segunda-feira, 11 de agosto de 2008

No café da esquina

Entram vagarosas duas velhinhas.
Dizemos velhinhas, porque são frágeis de corpo e têm, de facto, uma estatura pequena, magra, minguante. Dirigem-se à mesa mais próxima, logo atrás da porta. Andam a passo de tartaruga.
Uma mulher de trinta anos, mais coisa menos coisa, observa-as do fundo da sala enquanto bebe um café com leite e come um croissant. Era um entretenimento como outro qualquer, já que não tinha comprado o jornal.
Uma das velhinhas traz bengala, a outra não. Apoiam-se uma na outra, muito trementes, tremeluzentes. Sentam-se com dificuldade, em câmara lenta e, depois de um suspiro, comentam o cansaço, as maleitas, a idade. Conversam. A mulher de trinta anos pensa algo como:
Quando a solidão chega, tudo são desculpas para as palavras.
Uma das velhinhas começa então a contar qualquer coisa e a outra ouve. A rapariga de trinta anos não consegue decifrar o que dizem nem o que ouvem, mas interpreta alguns sinais. Na sua perspectiva, a conversa parece realmente completa, tem várias pausas no meio e expressões de surpresa. Havia até um certo suspense no desenrolar da história e, a julgar pelos rostos intrigados, o assunto era sério.
A mulher de trinta anos, mais coisa menos coisa, apercebe-se então de que ela é afinal mais sozinha do que as velhinhas e arrepende-se do comentário anterior. Confessa para os seus botões (e para o croissant, que leva agora à boca) que não ouvia uma história contada assim há muito tempo. E vai um pouco mais longe: Talvez que nunca tenha ouvido uma história contada assim, com tantas indicações cénicas e pormenores dramáticos. Admitiu também que, por outro lado, não contava uma história assim há ainda mais tempo, um tempo anterior a si, veja-se. Tudo isto por falta de tempo, claro. Para ouvir, para falar.
A velhinha que contava a história debruçava-se agora para a frente, gesticulava firmemente, insistia num ponto qualquer da narrativa. A outra encorajava-a, mexia em sintonia a cabeça, os braços, o tronco. Depois pararam de falar/ouvir, para receberem o chá de tília e, enquanto as chávenas se servem, as duas velhinhas abanam a cabeça, em desacordo com o mundo. Depois regressam à conversa, ou seja, aproximam-se novamente do centro da mesa.
A mulher de trinta anos, mais coisa menos coisa, não deixa de reparar no seguinte: as duas velhinhas estão mais bem penteadas do que ela, mais bem arranjadas do que ela, possivelmente mais lavadas e perfumadas até. Têm batom nos lábios e colares de pérolas ao pescoço. Trazem anéis robustos nas mãos e várias alianças.
A mulher de trinta anos engole então o croissant e pede a conta. Desculpa-se a si própria pela pressa que traz nos gestos: Não tenho tempo para merdas. Bate com as moedas na mesa, veste o casaco coçado e sai. Na rua dá por si a pensar:
Era uma vez duas mulheres com todo o tempo para a vida e muito pouco tempo para ela.
Prosseguiu:
Era uma vez eu, que tenho muito tempo para a vida e não tenho tempo para ela.
O pensamento era quase absurdo, impertinente, mas não completamente. A mulher de trinta anos sabia disso e envelheceu um pouco mais.
Numa história a sério, a mulher de trinta anos regressaria ao café para ouvir todas as histórias do mundo com todo o tempo para a vida, mas infelizmente esta não é uma história assim. A mulher de trinta anos encolheu simplesmente os ombros e abanou a cabeça, em desacordo com o mundo.
Depois regressou à vida. Salvo seja.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Cronologia

Agora que o futuro virava presente, ela riu-se da sua ignorância, da sua sapiência, da ordem natural das coisas. Depois lembrou-se:
Um dia também o presente seria antigo e sentiu na língua um certo travo amargo, diferente de todos os outros.
Tudo isto (o futuro, o presente, o passado, nesta ou noutra ordem) lhe deixava marcas na pele: havia células mortas no rosto, vestígios de outras mãos nas suas mãos, saudade na boca. No nariz nasciam outros cheiros, outro ar, outro mar.
Pensou: "Fosse o tempo outro e o que sou hoje não seria nada disto".
Nesse instante, repentinamente, sentiu uma dor nas costas e caiu. Uma dor invencível. Inesquecível. Apetecível. Como se a vida de dentro saísse para fora. Explodindo.
Chegava, pois, a metamorfose do corpo.
Disse: "Já não era sem tempo" e levantou-se renovada.
Depois abriu as asas e voou.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Vontade

