quarta-feira, 1 de julho de 2009

Coração Independente Dourado

Gostaríamos de trazer pela mão um coração dourado.
Não um cão, não um papagaio, não um brinquedo nem uma criança.
Gostaríamos de trazer pela mão um coração dourado. Independente.
Maior do que o corpo, do que as portas das casas. Mais aberto do que as janelas.
Um coração impossível, flutuando no ar como uma nuvem. Como um balão.
Gostaríamos de trazer pela mão um coração independente dourado.
Para respirarmos mais alto. Mais profundo.
Mais ar, mais sentimento.
Um coração maior do que o corpo.
Para sermos mais humanos, mais transparentes.
E percorreríamos as ruas da cidade para que os outros vissem o nosso coração, sentissem o nosso pulsar.
Para que tocassem nos nossos ventrículos.
Bem que nós gostaríamos de percorrer a cidade trazendo pela mão aquele coração dourado. E partilhar todo aquele sangue, todo aquele amor, todo aquele engenho, para os quais nunca tivemos corpo nem alma nem tempo. Nem arte.

terça-feira, 23 de junho de 2009

A Forma e o Conteúdo

A Forma e o Conteúdo apanhavam juntos o autocarro para a escola e sentavam-se ao lado um do outro. Quando a Forma não ia à escola, o Conteúdo ficava triste. O mesmo se passava com a Forma, quando lhe faltava o Conteúdo. Davam-se bem.
Ora, um dia, estavam a Forma e o Conteúdo a ouvir uma música da Lisa Hannigan em casa da Forma, quando o Conteúdo disse à Forma:
- Amo-te.
A reacção da Forma foi estranha: agarrou no comando e desligou a aparelhagem de música. Depois voltou a ligá-la. Demorou-se com o comando porque queria pôr a mesma canção. A Lisa Hannigan regressou àquele espaço. E a Forma rebolou na direcção oposta ao Conteúdo.
Ele não se importou: gostava de ver a Forma rebolar.
O Conteúdo era profundo no sentimento. A Forma era mais pragmática, imaginava um beijo e não uma palavra. Coerente consigo própria, não disse nada.
O Conteúdo também não, embora por outros motivos. Tinha a consistência de uma nuvem: quando se mexia, os seus movimentos nasciam desagregados. A Forma pensava que, se o abraçasse, o Conteúdo ganharia mais consistência. Este pensamento agradava-a, por isso aumentou o volume da aparelhagem.
A certa altura, cerca de quatro minutos depois, a canção chegou ao fim.
Acabava-se o pretexto, portanto despediram-se.
O Conteúdo pôs a mochila às costas e foi-se embora.
A Forma encheu o peito de ar, por isso ficou um pouco maior do que antes.
O Conteúdo tropeçava nas próprias pernas descendo a rua. A vontade de andar era maior do que o corpo. O Conteúdo pensou que, se fosse uma ave, tudo seria mais fácil. Depois pensou noutra coisa, designadamente que o amor era difuso, confuso, complicado.
E assim era.
Assim seria.
Mas não para sempre. Só o tempo suficiente.
Para o amor ganhar forma. Nada mais.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Facebook, o livro dos rostos

Um certo rosto está no livro dos rostos, tem uma página no livro dos rostos, por isso passa muito tempo com os seus rostos e os rostos dos outros. Todos os rostos têm outros rostos além do rosto original. Os rostos dos outros também têm páginas no livro dos rostos. Dentro de cada rosto há outros rostos de outros rostos. Nem todos os rostos têm pessoas dentro, podem ser só rostos ou então máscaras.
Eu não tenho uma página no livro dos rostos, mas tenho muitos rostos na mesma.
Trago na cara o meu rosto original e nos bolsos os outros todos. Tenho também uma máscara, que é esta, a pessoana.
De uma vez por todas: Não gosto do livro dos rostos. Abomino o livro dos rostos. Não me convidem para o livro dos rostos. Os outros rostos que me desculpem, mas eu não quero uma página no livro dos rostos.
Antes perder-me na floresta como o Hansel e a Gretel e ser escrava de uma bruxa.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Pastelaria de esquina

