quarta-feira, 22 de outubro de 2008

No escritório do chefe (VII)

- …
- Diga, diga, Vasco. Sou todo ouvidos.
- É todo ouvidos?! Você é todo um merdas, não é todo ouvidos. É todo um merdas.
- Ó Vasco, se você vai passar o tempo todo a insultar-me, então não vale a pena ficar a ouvi-lo, não acha?
- Cale-se, já lhe disse. Isto foi só uma maneira de introduzir o tema, de começar a conversa, nada mais.
- Não, não foi. Desculpe, mas não foi. Foi um insulto. Assim não se pode conversar, Vasco. Depois de tanto insulto, não há diálogo, homem. É que, neste caso, só mesmo eu para o ouvir, ó Vasco. Só eu. Que outro chefe é que ficava aqui a ouvi-lo?! Que outro chefe? Diga lá. Qualquer outra pessoa mandava-o embora e não queria saber mais de si, Vasco. Mas eu não sou assim, nunca fui assim. Cuido realmente do que é meu e estou aqui para cuidar de si. Acredito nisto até ao fim do mundo, entende? Até ao fim do mundo. Há que cuidar do que é nosso. Mas, por outro lado, se "o que é nosso" nos rejeita, então não podemos cuidar mais. E portanto, se o Vasco vem aqui com duas pedras na mão, então não há diálogo possível, não é verdade?
- Está a ver isto, chefe?! Está ver isto? Você está mais uma vez a discursar e eu a ouvi-lo.
- Desculpe, tem razão, Vasco. Tem toda a razão. Queria só sensibilizá-lo para isto. Só isso, nada mais. Já não está aqui quem falou.
- Ah, ainda bem. Que eu gosto é de falar para as paredes. Ora bem, tinha eu começado por dizer que você é todo um merdas, mas agora retiro o que disse para não ferir susceptibilidades. Retiro até o atributo estúpido que tão bem lhe colei à testa.
- Não, não. Nada disso. Não tira, não. Não se apaga o passado numa conversa destas. Não se apaga nada. Mas o que é isto? Um homem do presente assume o passado, não anda para aí a inventar. É preciso reconhecer o passado, percebe? Aceitá-lo. Resolvê-lo. Eu já o aceitei. Agora, se o Vasco está com peso na consciência, das duas, uma: ou vive com esse peso na consciência ou livra-se dele tomando uma medida no futuro. Resolvendo o passado, percebe? Mas aqui, neste escritório e neste momento, o passado permanece. Você chamou-me de estúpido. É por aí que começamos.
- Ora então, comecemos: Você é estúpido.
- Ó Vasco, não é preciso repetir. O que está dito, está dito. Além de que está a entrar em contradição consigo próprio. Ainda há pouco estava arrependido de ter escolhido tal atributo e agora já está novamente nessa insistência.
- Arrependido? Eu?! Acha que estou arrependido de o ter chamado estúpido?
- Sim, acho! Claro que o Vasco está arrependido! Até queria apagar isso do seu discurso.
- Bom, vamos lá ver uma coisa, eu não estou arrependido de nada.
- Mas bem que queria apagar o tal atributo do seu discurso.
- Sim, queria. Para ganhar os seus ouvidos, nada mais. Estava a cativá-lo, percebe? Com tanta lábia, nunca leu nada sobre retórica, chefe?
- Para ganhar os meus ouvidos?! Então tanta pujança para dizer o que quer e agora vai dizer o que eu quero?

[Batem à porta e antes mesmo que alguém responda, entram. É o segurança.]

- Desculpe interromper. Passa-se aqui alguma coisa? Ligaram-me lá para baixo a dizer que havia agressão.
- Não, não se passa nada.
- De certeza, chefe?
- De certeza. Foi só aqui o colega que veio ao escritório do chefe chamar-me nomes. Mas ele agora já está arrependido, de maneira que não há problema nenhum.
- Não, ó chefe, isso não lhe admito.
- Não me admite o quê?
- Eu não disse nada disso. Você está a pôr coisas no meu discurso que eu nunca disse.
- Como assim? Como assim? Você está a alegar que nunca me chamou estúpido?

