sexta-feira, 25 de abril de 2008

Diálogo sobre o ser - Parte IV

- Não, filha, nenhuma máquina consegue ir ao passado.
- Não?
- Não!
- Então vou para o futuro.
- Também não há máquinas que viajem para o futuro.
- Nesse caso, fico à espera.
- De quê?
- Do futuro.
- Está bem! Mas no futuro também não há copistas.
- Como sabes?
- Sei, pronto.
- Então já lá estiveste!
- Não. Mas sei que não haverá copistas.
- Porquê?
- Porque nessa altura tudo será feito por máquinas.
- Tudo?
- Tudo, tudo, tudo!
- Incluindo viajar para o passado?
- Isso não.
- Porquê?
- Porque ainda ninguém inventou a máquina de viajar no tempo.
- Agora ainda não. Mas se calhar no futuro já inventaram.
- Filha, vamos lá ver uma coisa: tu não podes viver em função do passado.
- Não?
- Não. A vida caminha para o futuro e não para o passado.
- A vida caminha?
- Sim.
- Anda a pé?
- Sim.
- E porque não vamos com ela?

(continua)

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Diálogo sobre o ser - Parte III

- Filha, não podes ser copista.
- Não posso?
- Não.
- Porquê?
- Porque copista é uma profissão doutro mundo. É uma coisa da Idade Média, praí.
- Então pronto.
- Pronto, o quê?
- Vou para lá.
- Para onde?
- Prá Idade Média.
- A Idade Média não é um sítio.
- Não?!
- Não. É uma parte da História.
- Como os adultos?
- Não, filha. Uma época mesmo. Que aconteceu no passado, há muito tempo. Só nessa altura é que havia copistas.
- Então pronto.
- Pronto, o quê?
- Vou para lá.
- Ó filha, mas tu não podes ir para o passado.
- Não?!
- Não.
- Porquê?
- Porque não podes viajar assim no tempo.
- Mas eu não ia a pé.
- Então ias como?
- De avião.

(continua)

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Diálogo sobre o ser - Parte II

- Queres que a mãe te ofereça uma máquina de escrever?
- Não.
- Então como vais escrever os teus livros?
- Eu não vou escrever, vou copiar.
- Pronto. Então como vais copiar os livros?
- À mão.
- À mão?
- Sim. À mão.
- Mas filha, ninguém te vai dar dinheiro para copiares livros à mão.
- Não faz mal.
- Faz, faz. Se ninguém te dá dinheiro para seres copista, quer dizer que isso não é uma profissão.
- Para mim é.
- Mas para os outros não. Tens de arranjar outra.
- …
- A mãe ensina-te a escrever no computador, queres?
- Não. Quero escrever à mão.
- Não gostas de máquinas, é isso?
- Gosto. Eu gosto de máquinas.
- Ai gostas?
- Gosto.
- Então o que queres ser quando fores grande?
- Copista.

(continua)

terça-feira, 22 de abril de 2008

Diálogo sobre o ser - Parte I

- E já sabes o que queres ser quando fores grande?
- Sei!
- Então, o que queres ser?
- Copista.
- Como?
- Copista.
- Porquê, querida?
- Porque gosto de escrever.
- Queres ser escritora, é isso?
- Não. Copista.
- Copista de quê?
- De livros.
- Queres escrever livros, não é?
- Não. Quero copiá-los.
- Copiá-los?
- Sim, copiá-los.
- Para quê, filha?
- Para saber os livros.
- Para saber?!
- Sim.
- Para sabê-los de cor?
- Não, para saber mesmo.

(continua)

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Um homem caminha no parque.

