segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Se respondeu b)

Leia a pergunta aqui.

Na sua opinião, o Alasca seria o cu de Judas.

Ena! Você foi suficientemente perspicaz para virar o mapa ao contrário (e nunca o mundo, que esse está sempre em pé, para onde quer que o rodemos).
Neste caso, estando a América do avesso, somos obrigados a admitir que o Alasca passa de cabeça sem cavaleiro a cu de Judas ou a calcanhar de Aquiles ou a qualquer coisa no final do corpo, muito separado, muito desunido.
(Por exemplo, se os Estados Unidos defecassem, o Alasca poderia ser o seu resultado. No entanto, esta resposta não consta das múltiplas escolhas porque o Alasca também tem direito à vida. E como sabemos, a merda não vive.)
E estando o Alasca no final do corpo, o cu parece ser a resposta apropriada.
Infelizmente, esta resposta não é correcta. Já se sabe que não existem cus separados do corpo.
Se pretende saber qual a resposta certa, clique aqui ou continue a ler em baixo.

Se respondeu c)

Leia a pergunta aqui.

Na sua opinião, o Alasca seria um cão rafeiro.

Parabéns! Você acertou na resposta certa. Realmente, estando separado dos Estados muito Unidos, e caso estes fossem um corpo humano com cabeça, tronco e membros, o Alasca só poderia consistir num outro corpo. Independente dos Estados mais unidos, como é evidente, mas seguindo-os sempre e para todo o lado, mais ou menos perto, mais ou menos longe, fielmente. Concluímos assim que o Alasca seria, nem mais nem menos, do que um animal de estimação. Amicíssimo do corpo muito unido.
Um cão, portanto. Branco como a neve, com a cabeça naturalmente fria. Muito fria. (Não seria o Alasca se não tivesse a cabeça muito fria.) Tão fria que o cão não a usaria. Os seus próprios membros também não a coçariam.
E os outros Estados, por uma questão de comodidade, também não dariam festinhas no seu cocuruto gelado. O Alasca, coitado, seria um cão de circunstância. Muito carente, desamado, desacarinhado, desunido. O Alasca dormiria, comeria, ladraria. Nada mais.
E portanto, se os Estados Unidos fossem um corpo humano com cabeça, tronco e membros, o Alasca seria um cão, com a sua cabeça, o seu tronco e os seus membros. Provavelmente feio. Rafeiro. Doente. Cheio de pulgas carraças.

(E estava eu neste exercício de escrita quando me apercebi do seguinte: Ora bolas, a Sarah Palin é governadora do Alasca! Que triste coincidência. E vai daí, voltei atrás e substituí as pulgas por carraças.)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

nascer do sol

a luz recém-chegada
não nasceu aqui.
não viveu aqui.
não pertence aqui.

é estrangeira.

a luz veio à terra morrer.
e não nascer.
jamais nascer.

a aurora é triste.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

No escritório do chefe (IX)

