passa. Olhos que olham para dentro.
Ficamos a observá-lo.
É impossível que este homem veja para fora. Talvez não veja de todo para fora e, nesse caso, não saiba que os seus braços são dois ramos vazios sem folhas nem flores nem frutos, só duas mãos que descobrem os dias, extremas e alvacentas como dois sóis de Inverno.
Passa pelo nosso banco de jardim, mas não nos vê ali, vive para dentro, a olhar para outro céu, numa outra Terra, sozinho, perdido, talvez feliz.