Levanta-se às 8h, mas devia levantar-se mais cedo. Por causa disso, acelera o passo. Puxa o autoclismo e o dia começa. Bebe um copo de água e queixa-se (a água é muito fria no Inverno). Toma um duche rápido e eficaz. Enquanto o faz, não pensa em nada. Seca-se e veste o pijama. Depois repara que não devia ter vestido o pijama e pragueja baixinho. Despe o pijama, veste outra coisa. Vai até à sala. Nessa altura já vem de casaco e cachecol vestidos. Abre as cortinas, espreita. O céu cinzento, a rua cinzenta, tudo cinzento. Encolhe os ombros. É melhor que preto. Canta um fado. Não, não canta, esboça palavras na boca. Não, não é um fado, é outra coisa. Uma melodia doce. Sobre Lisboa, parece. Bela canção. Vai à cozinha, regressa com um regador em punho. Rega as plantas do parapeito (são muito bonitas, apesar do céu cinzento). Vai até ao quarto, beija a testa de quem ficou na cama, sai de casa, desce as escadas, entra no mundo. O vizinho polaco passeia o cão, cumprimentam-se com um aceno. (Na entrada do metro, mesmo antes das escadas rolantes, há, pelo menos, vinte beatas no chão. Toda a gente apaga o cigarro no mesmo sítio, é um fenómeno curioso.) O metro está a chegar e a mulher corre para ele. Vem cheio, entulhado, impossível. Por isso, não entra, espera pelo próximo. Enquanto espera, vê as pessoas passar. As mulheres não gostam que olhem para elas. Os homens gostam. Os cães também. Algumas crianças adoram, outras escondem-se atrás da mãe. Entra na última carruagem e sai duas paragens depois. Encontra um colega. Dois colegas. Três colegas. Ou nenhum. Hoje, por exemplo, não tinha encontrado ninguém, subia sozinha a rua. Pára nos semáforos. Algumas pessoas não esperam pelo sinal verde, atravessam a rua a correr. Ela não. Espera. Entra no edifício e abre a mala para procurar o cartão. Em vez disso, tira as chaves de casa. Devolve-as à mala e tira o cartão. As portas abrem-se. O segurança pisca o olho às mulheres, é atrevido. Apanha o elevador para o quinto andar, diz uma frase de circunstância para os colegas que sobem com ela. Algumas pessoas detestam frases de circunstância, não respondem. Entra no gabinete, abre a janela, liga o computador. Tem uma chamada não atendida. Do chefe. Liga de volta. Se podia fazer uma nota da mesa até às onze, para sair ao meio-dia. Com certeza. Desliga o telefone, sai do gabinete, desce as escadas, cumprimenta os colegas, cumprimenta o chefe, recebe o documento, sobe as escadas, entra no gabinete, lê a nota. É pequena. Pega na caneca e vai até ao café do primeiro andar. Às vezes esquece-se da caneca. Por norma, esquece-se da caneca. Um café, uma garrafa de água, um pão-de-leite. Paga. Senta-se com os colegas, bebe, fala, come. Não devia falar de boca cheia, mas fala. Paciência. Volta para o gabinete, trabalha. Alguém telefona. É uma colega. Se quer ir almoçar à cantina. Claro, almoçar na cantina é sempre bom. Ao meio-dia e meia. Imprime o documento, lê o documento, corrige. Não gosta de certas frases, de certas palavras, não sabe como resolvê-las. Consulta páginas na Internet, abre dicionários, fecha dicionários. Escreve, risca, reescreve. Imprime novamente. Sai do gabinete, desce as escadas, entrega o documento, explica qualquer coisa, diz: "Até logo!". Sobe as escadas, entra no gabinete, continua qualquer coisa do dia anterior. Mais interessante do que a nota da mesa. Ao meio-dia e vinte e cinco sai do gabinete, desce as escadas, atravessa a ponte, entra no outro edifício, segue pelo corredor, apanha o elevador, sai no primeiro e espera em frente à cantina. A colega atrasa-se dois minutos, nada de grave, riem-se de qualquer coisa. Hoje havia espetadas, bolonhesa e uma espécie de empadão com conteúdo imperceptível. Escolhe