(continua)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

No escritório do chefe (VI)

- Ó Vasco! Você começa a irritar-me com essa.
- Que essa?
- Com essa coisa. Das pessoas estúpidas.
- Ai sim, chefe? Desculpe, não era minha intenção irritá-lo.
- Pois, mas de facto começa a irritar-me essa insinuação constante, essa coisa aí entre dentes.
- Mas que coisa, chefe?
- Essa coisa, essa coisa. Das pessoas estúpidas, já lhe disse. Essa acusação velada sempre pronta a sair. Isso não é nada bom para esta nossa conversa de heróis, sabe?
- De meios-heróis, chefe!
- Sim, de meios-heróis.
- Não queira ser mais do que é, chefe! Por agora, é meio-herói. Depois se verá.
- Certo, certo! Mas vamos então deixar essa insinuaçãozinha que já me começa a melgar os ouvidos, está bem?
- Insinuaçãozinha?!
- Sim, insinuaçãozinha. Você sabe bem do que estou a falar, Vasco. Essa insinuação das pessoas estúpidas.
- Mas eu não insinuei nada, chefe, já lhe disse o que tinha a dizer: Você é uma pessoa estúpida. Efectivamente uma pessoa estúpida, sem sombra para dúvidas, evidentemente, indubitavelmente. Estúpida, pronto.
- Ó Vasco, não me diga que vamos voltar ao princípio?! Já lhe disse para não me chamar estúpido!
- Mas é que entretanto já o chamei quinhentas vezes, portanto não vale a pena fugir com o rabo à seringa.
- Como se atreve? Como se atreve?!
- Olhe, é de tal forma que até vou escrever aqui na folhinha que o chefe me deu. Porque também já aprendi uma coisa hoje.
- Pare já com isso, pare já com isso, Vasco.
- Chefe, tracinho, estúpido. Pronto, já está. Chefe, tracinho, estúpido. Também é o título de um romance.
- Ó Vasco, o que é que o Vasco pretende com esse comportamento? O que pretende? O que pretende?
- Ora bem, inicialmente era mesmo só chamá-lo de estúpido. Pronto, só isso, estava cheio de ganas de vir aqui, entrar no seu gabinete e dizer-lhe: Você é estúpido. E hoje, justamente por o dia se ter posto tão bonito, vinha com essa na cabeça, que o mundo merecia que eu fizesse algo por ele, que eu merecia que o mundo fizesse algo por mim...
- Que o mundo fizesse algo por si?! Que o mundo fizesse algo por si?! Mas que idade é que você tem, homem?
- Ora bem, agora sou eu que lhe digo: Pare já com isso! Pare já. Imediatamente. Estou farto. Farto. FARTO. Percebe? Farto de si e dessa sua maneira.
- Dessa minha maneira?
- Sim, dessa sua maneira. De virar a ponta ao prego.
- De virar a ponta ao prego?!
- Sim, de virar a ponta ao prego. Pensa o quê? Que nasci ontem? Que cheguei agora à selva? Não preciso dos seus conselhos de meio-herói nem das suas teorias estúpidas de português viúvo, entende? Não quero os seus bloquinhos nem as suas canetinhas, estou-me nas tintas para os seus tomates, 'tá a ouvir? Estou-me nas tintas. Os seus tomates, para mim, são ketchup. Ketchup! Uma papa de tomates com açúcar, percebe? Detesto ketchup. Detesto!
- Homem, você acalme-se! Acalme-se, que você precisa de ajuda. Isto aqui é muito grave.
- Gravíssimo, chefe! Gravíssimo! Grau superlativo absoluto sintético e sei-lá-que-mais. Que eu hoje até tive de lhe aturar uma lição de gramática, chefe! De gramática! Que coisa mais patética, mais inconcebível! Parecia que estava a ver aquele programa da Edite Estrela.
