sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Senhora de saltos altos
terça-feira, 30 de setembro de 2008
O homem a rimar
Para o tio Pedro.
Nós, que ignoramos o mundo e tudo o que nele existe, não conhecemos Luanda nem Tundavala nem Benguela nem o deserto do Namibe, mas vimos um pouco disto através dos olhos do homem que rimava, que ria a rimar, que raiava. Eram olhos soalheiros aqueles, de final de tarde, ampliados por óculos redondos, avolumados.
Este homem tinha, também ele, um certo ar de paisagem, por a sua presença ser espaço, viagem, deserto. Os cabelos ondulavam ao vento, espelhavam vários sóis: iguais ao mar.
Penso muitas vezes no seu quarto musical, no seu Porto de chegada. Nas suas memórias de África, com a qual todos nós sonhamos como outros sonharam com a Terra do Nunca: um lugar impossível cheio de histórias paralelas, diferentes das nossas.
Do Porto se fez ao asfalto. Aquele homem. Sempre rimando. Remando. E nós a vê-lo viajante, debruçado sobre os mapas. Das estradas, dos tesouros.
Sonhamos sobretudo com a sua rolote. Aventureira, poeirenta, a rolar pela Europa. Não conhecemos essa rolote e temos pena.
Quem nos dera ter viajado nela.
Um homem chamado Pessoa e que o era até ao final de si mesmo. Não o conhecemos como devíamos, como podíamos, como queríamos. Mas sabemo-lo assim: um homem profundo como o horizonte.
A rimar com o mundo.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
A senhora Madalena
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
A casa (V)
As paredes eram tortas e tinham umbigos até ao final do corpo.
Entrava-se por um arco-íris e no parapeito da janela cresciam raízes de outras casas. Davam flores e frutos. Oxigénio. Vida.
Na cozinha andava pendurado um sonho de azulejos a espelhar um sol diferente. Aí se refogavam os dias, cheios de cores e formas, sem receitas.
Certo dia, quando decidiram construir o telhado, o homem ilimitado desenhou um algeroz serpenteado para os proteger das chuvas, das inundações. Do dilúvio.
Tudo isto a inspirava: o arco-íris, a janela, o algeroz. O homem ilimitado.
De resto, durante a noite, a casa enterrava-se devagar no chão como as raízes. E rangia os dentes.
Era orgânica. Gaudiana. Imperfeita.
Igual à vida.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
And now for something completely different
Depois, voltou tudo ao normal, mas no momento da morte, naquele preciso segundo, todos sentiram.
Nota: Por outro lado, no dia do seu nascimento ninguém sentiu a diferença, mas isto deve-se ao facto de, naquela época, as pessoas não estarem habituadas a pessoas verdadeiramente diferentes.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Aquário
Sim, peixe, com guelras e umas barbatanas dos lados, milhares de escamas a escarpar-lhe o corpo. Um peixe.
Andava farta dos homens, das mulheres, das criancinhas, do seu corpo quadrado em cima das pernas.
Poetizava para dentro:
Não seria mau de todo respirar pela boca. Respirar realmente pela boca. Fazê-lo por natureza e não por escolha.
Havia na casa da avó um aquário enorme, redondíssimo, e a rapariga dizia que aquela era a sua casa: um loft transparente, cheio de luz e de água, feito de vidro. Uma casa original.
Dias mais tarde, desiludiu-se: o facto de o aquário não ter saída chateava-a profundamente e a rapariga acabou por desistir daquela casa. Decidiu então viver num rio.
(A ideia de nadar até ao fim da água e da vida entusiasmava-a.)
Lembrou-se depois dos afluentes e, nessa noite, sonhou que desembocava num rio que desembocava noutro e depois noutro e caía eternamente pela água dentro. Quando acordou, desaguou definitivamente no mar e não quis sair dali.
Disse: "Serei um peixe de água salgada" e pensou no mar por dentro, na sua boca de peixe a respirá-lo, a bebê-lo, a ouvi-lo, a cheirá-lo, a senti-lo.
Seria um peixe-balão (gostava do nome) e flutuaria lentamente nas águas. Depois fechou os olhos para boiar perdidamente, redondamente, infinitamente, sem peso nem alma. As barbatanas muito abertas, a boca dentro de água.
E no entanto, nesse preciso instante, sobressaltou-se. Disse: "um peixe a boiar é um peixe morto". A rapariga endireitou-se na cadeira, chorou de susto. Ficou em silêncio alguns minutos, uma espécie de choque transformava-lhe o rosto.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Em Setembro
O sol pôs-se de perfil e nós desenhámo-lo na areia.
(Lembro-me que o círculo original era demasiado perfeito para os dedos das mãos.)
No final do desenho, espreguiçou-se o final de uma onda e o sol do chão morreu.
Perguntei: "Que dia é hoje?".
Lembro-me que, nesse instante, a terra acabou. Abruptamente.
Responderam-me: "O primeiro".
Na escuridão entrelaçámos os dedos imperfeitos.
Lembro-me disso.
Desenhámos depois o sol do céu.
E fez-se luz.
Era a rentrée* da vida.
*Para quem não gosta de galicismos, substituir rentrée por recorrência, recriação, repetição ou reticência.