- Ó vizinha, já viste que, se esta tipa não nos tivesse, se estatelava no chão?
- É um facto.
- Isso não te dá um certo gozo?
- Um certo gozo? Não, nenhum.
- A sério? A mim dá-me um gozo do caraças.
- O quê? Saber que a tipa se estatelava no chão?!
- Sim, mas sobretudo que precisa do nosso apoio.
- Ah, nesse sentido! É muito gratificante, sim.
- Gratificante?!
- Sim, o facto de podermos dar apoio.
- Ora essa! E a nós, quem nos apoia?
- Nós não precisamos de apoio.
- Não?! Eu acho é que nos contentamos com pouco. Esta tipa atira-nos assim de qualquer maneira para o chão ou contra a parede... Chego a ficar horas de cabeça para baixo.
- Certo. Mas não precisas propriamente de apoio. Nós somos o apoio.
- Exactamente. Nós é que somos o apoio! E, no entanto, ninguém nos dá valor.
- Claro que dá. Toda a gente nos dá valor!
- Não dá, não. Se nos dessem o devido valor, não nos atiravam assim para o chão ou contra a parede.
- Talvez...
- Ouve o que eu te digo: Se andássemos por aí a pregar rasteiras aos doentes, as pessoas respeitavam-nos mais.
- Não respeitavam, nada. Íamos era logo presas!
- Não íamos, não. Repara que as nossas rasteiras são tão rápidas e eficazes que ninguém ia dar por ela.
- Claro que iam.
- Não iam, não. As canadianas são como os mercados financeiros.
- O que são mercados financeiros?
- Não sei, mas parece que estão sempre a pregar rasteiras às pessoas e também ninguém se apercebe disso. Precisamente porque dão assim rasteiras muito rápidas e eficazes.
- Mas quando forem descobertos, vão presos.
- O quê? Os mercados financeiros?! Não vão, não.
- Por que não?
- Porque as pessoas têm muito respeitinho pelos mercados financeiros.
- Que raio?! Então, mas se eles passam a vida a pregar-lhes rasteiras...
- Pois, mas as pessoas são assim. Gostam de ser maltratadas. Já viste alguém a atirar mercados financeiros para o chão?
- Acho que não.
- Pois é... Mas nós passamos a vida aí largadas... Ninguém nos respeita, essa é que é essa.
- Tens razão, vizinha, devíamos fazer qualquer coisa para inverter essa situação.
- Olha, eu, por mim, atirava já esta tipa ao chão.
- Então, e depois?
- E depois, quando ela se levantar, atiramo-la outra vez. Vais ver que, num instantinho, somos nós a mandar nisto tudo.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Fisioterapia
Vou à fisioterapia quatro vezes por semana.
Gosto de ir à fisioterapia, sempre tenho uma desculpa para sair de casa com a minha tala no joelho e as minhas canadianas nos cotovelos.
O meu fisioterapeuta é muito simpático, tem uma carequinha no cocuruto e sabe dizer umas coisas em português porque teve uma paciente portuguesa durante muito tempo. Diz-me: Boa tarde, Até quarta-feira, dobra a perna, e depois ri-se muito, como se o conjunto de sons não fizesse sentido nenhum.
Quem me liga à máquina dos choquezinhos eléctricos é a estagiária, que não se ri nem diz muitas coisas, liga-me só à máquina e dá instruções breves. Fico para ali abandonada, a esticar a perna e a levar choquezinhos eléctricos, diz que faz bem aos músculos.
O outro fisioterapeuta, que é desgrenhado, esbugalhado mas, ainda assim, bem parecido, corrige-me ao longe, diz: Tenta esticar mais, insiste um pouco, dobra agora devagar. Eu faço o que me mandam: estico, insisto, dobro.
Um dos exercícios consiste em brincar com uma bola de ténis. Estou sentadinha e eles põem-me uma bola de ténis por baixo do pé. Não é muito divertido, mas dá para passar o tempo. Ando com a bola para a frente e para trás, já dobro o joelho a 90º e o fisioterapeuta exclama qualquer coisa com um ar muito impressionado como se faz às crianças. Fico a ver o que os outros fazem.