as espetadas. Espera na fila. Pega no tabuleiro, espera noutra fila, paga, senta-se numa mesa sem fim e espera pela colega, que chega, pousa o tabuleiro e se senta. Comem. Contam coisas, imensas coisas, são muito expressivas nos gestos e nas palavras. Acabam de comer, vão ao café, bebem café, separam-se. Cada uma para o seu edifício. Continuamos com a mulher inicial. Apanha o elevador, sai do elevador, vira à direita, segue o corredor, atravessa a ponte, entra no seu edifício, sobe as escadas, entra no gabinete. Nas restantes horas fica a maior parte do tempo a olhar para o computador. Por vezes, imprime folhas e lê no papel. Também vai à casa de banho. Encontra colegas por lá, conversam animadamente enquanto lavam as mãos. (Algumas colegas não falam, dizem só bom dia ou boa tarde.). Às cinco e meia sai a correr para apanhar a perfumaria aberta. Cheira um perfume, resolve comprar 50 mililitros, escolhe um verniz para as unhas, uma água-de-colónia. Pede à menina para embrulhar tudo em separado. Tira da carteira uma lista, risca alguns nomes. Pensa nas prendas que faltam, distrai-se com as ideias. Quer pagar e, em vez da carteira, tira as chaves de casa. Devolve-as à mala, paga com o multibanco. Sai da loja, entra no metro. Desce duas paragens depois, vai ao supermercado. Tinha-se esquecido dos sacos, esquecia-se sempre dos sacos. Azar. Compra peitos de frango, leite, pão, queijo, salmão fumado, um champô da Dove, cotonetes, papel higiénico, amaciador para a roupa, uma alface, um quarto de abóbora, maçãs, uvas, pêra abacate e pinhões. Na fila, as pessoas são muito sérias. Enquanto se passeiam pelo supermercado não são tão sérias. Paga novamente com o multibanco. Despede-se da senhora da caixa, vai para casa. Caminha devagar por causa do peso, doem-lhe os braços a meio do caminho. O vizinho polaco está a passear o cão, diz-lhe qualquer coisa em italiano, não sabemos porquê. Entra em casa, liga o computador, põe música. Talvez Seasick. Enquanto ouve, arruma as compras. O marido chega. Vem a ouvir outra música no iPod. Cozinham juntos. Ou não. Depende. Comem juntos. Sempre. Nem sempre lavam a loiça a seguir. Têm pressa. Saem de casa, vão a qualquer lado. Atrasados, sempre atrasados. Não gostam de chegar atrasados, mas chegam. Sempre. Uma peça de teatro, provavelmente. Ou uma festa em casa de alguém. Ou um concerto na AB. É menos comum irem ao cinema. É estranho que assim seja: toda a gente vai ao cinema. Comentam isso, interessam-se por isso, conversam sobre todas as coisas. Chegam ao sítio que os espera. Ela quer encontrar os bilhetes ou a carteira ou os óculos e, em vez disso, tira as chaves de casa. Mais uma vez, as chaves de casa. Conclui que quer estar em casa e não está. Quer ir para casa e não vai. Apercebe-se de que tem saudades de casa. Imensas saudades. Anuncia: "Vou para casa". E vai.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Domingo com neve
A neve não cai, pousa.
Os meus olhos emocionam-se com a sua leveza.
O resto do meu corpo não. Gosta de sensações mais fortes.
Como Ray Charles. E chocolate quente.
O resto do corpo não está em sintonia com os meus olhos.
Para satisfação da alma.
Os meus olhos emocionam-se com a sua leveza.
O resto do meu corpo não. Gosta de sensações mais fortes.
Como Ray Charles. E chocolate quente.
O resto do corpo não está em sintonia com os meus olhos.
Para satisfação da alma.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
O escritor e a cidade
O escritor estava no quarto a escrever. Sentava-se à escrivaninha e rabiscava num caderno liso. O escritor todo-poderoso escrevia sobre a cidade, sempre sobre a cidade, aquela cidade, a sua. O texto que andava a escrever desde ontem chamava-se justamente Cidade.
