quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Aquário

Certo dia, a rapariga disse que queria ser peixe.
Sim, peixe, com guelras e umas barbatanas dos lados, milhares de escamas a escarpar-lhe o corpo. Um peixe.
Andava farta dos homens, das mulheres, das criancinhas, do seu corpo quadrado em cima das pernas.

Poetizava para dentro:
Não seria mau de todo respirar pela boca. Respirar realmente pela boca. Fazê-lo por natureza e não por escolha.
(A rapariga abria e fechava a boca insistentemente, os olhos muito abertos, perdidos na água.)
Havia na casa da avó um aquário enorme, redondíssimo, e a rapariga dizia que aquela era a sua casa: um loft transparente, cheio de luz e de água, feito de vidro. Uma casa original.

Dias mais tarde, desiludiu-se: o facto de o aquário não ter saída chateava-a profundamente e a rapariga acabou por desistir daquela casa. Decidiu então viver num rio.
(A ideia de nadar até ao fim da água e da vida entusiasmava-a.)

Lembrou-se depois dos afluentes e, nessa noite, sonhou que desembocava num rio que desembocava noutro e depois noutro e caía eternamente pela água dentro. Quando acordou, desaguou definitivamente no mar e não quis sair dali.
Disse: "Serei um peixe de água salgada" e pensou no mar por dentro, na sua boca de peixe a respirá-lo, a bebê-lo, a ouvi-lo, a cheirá-lo, a senti-lo.

Seria um peixe-balão (gostava do nome) e flutuaria lentamente nas águas. Depois fechou os olhos para boiar perdidamente, redondamente, infinitamente, sem peso nem alma. As barbatanas muito abertas, a boca dentro de água.

E no entanto, nesse preciso instante, sobressaltou-se. Disse: "um peixe a boiar é um peixe morto". A rapariga endireitou-se na cadeira, chorou de susto. Ficou em silêncio alguns minutos, uma espécie de choque transformava-lhe o rosto.

Perguntou-se: Para quê viver no mar, se não podia deitar-se nele, de rosto contra o sol e o sal?

Era uma rapariga interessante. Definida. Definitiva. De carne e osso.
(Jamais abdicaria do seu direito a boiar.)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Em Setembro

Em Setembro passou-se isto:

O sol pôs-se de perfil e nós desenhámo-lo na areia.

(Lembro-me que o círculo original era demasiado perfeito para os dedos das mãos.)

No final do desenho, espreguiçou-se o final de uma onda e o sol do chão morreu.
Perguntei: "Que dia é hoje?".

Lembro-me que, nesse instante, a terra acabou. Abruptamente.
Responderam-me: "O primeiro".

Na escuridão entrelaçámos os dedos imperfeitos.
Lembro-me disso.

Desenhámos depois o sol do céu.
E fez-se luz.

Era a rentrée* da vida.

*Para quem não gosta de galicismos, substituir rentrée por recorrência, recriação, repetição ou reticência.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O lugar real

- Leva-me àquele outro lugar.
[A frase é um pedido e não uma ordem.]
- Qual outro lugar?
- Àquele outro lugar, anterior a este.
- Anterior a este?!
- Sim, anterior a este.
- Como assim?
- Àquele lugar que não este.
[Dá-se um silêncio curto, arrependido, disfarçado.]
- Um lugar longe daqui?
- Longínquo.
- Mais a Sul?
- Não.
- Mais a Norte?
- Não.
- Então?
- Mais antigo, mais para dentro.
- Um espaço no tempo?
- Sim, um espaço no tempo.
[Abre-se entre os dois uma polegada de tempo e uma formiga passa. No chão há um cigarro meio posto.]
- Queres ir para o passado?!
- Não, não. Quero ir para àquele outro lugar.
- Que lugar?
- O lugar real.
- Esse lugar existe?
- Existe.
- É físico? Material?
- Sim, claro.
- E onde fica?
- Não sei. No tempo.
- Não há lugares no tempo.
- Não?!
- Não. Só há lugares no espaço.
- Então fica no espaço.
- Em qual espaço?
- Num espaço anterior a este.
- Não há espaços anteriores. Uma coisa é o espaço, outra coisa é o tempo. Os lugares ficam quietos no espaço.
- Então leva-me lá.
- Aonde?
- A esse lugar.
- Tens de me dizer onde fica.
- Fica no espaço.
- E onde especificamente? Preciso de coordenadas.
- Fica para trás, sempre para trás.
- Atrás de quê?
- De tudo.
[Os dois regressam a lugares atrás de tudo: não sabem nada, não querem nada, respiram.]
- E se não existir?
- Se não existir?!
- Sim, se esse lugar não existir.
[Os olhos dela encontram o vácuo. São vagos, vadios, vazios.]
- Podemos não encontrar esse lugar.
- Podemos?!
- Podemos.
- Nesse caso, não sei.
- Não sabes o quê?
- Não sei de mim.
- Não sabes de ti?!
- Não, não sei... Nem de ti.
- Não sabes de mim?!
- Não.
- Nesse caso, estamos perdidos.
[Partem juntos. À procura deles próprios.]

