segunda-feira, 25 de maio de 2009

Conto infantil para adultos: A Bela e o Monstro

A verdade era que nem sempre a Bela e o Monstro se amavam. Por vezes não gostavam um do outro e em dias mais entediantes, com tantos empregados silenciando pelo castelo, perdiam a cabeça e chegavam mesmo a odiar-se.
Nesses momentos ela atirava-lhe com os pratos do outro lado da mesa e ele rugia furioso. Nos dias bons, a Bela chorava e ele pedia-lhe perdão. Depois saíam de mão dada para o jardim. Mas nos dias maus, que eram os mais frequentes, gritavam como loucos e ela ameaçava que se ia embora.
O Monstro, rugindo de amor e ódio, arrastava-a para o quarto e enclausurava-a durante dias. A Bela nem sequer chorava, gostava aliás daqueles dias de paz em que jogava sudoku e lia contos de fada sobre príncipes mais belos do que o seu. Não via ninguém, nem mesmo as dedicadas aias. Também não comia nem bebia, só para chatear o marido.
Durante esse tempo, o Monstro, logo pela manhã, pegava no seu enorme cavalo e galopava pela floresta, rugindo para as árvores. De vez em quando arrancava mesmo uma do chão, tal era a sua força bruta e a sua pouca delicadeza para com o ambiente. À noite via filmes americanos no canal Hollywood com o Woody Allen, o Clint Eastwood, a Kim Basinger, o Fred Astaire.
Até que um dia se sentia só, tão profundamente só, que até os pedaços de lenha que atirava para a lareira lhe pareciam mais felizes do que ele próprio. Então encaminhava o seu monstruoso corpo até ao quarto da Bela e implorava-lhe perdão durante horas, se não mesmo dias, semanas, meses. Ajoelhava-se no chão, unia as volumosas patas e chorava. A Bela assistia pacientemente ao espectáculo até se render a uma qualquer compaixão que, não sendo enorme, ganhava forma no seu peito.
No entretanto os empregados reuniam-se na cozinha e discutiam sobre quem tinha razão naquela disputa, se a Bela, se o Monstro, e não chegavam a conclusão nenhuma. Eram ambos cruéis e egoístas, além de parecerem incompatíveis.
Moral da história visando a educação das crianças: Que as meninas não sejam tão belas, para não serem tão amadas. E que os meninos não se tornem monstros, para saberem amar um pouco menos.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Atracar

Disse: atracar.
E não chegar.
Acercar. Entrar. Voltar. Regressar.
Não.
Disse: Atracar.
E, por isso, imaginou.
Primeiro o verbo.
Depois o corpo. Atracando.
As espias em torno dos pulsos, dos tornozelos, do ventre, o rosto amarrado ao cais, a testa contra o porto (contra os pés do porto), o nariz apertado no pouco ar que afasta o mar da terra.
Nisto um arrepio rolou até ao final das costas.
Um longo arrepio.
Tinha frio, talvez. Ou medo.
(Provavelmente saudade.)
O arrepio instalou-se no final das costas e ficou.
Para sempre.
Rodou um pouco a cabeça e viu, pela proa dos olhos, o bico amarelo de uma gaivota.
(Respirou finalmente o fio de ar entre o mar e a terra.)
Pensou: Não é mau atracar.
E não era.

terça-feira, 28 de abril de 2009

O lugar estranho

Ele disse que aquele lugar era estranho e, no entanto, apenas ele o era.
Quem o disse.
E não o lugar.
O narrador e o autor regressam dia 17 de Maio.
(De um lugar estranho.)

