quinta-feira, 29 de julho de 2010

Olha, este blogue morreu. - Parte I

Leitor 1 – Olha, este blogue morreu.
Leitor 2 – O quê? Não me digas isso.
Leitor 1 – Ai, digo, digo.
Leitor 2 – A sério? Mas eu não dei por nada.
Leitor 1 – Não deste por nada?!
Leitor 2 - Não, não dei por nada. Achava que ele até estava com boa cara.
Leitor 1 – Como assim, com boa cara?!
Leitor 2 – Opá, com boa cara! Na última vez que o vi continuava com uma corzita saudável e até dizia umas coisinhas.
Leitor 1 – Até dizia umas coisinhas?! Há dois meses e um dia que este blogue não diz absolutamente nada.
Leitor 2 – A sério?! Não reparei…
Leitor 1 – Como é possível ver um blogue e não reparar que o tipo está morto?!
Leitor 2 – Opá, nesse dia estava cheio de pressa. Passei por ele, vi-o assim com os olhos muito abertos e parti do princípio de que estava vivo e de boa saúde. Mas afinal estava morto, coitado.
Leitor 1 - Pois estava.
Leitor 2 - Os peixes, quando morrem, também ficam assim, com os olhos escancarados.
Leitor 1 – E cheiram mal como tudo.
Leitor 2 - Quem? Os peixes?
Leitor 1 - Não, os blogues.
Leitor 2 - A sério? Mas o blogue não me cheirou mal.
Leitor 1 - Se calhar, não te aproximaste muito.
Leitor 2 – Pois não. Por acaso, até reparei que ele estava assim murxito, mas achei que podia estar só deprimido.
Leitor 1 – Pois podia.
Leitor 2 – Então, se calhar até estava.
Leitor 1 – Se calhar.
Leitor 2 – Nesse caso, pode não estar morto.
Leitor 1 - Pois, pode não estar morto. Mas também não está vivo.
Leitor 2 - Mas repara que o sapo aqui em baixo ainda mexe.
Leitor 1 – Mas isso é porque as pessoas lhe dão de comer.
Leitor 2 – A sério?!
Leitor 1 – Claro! Tu não dás de comer ao sapo?!
Leitor 2 – Eu não. Nem sabia que se podia dar de comer ao sapo.
Leitor 1 – Podes, claro. Vais lá com o rato, clicas e depois há assim uns mosquitos a voar que o sapo come.
Leitor 2 – E ele come mesmo?!
Leitor 1 – Come, pois. Lança uma língua super rápida.
Leitor 2 – A sério?!
Leitor 1 – A sério.
Leitor 2 – Que giro! Nunca tinha reparado. Então, os leitores vêm cá dar de comer ao sapo?
Leitor 1 – Vêm, claro. Não se faz mais nada neste blogue há dois meses e um dia.

(continua)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A rua segundo o cão do vizinho polaco