- E que mal tem, homem? Que mal tem a Edite Estrela? Estamos aqui para aprender, Vasco! E se eu tenho coisas para lhe ensinar, ensino!
- Você não tem nada para me ensinar! Nada. Entende? Nada de nada. Pare com essa generosidadezinha manhosa. Pare com isso, que já não tenho paciência. Deixe lá essa lábia de campanha eleitoral. Não voto em si, percebe? Não voto em si! Eu nunca votei em si! Jamais votaria em si!
- Ai sim? Então vota em quê, homem? Vota em quê? No jardim zoológico? Nas jaulazinhas? É isso que quer? Uma revolta por dentro, escondidinha, ad eternum? Não seja maricas, Vasco, faça-se um homem. Mas onde é que estamos? Na escola primária?
- Você, se não pára de me dar conselhos, vou-lhe às trombas. É que vou mesmo. Está dito: vou-lhe às trombas.
- Como?! Ó Vasco, você passou-se, passou-se! Não me resta alternativa, Vasco. Não me resta alternativa! Vou chamar a polícia, Vasco!
- Que polícia, homem? Acha que eu lhe dava tempo para chamar a polícia? Saltava-lhe logo em cima e pontapeava-o, ouviu? Como você faz aos pombos e aos cães e aos gatos. Acha que eu teria compaixão? Matava-o logo. Em três tempos.
- Vasco, não se exalte dessa maneira, sente-se aí.
- Já lhe disse para não me dar conselhos.
- Bom, isto não eram conselhos.
- Ai não? Ai não?!
- Não. Eram ordens! Na verdade, eram ordens! Sente-se.
- Ok, sento-me. Nesta sua cadeira estúpida. Confortabilíssima. Detestável.
- Vasco, relaxe, que o dia ainda não acabou. O dia de hoje é francamente bonito e está para ficar. Vou aqui abrir mais a janela para não perdermos este sol. Hein? Que acha? Cá está ele, cá está ele: temos de agradecer ao universo este sol, há que saudá-lo todos os dias. Todos os dias. Não nos podemos esquecer. E entretanto deixe-me que lhe diga o seguinte: não faz grande sentido você vir aqui de ouvidos moucos só para me chamar de estúpido, percebe? Não faz sentido. Não faz. Porque você só perde a razão, percebe? Perde a luta na selva, 'tá a perceber? Porque, se assim for, eu chego aqui, prego-lhe com uma falta indisciplinar, você sai deste escritório com o rabo entre as pernas e não arranja emprego em mais lado nenhum... E eu fico aqui a coçar os tomates e a ver o sol brilhar para mim, 'tá a ver a ideia? Agora, se você abrir um pouco os ouvidos e ouvir o que há realmente para dizer, talvez as coisas sejam mais negociáveis, não acha?
- Negociável? Mas você acha que eu quero negociar alguma coisa? Que tenho medo dessas ameaças de rei da selva? Não, não tenho, não tenho medo de si, estou-me nas tintas para a sua selva, já lhe disse.
- Pronto, está visto: você veio aqui de ouvidos moucos. De ouvidos moucos. E o estúpido sou eu?! Não creio.
- De ouvidos moucos? Eu?! De ouvidos moucos?! Cale-se já. Não fiz mais nada hoje senão ouvi-lo, chefe! Já não posso ouvi-lo. Não posso, percebe? Cale-se de uma vez por todas.
- Muito bem, Vasco, muito bem. Vamos lá a isso. Vou aqui sentar-me com o meu bloquinho no colo para o ouvir. Só para o ouvir. Eu cá sou todo ouvidos. Todinho. Ora então diga lá.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

