segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Adelaide Eugénia Ferreira Varela Rã

Uma senhora de 73 anos de idade entrou na repartição de finanças do Concelho de Pinhel para reclamar uns dinheiros, não para ela, mas para a associação recreativa de Cerejo a propósito das festas em honra de Santa Maria Madalena do ano passado. Esta senhora chamava-se Adelaide Eugénia Ferreira Varela Rã, um nome razoável à excepção do sobrenome, que saltava sobressaltado sobre os outros, graças às suas pernas de anfíbio. Infelizmente a senhora Adelaide Eugénia Ferreira Varela Rã não conseguiu entregar os papéis que comprovavam a dívida do Estado à associação recreativa de Cerejo. Isto porque a sua hora da morte chegou precisamente no momento em que entrou na repartição de finanças: o corpo caiu entrondoso para a frente e os papéis ficaram quietos dentro da mala. Algumas pessoas assustaram-se, outras não. Uma das senhoras atrás do balcão nem se levantou com o sucedido: agarrou no telefone e chamou a ambulância.
O sobrenome Rã era do marido, que havia falecido há uns quinze anos por causa de um cancro nos intestinos. A senhora Eugénia, que preferia aliás o nome Adelaide mas nada podia contra a vontade do povo da freguesia de Cerejo que toda a vida a tratara por Eugénia, continuava a usar o nome Rã porque a ele se habituara, mas aos vizinhos dizia que a razão era outra, mais poética, mais respeitosa, mais leal. Dizia: "Continuo a utilizar o nome Rã para que a memória do meu marido não se perca pelo caminho" e os outros comoviam-se com as palavras da mulher que usava um nome feio em memória de um homem. Não que o senhor José Marco dos Santos Rã tivesse sido um grande homem nem um homem grande, nem sequer um bom homem (na verdade já ninguém na freguesia se lembrava dele), mas o senhor José Marco era o seu homem e isso bastava para que fosse lembrado. Tudo isto era uma maneira de dizer, porque a senhora Eugénia tinha a sua vida tão ocupada com a associação recreativa de Cerejo, que mal se lembrava do José Marco, coitado. O rosto do dito já se tinha dissipado da memória, restando apenas o sorriso torto e o cabelo bem penteado do dia do casamento. À senhora da mercearia dizia a senhora Eugénia em ar de graça: "Beijei a rã em vez do sapo" e a verdade era essa.
A senhora Eugénia tinha a certeza disso. Se tivesse beijado o sapo e não a rã, nunca teria vivido nem morrido assim. Logo a seguir ao casamento, o seu marido sapo e não rã teria mandado construir um castelo no centro de Cerejo, onde ela e o seu príncipe encantado viveriam com a sua família e os seus muitos empregados. No interior desse castelo se realizariam as festas em honra de Santa Maria Madalena, que muito trabalho dariam à senhora Eugénia, e todas as pessoas de Pinhel ali marcariam presença no dia 31 de Julho. Ou, se calhar, todas as pessoas da Beira Interior. Ou até mesmo todas as pessoas de Portugal.
Isto pensava a senhora de 73 anos na hora da morte.
A mania da grandeza de Adelaide Eugénia Ferreira Varela Rã só não ia além de Portugal por não haver na sua geografia nenhum mundo além daquele. Se tivesse beijado o sapo e não a rã, pensava ainda, jamais entraria na repartição das finanças para morrer. Disso tinha ela a certeza absoluta.
Os papéis que comprovavam a dívida do Estado à associação recreativa encaminharam-se despreocupados para o lixo. Os vizinhos trocaram umas palavras nem boas nem más sobre a senhora Eugénia. Os velhos da associação recreativa foram ao velório, ao funeral e à missa do sétimo dia.
E ao oitavo dia a senhora Eugénia caiu no esquecimento. E o José Marco, que culpa nenhuma tinha de ter nascido rã, perdeu-se finalmente pelo caminho.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Rapariga ao som de Air

A cidade a nevar baixinho, a chorar branco, muito branco, branquíssimo (os olhos da cidade a doerem de branco), e a rapariga a passear-se nela, a pensar-se nela, e não de branco, não de neve, mas de outras cores, de outras formas. A arte nova atrás das costas, itinerante como nos filmes, e a rapariga a ver outras artes, outros filmes. Pensa, por exemplo, no Japão. Num silêncio possível para o Monte Fuji. Para os templos. Pensa em Quioto. Na cidade de Quioto. No protocolo de Quioto. Nos americanos. Pensa em Hiroshima. Em Nagasaki. Nos arranha-céus de Tóquio. No Lost in Translation. Na cara de náufrago do Bill Murray. No Oceano Pacífico. No programa da RFM. Nas madrugadas de regresso a casa. Em todas as madrugadas de regresso a casa. Na marginal de Cascais. No Oceano Atlântico. Na era dos Descobrimentos.
A música termina na boca do metro. Pura coincidência.
Depois começa outra.
A tempo da viagem.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Conto infantil para adultos: No circo