Não sei como é nas outras ruas, mas na minha rua vivem mais pessoas do que cães. Ando mais na minha rua do que nas outras. Quando fico pela minha rua, não tenho de usar trela. Quando ando noutras ruas, tenho. Gosto mais de andar sem trela, por isso gosto mais de ficar na minha rua do que andar nas outras ruas. Gosto mais de cães do que de pessoas, por isso tenho pena que haja mais pessoas do que cães na minha rua. Vou à rua três vezes por dia. Gosto muito de ir à rua. Outros cães vão à rua mais vezes por dia, mas a maioria vai à rua duas vezes. Há outros cães que só vão uma vez. Por isso, não me queixo. O meu dono vai à rua mais vezes do que eu. Algumas vezes sai com a minha dona de carro, mas normalmente sai sozinho e desce a rua a pé. Não sei para onde vai. Saio três vezes com o meu dono. É raro sair com a minha dona. Só saio com a minha dona, quando o meu dono não está. O meu dono não é daqui, é de outro sítio. A minha dona é daqui. Eu também sou daqui, acho. Os meus donos têm filhos. As pessoas têm mais filhos do que os cães, parece-me. Também têm mais filhos do que cães. O meu dono não me deixa parar na rua para falar com outros cães. Também não me deixa cheirá-los nem lambê-los. No entanto, pára muitas vezes para falar com outras pessoas, mas não as cheira nem as lambe. Não sei porquê. Também não sei por que não me deixa falar com os outros cães. Os meus dias preferidos são as segundas-feiras e as quintas-feiras, porque às segundas-feiras e às quintas-feiras as pessoas põem os sacos do lixo na rua e há muitos cheiros misteriosos no ar. O meu dono deixa-me olhar para os sacos e cheirá-los, mas não me deixa abri-los. Gostava de poder abrir os sacos do lixo e provar todas as coisas misteriosas que vivem dentro deles. Os sacos têm três cores: branco, azul e amarelo. Os sacos brancos guardam mais cheiros do que os sacos amarelos e azuis. Normalmente os sacos amarelos trazem jornais e caixas de cartão. Os sacos azuis trazem muitas embalagens de muitos formatos e feitios. Não percebo a razão de ser destes sacos nem por que motivo os não posso abrir. Os sacos desaparecem às terças-feiras e às sextas-feiras de manhã. Por vezes, eu e o meu dono encontramos o enorme camião do lixo no nosso passeio matinal. Há duas pessoas que vêm agarradas à traseira do camião. São elas que recolhem o lixo. Essas pessoas e o camião fazem muito barulho. Não gosto do camião do lixo nem das pessoas do lixo, tenho medo deles. No geral, também tenho medo dos carros, mas só quando os vejo de fora. Não tenho medo de andar de carro, até gosto de ver as outras ruas através da janela, as outras pessoas, os outros cães. Por vezes também vejo gatos às janelas das casas, mas não na minha rua. Gosto quando o meu dono abre a janela do carro e me deixa morder o ar. Gosto de correr pelas escadas do prédio. O meu dono nunca é tão rápido como eu a subir as escadas nem a descê-las. Gosto de comer. Tenho uma caixa para a comida e outra para a água. Também tenho uma cama e muitos brinquedos. O meu brinquedo preferido é uma bola que faz barulho quando a mordo. Gosto do meu dono e da minha dona. Também gosto da minha rua. Principalmente às segundas-feiras e às quintas-feiras. Sonho muitas vezes com os sacos do lixo.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Ana Bacalhau



Simpatizaríamos com a Ana Bacalhau, se ela, por exemplo, não cantasse. Se não tivesse uma voz arremessada e não irrompesse pelas casas e pelos ouvidos, chamando por nós. Se não fosse tão circular nem consolada como as coisas verdadeiramente completas. No fundo e à superfície, simpatizaríamos com a Ana Bacalhau, se ela fosse outra pessoa: por exemplo, uma mulher taciturna como um cemitério ou uma criança com necessidades especiais. Uma coitadinha, por exemplo. Ou então uma mulher voluntariosa que ajudasse os coitadinhos. Mas, agora e objectivamente, vendo e ouvindo a pessoa que Ana Bacalhau aparenta ser, não. Não simpatizamos com a Ana Bacalhau, nem com a sua voz esmerada. Estamos em crer que a voz da Ana Bacalhau é um verdadeiro insulto a todas as vozes de todas as outras mulheres e tememos por elas, por nós e pelos respectivos maridos, pelas respectivas casas. Depois da Ana Bacalhau, nada mais soa como dantes e as vozes que outrora eram belas são agora grasnos, guinchos e uivos. Por esta razão, rogamos muitas pragas à Ana Bacalhau e ao tom pérfido e inteligente da sua voz, atiramos-lhe pedras enraivecidas dentro das nossas cabeças e desejamos secretamente que um dia, ao partir na sua longa viagem para Ítaca ou para a Índia ou para o Brasil, caia borda fora da caravela ou do iate ou do veleiro e se transforme em sereia por efeito de uma estranha e momentânea reacção alérgica a cloreto de sódio e seja acolhida por Neptuno e este a leve para a Ilha dos Amores, onde a mulher-agora-sereia se veja obrigada a prostituir o corpo, a alma, o muco e a voz por muitos anos. Desejamos também que, por inveja do seu canto ardiloso, as outras ninfas a matem durante o sono, que atirem o seu corpo ao mar e que Hades a receba no reino dos mortos, lhe arranque a voz e as tripas e a envie muda e compungida de regresso à vida, qual pequena sereia repetida, mas muito mais ridícula, muito mais feia, muito mais burra. Desejamos também que Zeus apague a memória dos homens e estes se esqueçam daquele canto da Ilha dos Amores que todos amaram nos sonhos mas nunca sonharam escutar, que a Ana Bacalhau viva calada e contristada uma longa vida sem música nem sentimento, cheia de dores nas costas e nos dentes, lavrando a terra e comendo batatas cozidas. Desejamos tudo isto enquanto ouvimos religiosamente os Deolinda. Enquanto as casas saem de si próprias para a rua, alvoroçadas. Todos andam apaixonados pela Ana Bacalhau, pela sua voz imaginada que todos continuarão a amar depois do tempo. Todos, menos nós.
Que caia borda fora e regresse feia e caladinha. Para bem dos homens, das mulheres e das nossas casas.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A casa (VII)

