terça-feira, 3 de agosto de 2010

A vingança da mulher na casa dos vinte

Uma mulher na casa dos vinte chegou à conclusão de que o mundo se virou contra ela pelo simples facto de as nuvens, que ainda há pouco eram impossivelmente brancas como nos quadros de Magritte, serem agora cinzentas como os velhos. O facto de as nuvens serem agora cinzentas como os velhos estragava o dia à mulher na casa dos vinte. E isto por diversas razões:
Primeira razão: a mulher na casa dos vinte estava de bicicleta.
Segunda razão: a mulher na casa dos vinte estava a caminho de uma sessão de ginástica ao ar livre.
Terceira razão: a mulher na casa dos vinte não tinha trazido um casaco.
Ora, na cabeça da mulher na casa dos vinte, a qual trazia um capacete redondo como o mundo injusto, o mundo só podia ter-se virado contra ela.
Na cabeça das mulheres na casa dos vinte, o mundo é, tal como elas, uma mulher na casa dos vinte e vira-se, tal como elas, contra as outras mulheres.
(As mulheres na casa dos vinte passam o tempo a ver o seu reflexo nas coisas e nos outros: o mundo inteiro é uma reprodução do seu corpo e da sua cabeça redonda como o mundo injusto.)
A mulher na casa dos vinte decidiu que, para se vingar do mundo injusto e redondo como o seu capacete, ia sentar-se em frente à televisão e ver, de seguida, todos os episódios da quarta temporada das Donas de Casa Desesperadas.
(As Donas de Casa Desesperadas são uma série interessantíssima, precisamente porque as protagonistas são mulheres na casa dos quarenta e não mulheres na casa dos vinte.)
A mulher na casa dos vinte pensava em tudo isto (no mundo que se virou contra ela, nas nuvens cinzentas como os velhos, nas Donas de Casa Desesperadas, nas mulheres na casa dos quarenta, no seu casaco e na sessão de ginástica ao ar livre) enquanto pedalava a caminho da sua televisão, a cabeça enfiada dentro do capacete redondo como o mundo injusto.
De repente, sentia-se francamente mais animada.
Não com a perspectiva de ver, ainda hoje, todos os episódios da quarta temporada das Donas de Casa Desesperadas. Mas com a perspectiva de se tornar uma pessoa mais interessante com a idade.
As mulheres na casa dos vinte são impossíveis como os quadros de Magritte. E ainda mais enfadonhas do que as nuvens desta cidade, as quais são cinzentas (como os velhos) e injustas (como o mundo).

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Da Sinonímia

A Sinonímia era uma menina alegre, o que não quer dizer que fosse feliz ou afortunada. Na verdade, tivera uma infância triste, e não propriamente uma infância dura ou fúnebre. A Sinonímia sorria muito porque era nervosa, o que não quer dizer que fosse agitada ou enérgica. Por causa disso ou apesar disso, a Sinonímia comia muito, o que não queria dizer que dilacerasse a comida ou desfrutasse dela. A Sinonímia era feia, o que não quer dizer que fosse repugnante, era só feia. Usava um par de óculos monumental e não sumptuoso ou magnífico. A Sinonímia não era boa aluna, o que não quer dizer que fosse má. Era uma menina muito preguiçosa, o que não significa que fosse lenta ou frouxa, pelo contrário: era veloz e activa. A Sinonímia aprendeu a tocar piano, o que não quer dizer que compreendesse alguma coisa de música. A Sinonímia não fazia propriamente amigos, o que não quer dizer que a Sinonímia não fosse uma pessoa amigável. No entanto, era uma pessoa apoucada, o que não significa que fosse estúpida. Falava muito, o que não quer dizer que conversasse. Tendia a ser uma pessoa compreensiva, o que não quer dizer que fosse inteligente. A Sinonímia era, como todas as outras pessoas, única.
O que não quer dizer que fosse excepcional ou incomparável. Pelo contrário.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Olha, este blogue morreu. - Parte II

...