O escritor fez uma pausa na escrita. Para ir à casa de banho e lavar as mãos. De vez em quando fazia isto para refrescar não as mãos, mas as ideias. Quando regressou ao seu lugar, olhou pela janela. Para espreitar a cidade. Aquela cidade. Pensou: "Na quietude de coisa já vivida".
Nesse momento, mal o pensamento ocorrera, o escritor irritou-se, fartou-se, desesperou-se. Não da escrita, não do quarto, não da janela, não das mãos, não do pensamento, mas da cidade. Daquela cidade. Da sua cidade.
O escritor todo-poderoso não fez mais nada: agarrou na cidade pelos cabelos, amachucou-a e deitou-a para o cesto dos papéis. Depois, aliviado, regressou à escrita. Ao tal texto que se chamava Cidade.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Mulher magríssima
Andam imensas mulheres no mercado da Flagey, mas hoje só nos interessa aquela ali ao fundo, muito magra e direita. Tem cabelos cinza, muito esticados e enrolados para dentro. Caem por cima dos ombros como cortinas. Os lábios são gretados e o queixo também. A testa também. Na verdade, o rosto todo. (Vista ao perto, a cara desta mulher mais parece um puzzle de mil peças, de dez mil peças.)
Magríssima. Pele a mais para os ossos salientes. Pena não termos qualquer interesse pelo corpo humano, porque se tivéssemos poderíamos até estudar anatomia a partir do corpo desta mulher: na anca, depois do cinto teso de cabedal, avistamos o extremo do fémur, o grande trocanter, e mais abaixo a rótula e depois a tíbia, muito saliente e comprida, o mais longo dos ossos. Virou-nos as costas a mulher magra, está a pagar ao vendedor. Daqui se vêm as omoplatas e as costelas. Uma mulher magríssima com uma certa força na pose. Deve fazer yoga ou stretching, uma dessas aulas modernas, pois tem a coluna direitíssima e a pélvis bem centrada. Vem ao mercado comprar mangas.
Está a subir agora a Rue Malibran com a caixa ao colo. Uma caixa de cartão. Uns três quilos de mangas, se não mais. Tem o carro estacionado a meio da rua, um renault twingo azul escuro, com três portas. Abre o porta-bagagens, atira com a caixa lá para dentro, fecha o porta-bagagens, contorna o carro, entra no carro. Parece satisfeita.
Está a subir agora a Rue Malibran com a caixa ao colo. Uma caixa de cartão. Uns três quilos de mangas, se não mais. Tem o carro estacionado a meio da rua, um renault twingo azul escuro, com três portas. Abre o porta-bagagens, atira com a caixa lá para dentro, fecha o porta-bagagens, contorna o carro, entra no carro. Parece satisfeita.
A mulher magríssima vem todos os domingos ao mercado comprar mangas. A destreza dos movimentos denunciam-lhe o hábito. Se viesse comprar laranjas, ou cebolas, ou batatas, ou maçãs, ou café, ou cigarros, ou revistas cor-de-rosa, seria uma mulher normal. Mas não, esta mulher não quer nada disso.
É louca por mangas. Come mangas desenfreadamente.
Um vício, no mínimo, esquisito.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
O senhor do chapéu II
Eu e o narrador voltámos ao parque no sábado. Eram onze horas da manhã e o sol fraquejava por causa das nuvens feias que povoavam o céu. O frio não nos desviou do nosso objectivo: o senhor do chapéu.
Não tardámos a encontrá-lo.
Hoje estava sentado num banco de jardim. A cauda do fraque descia pelo banco até ao chão e a cartola descansava na bengala, que estava, por sua vez, apoiada nas costas do banco. Um quadro engraçado de se ver. O senhor tinha as costas muito direitas e lia uma banda desenhada com o respeito de quem lê o novo testamento: os braços elevados e uma concentração muito séria. Quando passámos em frente ao banco, pudemos ver a capa do livro: Objectif Lune.
Sentámo-nos mais longe, a uns cinquenta metros, num banco de jardim que tinha vista para o seu. Ali ficámos muito tempo e, a certa altura, deixámos mesmo de escrever as nossas preciosas notas por já nos doerem todos os ossos das mãos. Estava frio, imenso frio. A esta altura já as nuvens do céu eram agora iguais às que saíam da boca. O senhor do chapéu continuava sem chapéu, concentrado na leitura.