No escritório do chefe (V)


- Epá, essa foi mesmo boa, ó Vasco! É que foi mesmo boa! Agora até estou com pena de os tomates não terem pés.
- Pois é, mas também podem ir assim a rebolar, também dá.
- Pois dá! Desde que vão pelo seu próprio pé, não é, Vasco?
- É, sim, senhor.
- Sabe que a diferença entre um herói e um comum mortal está mesmo aí, Vasco!
- O quê? Nos tomates?
- Claro, é evidente. Não acha que é evidente?! Os comuns mortais, os tais mariquinhas que não se chateiam com nada, os tais saudosistas do Estado Novo... A tal gente sem vontade para salvar o mundo, esse todos e mais alguns têm um problema de tomates.
- Pois é, chefe, há muita gente aí com falta de tomates. Mas olhe, antes isso que falta de comida ou de saúde. Ao menos é um povo ignorante, mas feliz.
- Feliz?! Feliz?! Qual feliz, qual carapuça! Você acha este povo feliz? Este povo é tudo menos feliz, ó Vasco. Por favor, homem! É que é tudo menos feliz! Agora até está outra vez na moda ouvir fado, bolas! Quer coisa mais triste que fado? Deus me livre, que povo mais viúvo.
- Viúvo, chefe?
- Sim, viúvo. Somos uns viúvos, uns mal-amados, homem, andamos na praia à espera dos marinheiros e das sereias e do Dom Sebastião e do raio-que-o-parta. Somos uns viúvos vestidos de negro, Vasco, uns viúvos. Cheios de ansiedades e sonhos. Mas sem vontade, 'tá a ver? Uns coitadinhos. Especados, a olhar para o mar, presos ao passado, a uma tristeza anterior a tudo, pá, com pena de nós próprios. Com pena de nós próprios, Vasco, que povo mais ridículo.
- Você tem pena de si próprio, chefe?
- Eu, Vasco?! Eu?! Acha?! Claro que não, homem. Estava a falar dos outros, dos outros, dos pobrezinhos. Eu e o Vasco, não, não somos dessa raça, somos d'alta categoria, andamos aqui cheios de vontade para salvar o mundo, uns meios-heróis todos armados, hein? Com quilo e meio de tomates.
- Há bocado era só um quilo, chefe!
- Não faz mal, agora é um e meio! Um e meio! Amanhã são dois, se sairmos bem daqui, está bem?
- Está certo!
- E portanto, estava eu a dizer-lhe que esses viúvos que praí andam têm um problema justamente de tomates. De tomates! Esses tipos só estão preocupados com os tomates, com os seus instintos e as suas necessidades pequeninas, percebe? Não vêem mais nada, não querem mais nada. E, no entanto, por serem humanos, falta-lhes qualquer coisa, um além-mar qualquer, percebe? Falta-lhes horizonte. Mas eles não sabem o que é que lhes faz falta, nunca saberão. Pensam pequenino, com os tomates.
- E o chefe sabe?
- Claro que sei. Claro que sei! E o Vasco também sabe. A diferença entre nós e eles é essa, Vasco. É nós sabermos.
- Eu não sei.
- Sabe, sabe. Sabe, sim. A diferença entre nós e eles é que os nossos tomates vão precisamente pelo seu próprio pé!
- Não me diga?! Verdade?
- Digo, digo. Nós, Vasco, temos tomates com vontade própria, entende? Soubemos educá-los. E ficámos livres da pequeninice, das coisas básicas da vida. Nós vamos mais longe, sempre mais longe. Daí a vontade. Aquela tal vontade. De mudar o mundo.
- De salvar o mundo, chefe.
- Isso, isso, de salvar o mundo. Repare no seguinte: os seus colegas que trabalham consigo nunca entraram aqui para me chamarem de estúpido. Nunca!
- Pois não, se calhar são um bocado mais espertos.
- Se calhar, são. Se calhar, são. Mas repare também no seguinte: eles lá no seu cantinho também me acham estúpido. Também me acham estúpido e têm todos vontade de mo dizer assim na cara, de chegar aqui e pontapear-me como nos filmes americanos. E no entanto, não o fazem. Porque será, Vasco?
- Porque não têm tomates, chefe!
- Não, Vasco, isso não é verdade. São homens e mulheres com muitos tomates. Os portugueses têm muitos tomates, é uma terra de tomates, homem!
- Ó chefe, as mulheres não têm tomates.
- Ó Vasco, você está parvo? Claro que têm! Porra, essas então ninguém as pára. Deus me livre! Mas ter tomates não é tudo, Vasco, não é tudo. Na verdade, os que têm muitos tomates costumam dar-se mal. Exactamente porque estão muito preocupados com eles, só pensam neles, só querem satisfazer as necessidades deles.
- E nós, com quilo e meio de tomates, não?!
- Não, Vasco. Porque os nossos tomates andam pelo seu próprio pé, já lhe expliquei isto. Daí o Vasco estar aqui hoje. Você não está preocupado com as suas necessidades básicas, você quer salvar o mundo. E eu também!
- Meio-herói mais meio-herói dá um herói completo.
- Exactamente, Vasco. Você e eu, temos o mundo aqui.
- Pois é.
- Pois é. Vou então escrever mais uma notinha no meu bloquinho... Cá está ela: Os tomates andam pelo seu próprio pé.
- Epá, ó chefe, estou entusiasmado. Também quero escrever umas notinhas, se pudesse ser.
- Com certeza, Vasco. Vou então dar-lhe aqui uma folha de papel. Isto hoje vai ser só aprender, Vasco.
- Tem piada, ó chefe. Não estava a contar com nada disto. Nunca pensei que fosse aprender alguma coisa hoje.
- Pois é, Vasco. A vida pode ser muito imprevisível.
- É verdade. Mas realmente não estava nada a contar com esta.
- Há sempre coisas para aprender com os outros.
- Sim, mas com pessoas estúpidas é mais raro.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