Leitor 2 – Mas as pessoas podiam deixar de cá vir e pronto.
Leitor 1 – Pois podiam.
Leitor 2 – Aliás, nem percebo como é que continuam a vir, se não se passa nada aqui.
Leitor 1 – Pois, mas já sabes como são os leitores... Afeiçoam-se!
Leitor 2 – Ao blogue?
Leitor 1 – Não, ao sapo.
Leitor 2 – Os leitores afeiçoaram-se ao sapo?
Leitor 1 – Claro. Só ele é que mantém este blogue a mexer.
Leitor 2 – Bem, nesse caso, o sapo deve estar todo contente.
Leitor 1 – Pois deve. Toda a gente o mima.
Leitor 2 – Está mais gordo que eu sei lá.
Leitor 1 – Pois está.
Leitor 2 – A morte de uns é a fartura de outros.
Leitor 1 – Credo! Isso é algum ditado?
Leitor 2 – Não, acho que não.
Leitor 1 – Achas que o sapo está contente com a morte do blogue?
Leitor 2 – Então, não se vê logo?!
Leitor 1 – Opá! Tu queres ver que foi o sapo que matou o blogue?
Leitor 2 – Olha, se calhar foi.
Leitor 1 – Achas?!
Leitor 2 – Acho. Os sapos são do piorio.
Leitor 1 – Mas este sapo é um príncipe!
Leitor 2 – É?
Leitor 1 – É. Está lá escrito. É um príncipe encantado.
Leitor 2 – Então ainda pior. Os monarcas são completamente doidos.
Leitor 1 – Mas que motivo teria o príncipe encantado para matar o blogue?
Leitor 2 – Não sei. Se calhar queria a atenção dos leitores.
Leitor 1 – Ou se calhar estava deprimido.
Leitor 2 – Se calhar.
Leitor 1 – Ou então com fome.
Leitor 2 – Pois. Queres ver que o sapo comeu o blogue?
Leitor 1 – Olha, é bem possível.
Leitor 2 – Pois é...
Leitor 1 – ...
Leitor 2 – Cabrão do sapo.
Leitor 1 – Podes crer.
Leitor 2 – Então, e agora?
Leitor 1 – Agora o quê?
Leitor 2 – Temos de fazer alguma coisa!
Leitor 1 – Pois temos.
Leitor 2 – Mas o quê?
Leitor 1 – Olha, eu vou continuar a dar de comida ao sapo.
Leitor 2 – O quê?! Mas o sapo comeu o blogue.
Leitor 1 – Pois comeu. Estava com fome, coitadinho! Temos de alimentar o sapo.
Leitor 2 – Não! Nós devíamos era matar o sapo!
Leitor 1 – Matar o sapo?! Porquê?!
Leitor 2 – Porque comeu o blogue.
Leitor 1 – Bolas, também não é preciso matar o sapo por causa disso.
Leitor 2 – Achas que não?
Leitor 1 – Claro que não! Coitadinho do sapo.
Leitor 2 – Então, e não tens pena do blogue?
Leitor 1 – Eu não! Que raio de blogue se deixa comer por um sapo?!
Leitor 2 – Sim, tens razão.
Leitor 1 – Era, no mínimo, um blogue fraquinho.
Leitor 2 – Pois era.
Leitor 1 – E, além disso, não dava de comer ao sapo.
Leitor 2 – Pois não.
Leitor 1 – ...
Leitor 2 – Cabrão do blogue.
Leitor 1 – Podes crer.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Olha, este blogue morreu. - Parte I

Leitor 1 – Olha, este blogue morreu.
Leitor 2 – O quê? Não me digas isso.
Leitor 1 – Ai, digo, digo.
Leitor 2 – A sério? Mas eu não dei por nada.
Leitor 1 – Não deste por nada?!
Leitor 2 - Não, não dei por nada. Achava que ele até estava com boa cara.
Leitor 1 – Como assim, com boa cara?!
Leitor 2 – Opá, com boa cara! Na última vez que o vi continuava com uma corzita saudável e até dizia umas coisinhas.
Leitor 1 – Até dizia umas coisinhas?! Há dois meses e um dia que este blogue não diz absolutamente nada.
Leitor 2 – A sério?! Não reparei…
Leitor 1 – Como é possível ver um blogue e não reparar que o tipo está morto?!
Leitor 2 – Opá, nesse dia estava cheio de pressa. Passei por ele, vi-o assim com os olhos muito abertos e parti do princípio de que estava vivo e de boa saúde. Mas afinal estava morto, coitado.
Leitor 1 - Pois estava.
Leitor 2 - Os peixes, quando morrem, também ficam assim, com os olhos escancarados.
Leitor 1 – E cheiram mal como tudo.
Leitor 2 - Quem? Os peixes?
Leitor 1 - Não, os blogues.
Leitor 2 - A sério? Mas o blogue não me cheirou mal.
Leitor 1 - Se calhar, não te aproximaste muito.
Leitor 2 – Pois não. Por acaso, até reparei que ele estava assim murxito, mas achei que podia estar só deprimido.
Leitor 1 – Pois podia.
Leitor 2 – Então, se calhar até estava.
Leitor 1 – Se calhar.
Leitor 2 – Nesse caso, pode não estar morto.
Leitor 1 - Pois, pode não estar morto. Mas também não está vivo.
Leitor 2 - Mas repara que o sapo aqui em baixo ainda mexe.
Leitor 1 – Mas isso é porque as pessoas lhe dão de comer.
Leitor 2 – A sério?!
Leitor 1 – Claro! Tu não dás de comer ao sapo?!
Leitor 2 – Eu não. Nem sabia que se podia dar de comer ao sapo.
Leitor 1 – Podes, claro. Vais lá com o rato, clicas e depois há assim uns mosquitos a voar que o sapo come.
Leitor 2 – E ele come mesmo?!
Leitor 1 – Come, pois. Lança uma língua super rápida.
Leitor 2 – A sério?!
Leitor 1 – A sério.
Leitor 2 – Que giro! Nunca tinha reparado. Então, os leitores vêm cá dar de comer ao sapo?
Leitor 1 – Vêm, claro. Não se faz mais nada neste blogue há dois meses e um dia.

