quinta-feira, 16 de outubro de 2008

No escritório do chefe (V)


- Epá, essa foi mesmo boa, ó Vasco! É que foi mesmo boa! Agora até estou com pena de os tomates não terem pés.
- Pois é, mas também podem ir assim a rebolar, também dá.
- Pois dá! Desde que vão pelo seu próprio pé, não é, Vasco?
- É, sim, senhor.
- Sabe que a diferença entre um herói e um comum mortal está mesmo aí, Vasco!
- O quê? Nos tomates?
- Claro, é evidente. Não acha que é evidente?! Os comuns mortais, os tais mariquinhas que não se chateiam com nada, os tais saudosistas do Estado Novo... A tal gente sem vontade para salvar o mundo, esse todos e mais alguns têm um problema de tomates.
- Pois é, chefe, há muita gente aí com falta de tomates. Mas olhe, antes isso que falta de comida ou de saúde. Ao menos é um povo ignorante, mas feliz.
- Feliz?! Feliz?! Qual feliz, qual carapuça! Você acha este povo feliz? Este povo é tudo menos feliz, ó Vasco. Por favor, homem! É que é tudo menos feliz! Agora até está outra vez na moda ouvir fado, bolas! Quer coisa mais triste que fado? Deus me livre, que povo mais viúvo.
- Viúvo, chefe?
- Sim, viúvo. Somos uns viúvos, uns mal-amados, homem, andamos na praia à espera dos marinheiros e das sereias e do Dom Sebastião e do raio-que-o-parta. Somos uns viúvos vestidos de negro, Vasco, uns viúvos. Cheios de ansiedades e sonhos. Mas sem vontade, 'tá a ver? Uns coitadinhos. Especados, a olhar para o mar, presos ao passado, a uma tristeza anterior a tudo, pá, com pena de nós próprios. Com pena de nós próprios, Vasco, que povo mais ridículo.
- Você tem pena de si próprio, chefe?
- Eu, Vasco?! Eu?! Acha?! Claro que não, homem. Estava a falar dos outros, dos outros, dos pobrezinhos. Eu e o Vasco, não, não somos dessa raça, somos d'alta categoria, andamos aqui cheios de vontade para salvar o mundo, uns meios-heróis todos armados, hein? Com quilo e meio de tomates.
- Há bocado era só um quilo, chefe!
- Não faz mal, agora é um e meio! Um e meio! Amanhã são dois, se sairmos bem daqui, está bem?
- Está certo!
- E portanto, estava eu a dizer-lhe que esses viúvos que praí andam têm um problema justamente de tomates. De tomates! Esses tipos só estão preocupados com os tomates, com os seus instintos e as suas necessidades pequeninas, percebe? Não vêem mais nada, não querem mais nada. E, no entanto, por serem humanos, falta-lhes qualquer coisa, um além-mar qualquer, percebe? Falta-lhes horizonte. Mas eles não sabem o que é que lhes faz falta, nunca saberão. Pensam pequenino, com os tomates.
- E o chefe sabe?