Em dias como aquele, tinha vontade de não ser. A frase saiu-lhe quase espontânea, não fosse o olhar assumido de coisa pensada. Explicou: não propriamente de morrer, que nunca fora de desistir das coisas, mas simplesmente de não ser, de não estar, de sair do mundo com consciência e contemplar as nuvens.
Não ser.
Só isso.
Do ponto de vista técnico, fisiológico e emocional, "ter vontade de não ser" podia ser confundido com "não ter vontade de ser". E no entanto, no seu entender, que era um entender especializado dado que só ela sentia e exprimia o sentimento, as duas expressões não traduziam o mesmo. Calou-se por alguns momentos, bebeu um pouco de água. Revelou: a vontade existia sempre. Repetiu: Sempre. Aquela vontade intrínseca, própria, apropriada, incondicional: essa existia sempre, daí que a vida fosse. Seria injusto não ter vontade, concluiu. Absurdo. Estranho. Inútil. Próprio de uma pessoa morta antes de tempo. Esbracejou indignada. Daí que optasse por "não ser". E em dias como aquele, tinha realmente vontade de não ser. Encolheu os ombros. Disse: para ver as nuvens passar.
Era uma mulher impressionante.
Cheia de vontade.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Biologia revisitada

- Ó mãe, o pai é biológico?
- Como?!
- O pai é biológico?
- Se o pai é biológico?!
- Sim, se é biológico.
- Em que sentido, filho?
- No sentido biológico. Se é biológico.
- Sim, é.
- Ah...
- Então porquê, filho?
- Por nada. É que a Ritinha lá da escola diz que o pai dela não é biológico.
- Pois. Às vezes é assim.
- E vinha com rótulo?
- Com rótulo?!
- Sim, com rótulo!
- O quê, filho?
- O pai!
- Com rótulo?!
- Sim, a dizer que é biológico!
- ... Não, não vinha.
- Então como sabias que era biológico?
- Olha, sabia!
- Provaste-o antes de comprar?
- Mais ou menos, sim.
- Ó mãe, e eu sou biológico?
- Sim, és.
- Sou cem-por-cento natural?
- Sim, és.
- Sem corantes nem conservantes?
- Exacto.
- E sou comestível?
- Não, filho, que disparate.
- Os produtos biológicos não são para comer?
- Alguns são, outros não.
- Ah. Então eu sou para quê?
- És para estudar. Vá, vai fazer os trabalhos de casa.
- Ó mãe, tu também és biológica?
- Claro.
- Então no fim não sobra nada, pois não?
- Não sobra nada?!
- Pois!
- Como assim, filho?
- Somos uma família biodegradável!

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Diálogo entre dois mortos

Para uma neta que perdeu o avô.

Morreram em épocas diferentes. Um está morto há muito tempo. Outro acaba de chegar. Encontram-se a meio caminho. O mais experiente na morte quer lembrar-se da vida, mas não consegue. Por isso, pergunta:

- Agora que morreu de vez, responda-me ao seguinte: "A vida é mesmo curta?"
- Não, não é curta.
- Não?!
- Não, é longa.
- Longa?
- Muitíssimo longa.
- Quão longa?
- Longa de perder de vista.
- Assim como o mar?
- Não. Como a terra, talvez.
- A vida é como a terra?
- Sim. É que o mar, ao longe, é sempre igual. A terra não. Tem altos e baixos, vegetação e casas, pessoas, pastagens, comboios, aviões, centrais eléctricas, barragens, é uma grande confusão.
- A vida é uma confusão?
- É.
- A morte não.
- Não?!
- Não. É só assim.
- Ainda bem.
- Ainda bem?!
- Sim.
- Às vezes sinto-me farto de estar morto. Canso-me. Até fico doente. Mas depois passa.
- Pois, é capaz. No mar também é assim. Nem sempre as ondas são mansas e uma pessoa adoece. Mas depois passa.
- Nesse caso, se calhar eles têm razão quando dizem que a morte é uma passagem. Talvez tenhamos passado da terra para o mar.
- Sim, é uma boa imagem.
- Gosto de mar.
- Eu também!
- Então bem-vindo a bordo.
- Obrigado! Sempre quis ser marinheiro.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Botão do volume