Uma rapariga corajosa passa. Além das previsíveis calças de ganga e das botas de salto raso, traz um gorro enfiado na cabeça, luvas grossas, casaco almofadado, cachecol e uma trela colorida, a que vem preso um cão. O cão é branco, tem imenso pêlo, não parece ter frio.
Passam agora em frente ao senhor do chapéu que levanta os olhos do seu objectivo lunático para contemplar a dona e o domesticado.
Hoje estava sentado num banco de jardim. A cauda do fraque descia pelo banco até ao chão e a cartola descansava na bengala, que estava, por sua vez, apoiada nas costas do banco. Um quadro engraçado de se ver. O senhor tinha as costas muito direitas e lia uma banda desenhada com o respeito de quem lê o novo testamento: os braços elevados e uma concentração muito séria. Quando passámos em frente ao banco, pudemos ver a capa do livro: Objectif Lune.
Sentámo-nos mais longe, a uns cinquenta metros, num banco de jardim que tinha vista para o seu. Ali ficámos muito tempo e, a certa altura, deixámos mesmo de escrever as nossas preciosas notas por já nos doerem todos os ossos das mãos. Estava frio, imenso frio. A esta altura já as nuvens do céu eram agora iguais às que saíam da boca. O senhor do chapéu continuava sem chapéu, concentrado na leitura.
Uma rapariga corajosa passa. Além das previsíveis calças de ganga e das botas de salto raso, traz um gorro enfiado na cabeça, luvas grossas, casaco almofadado, cachecol e uma trela colorida, a que vem preso um cão. O cão é branco, tem imenso pêlo, não parece ter frio.
Passam agora em frente ao senhor do chapéu que levanta os olhos do seu objectivo lunático para contemplar a dona e o domesticado.
A moça é bonita, é certo, quer para um mágico, quer para um cientista, mas o que nos surpreende, o que verdadeiramente nos ataca o peito como coisa jamais vista é o facto de o homem se ter levantado repentinamente para agarrar no cão e o enfiar pela goela abaixo da cartola. Isto aconteceu num só segundo, não mais. O cão nem teve tempo para ganir, subitamente já não estava. Com o choque, a rapariga nem gritou, dir-se-ia que tinha assistido ao desaparecimento do cão quase serenamente, não fosse ter começado a correr desenfreada pelo parque, com uns guinchos na voz que mais pareciam o latir de um cão.
Eu e o narrador decidimos agir imediatamente. Cinquenta metros depois estávamos em frente ao senhor do chapéu.
- Desculpe, você acabou de roubar um cão!
- Sim, o Milu! – e mostrou-nos uma imagem do Milu ao lado do Tintim.
- Você não pode roubar cães!
- Ai não?! Peço imensa desculpa.
- Onde está o cão?
- Na cartola, não se preocupem. Algum de vocês já foi à lua?
- Não, nunca fomos. E você?
- Também não, mas gostava. Sabem onde posso encontrar o professor Girassol?
- Não, não sabemos.
- E o Tintim?
- Também não. Desculpe, mas vai ter de devolver o cão. Onde está ele?
- Na cartola, já vos disse.
- Tem de devolvê-lo imediatamente. Não pode andar aí a roubar cães às pessoas. Além de que esse cão não é o Milu. É parecido com o Milu, mas não é o Milu.
- Ai não?!
- Não. Esses cães chamam-se Fox Terrier de pêlo duro.
- Pêlo duro é apelido?
- Não. É a raça. Fox Terrier de pêlo duro é a raça. O tipo de cão, percebe?
- Ah, ok. Não haverá outros de pêlo mole?
- Sim, claro.
- Então queria antes um desses. Ter pêlo duro é desagradável para quem dá festinhas, não acha?
- Acho!
- Sabe onde posso encontrar um cão de pêlo mole?
- Sim, sei. Eu levo-o ali a um canil para você escolher o cão que quiser.
- Obrigadíssimo. Vou então tirar o Milu da cartola.