- Claro que sei. Claro que sei! E o Vasco também sabe. A diferença entre nós e eles é essa, Vasco. É nós sabermos.
- Eu não sei.
- Sabe, sabe. Sabe, sim. A diferença entre nós e eles é que os nossos tomates vão precisamente pelo seu próprio pé!
- Não me diga?! Verdade?
- Digo, digo. Nós, Vasco, temos tomates com vontade própria, entende? Soubemos educá-los. E ficámos livres da pequeninice, das coisas básicas da vida. Nós vamos mais longe, sempre mais longe. Daí a vontade. Aquela tal vontade. De mudar o mundo.
- De salvar o mundo, chefe.
- Isso, isso, de salvar o mundo. Repare no seguinte: os seus colegas que trabalham consigo nunca entraram aqui para me chamarem de estúpido. Nunca!
- Pois não, se calhar são um bocado mais espertos.
- Se calhar, são. Se calhar, são. Mas repare também no seguinte: eles lá no seu cantinho também me acham estúpido. Também me acham estúpido e têm todos vontade de mo dizer assim na cara, de chegar aqui e pontapear-me como nos filmes americanos. E no entanto, não o fazem. Porque será, Vasco?
- Porque não têm tomates, chefe!
- Não, Vasco, isso não é verdade. São homens e mulheres com muitos tomates. Os portugueses têm muitos tomates, é uma terra de tomates, homem!
- Ó chefe, as mulheres não têm tomates.
- Ó Vasco, você está parvo? Claro que têm! Porra, essas então ninguém as pára. Deus me livre! Mas ter tomates não é tudo, Vasco, não é tudo. Na verdade, os que têm muitos tomates costumam dar-se mal. Exactamente porque estão muito preocupados com eles, só pensam neles, só querem satisfazer as necessidades deles.
- E nós, com quilo e meio de tomates, não?!
- Não, Vasco. Porque os nossos tomates andam pelo seu próprio pé, já lhe expliquei isto. Daí o Vasco estar aqui hoje. Você não está preocupado com as suas necessidades básicas, você quer salvar o mundo. E eu também!
- Meio-herói mais meio-herói dá um herói completo.
- Exactamente, Vasco. Você e eu, temos o mundo aqui.
- Pois é.
- Pois é. Vou então escrever mais uma notinha no meu bloquinho... Cá está ela: Os tomates andam pelo seu próprio pé.
- Epá, ó chefe, estou entusiasmado. Também quero escrever umas notinhas, se pudesse ser.
- Com certeza, Vasco. Vou então dar-lhe aqui uma folha de papel. Isto hoje vai ser só aprender, Vasco.
- Tem piada, ó chefe. Não estava a contar com nada disto. Nunca pensei que fosse aprender alguma coisa hoje.
- Pois é, Vasco. A vida pode ser muito imprevisível.
- É verdade. Mas realmente não estava nada a contar com esta.
- Há sempre coisas para aprender com os outros.
- Sim, mas com pessoas estúpidas é mais raro.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