Há um macaquinho no circo. Quando o macaquinho grita, toda a gente grita. Quando o macaquinho salta, toda a gente ri. Quando ele ri, toda a gente ri mais ainda. O macaquinho é divertido por ser pequenino, ágil, frágil, desinibido e também por ter braços finos e muito compridos.
Parece um menino, mas não é.
(O Pinóquio também parece um menino, mas não é.)
(O macaquinho não diz mentiras, porque não diz nada. Não fala, o macaquinho.)
Nas bancadas ninguém sabe nada do macaquinho além de que é divertido e tem braços compridos. E todos se riem dele. Dos miúdos aos graúdos. Vão ao circo e riem, as pessoas. No final do espectáculo saem satisfeitas para a rua.
Por o macaquinho ser divertido. Por ser pequenino e ter braços compridos.
Sobretudo, por ser macaco e não menino.
E também por terem comido pipocas.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

No jardim do Campo Mártires da Pátria para ver os pardais voar

Um certo homem, de nome Manuel Matias Batalha Pereira, senta-se diariamente no jardim do Campo Mártires da Pátria para ver os pardais voar. Não os apanha, não os assusta, não lhes dá comida, nem guarida, nem nada de nada, fica por ali sentado a vê-los voar. O senhor Manuel Matias não tem família, como é evidente, nem amigos, nem assuntos para tratar, se não de quando em quando na segurança social ou nas finanças. No outro dia tinha passado, por exemplo, várias horas na Loja do Cidadão dos Restauradores, mas fora essas excepções, que até lhe davam novas cores à vida, o senhor Manuel Matias não tinha nada que fazer, senão aquilo: ver voar os pardais. Não os pombos nem as rolas nem as gaivotas, que eram pássaros gordos, altos, adultos, aborrecidos.
Só os pardais.
O senhor Manuel Matias gosta dos pardais por isto: têm um voo imprevisível, incorrigível, caótico, infantil. Ora pousam aqui, ora voam para ali. Sobem para o banco, saltam para o chão, bicam a calçada, viram as costas, voam baixinho, pousam na relva, enfiam-se no canteiro, desaparecem nas árvores. Isto entretém o senhor Manuel Matias. De vez em quando ri-se de certos voos descontrolados, troça dos pardais, chama-lhes nomes.
Traz um saco de plástico que pousa sempre do seu lado direito. A certa altura tira dele uma banana, sempre uma banana, dizem que faz bem à cabeça. Come-a sem grande jeito (alguns pedaços da banana ficam pelos beiços, um pendurado no queixo, outro na ponta esquerda da boca e outro ainda no lábio superior). O senhor Manuel Matias desaprendeu a comer. O senhor Manuel Matias desaprendeu muita coisa.
Do outro lado do Campo Mártires da Pátria está uma senhora a dar comida aos pombos. Não sabemos o seu nome, mas conhecêmo-la de vista. Observa atentamente os olhos do senhor Manuel Matias, é um olhar meigo. O dela e o dele.
A senhora que dá comida aos pombos compadece-se do senhor Manuel Matias, roga pragas à família por o terem abandonado, pensa que são maus filhos, maus netos, maus primos, maus tudo e mais alguma coisa. Abana a cabeça enquanto pensa tudo isto, arranca os pedaços de pão com muita fúria, gosta genuinamente do senhor Manuel Matias.
A senhora que dá comida aos pombos é bem intencionada quando pensa estas palavras feias, mas ignora muita coisa, imensa coisa (não tem culpa disso, claro). Uma delas é que o senhor Manuel Matias, com o seu olhar meigo, é uma besta. Outra é que batia na mulher e ia às putas. Outra ainda é que os netos nem o conhecem por dele terem medo os filhos. Isto é a história real do senhor Manuel Matias mas nem todos são omniscientes como o narrador.
E de facto, não podemos levar a mal o amor que a senhora dos pombos tem pelo senhor Manuel Matias. Este homem tem realmente um olhar meigo e é sensível. Repare-se que ele vem ao jardim para ver os pardais a voar, ri-se deliciado para eles. Isto aperta o coração da senhora, como é natural.
Visto daqui, até nós nos comovemos. Não que perdoemos o senhor Manuel Matias. Não que tenhamos esquecido os seus pecados. Mas ao longe, efectivamente, a velhice comove.
E todos os homens são bons, quando chegam a velhos. Tornam-se imprevisíveis, incorrigíveis, caóticos, infantis. Como os pardais. E desaprendem muita coisa. Imensa coisa.
Todas as coisas.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

oração subordinada final

trabalhar para comer para viver para trabalhar para comer para viver para trabalhar para comer para viver para