(Última parte)
- O grau dos adjectivos?!
- Sim, o grau dos adjectivos!
- Mas agora voltámos à Edite Estrela?!
- Ó Vasco, a Edite Estrela é uma grande mulher.
- Mas eu não quero saber da Edite Estrela, ainda não percebeu isso?
- Eu também não quero saber dela pra nada, ó Vasco. Mas do grau dos adjectivos, quero.
- Olhe, eu não! Estou-me nas tintas para o grau dos adjectivos. Badamerda pró grau dos adjectivos.
- Pois, é aí que o Vasco falha. É aí que o Vasco falha. Exactamente aí. Não há nada mais importante do que o grau dos adjectivos. Nada!
- Olhe, chefe, você definitivamente não me vai deixar falar. Não há paciência! De maneira que eu vou dizer o que tenho a dizer assim às três pancadas. Número 1: já não quero trabalhar mais para si. Número 2: arranjei outro emprego. Número 3: você é estúpido que nem uma porta, não compreende o que se passa na sua própria empresa e está-se a borrifar para os homens e as mulheres que trabalham nesta casa. Número 4: Vai daí, caguei para isto. Vou-me embora. Adeus.
- Está a ver, Vasco? Está a ver? Você, com um pouco mais de gramática, um pouquinho só, ia longe. Ia longe. Longe mesmo. Mas como lhe falta o léxico, você não vai mais longe, vai ficar aí, percebe? Aí, nesse sítio, nessa jaula de jardim zoológico. Para sempre.
- Tudo bem. Não vou mais longe! Isso para mim está tudo bem. Eu não quero ir mais longe, entende? Quero mesmo é ir-me embora. Você pode ficar com o léxico e a gramática e o grau dos adjectivos, que eu não me importo nada. Mesmo nada. E no entretanto, você, para mim, continua a ser estúpido.
- Pois continuo, para uns somos sempre estúpidos, não haja ilusões. Não quero convencê-lo do contrário. Agora veja o seguinte, Vasco. Veja o seguinte: você, com um pouco mais de gramática, se calhar tinha ganho esta batalha.
- E ganhei-a, chefe!
- Ganhou-a?! Você está parvo? Acha que o seu discurso alterou alguma coisa em mim? Em você? No mundo? Acha?! Você veio aqui com essa pose de herói e não conquistou nada nem ninguém.
- Olhe, tem graça, você também não.
- Eu não queria conquistá-lo, Vasco. Estive aqui o tempo todo a dar-lhe as ferramentas. Para você me conquistar.
- Eu não queria ferramentas. Queria só dizer-lhe o que tinha a dizer. E você não me ouviu, nunca ouviu, não quer ouvir. Ora, quem não ouve, ou é surdo, ou é estúpido. Você é estúpido.
- Vasco, você não tinha nada para dizer. Nada, absolutamente nada! Percebe? Veio aqui para chamar-me estúpido, era esse o seu objectivo.
- E cumpri-o! Cumpri-o! Logo, ganhei a batalha.
- Ganhou?! Ganhou?! Ora esta agora… Ganhou o quê?
- Isso: chamar-lhe estúpido. Chamei, não chamei?! Logo, ganhei.
- Isso aí não é um prémio, homem, não é um prémio. É um feito. Está ao seu alcance. É uma obra, nada mais. Deus sonhou, você quis e a coisa fez-se.
- Ao contrário, chefe.
- Ao contrário o quê?
- Deus quis, eu sonhei e a obra nasceu. Não foi Ele que sonhou. Ele quis.
- Está bem, Deus quis e você sonhou, pronto. E depois você entrou por aqui adentro e concretizou. Pronto, foi só isso. Não há aí nenhum prémio, nenhuma recompensa, o mundo é igual ao de há bocado. E sabe porquê, Vasco? Sabe porquê?
- Diga lá porquê, chefe!
- Porque não houve uma consequência. Uma só que fosse. Não houve. Você, com essa atitude, não conseguiu nada. Nada, percebe? Nada de nada. É assustador como a energia do Vasco não gerou nada.
- Gerou, sim. Gerou, sim, eu bem sei que sim. Gerou auto-estima, auto-confiança. Eu gosto mais de mim hoje, chefe, do que alguma vez gostei. Esta é, para mim, a medalha d'ouro! Gosto de mim!
- Você sempre gostou de si, você só gosta de si! E no entanto, Vasco, não mudou o mundo. Repare nisto: não mudou o mundo. Esteve perto disso e não o fez. Por opção. Você não mudou o mundo por opção. Isto é que é gritante! E tudo por causa do grau dos adjectivos.
- Epá, já não posso com o grau dos adjectivos, chefe! Acabe lá com isso.
- Pois, é aí a sua falha. Como lhe disse, é aí a sua falha. Eu a querer a ensiná-lo, a querer fazer de si um homem melhor, e você não quer aprender, não quer ouvir, não quer ser.
- Pois não.
- Pois não. Pois não! Logo, você para mim, é estúpido.
- Olhe, essa agora também não mudou o mundo, ó chefe, que pena!
- Pois não, não mudou. Não se pode mudar o mundo com gente estúpida, ó Vasco.
- Não, não, pare já com essa de virar a ponta ao prego.
- Não páro, não. Porque eu tenho imensa coisa para lhe dizer, Vasco, imensa coisa. O meu objectivo não é chamar-lhe estúpido, isso para mim é menor, não me limito aos tomates, percebe? Quero ir mais longe, quero transformá-lo, quero indicar-lhe um caminho. Para você deixar de ser estúpido. Mas você, por opção, não quer saber do conhecimento que eu tenho para lhe dar.
- Pois não.
- Pois não. Pois não! Você era quase um herói, Vasco. Quase um herói. Mas não se pode mudar o mundo sem gramática, Vasco. Não se pode. Repito: Não se pode mudar o mundo sem gramática.
- Ai não, chefe?
- Não, Vasco. Porque só ela permite o diálogo. Só ela permite o diálogo. E sem diálogo, não há comunicação. Só a gramática permite a comunicação. Entre si e os outros, entre si e os seus tomates, entre nós e o mundo. Percebe?
- Pronto, tudo bem, a gramática vai salvar o mundo. Mas você, para mim, continua a ser estúpido.
- Olhe só a coincidência disto, Vasco, olhe só: você, para mim, também continua a ser estúpido. É incrível, Vasco.
- Pois é. Então se calhar, nenhum de nós é herói, ó chefe.
- Se calhar não, Vasco.
- Mas somos os dois estúpidos.
- Sim, é verdade. Temos isso em comum. E temos outra coisa ainda em comum: somos dois estúpidos com tomates.
- É verdade.
- E no entanto eu sou chefe. E o Vasco não.
- Sim, é verdade. O chefe é chefe. Mas eu sou livre. E o chefe não.
- É uma perspectiva. É uma perspectiva. Vá-se lá embora então.
- Vou sim, chefe. Não disse tudo o que queria ter dito, mas enfim, fica para a próxima.
- Não se pode ter tudo nesta vida, Vasco.
- Pois não, chefe.
- Pois não.
- Ora então, cumprimentos à selva, chefe.
- Obrigado. E à sua jaula também.