O senhor meteu a mão no chapéu brilhante, mas, em vez de um Fox Terrier, tirou de lá outro animal, nomeadamente um coelho. No primeiro momento nenhum dos três disse nada, ficámos apenas a olhar para o roedor desconhecido. O senhor parecia muito desiludido, abanava a cabeça repetidamente. A única coisa que o cão e aquele coelho tinham em comum era a cor.
- Peço-vos imensa desculpa. De vez em quando acontece-me isto: as coisas que entram na cartola transformam-se em coelhos.
- A sério?! Então porquê?
- Não sei. Deve ser um erro no software.
- No software?
- Sim, no software.
- No software da cartola?
- Sim.
- Você é mágico?
- Não.
- Ah, então a nossa hipótese preferida comprova-se! Essa cartola é uma máquina do tempo.
- Sim, é verdade!
- Você vem do passado?
- Não, venho do futuro.
- Do futuro?!
- Sim, do futuro.
- Assim vestido?!
- Sim.
- Você é cientista?
- Não.
- Então é o quê?!
- Sou informático.
Eu e o narrador decidimos agir imediatamente. Cinquenta metros depois estávamos em frente ao senhor do chapéu.
- Desculpe, você acabou de roubar um cão!
- Sim, o Milu! – e mostrou-nos uma imagem do Milu ao lado do Tintim.
- Você não pode roubar cães!
- Ai não?! Peço imensa desculpa.
- Onde está o cão?
- Na cartola, não se preocupem. Algum de vocês já foi à lua?
- Não, nunca fomos. E você?
- Também não, mas gostava. Sabem onde posso encontrar o professor Girassol?
- Não, não sabemos.
- E o Tintim?
- Também não. Desculpe, mas vai ter de devolver o cão. Onde está ele?
- Na cartola, já vos disse.
- Tem de devolvê-lo imediatamente. Não pode andar aí a roubar cães às pessoas. Além de que esse cão não é o Milu. É parecido com o Milu, mas não é o Milu.
- Ai não?!
- Não. Esses cães chamam-se Fox Terrier de pêlo duro.
- Pêlo duro é apelido?
- Não. É a raça. Fox Terrier de pêlo duro é a raça. O tipo de cão, percebe?
- Ah, ok. Não haverá outros de pêlo mole?
- Sim, claro.
- Então queria antes um desses. Ter pêlo duro é desagradável para quem dá festinhas, não acha?
- Acho!
- Sabe onde posso encontrar um cão de pêlo mole?
- Sim, sei. Eu levo-o ali a um canil para você escolher o cão que quiser.
- Obrigadíssimo. Vou então tirar o Milu da cartola.
O senhor meteu a mão no chapéu brilhante, mas, em vez de um Fox Terrier, tirou de lá outro animal, nomeadamente um coelho. No primeiro momento nenhum dos três disse nada, ficámos apenas a olhar para o roedor desconhecido. O senhor parecia muito desiludido, abanava a cabeça repetidamente. A única coisa que o cão e aquele coelho tinham em comum era a cor.
- Peço-vos imensa desculpa. De vez em quando acontece-me isto: as coisas que entram na cartola transformam-se em coelhos.
- A sério?! Então porquê?
- Não sei. Deve ser um erro no software.
- No software?
- Sim, no software.
- No software da cartola?
- Sim.
- Você é mágico?
- Não.
- Ah, então a nossa hipótese preferida comprova-se! Essa cartola é uma máquina do tempo.
- Sim, é verdade!
- Você vem do passado?
- Não, venho do futuro.
- Do futuro?!
- Sim, do futuro.
- Assim vestido?!
- Sim.
- Você é cientista?
- Não.
- Então é o quê?!
- Sou informático.
Em silêncio, eu e o narrador acompanhámos o senhor ao canil. Depois viemos para casa. Estávamos deveras tristes por a nossa personagem ser, afinal, um informático.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
O senhor de chapéu I
O senhor que passeia no parque traz um chapéu na cabeça. Ao longe, e apesar de ser preto, brilha. O chapéu, não o senhor.
(O senhor não é preto, é branco.)
O chapéu, que é preto, brilha sempre. Com ou sem sol. Brilha.