No escritório do chefe (IV)


- Epá, ó Vasco, eu noutro dia qualquer corria consigo ao pontapé. Epá, é que corria mesmo. Noutro dia qualquer, levantava-me daqui e corria consigo ao pontapé: trás! trás! trás!. Como se faz aos cães e aos gatos e aos pombos e a tudo o que é animal. Que o ser humano corre ao pontapé tudo o que é animal! É ou não é? É ou não é, Vasco?
- É, é. Temos um bocado a mania que somos o rei da selva, lá isso é verdade.
- E somos, Vasco, e somos de facto o rei da selva. Tem alguma dúvida? Claro que somos o rei da selva.
- Bom, uns mais do que outros.
- É verdade, mas se não fosse assim, se não fosse assim, homem, isto não era uma selva, ó Vasco. Não era uma selva.
- Não, era uma coisa melhor.
- Melhor?! Você quer melhor do que a selva, homem?
- Sim, já agora. Queria assim uma coisa mais limpa, mais justa, mais partilhada, mais equitativa, mais organizada, em que cada um tivesse o seu espaço, a sua voz, o seu voto. Isso é que eu queria. Agora uma selva, não. Fiquem lá com a selva. Não quero a selva pra nada.
- Ó Vasco, você está mesmo passado. O que você está a dizer é que prefere um jardim zoológico a uma selva! Cada um na sua jaula com a sua comidinha e o seu espacinho e o seu jardinzinho, tudo muito justo, tudo muito dividido. É essa a sociedade que você quer?
- Não, eu nunca disse que queria uma jaula.
- Ó homem, mas se você sai da selva, sai do seu habitat natural! É que perde a luta para sempre.
- Não faz mal, eu não quero lutas.
- Como assim, não quer lutas?! Como assim? Como assim?
- Não quero, não.
- Como, não quer? Como, não quer? Você entra aqui, chama-me de estúpido e não quer lutas? Não quer lutas? Ó homem, claro que você quer lutas, você quer lutas. Porque você é um homem de luta, pá! Você, se saísse da selva, morria. Morria, está a perceber? Íamos todos ao seu funeral. Você, sem luta, não era ninguém. Ninguém, Vasco. O meio-herói que há em si é um lutador!
- Não, lutador não. É um justiceiro, chefe.
- É um lutador, sim! Um justiceiro é um lutador, não me venha com merdas. E você, como é óbvio, não quer viver num jardim zoológico, Vasco, isso é prós maricas. Você quer ir à luta. E a luta faz-se aqui, na selva.
- Ok.
- Ora então seja bem-vindo, Vasco! Bem-vindo à selva!
- Obrigado, chefe. Obrigado.
- Bom, vou então pegar aqui no meu bloquinho de papel e na minha canetinha, como já lhe tinha dito. E vou já escrever qualquer coisinha no meu bloquinho. Sabe porquê?
- Porque quer apontar uma coisinha?
- Exactamente, exactamente. Porque, entretanto, já aprendi uma coisinha hoje, sabe? Vou então escrever aqui: Vasco, tracinho, justiceiro. Cá está: Vasco, tracinho, justiceiro. Pronto, já está.
- Epá, ó chefe, parece o título de um romance.
- E é, Vasco. E é. Vasco, tracinho, justiceiro. É o título de um romance. Só que ninguém o escreveu. Tanto escritor que anda praí, pá, e ninguém o escreveu. Mas isto não invalida que você não seja um romance. Os escritores é que andam distraídos.
- Andam noutras lutas, chefe.
- Pois andam, devem andar. Esperemos bem que andem, Vasco.
- Esperemos bem que sim, chefe.
- Um país sem arte é um país de gente amorfa, não acha, Vasco?
- Sim, ou pior!
- Pior?!
- Sim. Um país de gente estúpida.
- Pois, isso é bem pior. Ó Vasco, entretanto deixe-me que lhe diga o seguinte: Você, Vasco, você tem tomates que é uma coisa doida, pá.
- É verdade, chefe, é mesmo verdade.
- É que tem mesmo! Você tem à vontade um quilo de tomates dentro das calças, pá. Um quilo de tomates! Só de acartá-los deve ficar estoirado, não, Vasco?
- Não, chefe. Por acaso, os meus tomates não me cansam nada.
- Não?!
- Não. Eles também já são crescidos, chefe. Vão pelo seu próprio pé.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

No escritório do chefe (III)