O vizinho de baixo não consegue dormir por causa do vizinho de cima. Sai da cama, calça as pantufas, sai de casa, sobe as escadas. Toca a porta. Espera.
- Boa noite, vizinho. Olhe, desculpe, mas será que podia baixar a música?
- Baixar a música?!
- Sim.
- Como assim, baixar a música?!
- Olhe, baixando, não sei. Imagino que indo ao botão do volume e girando-o.
- Mas é a Maria Callas que está a cantar. Não se pode baixar a Maria Callas.
- Pois, mas é que já são dez e meia.
- São dez e meia?
- Sim, dez e meia.
- E então?
- E então queria dormir.
- Queria dormir às dez e meia?
- Sim.
- Comigo?!
- Não, consigo não.
- Então por que me veio bater à porta?
- Porque não consigo dormir.
- E que tenho eu a ver com isso?
- Tudo! Não consigo dormir por causa da sua música.
- Por causa da minha música?
- Sim, é que já são dez e meia.
- Não gosta da Maria Callas?
- Sim. Quer dizer, não é a minha cantora preferida.
- Não?!
- Não.
- Então quem é a sua cantora preferida?
- Bom, eu realmente não vim aqui para discutir música consigo.
- Não?!
- Não, é evidente que não.
- Mas é importante discutirmos música, se a minha música é um problema para si. Entre, entre.
- Não, não, não. Queria mesmo só que baixasse a música. Ou que a desligasse, talvez.
- A Maria Callas?
- Sim. A Maria Callas.
- Mas você julga que é quem?
- Sou o vizinho de baixo. E não consigo dormir com a Maria Callas.
- Não?!
- Não.
- Bom, que posso eu fazer? Quer uma coisa menos clássica, é isso? Mais jazz? Mais pop? Mais rock? Tenho aí de tudo, é só dizer, vizinho.
- Não. Eu realmente só preciso de silêncio.
- De silêncio?!
- Silêncio.
- Para dormir?!
- Sim.
- Às dez e meia?!
- Sim.
- E acha que vai conseguir?
- Normalmente consigo.
- Interessante.
- Talvez... Ficava então extremamente agradecido, se pudesse girar o tal botão.
- Olhe, eu, por exemplo, gosto de dormir ao som de Roberta Flack. Já experimentou?
- Não, não experimentei. Como lhe disse, gosto de dormir em silêncio.
- E quando estou triste ou irritado como o senhor, ouço Aimee Mann. Conhece?
- Sim, conheço.
- Ai sim?!
- Sim.
- E gosta?
- Mais ou menos, sim.
- E gosto de acordar ao som de Aretha Franklin. Já experimentou?
- Não, não experimentei. E realmente não estou interessado, sabe?
- Não gosta da Aretha Franklin?
- Bom, não é que não goste. Mas também não morro de amores.
- Não morre de amores?!
- Não.
- Olhe, desculpe, mas eu realmente não consigo falar com pessoas que não morram de amores pela Aretha Franklin. Com licença.
E fecha a porta. Desliga a Maria Callas de repente e o vizinho de baixo suspira.
Regressa a casa. Enquanto abre a porta, abana a cabeça. Mete-se na cama. Nisto entra-lhe pela casa dentro Aimee Mann.
One. Um. O algarismo. Cardinal.
Uma música tão triste, que o vizinho de baixo não teve forças para voltar a sair da cama.
Adormeceram os dois de exaustão.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Arroz com ervilhas

Queria, por exemplo, um homem na sua vida. Pensou nisso enquanto preparava o refogado para o arroz de ervilhas.
Estava a mexer a cebola no tacho e pensou exactamente: "Queria um homem na minha vida".
O arroz era quase sempre de ervilhas. De vez em quando fazia também arroz de tomate, mas por norma escolhia sempre as ervilhas. Isto por estas serem pequenas, redondas, fáceis, acessíveis, digeríveis. Simpatizava com as ervilhas, com a cor, o sabor e particularmente com a sua consistência. E fora justamente a propósito disso – do paladar das ervilhas – que se lembrou de certos beijos. E daí o homem. Na sua vida.
A necessidade de um homem na sua vida.
Abriu o congelador, tirou o pacote de ervilhas, entornou várias dezenas no tacho, mexeu novamente. Depois deitou a água, mais tarde o arroz. Comeu. Só isto: arroz com ervilhas. E enquanto comia elogiava por dentro a marca daquelas ervilhas, pelo facto de serem verdadeiramente rechonchudas e saborosas.
Pensou depois nas desvantagens de os homens não virem em pacotes, de não terem uma marca específica, de não virem congelados em embalagens respeitadoras do ambiente, por exemplo. Seria mais prático. Sempre que essa falta voltasse, tirava-se do congelador o dito e enfiava-se umas quantas colheres no tacho. Ao gosto de cada um. Sal, azeite e homem. Quanto baste.
Por exemplo, no seu caso, poria só um cheirinho. Para não enjoar.
Depois lavou a loiça bem-disposta. A mulher é que estava bem-disposta, não a loiça.
Nunca mais pensou em homens congelados nesse dia. Nem nos seguintes.
Uma pena.