quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A casa (V)

Para a casa, que faz hoje 1 ano e 3 dias.

As paredes eram tortas e tinham umbigos até ao final do corpo.

Entrava-se por um arco-íris e no parapeito da janela cresciam raízes de outras casas. Davam flores e frutos. Oxigénio. Vida.

Na cozinha andava pendurado um sonho de azulejos a espelhar um sol diferente. Aí se refogavam os dias, cheios de cores e formas, sem receitas.

Certo dia, quando decidiram construir o telhado, o homem ilimitado desenhou um algeroz serpenteado para os proteger das chuvas, das inundações. Do dilúvio.

Tudo isto a inspirava: o arco-íris, a janela, o algeroz. O homem ilimitado.

De resto, durante a noite, a casa enterrava-se devagar no chão como as raízes. E rangia os dentes.

Era orgânica. Gaudiana. Imperfeita.
Igual à vida.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

And now for something completely different

Aquele artista em específico era diferente dos outros.
Era. Não haja dúvida.
Não só dos artistas, mas dos seres humanos em geral. Isto era aliás visível aos olhos de todos: a sua pose era diferente, o seu andar, as suas sobrancelhas. Aquele artista (sexo masculino, nacionalidade russa) era diferente no tacto, no verbo, no cabelo, nas covinhas da bochecha, na barba, reza a história que era diferente nas unhas dos pés e das mãos. (Isto não vimos nós, mas acreditamos. Pi-a-men-te.)
Diz-se que eram unhas de fibra de vidro e não de fibra orgânica como as nossas. Eram, digamos, uma espécie de cascos que não se cortavam à tesoura, mas que se partiam ao meio!
Bom, mas nem sequer é preciso irmos por aí, porque não eram só as características físicas que distinguiam aquele artista. Definitivamente, não eram. Muito pelo contrário. As características físicas eram irrelevantes ao pé das outras.
Porque o que era realmente diferente naquele artista não era tanto a sua diferença, mas sim e sobretudo o facto de a sua pessoa, a sua arte, o seu modo fazerem a diferença. Toda a diferença. Do MUNDO.
Para comprovar isto, basta recordarmo-nos do dia da sua morte: realmente é indiscutível que, no dia em que aquele artista morreu, todos sentiram a diferença. Não haja dúvida. Todos. Sem excepção.
Depois, voltou tudo ao normal, mas no momento da morte, naquele preciso segundo, todos sentiram.

Nota: Por outro lado, no dia do seu nascimento ninguém sentiu a diferença, mas isto deve-se ao facto de, naquela época, as pessoas não estarem habituadas a pessoas verdadeiramente diferentes.
A propósito, Liev Tolstói nasceu exactamente no dia 9 de Setembro há 180 anos, mas ninguém deu por ela. Pelos mesmos motivos.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Aquário

Certo dia, a rapariga disse que queria ser peixe.
Sim, peixe, com guelras e umas barbatanas dos lados, milhares de escamas a escarpar-lhe o corpo. Um peixe.
Andava farta dos homens, das mulheres, das criancinhas, do seu corpo quadrado em cima das pernas.

Poetizava para dentro:
Não seria mau de todo respirar pela boca. Respirar realmente pela boca. Fazê-lo por natureza e não por escolha.
(A rapariga abria e fechava a boca insistentemente, os olhos muito abertos, perdidos na água.)
Havia na casa da avó um aquário enorme, redondíssimo, e a rapariga dizia que aquela era a sua casa: um loft transparente, cheio de luz e de água, feito de vidro. Uma casa original.

Dias mais tarde, desiludiu-se: o facto de o aquário não ter saída chateava-a profundamente e a rapariga acabou por desistir daquela casa. Decidiu então viver num rio.
(A ideia de nadar até ao fim da água e da vida entusiasmava-a.)