(continua)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A rua segundo o cão do vizinho polaco

Não sei como é nas outras ruas, mas na minha rua vivem mais pessoas do que cães. Ando mais na minha rua do que nas outras. Quando fico pela minha rua, não tenho de usar trela. Quando ando noutras ruas, tenho. Gosto mais de andar sem trela, por isso gosto mais de ficar na minha rua do que andar nas outras ruas. Gosto mais de cães do que de pessoas, por isso tenho pena que haja mais pessoas do que cães na minha rua. Vou à rua três vezes por dia. Gosto muito de ir à rua. Outros cães vão à rua mais vezes por dia, mas a maioria vai à rua duas vezes. Há outros cães que só vão uma vez. Por isso, não me queixo. O meu dono vai à rua mais vezes do que eu. Algumas vezes sai com a minha dona de carro, mas normalmente sai sozinho e desce a rua a pé. Não sei para onde vai. Saio três vezes com o meu dono. É raro sair com a minha dona. Só saio com a minha dona, quando o meu dono não está. O meu dono não é daqui, é de outro sítio. A minha dona é daqui. Eu também sou daqui, acho. Os meus donos têm filhos. As pessoas têm mais filhos do que os cães, parece-me. Também têm mais filhos do que cães. O meu dono não me deixa parar na rua para falar com outros cães. Também não me deixa cheirá-los nem lambê-los. No entanto, pára muitas vezes para falar com outras pessoas, mas não as cheira nem as lambe. Não sei porquê. Também não sei por que não me deixa falar com os outros cães. Os meus dias preferidos são as segundas-feiras e as quintas-feiras, porque às segundas-feiras e às quintas-feiras as pessoas põem os sacos do lixo na rua e há muitos cheiros misteriosos no ar. O meu dono deixa-me olhar para os sacos e cheirá-los, mas não me deixa abri-los. Gostava de poder abrir os sacos do lixo e provar todas as coisas misteriosas que vivem dentro deles. Os sacos têm três cores: branco, azul e amarelo. Os sacos brancos guardam mais cheiros do que os sacos amarelos e azuis. Normalmente os sacos amarelos trazem jornais e caixas de cartão. Os sacos azuis trazem muitas embalagens de muitos formatos e feitios. Não percebo a razão de ser destes sacos nem por que motivo os não posso abrir. Os sacos desaparecem às terças-feiras e às sextas-feiras de manhã. Por vezes, eu e o meu dono encontramos o enorme camião do lixo no nosso passeio matinal. Há duas pessoas que vêm agarradas à traseira do camião. São elas que recolhem o lixo. Essas pessoas e o camião fazem muito barulho. Não gosto do camião do lixo nem das pessoas do lixo, tenho medo deles. No geral, também tenho medo dos carros, mas só quando os vejo de fora. Não tenho medo de andar de carro, até gosto de ver as outras ruas através da janela, as outras pessoas, os outros cães. Por vezes também vejo gatos às janelas das casas, mas não na minha rua. Gosto quando o meu dono abre a janela do carro e me deixa morder o ar. Gosto de correr pelas escadas do prédio. O meu dono nunca é tão rápido como eu a subir as escadas nem a descê-las. Gosto de comer. Tenho uma caixa para a comida e outra para a água. Também tenho uma cama e muitos brinquedos. O meu brinquedo preferido é uma bola que faz barulho quando a mordo. Gosto do meu dono e da minha dona. Também gosto da minha rua. Principalmente às segundas-feiras e às quintas-feiras. Sonho muitas vezes com os sacos do lixo.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Ana Bacalhau