Hoje, por exemplo, não está sol. Há nuvens escuras no céu, quase chove, e no entanto o chapéu deste senhor brilha. Ao longe e ao perto.
Além de preto, é alto, magro, bem parecido, tem umas asas curtas. Perdão, abas: o chapéu tem abas curtas.
Trata-se evidentemente de uma cartola. Insisto: o senhor que passeia no parque traz uma cartola na cabeça. Isto provoca em nós (em mim e no narrador) tal estranheza que gostaríamos de o seguir. Infelizmente nenhum dos dois tem tempo e ficamos só a observar.
Trata-se evidentemente de uma cartola. Insisto: o senhor que passeia no parque traz uma cartola na cabeça. Isto provoca em nós (em mim e no narrador) tal estranheza que gostaríamos de o seguir. Infelizmente nenhum dos dois tem tempo e ficamos só a observar.
O senhor anda muito devagar. De vez em quando pára, fica a olhar as árvores e as pessoas, tira um relógio do bolso, consulta as horas.
Para ajudar no lento compassar do passo, traz uma bengala, embora não se apoie nela. Em vez disso, empurra-a para a frente com força, poisa-a assertivamente no chão - os movimentos são largos e perigosos. De vez em quando gira a bengala no ar.
Para ajudar no lento compassar do passo, traz uma bengala, embora não se apoie nela. Em vez disso, empurra-a para a frente com força, poisa-a assertivamente no chão - os movimentos são largos e perigosos. De vez em quando gira a bengala no ar.
O senhor que passeia no parque vem vestido de fraque. O peito é inchado e a cauda comprida: parece um melro. O senhor que passeia no parque parece um melro. De facto.
Tem também um lenço de seda ao pescoço.
(Um homem de se lhe tirar o chapéu.)
Quero saber de onde vem este homem, para onde vai, qual a sua profissão, intenção, confusão. O narrador diz-me: Louco não é. Realmente, não é. Actor também não.*
Portanto, das duas, uma: o senhor que passeia no parque ou é mágico, ou é cientista. E nunca os dois ao mesmo tempo.
Se for mágico, tira coelhinhos brancos da cartola.
Se for cientista, descobriu a máquina do tempo e anda a passear no futuro.
Qualquer uma das hipóteses nos parece plausível, por isso, colocamos as duas.
Eu e o narrador voltamos para casa. Para investigar o caso.
*O narrador desta história não é omnisciente, mas reserva-se o direito de saber certas coisas. Uma delas é esta: o senhor que se passeia no parque não é louco nem actor.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
No quiosque
Saiu de casa para comprar um postal. Disse: "Vou comprar um postal" e foi. Abriu a porta, saiu, fechou-a, pôs-se a caminho.
Do quiosque. Dos jornais. Da rua.
Qualquer coisa o fascina no quiosque. Várias coisas. Todas as coisas. Não, afinal são só três.
A primeira é a porta. Um pedaço de madeira e vidro, muito leve, muito branco. Quando se abre ou fecha, toca um sino. Ou dois. Não dá bem para perceber. O som é parecido com os badalos que se ouvem no monte: com os chocalhos das vacas, das ovelhas, das cabras (e não com os sinos das igrejas).
A segunda (que não é coisa, mas sim pessoa) é a senhora. Aquela senhora. A do quiosque. Olha para a porta sempre que o sino toca. Para ver quem entra, quem sai, quem fica. Está sempre à caixa. Uma senhora amável. Que se pode amar. Que se ama. O homem que quer comprar um postal desconfia que os cabelos da senhora do quiosque da rua cheiram a tinta de impressão, que o seu rosto é de papel ou esferovite e não de carne e osso. Frágil. Tem óculos quadrados e neles se espelham todas as letras de todos os jornais.
A terceira coisa que o fascina é o próprio papel. Os sentidos segundo o papel. O cheiro do papel, a textura, os dedos, a voz, o peso. Papel mate, papel couchê, papel bouffant, papel de jornal, a arte de ser papel. Por agora, esquece-se desta paixão pelo papel. Tem outra: quer comprar um postal.