À minha frente, um tipo pedala na bicicleta. À medida que pedala também abana a cabeça ao som do rock foleiro que passa na rádio. Abanar a cabeça ao som de guitarras está tão fora de moda, que o tipo até tem piada. Ao lado, um rapaz de barba rala com ar muito preocupado salta no trampolim. À minha direita, uma búlgara que não fala francês enrola um tecido plastificado à volta do pé e puxa-o com toda a força. Foi operada ao tornozelo em Agosto e ainda cá anda. Ao fundo, em frente a um espelho de quarto de dormir, um homem gordo segura uma vara com as duas mãos e mantém-na paralela ao chão. Roda o corpo para um lado e para o outro, muito sério. Do lado de cá, uma senhora está literalmente de cabeça para baixo, pendurada num engenho esquisito que lhe estica as costas. A senhora não gosta lá muito daquela máquina, porque às vezes tem tonturas quando sai daquela posição e fica muito tempo sentada a recuperar. Acho que é italiana.
Eu gosto de ir à fisioterapia. Parece que mudo de planeta durante uma hora e meia e sempre tenho um objectivo nesta fase de convalescença.
O meu objectivo é saltar no trampolim.
O rapaz de barba rala e com ar preocupado está quase bom. E eu já ando farta de brincar com a bola de ténis.
Não sou nenhuma gata.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Diálogo com Enfermeira de Branco II - Fome
- Boa tarde, dá-me licença? Queria mudar aqui o soro, pode ser?
- Sim, obrigada. Entretanto já posso comer?
- Ainda não comeu nada?
- Não.
- A que horas foi a operação?
- Não sei.
- Não sabe?!
- Não. Estava a dormir, mas deve dizer na ficha.
- Mas não sabe mais ou menos quando foi?
- Não. Quer dizer, foi de manhã. Lá para as 9h30, talvez 10h.
- Mas já são 16 horas! Ainda não comeu nada hoje?
- Não.
- Nada de nada?
- Não.
- Devem-se ter esquecido, sabe?
- Esquecido?
- Pois, quando serviram o almoço já estava no quarto, não estava?
- Não sei... Posso então comer agora?
- Pois, o problema é que eu agora tenho o frigorífico vazio...
- Vazio?!
- Sim. Acha que consegue esperar até às 17h?
- Até às 17h?
- É quando eles trazem o lanche.
- O lanche?
- Sim. É mais uma horinha, está bem?
- ... Está bem.
Na televisão só passavam programas sobre gastronomia e culinária. O capítulo do livro que estava a ler falava sobre a matança do porco. Livro injusto. O lanche acabou por chegar às 17h30. Duas fatias de pão, duas fatias de queijo, um café e um pudim de baunilha. Engoli tudo de uma vez. Mais tarde, o homem ilimitado trouxe-me bolachas e eu devorei-as de madrugada. Eram boas, acho.
- Sim, obrigada. Entretanto já posso comer?
- Ainda não comeu nada?
- Não.
- A que horas foi a operação?
- Não sei.
- Não sabe?!
- Não. Estava a dormir, mas deve dizer na ficha.
- Mas não sabe mais ou menos quando foi?
- Não. Quer dizer, foi de manhã. Lá para as 9h30, talvez 10h.
- Mas já são 16 horas! Ainda não comeu nada hoje?
- Não.
- Nada de nada?
- Não.
- Devem-se ter esquecido, sabe?
- Esquecido?
- Pois, quando serviram o almoço já estava no quarto, não estava?
- Não sei... Posso então comer agora?
- Pois, o problema é que eu agora tenho o frigorífico vazio...
- Vazio?!
- Sim. Acha que consegue esperar até às 17h?
- Até às 17h?
- É quando eles trazem o lanche.
- O lanche?
- Sim. É mais uma horinha, está bem?
- ... Está bem.
Na televisão só passavam programas sobre gastronomia e culinária. O capítulo do livro que estava a ler falava sobre a matança do porco. Livro injusto. O lanche acabou por chegar às 17h30. Duas fatias de pão, duas fatias de queijo, um café e um pudim de baunilha. Engoli tudo de uma vez. Mais tarde, o homem ilimitado trouxe-me bolachas e eu devorei-as de madrugada. Eram boas, acho.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Diálogo com Enfermeira de Branco I - Sede
- Boa tarde, como se sente?