Lembrou-se depois dos afluentes e, nessa noite, sonhou que desembocava num rio que desembocava noutro e depois noutro e caía eternamente pela água dentro. Quando acordou, desaguou definitivamente no mar e não quis sair dali.
Disse: "Serei um peixe de água salgada" e pensou no mar por dentro, na sua boca de peixe a respirá-lo, a bebê-lo, a ouvi-lo, a cheirá-lo, a senti-lo.

Seria um peixe-balão (gostava do nome) e flutuaria lentamente nas águas. Depois fechou os olhos para boiar perdidamente, redondamente, infinitamente, sem peso nem alma. As barbatanas muito abertas, a boca dentro de água.

E no entanto, nesse preciso instante, sobressaltou-se. Disse: "um peixe a boiar é um peixe morto". A rapariga endireitou-se na cadeira, chorou de susto. Ficou em silêncio alguns minutos, uma espécie de choque transformava-lhe o rosto.

Perguntou-se: Para quê viver no mar, se não podia deitar-se nele, de rosto contra o sol e o sal?

Era uma rapariga interessante. Definida. Definitiva. De carne e osso.
(Jamais abdicaria do seu direito a boiar.)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Em Setembro

Em Setembro passou-se isto:

O sol pôs-se de perfil e nós desenhámo-lo na areia.

(Lembro-me que o círculo original era demasiado perfeito para os dedos das mãos.)

No final do desenho, espreguiçou-se o final de uma onda e o sol do chão morreu.
Perguntei: "Que dia é hoje?".

Lembro-me que, nesse instante, a terra acabou. Abruptamente.
Responderam-me: "O primeiro".

Na escuridão entrelaçámos os dedos imperfeitos.
Lembro-me disso.

Desenhámos depois o sol do céu.
E fez-se luz.

Era a rentrée* da vida.

*Para quem não gosta de galicismos, substituir rentrée por recorrência, recriação, repetição ou reticência.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O lugar real

- Leva-me àquele outro lugar.
[A frase é um pedido e não uma ordem.]
- Qual outro lugar?
- Àquele outro lugar, anterior a este.
- Anterior a este?!
- Sim, anterior a este.
- Como assim?
- Àquele lugar que não este.
[Dá-se um silêncio curto, arrependido, disfarçado.]
- Um lugar longe daqui?
- Longínquo.
- Mais a Sul?
- Não.
- Mais a Norte?
- Não.
- Então?
- Mais antigo, mais para dentro.
- Um espaço no tempo?
- Sim, um espaço no tempo.
[Abre-se entre os dois uma polegada de tempo e uma formiga passa. No chão há um cigarro meio posto.]
- Queres ir para o passado?!
- Não, não. Quero ir para àquele outro lugar.
- Que lugar?
- O lugar real.
- Esse lugar existe?
- Existe.
- É físico? Material?
- Sim, claro.
- E onde fica?
- Não sei. No tempo.
- Não há lugares no tempo.
- Não?!
- Não. Só há lugares no espaço.
- Então fica no espaço.
- Em qual espaço?
- Num espaço anterior a este.
- Não há espaços anteriores. Uma coisa é o espaço, outra coisa é o tempo. Os lugares ficam quietos no espaço.
- Então leva-me lá.
- Aonde?
- A esse lugar.
- Tens de me dizer onde fica.
- Fica no espaço.
- E onde especificamente? Preciso de coordenadas.
- Fica para trás, sempre para trás.
- Atrás de quê?
- De tudo.
[Os dois regressam a lugares atrás de tudo: não sabem nada, não querem nada, respiram.]
- E se não existir?
- Se não existir?!
- Sim, se esse lugar não existir.
[Os olhos dela encontram o vácuo. São vagos, vadios, vazios.]
- Podemos não encontrar esse lugar.
- Podemos?!
- Podemos.
- Nesse caso, não sei.
- Não sabes o quê?
- Não sei de mim.
- Não sabes de ti?!
- Não, não sei... Nem de ti.
- Não sabes de mim?!
- Não.
- Nesse caso, estamos perdidos.
[Partem juntos. À procura deles próprios.]