Simpatizaríamos com a Ana Bacalhau, se ela, por exemplo, não cantasse. Se não tivesse uma voz arremessada e não irrompesse pelas casas e pelos ouvidos, chamando por nós. Se não fosse tão circular nem consolada como as coisas verdadeiramente completas. No fundo e à superfície, simpatizaríamos com a Ana Bacalhau, se ela fosse outra pessoa: por exemplo, uma mulher taciturna como um cemitério ou uma criança com necessidades especiais. Uma coitadinha, por exemplo. Ou então uma mulher voluntariosa que ajudasse os coitadinhos. Mas, agora e objectivamente, vendo e ouvindo a pessoa que Ana Bacalhau aparenta ser, não. Não simpatizamos com a Ana Bacalhau, nem com a sua voz esmerada. Estamos em crer que a voz da Ana Bacalhau é um verdadeiro insulto a todas as vozes de todas as outras mulheres e tememos por elas, por nós e pelos respectivos maridos, pelas respectivas casas. Depois da Ana Bacalhau, nada mais soa como dantes e as vozes que outrora eram belas são agora grasnos, guinchos e uivos. Por esta razão, rogamos muitas pragas à Ana Bacalhau e ao tom pérfido e inteligente da sua voz, atiramos-lhe pedras enraivecidas dentro das nossas cabeças e desejamos secretamente que um dia, ao partir na sua longa viagem para Ítaca ou para a Índia ou para o Brasil, caia borda fora da caravela ou do iate ou do veleiro e se transforme em sereia por efeito de uma estranha e momentânea reacção alérgica a cloreto de sódio e seja acolhida por Neptuno e este a leve para a Ilha dos Amores, onde a mulher-agora-sereia se veja obrigada a prostituir o corpo, a alma, o muco e a voz por muitos anos. Desejamos também que, por inveja do seu canto ardiloso, as outras ninfas a matem durante o sono, que atirem o seu corpo ao mar e que Hades a receba no reino dos mortos, lhe arranque a voz e as tripas e a envie muda e compungida de regresso à vida, qual pequena sereia repetida, mas muito mais ridícula, muito mais feia, muito mais burra. Desejamos também que Zeus apague a memória dos homens e estes se esqueçam daquele canto da Ilha dos Amores que todos amaram nos sonhos mas nunca sonharam escutar, que a Ana Bacalhau viva calada e contristada uma longa vida sem música nem sentimento, cheia de dores nas costas e nos dentes, lavrando a terra e comendo batatas cozidas. Desejamos tudo isto enquanto ouvimos religiosamente os Deolinda. Enquanto as casas saem de si próprias para a rua, alvoroçadas. Todos andam apaixonados pela Ana Bacalhau, pela sua voz imaginada que todos continuarão a amar depois do tempo. Todos, menos nós.
Que caia borda fora e regresse feia e caladinha. Para bem dos homens, das mulheres e das nossas casas.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A casa (VII)

Nunca tinha estado tanto tempo longe de casa, por isso, quando abriu a porta, surpreendeu-a o odor intenso da noite imposta, o som real e aturado do tempo nas paredes e nos tecidos da sala, como se a ausência fosse um corpo que ocupasse o seu próprio espaço, alimentando-se de si própria, do pó do parapeito, das madeiras mais-que-perfeitas. Correu os cortinados e o corpo do tempo ergueu-se das coisas, prolongou-se exponencial pela casa. Abriu as janelas da sala, as três janelas da sala. O corpo do tempo era feito de pequeníssimas partículas que emitiam luz como estrelas minúsculas. Essas estrelas morriam no primeiro contacto com o chão ou com o tecto ou com as mãos que estendíamos para elas. O corpo do tempo era frágil. Abriu as portas e as janelas dos quartos. Os seus passos eram estranhos à casa, pesavam sobre ela como relógios de cuco. As paredes espreguiçavam-se, contrariadas. Regressava às coisas com as mãos. Aos braços de napa do sofá, ao ferro forjado do porta-revistas, às rugas da tapeçaria, às arestas da casa dos livros, aos armários ocos da cozinha, à imagem reflectida no espelho, ao colo profundo do quarto, às mãos frias do azulejo. Tocava nos objectos com a ponta dos dedos, dedilhando-os, como se deles saíssem música. Nunca tinha estado tanto tempo longe da casa. Tão longe do tempo e de casa.
Sentou-se na cadeira de baloiço.
E baloiçou-se. Vagarosa. Absorta.
À espera que a casa voltasse.