- Cale-se, homem. Não diga mais disparates! Não diga mais disparates!
- Disse o estúpido ao louco.
- Sim, disse o estúpido ao louco. Claro que disse! Porque um estúpido, embora estúpido, não diz disparates: diz estupidezes. Mas disparates, não. Percebe? Dizer uma estupidez é diferente de dizer um disparate. Muito diferente, percebe?
- Diferentíssimo.
- Exactamente, Vasco, exactamente. Diferentíssimo e não diferente. Então vamos lá embora. Sente-se aí.
- Não me vou sentar, chefe, já lhe disse. Tenho muito que fazer.
- Outro disparate, outro disparate. Pare de dizer disparates, já não posso ouvir mais disparates hoje. Sente-se já aí. É uma ordem.
- Muito bem, vou então sentar-me.
- Está confortável, homem?
- Estou, estou. É uma cadeirinha confortável esta. Confortabilíssima.
- Ainda bem que é, é para isso que eu a quero: para ela ser confortabilíssima para quem se senta nela, 'tá a ver? E eu hoje, mais do que nunca, só quero o seu conforto. Noutro dia qualquer, estava-me realmente nas tintas, sabe, Vasco? Tenho outras prioridades, mas hoje, porque o dia se pôs tão bonito, quero só o seu conforto.
- Muito obrigado.
- Não tem de quê, Vasco, não tem de quê. Agradeça ao sol, não a mim. Era o que faltava eu mandar também no tempo, não era, ó Vasco? Essa é que era. Já lhe chega um chefe no trabalho e outro em casa, hein, Vasco?
- É verdade, chefe. Deus me acuda.
- O Vasco acredita em Deus?
- Não muito, se me permite a expressão.
- Eu também não. Mas sou católico. Quer dizer, baptizei os meus filhos. Mais por eles do que por mim, percebe? Era aquela coisa: Não queria que lhes faltasse nada, 'tá a ver? E pronto, baptizei-os. Uma coisa idiota, claro está, mas na altura achei que sim, que devia baptizá-los. Não fosse o Diabo tecê-las, hein? Aqui aplica-se mesmo o dito.
- Pois, compreendo. Fazemos coisas muito estúpidas pelos nossos filhos.
- É verdade, Vasco. É verdade. Mas vamos então ao que interessa. Vou então pegar aqui no meu bloco de notas e na minha canetinha. Sabe para quê?
- Calculo que para tirar notas.
- E calculou muito bem, Vasco, calculou muito bem. Porque, como lhe disse, eu hoje estou disposto a salvar o mundo. Está um dia tão bonito, Vasco, que realmente só me apetece fazer isso: salvar o mundo. E vejo que aqui o Vasco também.
- Cá está uma coisa que temos em comum, chefe.
- Exactamente. E na minha opinião, duas pessoas que estão dispostas a salvar o mundo são potenciais heróis. Ainda não são heróis, claro, mas têm efectivamente esse potencial, poderão vir a provar a sua heroicidade, 'tá a ver? São potenciais heróis. Por outras palavras, considero que a vontade já faz alguma coisa por nós. O Vasco concorda com isto?
- Concordo, sim, chefe. A vontade é meio caminho andado.
- Pois claro que é. E se assim é, eu e o Vasco somos meios-heróis. Hein? Já é alguma coisa.
- Pois é, chefe, pois é!
- Ora bem, uma conversa entre dois meios-heróis só pode ser uma coisa importante, Vasco. É que só pode ser. Sabe porquê?
- Porque meio-herói mais meio-herói, dá um herói completo, não, chefe?
- Não tinha visto as coisas por esse prisma, Vasco. Realmente não tinha, mas podemos ir por aí, podemos ir por aí. Eu e o Vasco juntos, temos o mundo aqui, como dizia aquele outro Vasco num daqueles filmes do Estado Novo, lembra-se?
- Lembro-me, sim senhor.
- Gosta desses filmes, Vasco?
- Gosto, chefe, bastante até. Mas do Estado Novo, não.
- Pois claro que não, homem. Só as pessoas estúpidas é que gostam do Estado Novo.
- Não é bem assim, chefe, não podemos dizer isso.
- Pois claro que é assim, ó Vasco. Só pode ser assim. Há que dizê-lo com frontalidade, como dizia o outro. Para sermos sintéticos, é isto: há pessoas pró-Estado Novo e pessoas contra o Estado Novo. As primeiras só podem ser estúpidas.
- Bom, talvez. Mas e o chefe? Gosta desses filmes?
- Gosto, pois. Mas também não gramo o Estado Novo, Vasco.
- Pois, 'tá a ver?! Não podemos generalizar. Ele há pessoas estúpidas que não gostam do Estado Novo.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

No escritório do chefe (II)

Ler parte I.