Nunca tinha estado tanto tempo longe de casa, por isso, quando abriu a porta, surpreendeu-a o odor intenso da noite imposta, o som real e aturado do tempo nas paredes e nos tecidos da sala, como se a ausência fosse um corpo que ocupasse o seu próprio espaço, alimentando-se de si própria, do pó do parapeito, das madeiras mais-que-perfeitas. Correu os cortinados e o corpo do tempo ergueu-se das coisas, prolongou-se exponencial pela casa. Abriu as janelas da sala, as três janelas da sala. O corpo do tempo era feito de pequeníssimas partículas que emitiam luz como estrelas minúsculas. Essas estrelas morriam no primeiro contacto com o chão ou com o tecto ou com as mãos que estendíamos para elas. O corpo do tempo era frágil. Abriu as portas e as janelas dos quartos. Os seus passos eram estranhos à casa, pesavam sobre ela como relógios de cuco. As paredes espreguiçavam-se, contrariadas. Regressava às coisas com as mãos. Aos braços de napa do sofá, ao ferro forjado do porta-revistas, às rugas da tapeçaria, às arestas da casa dos livros, aos armários ocos da cozinha, à imagem reflectida no espelho, ao colo profundo do quarto, às mãos frias do azulejo. Tocava nos objectos com a ponta dos dedos, dedilhando-os, como se deles saíssem música. Nunca tinha estado tanto tempo longe da casa. Tão longe do tempo e de casa.
Sentou-se na cadeira de baloiço.
E baloiçou-se. Vagarosa. Absorta.
À espera que a casa voltasse.

sexta-feira, 19 de março de 2010

As cartas do pai parecem pautas de música

Para o melhor pai de todos.

O meu pai escreve-me cartas. São feitas de papel de verdade e vêm impecavelmente dobradas ao meio, como mapas de tesouros. As cartas do pai vêm dentro de envelopes de verdade que exibem selos de verdade e chegam às minhas mãos a meio da semana, misturadas com recortes de jornal. Rasgamos o envelope com os dedos ou então com os dentes ou então com uma tesoura ou com a ponta de uma caneta. Rasgamos o envelope de qualquer maneira. Lemos as cartas do pai antes de vermos as capas das revistas ou dos jornais que nos envia. Lemos as cartas do pai antes de tudo o resto. As cartas do pai demoram quatro páginas, as quais demoram todo o tempo do mundo. Cada página demora muitas letras. Cada letra é longa como uma semibreve. As cartas do pai parecem pautas de música, porque as letras são altas e delgadas como claves de sol e caminham ordeiras pelas páginas alvacentas. As cartas do pai parecem pautas de música, também porque têm o ritmo e o som de canções conhecidas. Contam-nos a história das horas e das pessoas, dos centros comerciais, da cidade de Lisboa, do fim-de-semana passado, do próximo fim-de-semana, das actividades da Dona Lina e da Dona Amélia, das peripécias do Dom Rodrigo, dos horários do filho que entretanto se fez pai. A letra do pai é atilada e traz adornos suaves nas pontas e nos acentos. Com as cartas do pai chegam outras histórias: recortes do Expresso, da Visão, da Revista Única, do Público, que são receitas de cozinha, entrevistas, faits divers de Hollywood, crónicas da Clara Ferreira Alves, reportagens sobre lugares desconhecidos no mundo. Não sabemos quanto tempo o pai se demora na escrita e nos seus recortes, quanto tempo se demora nos correios. Também não sabemos quanto tempo nos demoramos na leitura. Provavelmente todo o tempo do mundo, que é quanto demoram as quatro páginas. As cartas do pai viverão certamente mais tempo do que nós e, por isso, escondemo-las numa caixa que escondemos, por sua vez, na casinha dos livros. Faríamos o mesmo a outros mapas de tesouros. Nem sempre leio todos os artigos que o pai me envia, porque me falta o tempo ou o espaço ou outra dimensão qualquer. Também não respondo às cartas do pai. Provavelmente pelas mesmas razões. O pai escreve na mesma. Gostaria de ser melhor filha para merecer o melhor pai de todos, cujas cartas parecem pautas de músicas.