No escritório do chefe (IV)


- Epá, ó Vasco, eu noutro dia qualquer corria consigo ao pontapé. Epá, é que corria mesmo. Noutro dia qualquer, levantava-me daqui e corria consigo ao pontapé: trás! trás! trás!. Como se faz aos cães e aos gatos e aos pombos e a tudo o que é animal. Que o ser humano corre ao pontapé tudo o que é animal! É ou não é? É ou não é, Vasco?
- É, é. Temos um bocado a mania que somos o rei da selva, lá isso é verdade.
- E somos, Vasco, e somos de facto o rei da selva. Tem alguma dúvida? Claro que somos o rei da selva.
- Bom, uns mais do que outros.
- É verdade, mas se não fosse assim, se não fosse assim, homem, isto não era uma selva, ó Vasco. Não era uma selva.
- Não, era uma coisa melhor.
- Melhor?! Você quer melhor do que a selva, homem?
- Sim, já agora. Queria assim uma coisa mais limpa, mais justa, mais partilhada, mais equitativa, mais organizada, em que cada um tivesse o seu espaço, a sua voz, o seu voto. Isso é que eu queria. Agora uma selva, não. Fiquem lá com a selva. Não quero a selva pra nada.
- Ó Vasco, você está mesmo passado. O que você está a dizer é que prefere um jardim zoológico a uma selva! Cada um na sua jaula com a sua comidinha e o seu espacinho e o seu jardinzinho, tudo muito justo, tudo muito dividido. É essa a sociedade que você quer?
- Não, eu nunca disse que queria uma jaula.
- Ó homem, mas se você sai da selva, sai do seu habitat natural! É que perde a luta para sempre.
- Não faz mal, eu não quero lutas.
- Como assim, não quer lutas?! Como assim? Como assim?
- Não quero, não.
- Como, não quer? Como, não quer? Você entra aqui, chama-me de estúpido e não quer lutas? Não quer lutas? Ó homem, claro que você quer lutas, você quer lutas. Porque você é um homem de luta, pá! Você, se saísse da selva, morria. Morria, está a perceber? Íamos todos ao seu funeral. Você, sem luta, não era ninguém. Ninguém, Vasco. O meio-herói que há em si é um lutador!
- Não, lutador não. É um justiceiro, chefe.
- É um lutador, sim! Um justiceiro é um lutador, não me venha com merdas. E você, como é óbvio, não quer viver num jardim zoológico, Vasco, isso é prós maricas. Você quer ir à luta. E a luta faz-se aqui, na selva.
- Ok.
- Ora então seja bem-vindo, Vasco! Bem-vindo à selva!
- Obrigado, chefe. Obrigado.
- Bom, vou então pegar aqui no meu bloquinho de papel e na minha canetinha, como já lhe tinha dito. E vou já escrever qualquer coisinha no meu bloquinho. Sabe porquê?
- Porque quer apontar uma coisinha?
- Exactamente, exactamente. Porque, entretanto, já aprendi uma coisinha hoje, sabe? Vou então escrever aqui: Vasco, tracinho, justiceiro. Cá está: Vasco, tracinho, justiceiro. Pronto, já está.
- Epá, ó chefe, parece o título de um romance.
- E é, Vasco. E é. Vasco, tracinho, justiceiro. É o título de um romance. Só que ninguém o escreveu. Tanto escritor que anda praí, pá, e ninguém o escreveu. Mas isto não invalida que você não seja um romance. Os escritores é que andam distraídos.
- Andam noutras lutas, chefe.
- Pois andam, devem andar. Esperemos bem que andem, Vasco.
- Esperemos bem que sim, chefe.
- Um país sem arte é um país de gente amorfa, não acha, Vasco?
- Sim, ou pior!
- Pior?!
- Sim. Um país de gente estúpida.
- Pois, isso é bem pior. Ó Vasco, entretanto deixe-me que lhe diga o seguinte: Você, Vasco, você tem tomates que é uma coisa doida, pá.
- É verdade, chefe, é mesmo verdade.
- É que tem mesmo! Você tem à vontade um quilo de tomates dentro das calças, pá. Um quilo de tomates! Só de acartá-los deve ficar estoirado, não, Vasco?
- Não, chefe. Por acaso, os meus tomates não me cansam nada.
- Não?!
- Não. Eles também já são crescidos, chefe. Vão pelo seu próprio pé.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