- Ó homem, você está louco! Você está louco, Vasco! Está louco! Louco!
- Olhe, se calhar sim, estou louco, chefe!
- É que está mesmo, percebe? Está mesmo! Completamente louco! Está a perceber bem? Você está louco.
- Talvez, talvez. Sou louco, pronto, sou louco. Mas você é estúpido. Sou louco e você é estúpido! Cada um é como é. E você é estúpido.
- Pare já de me chamar estúpido, ouviu? Está proibido de me chamar estúpido! Pro-i-bi-do! Você, Vasco, você está louco.
- Antes louco que estúpido.
- Ó Vasco, pare com isso! Você controle-se. Você controle-se, homem, qu'isto é grave! Isto é grave, percebeu?
- Pois claro que sim. E concordo, chefe! É grave.
- Pois é, é! É grave! E você nem sabe quão grave isto é. É que é mesmo muito grave, Vasco, muito grave mesmo.
- Claro que é, chefe! Há que ver as coisas como elas são. Se é grave, é grave. E realmente, tem toda a razão, é grave!
- Gravíssimo, Vasco. Gravíssimo. É o mais grave.
- Muito grave, sim senhor.
- Não! Muito grave, não, Vasco. Muito grave, não. Não é muito grave, não! É gravíssimo! Gravíssimo, percebe?
- Percebo. Gravíssimo.
- Pois, gravíssimo. Que "muito grave" não chega, está a entender? "Muito grave" não chega.
- Ora pois, não chega.
- Não chega, não. Sabe porquê, Vasco? Sabe porquê?
- Então porquê, chefe?
- É uma questão de grau, Vasco. De grau! De grau, percebe?
- De grau?! De grau de gravidade?!
- Não, Vasco, claro que não. Claro que não. Qual grau de gravidade?! Você, Vasco, você… Eu já não tenho idade pra isto, Vasco, já não tenho idade pra isto... O grau de gravidade?! Mas o que é isto?!
- Não sei, chefe! Não sei. O chefe é que estava a falar de grau.
- Sim, de grau. Mas não de gravidade, Vasco. Não de gravidade. A gravidade é só uma, homem, é só uma. É uma lei, nada mais, não há graus de gravidade. Estava o Newton encostado à macieira e pimba!, fez-se a lei da gravidade. Essa gravidade não é práqui chamada, não é práqui chamada. Percebeu? Eu estava a falar do grau dos adjectivos. Dos adjectivos, Vasco. Percebeu agora?
- Ah, ok.
- Sabe o que são os graus dos adjectivos? Sabe o que são?
- Sim, sei. Tenho uma vaga ideia.
- Uma vaga ideia?! Tem uma vaga ideia?! Você não pode ter uma vaga ideia, Vasco! Não pode! Tem de saber os graus dos adjectivos. Tem de saber! Um homem que é homem tem de saber usar os graus dos adjectivos. E um homem que entra aqui - no escritório do chefe - e me chama a mim, me chama a mim, de estúpido, tem de saber os graus dos adjectivos. Tem de saber!
- Mas olhe, eu realmente não sei, e continuo a achá-lo estúpido!
- Pare já com isso, pare já com isso, Vasco, que ainda morremos os dois aqui! Pare já, pare já! Não temos idade pra isto, Vasco, não temos idade.
- Pois não temos, não.
- Pois claro que não temos, homem. E se você quer andar por aí a salvar o mundo, a defender ideias, a fazer discursos, a chamar as pessoas de estúpidas, a dizer seja o que for, você tem de saber os graus dos adjectivos. Tem de saber!
- Certo, tenho de saber.
- Porque "muito grave" não é o mesmo que "gravíssimo", Vasco. Não é o mesmo! Toda a gente sabe isto! Uma coisa é o superlativo absoluto analítico, outra coisa é o sintético. O sintético! Percebe? O que é sintético tem mais pujança. 'Tá a ver? É mais eficaz, mais eficiente, mais capaz!
- Ok! Sintético!
- Sim, sintético! Portanto, se eu lhe digo que isto é gravíssimo, não me responda que é grave nem muito grave. É gravíssimo. Superlativo absoluto sintético: Gravíssimo!
- Gravíssimo! É gravíssimo!
- Pois é gravíssimo, sim. Gravíssimo. E sabe porquê, Vasco? Sabe por que é que é gravíssimo? Sabe?
- Sei.
- Ai sim? Ai sim? Sabe? Sabe? Então, diga lá, Vasco. Então, diga lá!
- É gravíssimo, porque o chefe, com todo o respeito que merece e que eu lhe devo, é estúpido.
- Como?! Como?!
- O chefe é estúpido.
- Cale-se! Já não o posso ouvir com isso.
- Sim, já me calo! Mas para ser sintético, é isto: o chefe é estúpido.
- ...
- É gravíssimo termos um chefe estúpido.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