terça-feira, 21 de abril de 2009

O estranho caso do lápis pequeníssimo

O lápis pequeníssimo desaparecia nos dedos e reaparecia nas folhas em forma de carbono. O carbono era, por seu turno, o sangue do lápis.
Não demorámos a perceber a semelhança entre o lápis e Benjamin Button. Ora, esta semelhança cativou-nos.
(Não vimos o filme, mas gostamos do Brad Pitt e conhecemos o tal estranho caso de se nascer ao contrário.)
Observamos o lápis como quem observa um diamante: estudiosamente.
(A propósito desta comparação apercebemo-nos disto: o lápis e o diamante são formas distintas de carbono, outro estranho caso.)
Tacteamos o lápis, descobrimos os seus contornos, as seis faces, gostamos de todos elas, giramo-lo na mesa, fechamos os olhos para ouvir o seu chilrear.
Afiamos o lápis cheios de tempo.
(Tão cheios de tempo que o lápis perde o bico e logo o afiamos de novo.)
Gostamos de afiar o lápis.
O lápis pequeníssimo é agora ainda mais pequeno. Em contrapartida, a sua existência é maior, pois gostamos mais dele do que do resto do mundo.
Pousamo-lo na orelha e levamo-lo a passear pelas ruas. Contamos-lhe histórias, compramos-lhe um gelado.
No final do dia voltamos de mão dada para casa. Pegamos no lápis ao colo, acariciamo-lo, entrelaçamo-lo nos dedos para escrever. No final do dia afiamos o lápis pequeníssimo mais uma vez. Na verdade, até ele perder o bico, para que haja silêncio no seu corpo. No nosso corpo. Em todos os corpos.
Depois afiamo-lo novamente. Ansiosamente.
Até ao final do lápis.
No final contemplamos os despojos de carbono e madeira.
Arrastamos estes restos de vida para o cesto dos papéis, bem como tudo o que escrevemos com aquele lápis e tudo o que desenhámos, tudo o que desejámos (primeiro os dedos, depois o coração e finalmente a linguagem).
Era um bom lápis, aquele. Nem duro nem mole. De tipo HB.
(Nada será como dantes.)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

A ideia incomum de V. Moreira

Nem sempre o homem de nome V. Moreira fazia coisas esdrúxulas como naquele dia. Mas certas manhãs havia em que uma ideia incomum caía sobre a sua cabeça tão misteriosamente como o pó sobre as mobílias. E naquele dia assim fora:
Às dez horas da manhã desse tal dia V. Moreira estava na Junta de Freguesia de Vila Real de Santo António a preencher uma declaração para alterar a morada da sua residência permanente. Isto porque o homem de nome V. Moreira se tinha reformado há uns meses e, ganhando consciência de que estava permanentemente de férias, decidira trocar a sua casa de Setúbal pela sua casa no Algarve. Enquanto o senhor Moreira preenchia a declaração, espreitámos por cima do seu ombro e foi nessa altura que aprendemos o último nome deste homem, mas não o primeiro, por falta de oportunidade para uma segunda espreitadela. Estamos, no entanto, convictos de que a primeira letra do seu primeiro nome era V.
A declaração pedia ao homem de nome V. Moreira que indicasse o seu endereço antigo e o senhor Moreira obedeceu. Escreveu Avenida Soeiro Pereira Gomes e antes mesmo de escrever o número, o andar e o código postal, o homem parou de escrever e demorou-se a olhar para o papel. Isto preocupou-nos por motivos óbvios: talvez o homem de nome V. Moreira tivesse esquecido a sua morada em Setúbal ou talvez tivesse saudades dela. Estas hipóteses comprovaram-se, no entanto, erradas, porque o senhor Moreira pensava, não na sua morada, não na sua cidade, mas no próprio Soeiro Pereira Gomes.
É que o homem de nome V. Moreira tinha morado 20 anos na Avenida Soeiro Pereira Gomes, em Setúbal, e há 20 anos que prometia a si mesmo ler um livro daquele escritor. Era, no mínimo, um exercício sensato, dado que conviviam tão intimamente. E, no entanto, finalizadas duas décadas, não só o senhor Moreira não tinha lido um único livro do Soeiro Pereira Gomes, como nunca tinha comprado sequer um exemplar. Na verdade – apercebia-se o homem agora – desconhecia por completo a capa e a contracapa de qualquer um dos livros, nunca lhes tinha sentido o cheiro nem o peso.
Este pensamento transtornava-o. E o homem de nome V. Moreira teve então a ideia incomum de regressar a Setúbal imediatamente. No seu entender, não podia mudar oficialmente de residência enquanto não lesse um livro de Soeiro Pereira Gomes. Sentia-se em falta consigo próprio, com a sua rua, com o escritor.
O homem de nome V. Moreira saiu da Junta de Freguesia de Vila Real de Santo António, mas nós, infelizmente, perdemo-lo de vista logo na primeira esquina, tal era a sua pressa de chegar a casa.
Anos mais tarde, encontrámos o senhor Moreira vagueando pelo Parque do Bonfim. Pelo seu meio-sorriso esclarecido percebemos que tinha lido os Esteiros, bem como todos os outros livros de Soeiro Pereira Gomes. Nunca tinha chegado a mudar de morada e raramente ia até Vila Real de Santo António.
Estava-se bem em Setúbal.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Da pessoa e do sentimento