(FIM)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

No escritório do chefe (VIII)


- Não, eu não estou a alegar nada, você é que não está a dizer a verdade.
- Você chamou o chefe de estúpido?!
- Não estou a dizer a verdade?! Está a chamar-me de mentiroso, agora?
- Você chamou o chefe de estúpido?!
- Sim, de certa forma, sim. É mentiroso, sim! Está a deturpar a verdade.
- Você está a chamar o chefe de mentiroso?
- Ó Vasco, você está realmente confuso.
- Eu não estou confuso.
- Ó chefe, este homem está confuso. Quer que eu chame a polícia?
- Não, Alídio. Não chame ninguém. Aliás, se fizer favor, pode até retirar-se. Não houve aqui agressão nenhuma, vamos resolver tudo isto a bem.
- Ó chefe, desculpe estar a intrometer-me, mas o que se está a passar aqui é agressão pura.
- Alídio, você tem toda a razão. Tem toda a razão mesmo, mas aqui o colega Vasco não concorda consigo. Aqui o Vasco acha que no jardim zoológico temos de chamar nomes às pessoas.
- No jardim zoológico?!
- Sim, o Vasco gostaria de viver no jardim zoológico.
- No jardim zoológico?!
- Eu nunca disse tal coisa, você está a manipular o meu discurso.
- Ó chefe, este homem não está bem. O melhor é mesmo chamar a polícia.
- Ó homem, não se meta onde não é chamado.
- Onde não sou chamado?! Eu sou o segurança deste edifício.
- Olhe, Alídio, vamos fazer o seguinte: se eu precisar de si, ligo lá para baixo, pode ser?
- Está bem, chefe, pode ser. Mas eu, por mim, resolvia já a coisa. Não vale a pena sermos heróis nestas alturas, chefe.
- Herói?! Você está a chamar o chefe de herói?!
- Pronto, Alídio, mas eu realmente preferia resolver isto à minha maneira, se não se importa.
- Este homem é um merdas, não é nenhum herói.
- Pronto, chefe, então se precisar de mim, já sabe onde estou.
- Claro, Alídio, sei muito bem. Obrigado por ter passado.
- É todo um merdas! Uma verdadeira papa de tomate com açúcar.
- De nada, chefe. Sempre às ordens. Mas já sabe o que eu acho, eu por mim...