Foi até ao fundo do quiosque. Onde está a secção de postais. São muitos. Imensos. Demasiados. Uns dizem coisas, outros só uma palavra, outros nada de nada. Há postais de tudo. Aniversário, casamento, nascimento, baptizado, Natal, Páscoa. Postais para dizer que se ama. Para desejar as melhoras. Para pedir desculpa. O homem inquieta-se, confunde-se. Fica duas horas a ver postais. Uma decisão difícil. No final, escolheu um postal que não dizia nada: na frente tem uma azinheira no meio de um prado. No verso nada.
Do quiosque. Dos jornais. Da rua.
Qualquer coisa o fascina no quiosque. Várias coisas. Todas as coisas. Não, afinal são só três.
A primeira é a porta. Um pedaço de madeira e vidro, muito leve, muito branco. Quando se abre ou fecha, toca um sino. Ou dois. Não dá bem para perceber. O som é parecido com os badalos que se ouvem no monte: com os chocalhos das vacas, das ovelhas, das cabras (e não com os sinos das igrejas).
A segunda (que não é coisa, mas sim pessoa) é a senhora. Aquela senhora. A do quiosque. Olha para a porta sempre que o sino toca. Para ver quem entra, quem sai, quem fica. Está sempre à caixa. Uma senhora amável. Que se pode amar. Que se ama. O homem que quer comprar um postal desconfia que os cabelos da senhora do quiosque da rua cheiram a tinta de impressão, que o seu rosto é de papel ou esferovite e não de carne e osso. Frágil. Tem óculos quadrados e neles se espelham todas as letras de todos os jornais.
A terceira coisa que o fascina é o próprio papel. Os sentidos segundo o papel. O cheiro do papel, a textura, os dedos, a voz, o peso. Papel mate, papel couchê, papel bouffant, papel de jornal, a arte de ser papel. Por agora, esquece-se desta paixão pelo papel. Tem outra: quer comprar um postal.
Foi até ao fundo do quiosque. Onde está a secção de postais. São muitos. Imensos. Demasiados. Uns dizem coisas, outros só uma palavra, outros nada de nada. Há postais de tudo. Aniversário, casamento, nascimento, baptizado, Natal, Páscoa. Postais para dizer que se ama. Para desejar as melhoras. Para pedir desculpa. O homem inquieta-se, confunde-se. Fica duas horas a ver postais. Uma decisão difícil. No final, escolheu um postal que não dizia nada: na frente tem uma azinheira no meio de um prado. No verso nada.
O homem que queria um postal já tinha o postal. Estava contente. Foi pagar. A senhora de papel recebe-o ao balcão. Diz:
- Escolheu um postal bonito.
- Gosta?
- Gosto.
- Estava ali um bocado indeciso, sabe?
- Sei, pois! Ficou duas horas a ver postais!
- Verdade?!
- Verdade. É tudo?
- Não. Queria também um selo, por favor.
- Correio nacional?
- Sim.
- Normal?
- Não. Correio azul, por favor.
- Para chegar mais rápido, estou a ver.
- Sim, o mais rápido possível.
O homem pagou. Guardou o selo na carteira, fechou a carteira, devolveu-a ao bolso. Já estava a preparar-se para sair, quando reparou no seguinte: ao lado da caixa registadora havia um pequeno mostrador com cartões de visita. Do quiosque. Era um cartão muito simples em fundo branco. O homem tirou um.
- Escolheu um postal bonito.
- Gosta?
- Gosto.
- Estava ali um bocado indeciso, sabe?
- Sei, pois! Ficou duas horas a ver postais!
- Verdade?!
- Verdade. É tudo?
- Não. Queria também um selo, por favor.
- Correio nacional?
- Sim.
- Normal?
- Não. Correio azul, por favor.
- Para chegar mais rápido, estou a ver.
- Sim, o mais rápido possível.
O homem pagou. Guardou o selo na carteira, fechou a carteira, devolveu-a ao bolso. Já estava a preparar-se para sair, quando reparou no seguinte: ao lado da caixa registadora havia um pequeno mostrador com cartões de visita. Do quiosque. Era um cartão muito simples em fundo branco. O homem tirou um.
Assim já tinha o endereço. Com código postal e tudo.
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