sexta-feira, 4 de julho de 2008

Cabelo, cabeça e queda

Para o Belgavista, que faz um ano e 150 vistas.

Para ter a certeza de que o tempo passava, decidiu cortar o cabelo. A ideia ocorrera-lhe enquanto tomava duche. Fechou a torneira com uma mão imperativa e inclinou o corpo para a frente. Estava agora em bicos de pés.
O gel de banho ainda escorria pelas costas e a rapariga sentava-se já no parapeito da banheira. Nua.
Assim ficou cinco segundos. E durante esses cinco segundos, teve frio. Depois abriu uma gaveta e tirou de um estojo vermelho a tesoura pequeníssima das unhas. Enfiou-a directamente no cabelo e cortou-o. Sem demora. (Nem sequer se penteara antes disso.)
O cabelo era fino e negro, havia vestígios de champô nas pontas que saltavam para o chão.
No final, não varreu a casa de banho. Levantou-se do parapeito e espreitou o seu reflexo no espelho enublado.
Riu-se para os olhos sempre seus.
E foi até à sala.
A cabeça com pouco cabelo era um pouco mais leve do que antes. E a mulher abanou a cabeça violentamente. Livremente. Loucamente.
Depois desequilibrou-se. E caiu.
O tecto era mais longínquo visto do chão. Uma nova perspectiva da casa.
Era bom cair em dias assim.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

História paralela sobre o segredo

Para um tipo Periférico,
com segredos dentro.


Esta história começa no momento em que um segredo, estando ele secretamente segregado há muitos anos numa caixa de madeira, vê as portas do céu abrirem-se (na verdade era só a tampa da caixa de madeira) e dá de caras com o Sol (coisa amarela e nunca vista).
O segredo nunca dantes segredado, virgem de conhecimento, salta cheio de sede para a vida e, quando cai, para mal dos seus não pecados, dessegreda-se. Isto é, parte-se no mundo em mil pedaços. São agora mil segmentos de segredo e a essência perde-se no caminho, deixa de ser.
O segredo passa então a coisa de segunda, a coisa nenhuma, a coisa sabida, experimentada, corrompida. Já não é.
Um segmento de si tem uma certa saudade do todo, mas já não sabe quem era. Uma saudade desnecessária, desamparada, dessegredada. Um sentimento esquisito. Periférico. Merecido.
Um segmento deveras português.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Noves fora, nada

O homem-que-conduzia-autocarros não conseguia pensar enquanto conduzia. Havia muitas interrupções, infracções, distracções. E passageiros. Que perguntavam, compravam, entravam, saíam, reclamavam, pediam, ordenavam.
Era impossível pensar.
E portanto, em vez disso, o homem-que-conduzia-autocarros contava: somava, subtraía, dividia, multiplicava, calculava raízes quadradas. Tudo de cabeça.
Era curioso, por exemplo, que a carreira do autocarro vinte e sete tivesse exactamente vinte e sete paragens.
O homem-que-conduzia-autocarros não tardara a perceber isto: 2+7=9.
E noves fora, nada.
Outra coincidência era o facto de o seu percurso demorar trinta e seis minutos. O homem-que-conduzia-autocarros tinha um relógio-cronómetro e, em média, de facto, o percurso demorava exactamente 36 minutos.
3+6=9.
E noves fora, nada.
(O homem-que-conduzia-autocarros sublinhava o número nove para que ninguém o confundisse com o seis.)
Nas contagens de passageiros, o número nove era também o mais comum. Em muitas paragens saíam nove passageiros. Noutras entravam outros nove. E na carreira da noite, quando passava em Montgomery às 23 e 40 (Dois mais três são cinco e mais quatro faz nove), o autocarro só já trazia nove pessoas.
O homem-que-conduzia-autocarros começou então a ver o número nove em todas as coisas. Nove botões nas camisas, quarenta e cinco semáforos (4+5=9), vinte e sete Estados-Membros (2+7=9), dezoito curvas à direita (1+8=9).
Anos mais tarde (precisamente nove), o homem-que-conduzia-autocarros enlouqueceu.
E tudo por não conseguir pensar. Enquanto conduzia.
Ou por contar enquanto conduzia.
Por pensar sobre o que contava.
Por conduzir enquanto contava.
Ou por não o deixarem pensar.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O espirro