No escritório do chefe (III)


- Cale-se, homem. Não diga mais disparates! Não diga mais disparates!
- Disse o estúpido ao louco.
- Sim, disse o estúpido ao louco. Claro que disse! Porque um estúpido, embora estúpido, não diz disparates: diz estupidezes. Mas disparates, não. Percebe? Dizer uma estupidez é diferente de dizer um disparate. Muito diferente, percebe?
- Diferentíssimo.
- Exactamente, Vasco, exactamente. Diferentíssimo e não diferente. Então vamos lá embora. Sente-se aí.
- Não me vou sentar, chefe, já lhe disse. Tenho muito que fazer.
- Outro disparate, outro disparate. Pare de dizer disparates, já não posso ouvir mais disparates hoje. Sente-se já aí. É uma ordem.
- Muito bem, vou então sentar-me.
- Está confortável, homem?
- Estou, estou. É uma cadeirinha confortável esta. Confortabilíssima.
- Ainda bem que é, é para isso que eu a quero: para ela ser confortabilíssima para quem se senta nela, 'tá a ver? E eu hoje, mais do que nunca, só quero o seu conforto. Noutro dia qualquer, estava-me realmente nas tintas, sabe, Vasco? Tenho outras prioridades, mas hoje, porque o dia se pôs tão bonito, quero só o seu conforto.
- Muito obrigado.
- Não tem de quê, Vasco, não tem de quê. Agradeça ao sol, não a mim. Era o que faltava eu mandar também no tempo, não era, ó Vasco? Essa é que era. Já lhe chega um chefe no trabalho e outro em casa, hein, Vasco?
- É verdade, chefe. Deus me acuda.
- O Vasco acredita em Deus?
- Não muito, se me permite a expressão.
- Eu também não. Mas sou católico. Quer dizer, baptizei os meus filhos. Mais por eles do que por mim, percebe? Era aquela coisa: Não queria que lhes faltasse nada, 'tá a ver? E pronto, baptizei-os. Uma coisa idiota, claro está, mas na altura achei que sim, que devia baptizá-los. Não fosse o Diabo tecê-las, hein? Aqui aplica-se mesmo o dito.
- Pois, compreendo. Fazemos coisas muito estúpidas pelos nossos filhos.
- É verdade, Vasco. É verdade. Mas vamos então ao que interessa. Vou então pegar aqui no meu bloco de notas e na minha canetinha. Sabe para quê?
- Calculo que para tirar notas.
- E calculou muito bem, Vasco, calculou muito bem. Porque, como lhe disse, eu hoje estou disposto a salvar o mundo. Está um dia tão bonito, Vasco, que realmente só me apetece fazer isso: salvar o mundo. E vejo que aqui o Vasco também.
- Cá está uma coisa que temos em comum, chefe.
- Exactamente. E na minha opinião, duas pessoas que estão dispostas a salvar o mundo são potenciais heróis. Ainda não são heróis, claro, mas têm efectivamente esse potencial, poderão vir a provar a sua heroicidade, 'tá a ver? São potenciais heróis. Por outras palavras, considero que a vontade já faz alguma coisa por nós. O Vasco concorda com isto?
- Concordo, sim, chefe. A vontade é meio caminho andado.
- Pois claro que é. E se assim é, eu e o Vasco somos meios-heróis. Hein? Já é alguma coisa.
- Pois é, chefe, pois é!
- Ora bem, uma conversa entre dois meios-heróis só pode ser uma coisa importante, Vasco. É que só pode ser. Sabe porquê?
- Porque meio-herói mais meio-herói, dá um herói completo, não, chefe?
- Não tinha visto as coisas por esse prisma, Vasco. Realmente não tinha, mas podemos ir por aí, podemos ir por aí. Eu e o Vasco juntos, temos o mundo aqui, como dizia aquele outro Vasco num daqueles filmes do Estado Novo, lembra-se?
- Lembro-me, sim senhor.
- Gosta desses filmes, Vasco?
- Gosto, chefe, bastante até. Mas do Estado Novo, não.
- Pois claro que não, homem. Só as pessoas estúpidas é que gostam do Estado Novo.
- Não é bem assim, chefe, não podemos dizer isso.
- Pois claro que é assim, ó Vasco. Só pode ser assim. Há que dizê-lo com frontalidade, como dizia o outro. Para sermos sintéticos, é isto: há pessoas pró-Estado Novo e pessoas contra o Estado Novo. As primeiras só podem ser estúpidas.
- Bom, talvez. Mas e o chefe? Gosta desses filmes?
- Gosto, pois. Mas também não gramo o Estado Novo, Vasco.
- Pois, 'tá a ver?! Não podemos generalizar. Ele há pessoas estúpidas que não gostam do Estado Novo.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