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Ulisses

Uma viagem longa como o mar e também ele partiu com o coração içado,
cheio de pressa de chegar a casa.
Fui.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

No café da esquina

Entram vagarosas duas velhinhas.
Dizemos velhinhas, porque são frágeis de corpo e têm, de facto, uma estatura pequena, magra, minguante. Dirigem-se à mesa mais próxima, logo atrás da porta. Andam a passo de tartaruga.
Uma mulher de trinta anos, mais coisa menos coisa, observa-as do fundo da sala enquanto bebe um café com leite e come um croissant. Era um entretenimento como outro qualquer, já que não tinha comprado o jornal.
Uma das velhinhas traz bengala, a outra não. Apoiam-se uma na outra, muito trementes, tremeluzentes. Sentam-se com dificuldade, em câmara lenta e, depois de um suspiro, comentam o cansaço, as maleitas, a idade. Conversam. A mulher de trinta anos pensa algo como:
Quando a solidão chega, tudo são desculpas para as palavras.
Uma das velhinhas começa então a contar qualquer coisa e a outra ouve. A rapariga de trinta anos não consegue decifrar o que dizem nem o que ouvem, mas interpreta alguns sinais. Na sua perspectiva, a conversa parece realmente completa, tem várias pausas no meio e expressões de surpresa. Havia até um certo suspense no desenrolar da história e, a julgar pelos rostos intrigados, o assunto era sério.
A mulher de trinta anos, mais coisa menos coisa, apercebe-se então de que ela é afinal mais sozinha do que as velhinhas e arrepende-se do comentário anterior. Confessa para os seus botões (e para o croissant, que leva agora à boca) que não ouvia uma história contada assim há muito tempo. E vai um pouco mais longe: Talvez que nunca tenha ouvido uma história contada assim, com tantas indicações cénicas e pormenores dramáticos. Admitiu também que, por outro lado, não contava uma história assim há ainda mais tempo, um tempo anterior a si, veja-se. Tudo isto por falta de tempo, claro. Para ouvir, para falar.
A velhinha que contava a história debruçava-se agora para a frente, gesticulava firmemente, insistia num ponto qualquer da narrativa. A outra encorajava-a, mexia em sintonia a cabeça, os braços, o tronco. Depois pararam de falar/ouvir, para receberem o chá de tília e, enquanto as chávenas se servem, as duas velhinhas abanam a cabeça, em desacordo com o mundo. Depois regressam à conversa, ou seja, aproximam-se novamente do centro da mesa.
A mulher de trinta anos, mais coisa menos coisa, não deixa de reparar no seguinte: as duas velhinhas estão mais bem penteadas do que ela, mais bem arranjadas do que ela, possivelmente mais lavadas e perfumadas até. Têm batom nos lábios e colares de pérolas ao pescoço. Trazem anéis robustos nas mãos e várias alianças.
A mulher de trinta anos engole então o croissant e pede a conta. Desculpa-se a si própria pela pressa que traz nos gestos: Não tenho tempo para merdas. Bate com as moedas na mesa, veste o casaco coçado e sai. Na rua dá por si a pensar:
Era uma vez duas mulheres com todo o tempo para a vida e muito pouco tempo para ela.
Prosseguiu:
Era uma vez eu, que tenho muito tempo para a vida e não tenho tempo para ela.
O pensamento era quase absurdo, impertinente, mas não completamente. A mulher de trinta anos sabia disso e envelheceu um pouco mais.
Numa história a sério, a mulher de trinta anos regressaria ao café para ouvir todas as histórias do mundo com todo o tempo para a vida, mas infelizmente esta não é uma história assim. A mulher de trinta anos encolheu simplesmente os ombros e abanou a cabeça, em desacordo com o mundo.
Depois regressou à vida. Salvo seja.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Cronologia

Agora que o futuro virava presente, ela riu-se da sua ignorância, da sua sapiência, da ordem natural das coisas. Depois lembrou-se:
Um dia também o presente seria antigo e sentiu na língua um certo travo amargo, diferente de todos os outros.
Tudo isto (o futuro, o presente, o passado, nesta ou noutra ordem) lhe deixava marcas na pele: havia células mortas no rosto, vestígios de outras mãos nas suas mãos, saudade na boca. No nariz nasciam outros cheiros, outro ar, outro mar.
Pensou: "Fosse o tempo outro e o que sou hoje não seria nada disto".
Nesse instante, repentinamente, sentiu uma dor nas costas e caiu. Uma dor invencível. Inesquecível. Apetecível. Como se a vida de dentro saísse para fora. Explodindo.
Chegava, pois, a metamorfose do corpo.
Disse: "Já não era sem tempo" e levantou-se renovada.
Depois abriu as asas e voou.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Vontade

Em dias como aquele, tinha vontade de não ser. A frase saiu-lhe quase espontânea, não fosse o olhar assumido de coisa pensada. Explicou: não propriamente de morrer, que nunca fora de desistir das coisas, mas simplesmente de não ser, de não estar, de sair do mundo com consciência e contemplar as nuvens.
Não ser.
Só isso.
Do ponto de vista técnico, fisiológico e emocional, "ter vontade de não ser" podia ser confundido com "não ter vontade de ser". E no entanto, no seu entender, que era um entender especializado dado que só ela sentia e exprimia o sentimento, as duas expressões não traduziam o mesmo. Calou-se por alguns momentos, bebeu um pouco de água. Revelou: a vontade existia sempre. Repetiu: Sempre. Aquela vontade intrínseca, própria, apropriada, incondicional: essa existia sempre, daí que a vida fosse. Seria injusto não ter vontade, concluiu. Absurdo. Estranho. Inútil. Próprio de uma pessoa morta antes de tempo. Esbracejou indignada. Daí que optasse por "não ser". E em dias como aquele, tinha realmente vontade de não ser. Encolheu os ombros. Disse: para ver as nuvens passar.
Era uma mulher impressionante.
Cheia de vontade.