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

valter hugo mãe

O novo presidente americano tomava posse, fazia um discurso importantíssimo e todos o ouviam, todos o seguiam, todos calavam. O mundo assistia redondo a este acontecimento e, no entanto, no primeiro andar de uma rua calmíssima de um bairro residencial de uma cidade europeia, uma mulher mantinha a televisão desligada, a rádio desligada, o computador desligado e lia concentrada, deliciada, conquistada, o último romance de valter hugo mãe. Como se nada mais houvesse no mundo senão aquelas páginas com as suas personagens esdrúxulas e vidas minúsculas. Um caso deveras estranho. O mundo parado para ver que rotação escolher e uma mulher deitada no sofá a ler um romance. Do valter hugo mãe.
Era, de facto, estranhíssimo, mas já se sabe que a realidade ultrapassa sobremaneira a fantasia. No final do livro a mulher ficou triste por haver um fim. Depois foi lavar os dentes e deitou-se.
O discurso do presidente havia de ter sido notável, mas não tão notável como o apocalipse dos trabalhadores. Na opinião daquela mulher, claro, que gostava muito mais do valter hugo mãe do que do Barack Obama. Francamente mais. Mil vezes mais.
Vá-se lá saber porquê*.

*O narrador desta história não percebe esta mulher, mas eu sim, percebo e concordo.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Das pessoas que escarram

Certas pessoas escarram. Não espirram, não cospem, não tossem: escarram. Vejamos o seguinte: eu não tenho nada contra o muco. Não tenho. Sinceramente, do fundo de mim mesma (onde tudo é muco), não tenho. Na verdade, simpatizo com o muco, com a sua elasticidade, plasticidade, consistência. Gosto verdadeiramente de muco, adoro muco, só quero muco, mas é exactamente por isso que o guardo só para mim (de preferência por dentro) e não ando a escarafunchar o corpo para expelir certos dejectos não identificados.
Aliás, como muito bem sabemos, o muco é uma coisa boa, faz bem ao corpo e à alma, protege-nos de certas forças do Mal, é confortável por dentro e por fora, faz parte do que somos. Logo, não há razão para não gostarmos dele.
Portanto, quando sigo contente pelo meu caminho e vejo alguém a escarrar violentamente para o chão, coloco imediatamente as seguintes hipóteses: esta pessoa, que expele tão convictamente o muco que tão bem a protege, ou não tem amor ao corpo ou tem muco para dar e vender.
Sobre a primeira hipótese, digo o seguinte: Não acredito. As pessoas que escarram têm certamente amor ao corpo. Encontro-as constantemente na rua e vejo que são, por norma, pessoas com um certo à vontade na vida e no corpo: dominam os ossos, a carne, os passeios, o alcatrão, cumprimentam os vizinhos, compram jornais no quiosque. Por isso, não acredito. Como é conhecido, quem não tem amor ao corpo, é triste, anda trancado na alma, não gosta do início de si próprio, é depressivo. E, de acordo com o que tenho visto, quem escarra, anda contente ou, pelo menos, satisfeito. Escarra, como já disse, convictamente.
Inclino-me, portanto, para a segunda hipótese: As pessoas que escarram têm muco a mais. Isto, realmente, deve ser uma chatice, há que soltar o bicho. A ciência tem demonstrado que o excesso de muco é causado por doenças, nomeadamente infecções, inflamações ou maleitas do género. Logo, se as pessoas que escarram tiverem verdadeiramente muco a mais no corpo, tenho de admitir o seguinte: além de me meterem nojo (um enorme nojo, todo o nojo), metem-me medo (imenso medo), porque estão infectadas ou inflamadas ou coisa que o valha. E eu, instintivamente, afasto-me delas, não vá a peste pegar-se.
No entanto, com base numa observação mais cuidada do acto de escarrar, noto que os verdadeiros escarradores escarram sempre, a toda a hora, onde quer que estejam. Saem de casa e escarram, esperam pelo eléctrico e escarram, saem do eléctrico e escarram, viram a esquina e escarram, entram na padaria e escarram. Ora, uma pessoa não pode estar doente toda a vida, a não ser os verdadeiramente fracos ou verdadeiramente depressivos que, como vimos, não é o caso das pessoas que escarram. Coloco, pois, mais uma hipótese: certas pessoas escarram por vício.
Outros há que fumam por vício. Que bebem. Que assobiam. Que mascam. Que comem. Que cantam. Que escrevem. Que lêem. Que roem as unhas por vício. E certas pessoas escarram. (Entram pelo corpo adentro através das vias respiratórias e trazem ao mundo todo o muco que encontram.) Os outros vícios, comparados com este, parecem-me consideravelmente mais normais. Mais ligeiros. Mais admissíveis.
Por instinto e convicção, não me dou com pessoas que escarram, não gosto delas, não as suporto, não as aceito. Ou seja, discrimino-as.
Pura e simplesmente.