- Bem, obrigada.
- Venho medir-lhe a tensão, está bem?
- Claro... Entretanto, acha que já posso beber água?
- Está com sede?
- Estou.
- Mas ainda não lhe deram nada para beber?
- Não.
- A sério? Deve estar com muita sede, então!
- Sim, estou.
- A operação já foi há muitas horas, não foi?
- Foi.
- Pois, mas agora ainda não pode beber nada, está bem?
- Ai não?!
- Não.
- Ah, pensei que...
- Mais uma horinha, está bem?
A Enfermeira de Branco sai de cena. Rogo-lhe pragas dentro da cabeça.
Passado uma horinha entra em cena novamente. Traz-me uma garrafa de litro e meio selada e um copo. Pousa-os na mesinha ao meu lado e diz-me com o dedinho indicador apontado para o tecto: Não beba muito.
Deito-lhe a língua de fora dentro da cabeça.
Sai de cena outra vez. Eu e a garrafa de litro e meio entreolhamo-nos timidamente.
De seguida apercebo-me de que não vou conseguir abrir a garrafa com nenhuma das mãos: uma está muito ocupada com o soro fisiológico e a outra anda um bocado atrofiada por causa das análises de sangue. Nesse momento ocorreu-me chamar a enfermeira, mas depois cresceram-me tantas coisas na boca, que agarrei a garrafa pelo pescoço e abri-a com os dentes. Matei a sede convulsivamente com um meio-sorriso nos lábios. E depois chamei a Enfermeira de Branco, que me apresentou à Arrastadeira.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Pós-operatório
Digo-vos uma coisa: Não é mau ser operado ao joelho. Eu, na verdade, até gosto.
Estou em casa há seis dias e um dos momentos mais activos das minhas manhãs consiste em levantar-me da cama, ir até à sala, sentar-me no sofá e pousar a perna direita na cadeira em frente. De resto, as actividades variam consoante o dia: como bolachas, vejo televisão, leio, escrevo, como chocolates, faço Sudoku, vejo um filme, adormeço a ler ou a ver a BBC ou a fazer Sudoku. As pessoas telefonam-me, preocupadas e disponíveis (às vezes, acordam-me). Algumas trazem-me chocolates, flores, queques, livros, sopas, revistas, séries de televisão.
O homem ilimitado cuida muito, esforça-se. Lava a loiça e a roupa, telefona-me do supermercado para saber o que quero jantar, actualiza o computador e o iPad, não quer que me falte nada. Ando a ver várias séries da BBC e já escolhi os filmes que vou ver durante a semana. Na sexta acabei de ler os contos do Kazuo Ishiguro e já vou a meio do Lord of the Flies, a vida avança.
Além disso, apesar de as canadianas serem mal-jeitosas e não condizerem com as minhas saias, até gosto de as passear pela rua, porque as pessoas olham para mim com interesse e compaixão.
Bom, é evidente que nem tudo são rosas: demoro, por exemplo, 15 minutos a ir à casa de banho e só consigo levar uma coisa de cada vez para a mesa-de-jantar, o que é desagradável quando a pessoa tem fome (primeiro o prato de sopa, depois o pão, depois o queijo, depois os talheres), mas também não tenho propriamente pressa de despachar as poucas tarefas que realizo durante o dia.
Admito que também me dói o joelho mas, fora isso, a vida não é nada injusta e eu aturo muito bem esta maleita, porque gosto muito de mimos e, sinceramente, não me apetece nada trabalhar.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
O meu joelho direito
O meu joelho direito passa a vida a queixar-se. Nunca está contente com o tempo nem com as pessoas, resmunga muito por isto e por aquilo, parece um daqueles homens muito velhos e doentes que estão sempre a lembrar os mais novos que também eles um dia serão muito velhos e doentes.
Eu nunca liguei muito às queixas do meu joelho direito, mas ouvia-as com um dos meus ouvidos e sabia bem do seu mal.
Certo dia (na passada terça-feira, 20 de Setembro), passei o dia e a noite num hospital com tectos baixos e pessoas espadaúdas que vestiam toucas ridículas. Depois de uma breve história que envolveu personagens como a Enfermeira de Branco, o Médico, a Anestesia Geral, o Soro Fisiológico e a Arrastadeira, o meu joelho direito é agora outro: tem três furos no rosto e o dobro do tamanho.