O rapaz adolescente dobrou a esquina e espirrou.
Quase em simultâneo e devido à contracção do rosto, as quinze borbulhas que o adolescente trazia na testa explodiram.
Este espectáculo (o rapaz a espirrar e as borbulhas a explodirem) assemelhava-se a um fogo de artifício, não tanto pela diversidade de cores, mas pela conjugação de sons: um espirro aberto, festivo, prolongado e uma erupção que era afinal várias explosões carnavalescas.
No momento seguinte, a saliva, o muco e o pus caíam harmoniosamente aos pés do rapaz adolescente. O prazer que este sentia era quase orgásmico.
Depois limpou à camisola duas gotas de muco e continuou o seu caminho um pouco mais rápido do que antes, cheio de pressa para sair dali.
(Tinha uma alergia a pessoas adultas e, àquela hora, o bairro devia estar cheio delas.)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Sol

Naquela manhã, porém, a vida era um pouco menos triste por causa do sol que rompia as persianas e a D. Teresa, que há vários dias não saía da cama por causa da dor nos ossos, do peso insustentável do corpo e de uma certa pressa de morrer, levantou-se quase sem dor e abriu a janela para saborear a luz. Dizemos saborear a luz, porque de facto a D. Teresa escancarou a janela, apoiou os braços no parapeito e abriu a boca para a manhã, saboreando-a.
De vez em quando fechava a boca para o sol crepitar no céu do corpo (isto lembrava-a o algodão doce da feira popular). Fechava também os olhos, para que eles vissem outros lugares, os mesmos de outra época já que a imaginação não ia além da memória.
D. Teresa sentia-se de tal forma feliz que lançou os braços para o dia e deitou literalmente a língua de fora (as papilas gustativas, em contacto directo com o sol, abriam-se como poros).
Uma manhã suculenta, disse de si para si.
Mas de repente, quando a tarde caiu, D. Teresa assustou-se e pediu àquela manhã que não partisse, que voltasse, que fosse para sempre. Agarrou então o sol com as mãos, puxou-o com todas as forças que tinha, atirou-o para dentro de um frasco e guardou-o no frigorífico.
Depois saiu. Para comprar baguetes.
Tinha uma enorme vontade de comer pão com sol.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Incompatibilidades (II)


Um ouriço-do-mar picou-me. E dói-me o pé. O fundo do pé. Apetece-me partir o ouriço-do-mar ao meio, mas já não vou a tempo.
Na cabeça do ouriço é possível que nada disto se tenha passado. A seu ver, fora ele a vítima: estava o ouriço no seu lugar, quando fora pisado por um pé-de-terra.
Eu e o ouriço-do-mar ignoramos a história um do outro. Por isso, cada um ficará na sua terra e no seu mar a chorar o que sente (e não o que sabe).
Falássemos nós a mesma língua (ou a língua do outro) e seríamos um pouco menos ignotos. Menos ignorados.
Ignorantes.
Um pouco menos/mais iguais.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Hoje é o dia

A rapariga recém-chegada a Santa Apolónia entra num café e pede uma bica. Diz realmente: "Era uma bica!".
Fica de pé ao balcão: os cotovelos apoiados no vidro. Se fumasse, fumaria. Se escarrasse, escarraria. Mas a rapariga não faz nada disso, espera só. A bica chega, recém-chegada como ela e a rapariga parece feliz com o encontro. Agita no ar um pacote amarelo, rasga-o num só gesto, começa a despejá-lo.
E nesse instante, nesse preciso instante e exactamente ali (aos pés de Alfama e na boca do rio que ria sempre), a rapariga recém-chegada olha para o pacote já rasgado e lê: Um dia serei turista na minha cidade. Era um pacote de açúcar igual aos outros: da Nicola e de pontas enrugadas, um rectângulo quase quadrado, um amarelo de Verão que se prolonga. Com uma frase no ventre. Um dia serei turista na minha cidade.
A rapariga fica a ver o açúcar cair como quem vê o tempo a passar. E de repente não há nada, só o pacote vazio. Prende-o na mão esquerda, os cinco dedos a segurá-lo. Bebe finalmente o café e o amargo da boca coincide com outro amargo qualquer. Não sabe identificar qual.
Regressa ao papel amarelo, vira-o do avesso, roda-o nos dedos. Lê no verso do pacote: Hoje é o dia. Do outro lado a mesma frase inicial. Deste lado: Hoje é o dia.
Amachuca-o de repente (o pacote e o dia), deita-o fora, paga. Sai dali apressada (da boca do rio, dos pés de Alfama) e entra pela cidade dentro.
Depois perde-se, claro. Como os turistas.
E os lisboetas.
Era portanto uma rapariga com dois versos.
Igual ao pacote de açúcar.