[O segurança sai.]

- Já viu este rapaz, Vasco? Já viu bem? Tem uns 27 anos, não tem mais. Eu sei disso porque conheço a mãe dele e este miúdo já veio depois da minha filha.
- Você é um merdas!
- E agora está ali, pá, parece um homem. Parece um homem! Lembro-me dele pequeníssimo. Assim, desta altura. Gosto da juventude, quando ela é assim, sabe? Bem feita, bem parida, bem vivida. Assim é que é.
- ...
- Vasco, sente-se aí outra vez.
- Não quero, você é um merdas!
- Sente-se, vá. Vamos lá resolver isto, faça-se um homem! O Vasco precisa de se acalmar. Está muito confuso.
- Confuso?! Eu?! Já lhe disse que não estou confuso. Sei bem o que disse, por que o disse e quando o disse. E o que eu disse foi: Você é estúpido. E um merdas. Não me arrependo disso. Ouviu? Não me arrependo.
- Aaaah, agora que o segurança se foi embora já não se arrepende.
- Ó chefe, você está a dar a volta ao meu discurso, eu nunca me arrependi de nada.
- Vasco, eu entendo isso tudo, entendo isso tudo: a sua fúria, o seu mal-estar, essa confusão toda que vai na sua cabeça. Entendo isso tudo. É verdade que entendo. Porque eu sou, no fundo e à superfície, um homem bom, 'tá a ver? Um homem compreensivo, pacífico, aberto ao outro. Pode perguntar a quem quiser, sou mesmo assim. E muito embora as hostilidades estejam definitivamente abertas entre mim e o Vasco, não consigo deixar de o ver como um ser humano, 'tá a ver? Não consigo. Você, para mim, é um ser humano. Nada mais que isso. Mesmo que queira viver no jardim zoológico, você, para mim, é humano. Igual aos outros. Com uma capacidade enorme para o erro e para o contraditório. Porque nós somos, por natureza, contraditórios, Vasco. Mesmo os meios-heróis. Somos todos contraditórios. Há que aceitá-lo. E em situações de perigo ainda mais contraditórios somos. É assim porque é assim. Sempre foi assim, há que aceitar o passado anterior a nós. Não o podemos alterar. E é exactamente por isso que o conflito entre o que somos e o que queremos é enorme. O fosso é profundo, temos vertigens só de olhar para ele, ficamos confusos com tudo isto. Mas ao mesmo tempo é isso que faz de nós seres humanos. Isso e nada mais. E é aqui que regressamos à tal conversa dos tomates.
- Não, não, chefe. Desculpe, mas não voltamos aos tomates, não senhor.
- Voltamos sim, é aí que tudo começa.
- Não, já chega de tomates. Não quero saber de tomates.
- Ai não? Não quer saber de tomates?! Então quer saber do quê?
- Do meu discurso. Das palavras. Do que tenho para lhe dizer. E depois vou-me embora. Vou-me mesmo embora. Para sempre.
- Ai sim? Mas o Vasco tem alguma coisa para dizer?
- Como assim, chefe? Então o que é que estamos aqui a fazer?! Então eu não estou aqui desde as nova da manhã para lhe dizer o que vim para dizer?
- Não. Estamos aqui por causa do que eu tinha para dizer. O que o Vasco disse foi que ia dizer o que eu queria ouvir, não o que tinha para dizer.
- Não, não disse nada disso. Não disse nada disso!
- Bom, então devo ter percebido mal, só pode. Peço desculpa, também tenho direito ao erro, não acha, Vasco?
- Acho, chefe!
- Muito obrigado. Ora então diga, Vasco. Essa tal coisa que tinha para dizer, diga, diga. Não é difícil dizer o que se tem para dizer, pois não?
- Olhe, mas também não é fácil.
- Pois não.
- Não sou muito bom com as palavras.
- Ai não?
- Não, chefe, não sou.
- Então já percebeu a importância do que lhe falei há pouco? Já percebeu?
- A importância do quê, chefe?
- Isso pergunto-lhe eu: A importância do quê, Vasco?
- Dos tomates?!
- Não, Vasco. Claro que não. Deixe lá os tomates.
- Do jardim zoológico?!
- Não, homem! Dos adjectivos. Do grau dos adjectivos! Não há nada mais importante do que o grau dos adjectivos.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