O Médico diz que o meu joelho direito nasceu muito torto e que agora se pôs direito, como um homem bom. (Uma espécie de final feliz.)
Vim para a casa com um joelho direito desconhecido, escondido atrás de um curativo e de um saco de gelo. Já não lhe ouço as queixas de homem velho e doente, porque o meu joelho direito deixou de falar, calou-se para sempre; está para aqui deitado, túrgido e arroxeado como um recém-nascido.
Não gosto muito dos três furinhos.
E sinto-me só.
Saudades do meu homem muito velho e doente.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
A Avó
Sétimo dia.
A Avó morreu no dia da Ascensão de Cristo.
Eu estava na Eslovénia, um país de florestas imaginadas, e a notícia passou por mim como um unicórnio branco, um ser desconhecido, irreal, e na minha cabeça morava agora o silêncio estranho de uma casa vazia.
A Avó não morreria nunca.
Eu estava convencida de que a Avó não morreria nunca, de que o seu coração era mais forte do que os outros, porque o coração da Avó era, de facto, mais forte do que os outros.
Primeira verdade: A Avó não foi uma avó para mim.
Sim, foi uma avó para mim, é evidente que foi uma avó para mim. Mas não uma avó como as outras. Não uma avó que me levasse à praia, que me ajeitasse o vestido nos dias de festa, que me desse rebuçados por baixo da mesa, que me ensinasse a tabuada. Não essa avó.
Uma outra avó.
Eu digo Avó e não a minha Avó. Foi a Avó que me ensinou a falar assim.
Dizia-me: Não precisas de dizer o meu pai ou a minha mãe. Toda a gente sabe que o pai e a mãe são o teu pai e a tua mãe.
Uma avó que gostava de falar sobre literatura, sobre língua portuguesa, sobre história e geografia, sobre viagens. Que me oferecia enciclopédias e colecções de contos tradicionais, edições especiais da Peregrinação, d'Os Lusíadas. Apertava o cabelo num carrapito, bebia espumante ao almoço, falava como quem escreve: a sintaxe correcta, um adjectivo inesperado, um advérbio de modo. Frases que eram o essencial. Por vezes até meia frase, meia palavra, meia sílaba.
Para bom entendedor.
Neste 7.º dia, lembro-me de certos dias, de certos episódios, de certas frases.
De uma frase:
Um dia, ainda este ano, acompanhou-me até à porta de sua casa e despediu-se de mim com uma frase. A sua frase não foi: "Boa viagem.", não foi: "Volta sempre.".
A avó não dizia o que os outros dizem.
A sua frase foi: "Continua assim: uma mulher vertical."
Um adjectivo inesperado, meia frase, para bom entendedor. Corria então o mês de Fevereiro e a avó não morreria nunca, porque o seu coração era mais forte do que os outros.
Parti para outra terra com aquele adjectivo inesperado ao colo, não sou grande entendedora. Além de ser torta e não vertical, nesse dia tinha pintado as unhas de cor‑de‑rosa choque, uma cor absurda para uma mulher vertical. Tenho a certeza de que a avó não gostava de cor-de-rosa choque, especialmente nas unhas, ainda que nunca mo tenha dito.
A Avó.
Não era uma avó como as outras. Não era uma pessoa como as outras. Não era um coração como os outros. Dizia uma frase, meia frase, e eu ficava a pensar em adjectivos inesperados, em escritores portugueses, em contos tradicionais.
Morreu no dia da Ascensão de Cristo.
Uma espécie de milagre.
Segunda verdade:
Eu não acredito em Deus. Eu acho que não acredito em Deus.
A Avó sabia disto, ainda que eu nunca lho tenha dito, e celebrou o meu casamento como se eu tivesse casado pela igreja, com toda a fé, toda a comunhão.
Uma outra avó.
Que dizia o essencial. Que nem sempre foi entendida, que nem sempre soube entender. Que via um pouco mais além do que os outros, para lá do cor-de-rosa choque da vida.