No escritório do chefe (I)

- Desculpe, chefe, dá-me licença?
- Claro, Vasco. Ora essa. Entre, entre.
- Muito obrigado. Ora bem, peço desculpa, mas queria só mesmo um minutinho, se pudesse ser…
- Ó Vasco, por favor! Um minutinho?! Eu tenho todos os minutinhos para si, homem. Sente-se aí.
- Não, não. Não é preciso sentar-me.
- Claro que é, Vasco. Puxe dessa cadeira, homem.
- Não, deixe estar. É que realmente é só um minutinho da sua atenção, se pudesse ser...
- Pronto, pronto, Vasco, diga lá então. É que hoje, sinceramente, pode dizer-me qualquer coisa, sabe? Há aqueles dias assim, pá, um homem acorda de manhã e apetece-lhe salvar o mundo, 'tá a ver? Estou inspiradíssimo.
- Sim, pois, às vezes é assim, não é, chefe?
- É verdade. E hoje tenho ganas de salvar o mundo, pá! Ir por aí desenfreado com uma máscara do Zorro, hein? A galope...
- Pois é, chefe. Ou então a trote para não ser tão depressa.
- É verdade, ó Vasco. Não se pode salvar o mundo à pressa, não é?
- Não, não se pode. O que é preciso é ter calma, chefe.
- Exactamente, Vasco, exactamente. Você é um homem esperto. Então sente-se aí, vá.
- Não, não, chefe, não tenho tempo.
- Não tem tempo?
- Pois não, não tenho.
- Tem, sim senhor! Pois claro que tem tempo! Está um dia tão bonito, ó Vasco. Olhe para isto, veja lá como o dia se pôs bonito, veja lá bem isto.
- Pois, está muito bonito, sim senhor, mas tenho mesmo qu'ir.
- Epá, ó Vasco, não me diga que vai salvar o mundo?!
- Mas é que vou mesmo, chefe. Se me deixar, vou mesmo.
- Epá, você, Vasco, é um homem do caraças, pá. É que gosto dessa atitude, gosto mesmo! Dá-me um gozo diabólico. Um homem dedicado ao seu trabalho é uma inspiração, pá! Pronto, vá lá então salvar o mundo! Quem sou eu para o parar?
- Vou, vou. Vou salvar o mundo. Mas antes disso queria então fazer o tal reparo, pode ser?
- Pode ser, claro que pode ser. O mundo não anda para a frente sem reparos, ó Vasco.
- Pois não, chefe. Então vamos a isto.
- Diga, diga, Vasco.
- É mesmo uma coisinha rápida.
- Sim, sim, sou todo ouvidos, faça lá o seu reparo.
- Bom, ora bem, queria só informá-lo do seguinte: você, chefe, realmente, é uma pessoa muito estúpida. Realmente estúpida. Pronto, estúpida. Do mais estúpido que pode haver, percebe? Achei que devia dizer-lhe isto.