No escritório do chefe (II)

Ler parte I.

- Ó homem, você está louco! Você está louco, Vasco! Está louco! Louco!
- Olhe, se calhar sim, estou louco, chefe!
- É que está mesmo, percebe? Está mesmo! Completamente louco! Está a perceber bem? Você está louco.
- Talvez, talvez. Sou louco, pronto, sou louco. Mas você é estúpido. Sou louco e você é estúpido! Cada um é como é. E você é estúpido.
- Pare já de me chamar estúpido, ouviu? Está proibido de me chamar estúpido! Pro-i-bi-do! Você, Vasco, você está louco.
- Antes louco que estúpido.
- Ó Vasco, pare com isso! Você controle-se. Você controle-se, homem, qu'isto é grave! Isto é grave, percebeu?
- Pois claro que sim. E concordo, chefe! É grave.
- Pois é, é! É grave! E você nem sabe quão grave isto é. É que é mesmo muito grave, Vasco, muito grave mesmo.
- Claro que é, chefe! Há que ver as coisas como elas são. Se é grave, é grave. E realmente, tem toda a razão, é grave!
- Gravíssimo, Vasco. Gravíssimo. É o mais grave.
- Muito grave, sim senhor.
- Não! Muito grave, não, Vasco. Muito grave, não. Não é muito grave, não! É gravíssimo! Gravíssimo, percebe?
- Percebo. Gravíssimo.
- Pois, gravíssimo. Que "muito grave" não chega, está a entender? "Muito grave" não chega.
- Ora pois, não chega.
- Não chega, não. Sabe porquê, Vasco? Sabe porquê?
- Então porquê, chefe?
- É uma questão de grau, Vasco. De grau! De grau, percebe?
- De grau?! De grau de gravidade?!
- Não, Vasco, claro que não. Claro que não. Qual grau de gravidade?! Você, Vasco, você… Eu já não tenho idade pra isto, Vasco, já não tenho idade pra isto... O grau de gravidade?! Mas o que é isto?!
- Não sei, chefe! Não sei. O chefe é que estava a falar de grau.
- Sim, de grau. Mas não de gravidade, Vasco. Não de gravidade. A gravidade é só uma, homem, é só uma. É uma lei, nada mais, não há graus de gravidade. Estava o Newton encostado à macieira e pimba!, fez-se a lei da gravidade. Essa gravidade não é práqui chamada, não é práqui chamada. Percebeu? Eu estava a falar do grau dos adjectivos. Dos adjectivos, Vasco. Percebeu agora?
- Ah, ok.
- Sabe o que são os graus dos adjectivos? Sabe o que são?
- Sim, sei. Tenho uma vaga ideia.
- Uma vaga ideia?! Tem uma vaga ideia?! Você não pode ter uma vaga ideia, Vasco! Não pode! Tem de saber os graus dos adjectivos. Tem de saber! Um homem que é homem tem de saber usar os graus dos adjectivos. E um homem que entra aqui - no escritório do chefe - e me chama a mim, me chama a mim, de estúpido, tem de saber os graus dos adjectivos. Tem de saber!
- Mas olhe, eu realmente não sei, e continuo a achá-lo estúpido!
- Pare já com isso, pare já com isso, Vasco, que ainda morremos os dois aqui! Pare já, pare já! Não temos idade pra isto, Vasco, não temos idade.
- Pois não temos, não.
- Pois claro que não temos, homem. E se você quer andar por aí a salvar o mundo, a defender ideias, a fazer discursos, a chamar as pessoas de estúpidas, a dizer seja o que for, você tem de saber os graus dos adjectivos. Tem de saber!
- Certo, tenho de saber.
- Porque "muito grave" não é o mesmo que "gravíssimo", Vasco. Não é o mesmo! Toda a gente sabe isto! Uma coisa é o superlativo absoluto analítico, outra coisa é o sintético. O sintético! Percebe? O que é sintético tem mais pujança. 'Tá a ver? É mais eficaz, mais eficiente, mais capaz!
- Ok! Sintético!
- Sim, sintético! Portanto, se eu lhe digo que isto é gravíssimo, não me responda que é grave nem muito grave. É gravíssimo. Superlativo absoluto sintético: Gravíssimo!
- Gravíssimo! É gravíssimo!
- Pois é gravíssimo, sim. Gravíssimo. E sabe porquê, Vasco? Sabe por que é que é gravíssimo? Sabe?
- Sei.
- Ai sim? Ai sim? Sabe? Sabe? Então, diga lá, Vasco. Então, diga lá!
- É gravíssimo, porque o chefe, com todo o respeito que merece e que eu lhe devo, é estúpido.
- Como?! Como?!
- O chefe é estúpido.
- Cale-se! Já não o posso ouvir com isso.
- Sim, já me calo! Mas para ser sintético, é isto: o chefe é estúpido.
- ...
- É gravíssimo termos um chefe estúpido.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