Que sabia ser e estar como outros não sabem ser nem estar, como eu não sei ser nem estar, como ninguém sabe.
Escrevi-lhe um postal que nunca chegou a ler. Um postal que dizia pouco para não cansar a vista nem o coração. Um postal na casa vazia.
Eu não vou à missa do sétimo dia, mas é como se fosse.
A Avó morreu no dia da Ascensão de Cristo.
E eu tenho a certeza absoluta de que encontrou o Avô no Céu.
Eu estava na Eslovénia, um país de florestas imaginadas, e a notícia passou por mim como um unicórnio branco, um ser desconhecido, irreal, e na minha cabeça morava agora o silêncio estranho de uma casa vazia.
A Avó não morreria nunca.
Eu estava convencida de que a Avó não morreria nunca, de que o seu coração era mais forte do que os outros, porque o coração da Avó era, de facto, mais forte do que os outros.
Primeira verdade: A Avó não foi uma avó para mim.
Sim, foi uma avó para mim, é evidente que foi uma avó para mim. Mas não uma avó como as outras. Não uma avó que me levasse à praia, que me ajeitasse o vestido nos dias de festa, que me desse rebuçados por baixo da mesa, que me ensinasse a tabuada. Não essa avó.
Uma outra avó.
Eu digo Avó e não a minha Avó. Foi a Avó que me ensinou a falar assim.
Dizia-me: Não precisas de dizer o meu pai ou a minha mãe. Toda a gente sabe que o pai e a mãe são o teu pai e a tua mãe.
Uma avó que gostava de falar sobre literatura, sobre língua portuguesa, sobre história e geografia, sobre viagens. Que me oferecia enciclopédias e colecções de contos tradicionais, edições especiais da Peregrinação, d'Os Lusíadas. Apertava o cabelo num carrapito, bebia espumante ao almoço, falava como quem escreve: a sintaxe correcta, um adjectivo inesperado, um advérbio de modo. Frases que eram o essencial. Por vezes até meia frase, meia palavra, meia sílaba.
Para bom entendedor.
Neste 7.º dia, lembro-me de certos dias, de certos episódios, de certas frases.
De uma frase:
Um dia, ainda este ano, acompanhou-me até à porta de sua casa e despediu-se de mim com uma frase. A sua frase não foi: "Boa viagem.", não foi: "Volta sempre.".
A avó não dizia o que os outros dizem.
A sua frase foi: "Continua assim: uma mulher vertical."
Um adjectivo inesperado, meia frase, para bom entendedor. Corria então o mês de Fevereiro e a avó não morreria nunca, porque o seu coração era mais forte do que os outros.
Parti para outra terra com aquele adjectivo inesperado ao colo, não sou grande entendedora. Além de ser torta e não vertical, nesse dia tinha pintado as unhas de cor‑de‑rosa choque, uma cor absurda para uma mulher vertical. Tenho a certeza de que a avó não gostava de cor-de-rosa choque, especialmente nas unhas, ainda que nunca mo tenha dito.
A Avó.
Não era uma avó como as outras. Não era uma pessoa como as outras. Não era um coração como os outros. Dizia uma frase, meia frase, e eu ficava a pensar em adjectivos inesperados, em escritores portugueses, em contos tradicionais.
Morreu no dia da Ascensão de Cristo.
Uma espécie de milagre.
Segunda verdade:
Eu não acredito em Deus. Eu acho que não acredito em Deus.
A Avó sabia disto, ainda que eu nunca lho tenha dito, e celebrou o meu casamento como se eu tivesse casado pela igreja, com toda a fé, toda a comunhão.
Uma outra avó.
Que dizia o essencial. Que nem sempre foi entendida, que nem sempre soube entender. Que via um pouco mais além do que os outros, para lá do cor-de-rosa choque da vida.
Que sabia ser e estar como outros não sabem ser nem estar, como eu não sei ser nem estar, como ninguém sabe.
Escrevi-lhe um postal que nunca chegou a ler. Um postal que dizia pouco para não cansar a vista nem o coração. Um postal na casa vazia.
Eu não vou à missa do sétimo dia, mas é como se fosse.
A Avó morreu no dia da Ascensão de Cristo.
E eu tenho a certeza absoluta de que encontrou o Avô no Céu.
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