Naquele domingo a rapariga entrou na pastelaria de esquina. Não tinha por hábito passar por ali, muito menos ao domingo, e agora que a ocasião surgia, não hesitava. Pela maneira como observa os candeeiros interiores, somos obrigados a admitir que talvez aquela rapariga nunca tenha entrado naquela pastelaria.
Nós, sim, já conhecemos o sítio e sabemos que é raro a mesa da janela estar vaga. E logo agora que a rapariga entra, a mesa oferece-se às suas pernas e estas sentam-se aí mesmo, de frente para o cruzamento feio de carros e gente.
O rosto da rapariga denuncia-a: é nova e sensível. Não é mulher suficiente para se sentar nas montras dos cafés, por isso observamo-la. O desconforto das mãos enquanto espera por qualquer coisa que as ocupe confirma isso mesmo.
Um empregado aproxima-se. Não é simpático nem antipático. A rapariga ainda não sabe o que quer, mas pede apressadamente qualquer coisa, como se verdadeiramente a quisesse. Não era fã de nenhuma das suas escolhas, mas ansiava por que chegassem à mesa. Não chegam logo.
O empregado pousa-lhe na mesa um compal de pêra e uma tosta mista. Enquanto bebe e come, a rapariga toma uma série de decisões: pedirá um café de seguida, levará pastéis de nata, irá ao cinema mais tarde, por volta das oito, para não voltar tarde para casa. Só agora olha para a janela.
A vista não é bonita: na verdade é só um enorme corredor de asfalto repleto de carros. No passeio, surgem e desaparecem pessoas de todos os tamanhos e feitios. Um eléctrico guincha na curva. Algumas bicicletas deslizam satisfeitas e, de vez em quando, carrinhos com bebés lá dentro.
Um pedaço de cidade igual a outros.
Do outro lado da rua há um supermercado aberto. Entram e saem pessoas de caras tortas e cabelos amarrotados. Uma loja de flores está de rosto virado para o sol. Tem tantas flores que a rapariga não consegue ver quem lá trabalha. A rapariga decide comprar um vaso naquela loja. Ou talvez uma planta. Talvez bolbos de tulipas. Isso.
Olha para dentro, ou seja, para a pastelaria. Pede um café e recosta-se na cadeira desconfortável. Um casal observa atentamente a vitrina dos pastéis, parece indeciso. Uma menina muito bem sentada ao colo da mãe acena-lhe atrevida. A rapariga acena de volta. A mãe não se apercebe de nada, fala animadamente com uma outra mulher, atrapalhando os dedos num pastel de feijão. Três rapazes e duas raparigas apertam-se à volta de uma só mesa, comentam uma coisa qualquer divertida. Duas senhoras mais velhas querem pagar a conta e demoram-se a interpretar as moedas. O empregado espeta as duas mãos na cintura e fala para trás do balcão, onde uma moça risonha enfia um pano dentro de um copo. Um casal barrigudo entra na pastelaria e cumprimenta a mãe da menina atrevida. A menina atrevida salta para o chão, dá uma palmada na barriga do homem. Riem-se todos.
As paredes da pastelaria são exageradas: têm uma fonte ao centro e umas janelas alentejanas sem nexo. O empregado devia cortar o cabelo e as pessoas deviam falar mais baixo. A sala perde luz à medida que se entra. Mais um pouco e a escuridão estaria à vista.
A rapariga inicial, de chávena de café na mão, apercebe-se de tudo isto.
Depois olha outra vez para a janela. Para o pedaço feio da cidade.
Decide ficar mais um pouco.
Nem sempre a beleza faz falta.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Conto infantil para adultos: A Bela e o Monstro

A verdade era que nem sempre a Bela e o Monstro se amavam. Por vezes não gostavam um do outro e em dias mais entediantes, com tantos empregados silenciando pelo castelo, perdiam a cabeça e chegavam mesmo a odiar-se.
Nesses momentos ela atirava-lhe com os pratos do outro lado da mesa e ele rugia furioso. Nos dias bons, a Bela chorava e ele pedia-lhe perdão. Depois saíam de mão dada para o jardim. Mas nos dias maus, que eram os mais frequentes, gritavam como loucos e ela ameaçava que se ia embora.
O Monstro, rugindo de amor e ódio, arrastava-a para o quarto e enclausurava-a durante dias. A Bela nem sequer chorava, gostava aliás daqueles dias de paz em que jogava sudoku e lia contos de fada sobre príncipes mais belos do que o seu. Não via ninguém, nem mesmo as dedicadas aias. Também não comia nem bebia, só para chatear o marido.
Durante esse tempo, o Monstro, logo pela manhã, pegava no seu enorme cavalo e galopava pela floresta, rugindo para as árvores. De vez em quando arrancava mesmo uma do chão, tal era a sua força bruta e a sua pouca delicadeza para com o ambiente. À noite via filmes americanos no canal Hollywood com o Woody Allen, o Clint Eastwood, a Kim Basinger, o Fred Astaire.
Até que um dia se sentia só, tão profundamente só, que até os pedaços de lenha que atirava para a lareira lhe pareciam mais felizes do que ele próprio. Então encaminhava o seu monstruoso corpo até ao quarto da Bela e implorava-lhe perdão durante horas, se não mesmo dias, semanas, meses. Ajoelhava-se no chão, unia as volumosas patas e chorava. A Bela assistia pacientemente ao espectáculo até se render a uma qualquer compaixão que, não sendo enorme, ganhava forma no seu peito.
No entretanto os empregados reuniam-se na cozinha e discutiam sobre quem tinha razão naquela disputa, se a Bela, se o Monstro, e não chegavam a conclusão nenhuma. Eram ambos cruéis e egoístas, além de parecerem incompatíveis.
Moral da história visando a educação das crianças: Que as meninas não sejam tão belas, para não serem tão amadas. E que os meninos não se tornem monstros, para saberem amar um pouco menos.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Atracar

Disse: atracar.
E não chegar.
Acercar. Entrar. Voltar. Regressar.
Não.
Disse: Atracar.
E, por isso, imaginou.
Primeiro o verbo.
Depois o corpo. Atracando.
As espias em torno dos pulsos, dos tornozelos, do ventre, o rosto amarrado ao cais, a testa contra o porto (contra os pés do porto), o nariz apertado no pouco ar que afasta o mar da terra.
Nisto um arrepio rolou até ao final das costas.
Um longo arrepio.
Tinha frio, talvez. Ou medo.
(Provavelmente saudade.)
O arrepio instalou-se no final das costas e ficou.
Para sempre.
Rodou um pouco a cabeça e viu, pela proa dos olhos, o bico amarelo de uma gaivota.
(Respirou finalmente o fio de ar entre o mar e a terra.)
Pensou: Não é mau atracar.
E não era.

terça-feira, 28 de abril de 2009

O lugar estranho

Ele disse que aquele lugar era estranho e, no entanto, apenas ele o era.
Quem o disse.
E não o lugar.
O narrador e o autor regressam dia 17 de Maio.
(De um lugar estranho.)