No escritório do chefe (I)

- Desculpe, chefe, dá-me licença?
- Claro, Vasco. Ora essa. Entre, entre.
- Muito obrigado. Ora bem, peço desculpa, mas queria só mesmo um minutinho, se pudesse ser…
- Ó Vasco, por favor! Um minutinho?! Eu tenho todos os minutinhos para si, homem. Sente-se aí.
- Não, não. Não é preciso sentar-me.
- Claro que é, Vasco. Puxe dessa cadeira, homem.
- Não, deixe estar. É que realmente é só um minutinho da sua atenção, se pudesse ser...
- Pronto, pronto, Vasco, diga lá então. É que hoje, sinceramente, pode dizer-me qualquer coisa, sabe? Há aqueles dias assim, pá, um homem acorda de manhã e apetece-lhe salvar o mundo, 'tá a ver? Estou inspiradíssimo.
- Sim, pois, às vezes é assim, não é, chefe?
- É verdade. E hoje tenho ganas de salvar o mundo, pá! Ir por aí desenfreado com uma máscara do Zorro, hein? A galope...
- Pois é, chefe. Ou então a trote para não ser tão depressa.
- É verdade, ó Vasco. Não se pode salvar o mundo à pressa, não é?
- Não, não se pode. O que é preciso é ter calma, chefe.
- Exactamente, Vasco, exactamente. Você é um homem esperto. Então sente-se aí, vá.
- Não, não, chefe, não tenho tempo.
- Não tem tempo?
- Pois não, não tenho.
- Tem, sim senhor! Pois claro que tem tempo! Está um dia tão bonito, ó Vasco. Olhe para isto, veja lá como o dia se pôs bonito, veja lá bem isto.
- Pois, está muito bonito, sim senhor, mas tenho mesmo qu'ir.
- Epá, ó Vasco, não me diga que vai salvar o mundo?!
- Mas é que vou mesmo, chefe. Se me deixar, vou mesmo.
- Epá, você, Vasco, é um homem do caraças, pá. É que gosto dessa atitude, gosto mesmo! Dá-me um gozo diabólico. Um homem dedicado ao seu trabalho é uma inspiração, pá! Pronto, vá lá então salvar o mundo! Quem sou eu para o parar?
- Vou, vou. Vou salvar o mundo. Mas antes disso queria então fazer o tal reparo, pode ser?
- Pode ser, claro que pode ser. O mundo não anda para a frente sem reparos, ó Vasco.
- Pois não, chefe. Então vamos a isto.
- Diga, diga, Vasco.
- É mesmo uma coisinha rápida.
- Sim, sim, sou todo ouvidos, faça lá o seu reparo.
- Bom, ora bem, queria só informá-lo do seguinte: você, chefe, realmente, é uma pessoa muito estúpida. Realmente estúpida. Pronto, estúpida. Do mais estúpido que pode haver, percebe? Achei que devia dizer-lhe isto.

(continua)