No escritório do chefe (VII)

- …
- Diga, diga, Vasco. Sou todo ouvidos.
- É todo ouvidos?! Você é todo um merdas, não é todo ouvidos. É todo um merdas.
- Ó Vasco, se você vai passar o tempo todo a insultar-me, então não vale a pena ficar a ouvi-lo, não acha?
- Cale-se, já lhe disse. Isto foi só uma maneira de introduzir o tema, de começar a conversa, nada mais.
- Não, não foi. Desculpe, mas não foi. Foi um insulto. Assim não se pode conversar, Vasco. Depois de tanto insulto, não há diálogo, homem. É que, neste caso, só mesmo eu para o ouvir, ó Vasco. Só eu. Que outro chefe é que ficava aqui a ouvi-lo?! Que outro chefe? Diga lá. Qualquer outra pessoa mandava-o embora e não queria saber mais de si, Vasco. Mas eu não sou assim, nunca fui assim. Cuido realmente do que é meu e estou aqui para cuidar de si. Acredito nisto até ao fim do mundo, entende? Até ao fim do mundo. Há que cuidar do que é nosso. Mas, por outro lado, se "o que é nosso" nos rejeita, então não podemos cuidar mais. E portanto, se o Vasco vem aqui com duas pedras na mão, então não há diálogo possível, não é verdade?
- Está a ver isto, chefe?! Está ver isto? Você está mais uma vez a discursar e eu a ouvi-lo.
- Desculpe, tem razão, Vasco. Tem toda a razão. Queria só sensibilizá-lo para isto. Só isso, nada mais. Já não está aqui quem falou.
- Ah, ainda bem. Que eu gosto é de falar para as paredes. Ora bem, tinha eu começado por dizer que você é todo um merdas, mas agora retiro o que disse para não ferir susceptibilidades. Retiro até o atributo estúpido que tão bem lhe colei à testa.
- Não, não. Nada disso. Não tira, não. Não se apaga o passado numa conversa destas. Não se apaga nada. Mas o que é isto? Um homem do presente assume o passado, não anda para aí a inventar. É preciso reconhecer o passado, percebe? Aceitá-lo. Resolvê-lo. Eu já o aceitei. Agora, se o Vasco está com peso na consciência, das duas, uma: ou vive com esse peso na consciência ou livra-se dele tomando uma medida no futuro. Resolvendo o passado, percebe? Mas aqui, neste escritório e neste momento, o passado permanece. Você chamou-me de estúpido. É por aí que começamos.
- Ora então, comecemos: Você é estúpido.
- Ó Vasco, não é preciso repetir. O que está dito, está dito. Além de que está a entrar em contradição consigo próprio. Ainda há pouco estava arrependido de ter escolhido tal atributo e agora já está novamente nessa insistência.
- Arrependido? Eu?! Acha que estou arrependido de o ter chamado estúpido?
- Sim, acho! Claro que o Vasco está arrependido! Até queria apagar isso do seu discurso.
- Bom, vamos lá ver uma coisa, eu não estou arrependido de nada.
- Mas bem que queria apagar o tal atributo do seu discurso.
- Sim, queria. Para ganhar os seus ouvidos, nada mais. Estava a cativá-lo, percebe? Com tanta lábia, nunca leu nada sobre retórica, chefe?
- Para ganhar os meus ouvidos?! Então tanta pujança para dizer o que quer e agora vai dizer o que eu quero?