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Ulisses

Uma viagem longa como o mar e também ele partiu com o coração içado,
cheio de pressa de chegar a casa.
Fui.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

No café da esquina

Entram vagarosas duas velhinhas.
Dizemos velhinhas, porque são frágeis de corpo e têm, de facto, uma estatura pequena, magra, minguante. Dirigem-se à mesa mais próxima, logo atrás da porta. Andam a passo de tartaruga.
Uma mulher de trinta anos, mais coisa menos coisa, observa-as do fundo da sala enquanto bebe um café com leite e come um croissant. Era um entretenimento como outro qualquer, já que não tinha comprado o jornal.
Uma das velhinhas traz bengala, a outra não. Apoiam-se uma na outra, muito trementes, tremeluzentes. Sentam-se com dificuldade, em câmara lenta e, depois de um suspiro, comentam o cansaço, as maleitas, a idade. Conversam. A mulher de trinta anos pensa algo como:
Quando a solidão chega, tudo são desculpas para as palavras.
Uma das velhinhas começa então a contar qualquer coisa e a outra ouve. A rapariga de trinta anos não consegue decifrar o que dizem nem o que ouvem, mas interpreta alguns sinais. Na sua perspectiva, a conversa parece realmente completa, tem várias pausas no meio e expressões de surpresa. Havia até um certo suspense no desenrolar da história e, a julgar pelos rostos intrigados, o assunto era sério.
A mulher de trinta anos, mais coisa menos coisa, apercebe-se então de que ela é afinal mais sozinha do que as velhinhas e arrepende-se do comentário anterior. Confessa para os seus botões (e para o croissant, que leva agora à boca) que não ouvia uma história contada assim há muito tempo. E vai um pouco mais longe: Talvez que nunca tenha ouvido uma história contada assim, com tantas indicações cénicas e pormenores dramáticos. Admitiu também que, por outro lado, não contava uma história assim há ainda mais tempo, um tempo anterior a si, veja-se. Tudo isto por falta de tempo, claro. Para ouvir, para falar.
A velhinha que contava a história debruçava-se agora para a frente, gesticulava firmemente, insistia num ponto qualquer da narrativa. A outra encorajava-a, mexia em sintonia a cabeça, os braços, o tronco. Depois pararam de falar/ouvir, para receberem o chá de tília e, enquanto as chávenas se servem, as duas velhinhas abanam a cabeça, em desacordo com o mundo. Depois regressam à conversa, ou seja, aproximam-se novamente do centro da mesa.
A mulher de trinta anos, mais coisa menos coisa, não deixa de reparar no seguinte: as duas velhinhas estão mais bem penteadas do que ela, mais bem arranjadas do que ela, possivelmente mais lavadas e perfumadas até. Têm batom nos lábios e colares de pérolas ao pescoço. Trazem anéis robustos nas mãos e várias alianças.
A mulher de trinta anos engole então o croissant e pede a conta. Desculpa-se a si própria pela pressa que traz nos gestos: Não tenho tempo para merdas. Bate com as moedas na mesa, veste o casaco coçado e sai. Na rua dá por si a pensar:
Era uma vez duas mulheres com todo o tempo para a vida e muito pouco tempo para ela.
Prosseguiu:
Era uma vez eu, que tenho muito tempo para a vida e não tenho tempo para ela.
O pensamento era quase absurdo, impertinente, mas não completamente. A mulher de trinta anos sabia disso e envelheceu um pouco mais.
Numa história a sério, a mulher de trinta anos regressaria ao café para ouvir todas as histórias do mundo com todo o tempo para a vida, mas infelizmente esta não é uma história assim. A mulher de trinta anos encolheu simplesmente os ombros e abanou a cabeça, em desacordo com o mundo.
Depois regressou à vida. Salvo seja.