terça-feira, 16 de março de 2010

Conto infantil para adultos: Aladino e a lâmpada mágica

O senhor Aladino tinha sete ofícios. O seu primeiro ofício era ser marido. O segundo ofício era ser pai de três filhos. O terceiro ofício era dar aulas de história numa escola secundária. O quarto ofício era realizar projectos de reabilitação do património com o grupo de arqueologia da junta de freguesia. O quinto ofício era tocar cavaquinho no rancho folclórico. O sexto ofício era ser chefe de um clube do ambiente. O sétimo ofício era jogar Sudoku. No entanto, o senhor Aladino andava enfastiado, porque não tinha tempo para mais nada se não para os seus sete ofícios, que preenchiam a forma e o conteúdo dos dias, mas não a forma e o conteúdo da alma. O senhor Aladino tinha outros desejos. Por exemplo, atravessar o mundo num barco à vela e aprender a dançar o tango. Ora, certo dia, enquanto andava a exercer o seu quarto ofício no Castelo de Alcoutim, o senhor Aladino deu com uma candeia indiana muito misteriosa, porque tinha um corpo ligeiramente achatado e um pescoço muito comprido. Interessou-se, antes de mais, pela luz cintilante que o bronze espelhava, por isso acariciou a lâmpada, a qual se acendeu subitamente, pois tornou-se muito quente e da sua boca emergia agora uma nuvem opaca que foi ganhando a forma de homem. Esse homem era azul, mas em nada se assemelhava aos indígenas daquele filme chamado Avatar, porque não tinha um corpo atilado nem um rosto felino. Era obeso e azul. Esse homem tratou-o por mestre e apresentou-se como génio. Informou, de seguida, que o seu ofício era conceder três desejos a quem o libertasse e ficou à espera desses desejos. O senhor Aladino estava deveras confuso, pois não percebia qual a relação hierárquica entre um mestre e um génio. Queria perguntar ao génio quem mandava em quem, mas teve receio de que a sua pergunta fosse encarada como um dos três desejos, por isso ignorou a sua dúvida e dedicou-se aos seus pedidos. Em primeiro lugar, pediu saúde para toda a família, incluindo para si próprio. Em segundo lugar, pediu dinheiro para toda a família, incluindo para si próprio. E por último, em terceiro lugar, pediu sete vidas para si próprio, para poder dedicar cada uma delas a cada um dos seus sete ofícios e ter, assim, tempo para outras coisas que não os seus sete ofícios. Numa vida seria apenas professor de história e teria aulas de tango nos tempos livres. Noutra vida seria apenas chefe do clube do ambiente e viajaria pelo mundo no resto do tempo. Noutra vida passaria muito tempo a jogar Sudoku, mas também a ler romances e a ver televisão. O senhor Aladino nunca tinha tempo para ver televisão. O génio estalou os dedos e os três desejos realizaram-se. O senhor Aladino estava, de repente, em casa a pôr a loiça na máquina, porque, na sua primeira vida, o seu ofício era, tão somente, ser marido. Não tinha profissão nem filhos, por isso passava muito tempo na cozinha a arrumar a loiça ou a fazer o jantar para a mulher ou simplesmente a comer. Tinha saúde e dinheiro, tal como pedira ao génio. Andava de bicicleta pela vila e era afável com os vizinhos. No início, o senhor Aladino estava extremamente satisfeito com a sua vida de um só ofício, mas depois de muito dormir e descansar, não sabia o que fazer com o tempo que lhe sobrava. Começou então a comprar o jornal diariamente e passava horas no café a ler as notícias. Era formidável saber o que se passava no mundo. Mais tarde começou a apanhar o gosto pelo Sudoku que aparecia na última folha e especializou-se na resolução dessas tabelas. Mesmo assim, o senhor Aladino não tardou a aperceber-se de que não se sentia preenchido. Estava novamente enfastiado e decidiu arranjar uma nova actividade. Era chegada a hora de mudar de vida, pois tinha desejos que ainda gostaria de concretizar. Como ter filhos e aprender a tocar cavaquinho.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A casinha dos livros - Parte II