[Batem à porta e antes mesmo que alguém responda, entram. É o segurança.]

- Desculpe interromper. Passa-se aqui alguma coisa? Ligaram-me lá para baixo a dizer que havia agressão.
- Não, não se passa nada.
- De certeza, chefe?
- De certeza. Foi só aqui o colega que veio ao escritório do chefe chamar-me nomes. Mas ele agora já está arrependido, de maneira que não há problema nenhum.
- Não, ó chefe, isso não lhe admito.
- Não me admite o quê?
- Eu não disse nada disso. Você está a pôr coisas no meu discurso que eu nunca disse.
- Como assim? Como assim? Você está a alegar que nunca me chamou estúpido?

(continua)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

No escritório do chefe (VI)

- Ó Vasco! Você começa a irritar-me com essa.
- Que essa?
- Com essa coisa. Das pessoas estúpidas.
- Ai sim, chefe? Desculpe, não era minha intenção irritá-lo.
- Pois, mas de facto começa a irritar-me essa insinuação constante, essa coisa aí entre dentes.
- Mas que coisa, chefe?
- Essa coisa, essa coisa. Das pessoas estúpidas, já lhe disse. Essa acusação velada sempre pronta a sair. Isso não é nada bom para esta nossa conversa de heróis, sabe?
- De meios-heróis, chefe!
- Sim, de meios-heróis.
- Não queira ser mais do que é, chefe! Por agora, é meio-herói. Depois se verá.
- Certo, certo! Mas vamos então deixar essa insinuaçãozinha que já me começa a melgar os ouvidos, está bem?
- Insinuaçãozinha?!
- Sim, insinuaçãozinha. Você sabe bem do que estou a falar, Vasco. Essa insinuação das pessoas estúpidas.
- Mas eu não insinuei nada, chefe, já lhe disse o que tinha a dizer: Você é uma pessoa estúpida. Efectivamente uma pessoa estúpida, sem sombra para dúvidas, evidentemente, indubitavelmente. Estúpida, pronto.
- Ó Vasco, não me diga que vamos voltar ao princípio?! Já lhe disse para não me chamar estúpido!
- Mas é que entretanto já o chamei quinhentas vezes, portanto não vale a pena fugir com o rabo à seringa.
- Como se atreve? Como se atreve?!
- Olhe, é de tal forma que até vou escrever aqui na folhinha que o chefe me deu. Porque também já aprendi uma coisa hoje.
- Pare já com isso, pare já com isso, Vasco.
- Chefe, tracinho, estúpido. Pronto, já está. Chefe, tracinho, estúpido. Também é o título de um romance.
- Ó Vasco, o que é que o Vasco pretende com esse comportamento? O que pretende? O que pretende?
- Ora bem, inicialmente era mesmo só chamá-lo de estúpido. Pronto, só isso, estava cheio de ganas de vir aqui, entrar no seu gabinete e dizer-lhe: Você é estúpido. E hoje, justamente por o dia se ter posto tão bonito, vinha com essa na cabeça, que o mundo merecia que eu fizesse algo por ele, que eu merecia que o mundo fizesse algo por mim...
- Que o mundo fizesse algo por si?! Que o mundo fizesse algo por si?! Mas que idade é que você tem, homem?
- Ora bem, agora sou eu que lhe digo: Pare já com isso! Pare já. Imediatamente. Estou farto. Farto. FARTO. Percebe? Farto de si e dessa sua maneira.
- Dessa minha maneira?
- Sim, dessa sua maneira. De virar a ponta ao prego.
- De virar a ponta ao prego?!
- Sim, de virar a ponta ao prego. Pensa o quê? Que nasci ontem? Que cheguei agora à selva? Não preciso dos seus conselhos de meio-herói nem das suas teorias estúpidas de português viúvo, entende? Não quero os seus bloquinhos nem as suas canetinhas, estou-me nas tintas para os seus tomates, 'tá a ouvir? Estou-me nas tintas. Os seus tomates, para mim, são ketchup. Ketchup! Uma papa de tomates com açúcar, percebe? Detesto ketchup. Detesto!