(continua)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

História sem acção

Havia no fundo da sala um relógio de parede que respirava segundos.
Três mil segundos. (É o tempo que dura esta história.)
Um rapaz está deitado no sofá. Não sabemos há quanto tempo, mas está.
O rapaz permanece deitado.
Aparentemente para sempre. Eternamente. Até ao fim do mundo. Mas na verdade não, porque esta história só dura três mil segundos.
Durante este tempo (equivalente a cinquenta minutos) o rapaz não adormece. Os olhos dele estão abertos para uma outra dimensão, não seguem os ponteiros do relógio.
Também não fuma, não lê, não come. Tem aliás as mãos presas atrás da nuca, os cotovelos apontados para o tecto. E para que conste, também não fala nem assobia nem tosse.
Perguntam-me: Esse rapaz está triste? Profundamente triste? Irremediavelmente triste? E eu digo: Não, não está.
(Mas também não está alegre.)
O rapaz está. Só isso.
Está.
No final dos três mil segundos, o rapaz ainda está assim. Deitado.
Perguntam-me: O que estará ele a fazer? E eu digo: Nada. O rapaz não faz nada, rigorosamente nada. Digo mais ainda: Se uma mosca passasse, ele não olharia para ela. E se ela pousasse no seu nariz, ele não a sacudiria.
Nenhuma mosca passa, é claro. Mas se passasse, aconteceria o que vos digo.
E tudo porque o rapaz está deitado no sofá. De cotovelos apontados para o tecto. É essa a sua prioridade. O seu objectivo.
E vendo bem os factos, temos de confessar o seguinte: estar deitado é uma ocupação como qualquer outra.
Um pouco menos querida, é certo. Menos badalada. Menos perfeita.
Mas nem por isso diferente das restantes.
É aliás, se me permitem, uma ocupação mais elevada do que outras. Por ser mais digna. Mais útil. E verdadeira.
É, por exemplo, mais útil estar deitado do que escrever sobre alguém que está deitado. Do que ler sobre alguém que está deitado. Do que não estar deitado.
Deixemos portanto o rapaz.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Senhora de saltos altos

Aquela senhora de saltos altos vai sempre a pé para casa. Sabemos isto porque já nos cruzámos com ela na place Jourdan várias vezes. Avistamo-la lá ao fundo, à saída do parque e ficamos a vê-la desembocar na praça. Tem um passo solto e as costas muito direitas. As pernas parecem fortes e o rosto vem sempre com aquele ar liberto, a baloiçar no dia, como quem regressa a algum lado.
Estamos certos de que vai para casa. 
A senhora dos saltos altos não vem cansada. Daí acharmos que, ou gosta muito do que faz ou não se chateia com pormenores. Dá uns saltinhos pela rua, a cabeça abana imprevisível. Sabemos que a senhora trabalha, porque passa por aqui quase sempre às seis da tarde. Por vezes mais tarde, outras vezes mais cedo, mas por norma durante aquela parte indefinida do dia, entre a tarde e a noite. Deve portanto trabalhar num escritório ali perto. Talvez numa agência de viagens, num consultório médico, provavelmente num banco. Sim, certamente. Num banco.
Agora que a vemos de perfil, não há dúvida: é uma mulher das economias. Goza a vida no concreto, tem um corte de cabelo prático, não olha para as pessoas nas esplanadas. Não é uma pessoa sozinha, pelo contrário. Tem família, amigos, inimigos, tem olhos acompanhados. Imaginamos que se despeça dos colegas com um adeus sempre risonho. Simpático, cordial, correcto.  
A senhora não vem a rir pelo caminho, seria estranho que o fizesse. Mas adivinhamos-lhe aquelas pequenas rugas de riso nos cantos da boca e tiramos ilações: tem gostos musicais, vai ao cinema. 
Olha atentamente para os carros antes de atravessar a rua, agradece com um pequeno aceno a quem a deixa passar. Segue depois pelo parque de estacionamento e sobe aquela rua, à esquerda. Depois não sabemos para onde vai, porque a perdemos de vista, mas deve morar ali perto. Sabemos isto pela maneira como apressa o passo e levanta a cabeça: a apanhar balanço. 
Apetece-nos conhecer a senhora dos saltos altos, percebê-la, acompanhá-la. Mas, à falta de pretexto, não fazemos nada disto. Ficamos a vê-la passar.