Entrou na casinha dos livros e esvaziou-a devagar. Tirava os livros um a um e não dois a dois nem três a três. O primeiro livro chamava-se As Naus. O segundo chamava-se Explicação dos Pássaros. O terceiro Memória de Elefante. Os livros de António Lobo Antunes estavam mais perto das mãos do que os outros. Não saberia explicar porquê, mas assim era. Talvez por isso tenham merecido mais atenção do que os outros. Tinha um pano na mão e com ele limpava o rosto dos livros, a lombada, as costas. Abria-os depois com imenso cuidado, como se neles morasse alguma folha seca ou uma pérola ou algum outro segredo. Lia a primeira frase ou a última frase ou outra frase qualquer. Contemplou demoradamente o rosto de António Lobo Antunes, um rosto antiquíssimo, diferente do actual, o cabelo ainda inteiro, um sorriso de pessoa feliz ou imbecil ou conformada e não o sorriso de um escritor presciente que tem um coração negro onde guarda um arado para revolver a alma. O António Lobo Antunes tinha sido um homem bonito. Lera algures que o António Lobo Antunes já não gostava de nenhuma das suas primeiras obras e isto encheu-a de sentimentos estranhos, quiçá, contraditórios, incompatíveis. Certamente, sentimentos incómodos, insólitos, intoleráveis e, por essa razão, esvaziou o quarto de António Lobo Antunes com menos amor do que antes. Atirou para o chão o Conhecimento do Inferno e até a primeira edição autografada do Auto dos Danados, que era, aliás, o único livro autografado que possuía, por não ter paciência nem entusiasmo para o coleccionismo. Era evidente que António Lobo Antunes se tinha transformado num homem feio. No entanto, escrevia cada vez melhor. Questionou-se sobre esta relação entre a beleza do corpo e a beleza da escrita. Não saberia dizer ao certo se a escrita roubava a beleza ao corpo, mas era provável que sim. Vagueia as prateleiras à procura de outros escritores. O Albert Camus, único autor frequentemente revisitado, também tinha sido um homem bonito e só não continuava a sê-lo hoje, porque morrera entretanto, há coisa de cinquenta anos. O José Eduardo Agualusa, por exemplo, também escrevia bem e era um homem bonito. Esta constatação apaziguava-a. O mesmo se passava com Paul Auster. Com Haruki Murakami. E até com o jovenzinho Paolo Giordiano, se bem que este não fosse grande escritor. Entrou outra vez na casinha dos livros, onde viviam, claramente, mais homens do que mulheres. Tirava os livros um a um e não dois a dois nem três a três. Não tinha pressa. Dedicava mais tempo a uns do que a outros. Nem todos os homens que viviam na casinha dos livros eram bonitos. Muitos deles, na verdade, eram muito feios e não interessariam ao menino Jesus, a começar por Truman Capote e a acabar em José Saramago, passando ainda por George Orwell e Thomas Mann. Curiosamente, quase todas as mulheres que viviam na casinha dos livros eram bonitas ou, pelo menos, graciosas em algum aspecto do corpo. Veja-se o nariz de Virgina Woolf, as maçãs do rosto de Lídia Jorge, o sorriso de Toni Morrison, os olhos de Herta Müller, as sobrancelhas de Sophia de Mello Breyner. Naquele domingo arrumava a casinha dos livros e esforçava-se por visualizar esses outros rostos dos livros. O Dostoievski tinha uma barba austera. O Carlos Ruiz Zafón era careca. Achava piada a homens barbudos e também a homens carecas. Apercebia-se agora mesmo de que não conhecia a cara de muitos daqueles homens e mulheres que viviam na sua casa. Perguntava-se: Que rosto teria Roald Dahl? Ou F. Scott Fitzgerald? Ou Nikolai Gogol? Ou Mario Vargas Llosa? Estas perguntas assentavam nela como o pó nos livros, mas continuou a esvaziar a sua casinha, como se nada mais naquele domingo importunasse os ossinhos das suas mãos. Estava ciente de que todos aqueles livros soltavam bichos estranhos pela casa e teve medo desses corpos sem cabeça. De repente, ao esvaziar uma das prateleiras menos exploradas, ocorreu na sua própria cabeça a descoberta de que possuía dois exemplares iguaizinhos do pequeníssimo livro de Gonçalo M. Tavares intitulado Água, cão, cavalo, cabeça. Este título trazia-lhe à memória o inesquecível livro do Camilo Castelo Branco Coração, Cabeça e Estômago, apesar de apenas a palavra cabeça se repetir nos títulos. Curiosamente, o livro duplicado ganhara, há uns anos, o Grande Prémio do Conto "Camilo Castelo Branco" . Talvez por isso o tivesse comprado duas vezes. Não sabe. Senta-se no chão, de frente para a casinha dos livros e de costas para o resto da casa. Pousa a seu lado o pano com que limpava os livros, cruza as pernas e lê um dos exemplares do pequeníssimo livro. Pela casa deambulam agora os tais corpos sem cabeça. Tem medo deles, mas nunca olha para trás. Gosta da cabeça de Gonçalo M. Tavares.

(continua)