- Homem, você acalme-se! Acalme-se, que você precisa de ajuda. Isto aqui é muito grave.
- Gravíssimo, chefe! Gravíssimo! Grau superlativo absoluto sintético e sei-lá-que-mais. Que eu hoje até tive de lhe aturar uma lição de gramática, chefe! De gramática! Que coisa mais patética, mais inconcebível! Parecia que estava a ver aquele programa da Edite Estrela.
- E que mal tem, homem? Que mal tem a Edite Estrela? Estamos aqui para aprender, Vasco! E se eu tenho coisas para lhe ensinar, ensino!
- Você não tem nada para me ensinar! Nada. Entende? Nada de nada. Pare com essa generosidadezinha manhosa. Pare com isso, que já não tenho paciência. Deixe lá essa lábia de campanha eleitoral. Não voto em si, percebe? Não voto em si! Eu nunca votei em si! Jamais votaria em si!
- Ai sim? Então vota em quê, homem? Vota em quê? No jardim zoológico? Nas jaulazinhas? É isso que quer? Uma revolta por dentro, escondidinha, ad eternum? Não seja maricas, Vasco, faça-se um homem. Mas onde é que estamos? Na escola primária?
- Você, se não pára de me dar conselhos, vou-lhe às trombas. É que vou mesmo. Está dito: vou-lhe às trombas.
- Como?! Ó Vasco, você passou-se, passou-se! Não me resta alternativa, Vasco. Não me resta alternativa! Vou chamar a polícia, Vasco!
- Que polícia, homem? Acha que eu lhe dava tempo para chamar a polícia? Saltava-lhe logo em cima e pontapeava-o, ouviu? Como você faz aos pombos e aos cães e aos gatos. Acha que eu teria compaixão? Matava-o logo. Em três tempos.
- Vasco, não se exalte dessa maneira, sente-se aí.
- Já lhe disse para não me dar conselhos.
- Bom, isto não eram conselhos.
- Ai não? Ai não?!
- Não. Eram ordens! Na verdade, eram ordens! Sente-se.
- Ok, sento-me. Nesta sua cadeira estúpida. Confortabilíssima. Detestável.
- Vasco, relaxe, que o dia ainda não acabou. O dia de hoje é francamente bonito e está para ficar. Vou aqui abrir mais a janela para não perdermos este sol. Hein? Que acha? Cá está ele, cá está ele: temos de agradecer ao universo este sol, há que saudá-lo todos os dias. Todos os dias. Não nos podemos esquecer. E entretanto deixe-me que lhe diga o seguinte: não faz grande sentido você vir aqui de ouvidos moucos só para me chamar de estúpido, percebe? Não faz sentido. Não faz. Porque você só perde a razão, percebe? Perde a luta na selva, 'tá a perceber? Porque, se assim for, eu chego aqui, prego-lhe com uma falta indisciplinar, você sai deste escritório com o rabo entre as pernas e não arranja emprego em mais lado nenhum... E eu fico aqui a coçar os tomates e a ver o sol brilhar para mim, 'tá a ver a ideia? Agora, se você abrir um pouco os ouvidos e ouvir o que há realmente para dizer, talvez as coisas sejam mais negociáveis, não acha?
- Negociável? Mas você acha que eu quero negociar alguma coisa? Que tenho medo dessas ameaças de rei da selva? Não, não tenho, não tenho medo de si, estou-me nas tintas para a sua selva, já lhe disse.
- Pronto, está visto: você veio aqui de ouvidos moucos. De ouvidos moucos. E o estúpido sou eu?! Não creio.
- De ouvidos moucos? Eu?! De ouvidos moucos?! Cale-se já. Não fiz mais nada hoje senão ouvi-lo, chefe! Já não posso ouvi-lo. Não posso, percebe? Cale-se de uma vez por todas.
- Muito bem, Vasco, muito bem. Vamos lá a isso. Vou aqui sentar-me com o meu bloquinho no colo para o ouvir. Só para o ouvir. Eu cá sou todo ouvidos. Todinho. Ora então diga lá.