Não passeia pelo parque. Caminha. Senão vejamos:
É quase baixo e anda cabisbaixo a contar as pedras do chão. Vem aliás zangado com as pedras do chão. A bater nas pedras do chão. (Indignamo-nos.)
Traz também as mãos presas nos bolsos.
(Imaginamo-las pesadas como as pedras do chão.)
O homem traz portanto pedras nos bolsos.
Além disso, o homem não segue o trilho que o jardineiro tão cuidadosamente esculpiu para os homens que passeiam. Em vez disso, vai em frente (sempre em frente), atrás de uma recta que só ele vê.
Temos a certeza que o homem vê essa recta, porque o seu trajecto é impecavelmente alinhado, alheado, alienado. Vai sempre a direito pela relva, pisa o que tiver a pisar (incluindo eventuais pedaços de merda que julgamos ver daqui). Dá a sensação que, havendo por aqui um lago, o homem o atravessaria sem hesitar. Seguiria em frente como um touro e caminharia inacreditavelmente sobre a água, ainda zangado com as pedras do chão e dos bolsos, ignorando o milagre.
(Infelizmente, não há por aqui um lago e o homem segue mortal como os outros.)
O homem caminha. Não passeia.
Se passeasse, traria a cabeça içada, o nariz elevado, o olhar mais ainda. Tocaria naturalmente com o pensamento nas nuvens. Seria um homem um pouco mais alto, um pouco mais livre, um pouco mais pássaro. E, como já se disse, o homem que caminha é baixo, cabisbaixo.
(De pássaro só o nariz, que adivinhamos aquilino, como os bicos das aves de rapina.)
E subitamente apercebemo-nos de que este homem tem qualquer coisa de árvore. Repetimos: de árvore. É uma semelhança curiosa, tendo em conta que este homem caminha sempre em frente e as árvores só andam para dentro.
(Da terra, claro.)
Observamo-lo com mais atenção e reparamos que este homem e as árvores têm em comum a curvatura do tronco. Um é vertebrado, o outro não, já se sabe. Mas ambos dobram a coluna para a frente, por causa do peso da vida, muito próxima do chão.
Formulemos uma hipótese: este homem é uma árvore andante.
E daí talvez não. Somos nós que andamos e confundimos o movimento.
(Ilusão de óptica.)
Concluímos: O homem anda para dentro. Sempre em frente, para dentro da terra.
Daí as pedras do chão.
E as dos bolsos.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Ítaca

Falemos. Do mar.
Para que. O horizonte exista.
O tal mar.
Chamado.
Distância.
Para que. O longe prossiga.
E o amor.
A dor. A cor.
O pôr.
Do sol.
Persista.
À flor.
Da pele.
Falemos. Do mar.
Chamado.
Distância.
Para que. O regresso insista.
A vida se dispa.
E a vista chegue.
Ao final.
Dos dedos.
Do final.
Dos dias.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Retrato de homem ao sábado de manhã

Para o meu pai

Não se levanta cedo nem tarde. Levanta-se, pronto.
Toma banho, apesar de o dia ainda ser novo.
Penteia o cabelo e veste camisa. Não é necessário, mas veste.
Está para sair e pergunta: "Trago pão?". Respondem-lhe: "Traz".
O homem vai à Sacolinha tomar o pequeno-almoço. Sempre à Sacolinha. E das duas, uma: ou vai a pé até à do Edifício Sol, ou vai de carro à do Bairro do Rosário. Por vezes, vai também àquela outra, não muito longe da praça de touros.
Fica ao balcão. Sempre ao balcão, embora não lhe falte tempo nem vontade.
Pede: Um quarto de vigor, como se não houvesse outro leite nem outra medida. Um quarto de vigor. Come uma merenda ou uma empada, qualquer coisa com sal dentro, que combine com o seu ar de marinheiro fora d'água.
Pede: "Dois mafrinhas!".
Não se engana no tipo de pão nem na quantidade. Estes variam, mas ele não.
Não se engana.
Bebe um café e paga, antes mesmo de saber quanto deve.
Não faz nada disto com pressa.
Faz, apenas.
Vai à tabacaria do Cidadela comprar o Expresso. Noutros tempos levaria também Português Suave, mas agora não. Só leva o Expresso. A senhora do quiosque tem ar de cozinheira, de governanta, de senhora que vive prós outros. Pergunta invariavelmente pela família.
Está tudo bem, obrigado!
O homem segue contente por lhe perguntarem pela família, por a senhora ser simpática, por a vida ser boa e branda aos sábados de manhã. Diz um Bom dia! satisfeito, quando chega a casa.
Tem dois sacos na mão. Num a leitura, no outro o pão.
Para alimentar a família.
É um homem fascinante.
Não faz por ser.
E, no entanto, é.