O sentimento, visto de frente e a olho nu, tentava caminhar na direcção oposta ao resto da pessoa, pendurava-se no final dos dedos para tentar ancorar o corpo, mas os braços navegavam em direcção a Este. O sentimento era, por natureza, mais leve do que as borboletas e nada podia contra o peso do cérebro, do estômago e dos pés.
A pessoa caminhante sentia aquele sentimento pendurado nos dedos e, no entanto, seguia em frente.
Em direcção a Este.
De súbito, por lhe faltar a força e o corpo, o sentimento largou o dedo indicador e caiu por causa da força da gravidade. Felizmente, o resto da pessoa apercebeu-se da queda livre e apanhou o sentimento com a outra mão.
Ambos suspiraram de alívio. Entreolharam-se.
A pessoa cerrou o punho para não mais perder o sentimento.
Caminhava, ainda assim, na direcção oposta.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

1 de Abril

No dia 1 de Abril o narrador convenceu o autor a escrever.
Se ainda não se espantou, espante-se.
Repito: o narrador convenceu o autor a escrever.
Jamais se vira uma coisa assim. Era um evento verdadeiramente extraordinário, porque, como todos sabemos, tudo isto se costuma passar ao contrário: é o autor que convence o narrador. É sempre o primeiro que guia o segundo numa autêntica hierarquia de vontades, pois mesmo na arte da inspiração e da escrita há protocolos, disciplinas e hierarquias e tudo o que de artístico tem tão pouco.
Esta era, portanto, a ordem natural das coisas, mas ultimamente, por as actividades do autor não darem espaço nem oxigénio nem dióxido de carbono à autoria devido a prioridades do momento que nada tinham que ver com arte, o autor perdera, por assim dizer, a vontade, o fio à meada, a inspiração, o que quer que esteja no início da coisa artística, daí que não se esforçasse por convencer o narrador de nada, se não apenas que se calasse e metesse a cabeça entre as orelhas. E dito isto, o narrador, por vingança ou tédio ou simples maldade - que também a há no coração dos narradores - ia cantando dentro da sua cabeça, a qual ficava, por sua vez, dentro da cabeça do autor, a tal canção do Sérgio Godinho, que o autor, por azar, não apreciava (o pronome relativo refere-se aqui à canção e não ao Sérgio Godinho, apreciado por toda a gente e mais alguma).
E justamente no dia 1 de Abril deu-se o caso extraordinário ou até o milagre de Nossa Senhora de o narrador, aborrecido como estava com a inércia do autor, ter tomado a iniciativa de escrever, ou melhor, de fazer o outro escrever por ele. O autor, para mal dos seus pecados, levantou-se contrariado da cama, ainda a noite madrugava, e sentou-se no sofá da sala de estar, por sinal muito fria dado que se esquecera da janela aberta durante todas aquelas horas nocturnas, e escreveu.
Intervalo para descrição: No colo uma almofada e sobre a almofada um bloco. Na mão direita a caneta e na cabeça o narrador ditando o texto devagar. O narrador afastava os cabelos atrapalhados do autor lá do alto do cocoruto todo-poderoso certificando-se de que a redacção saía correcta e escorreita do ponto de vista ortográfico, sintáctico e verbal.
No final da história, satisfeitíssimo, o narrador ordenou ao autor que publicasse aquela redacção no seu lugar. Mas infelizmente, ao ouvir o nome proibido do lugar, o autor acordou sobressaltado daquele feitiço e rasgou o texto decididamente. Depois coçou a cabeça com muita força e o narrador caiu redondo por ali baixo, tendo sido sua sorte a de ter ficado pendurado na ponta de um cabelo espigado que o agarrou pelos colarinhos durante a queda.
O autor foi então ao seu lugar ou não propriamente: sentou-se na margem de cá a observar a margem de lá contemplativamente. Imaginou que Ulisses, depois de regressado a Ítaca, se fizesse ao mar vezes sem conta só para repetir o regresso, a terra à vista, o mar interrompido.
O autor todo-poderoso, de repente inspirado, regressado, artístico, escreveu uma história que nada tinha que ver com a história inicial, a do narrador. Ria-se enquanto escrevia. No final achou que a sua obra era boa.
Tão boa que não parecia sua.
(E não era. Isto porque o narrador continuava a ditar a mesma história, escondido atrás dos cabelos. No entanto, chegado ao final da mesma, deixou que o autor a publicasse, julgando-a sua.)
O narrador procedera desta forma condenável não por altruísmo, não por vingança nem tédio nem nada.
Só por ser dia 1 de Abril. Mais nada.
Um narrador brincalhão.