sexta-feira, 11 de abril de 2008

Ítaca

Falemos. Do mar.
Para que. O horizonte exista.
O tal mar.
Chamado.
Distância.
Para que. O longe prossiga.
E o amor.
A dor. A cor.
O pôr.
Do sol.
Persista.
À flor.
Da pele.
Falemos. Do mar.
Chamado.
Distância.
Para que. O regresso insista.
A vida se dispa.
E a vista chegue.
Ao final.
Dos dedos.
Do final.
Dos dias.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Retrato de homem ao sábado de manhã

Para o meu pai

Não se levanta cedo nem tarde. Levanta-se, pronto.
Toma banho, apesar de o dia ainda ser novo.
Penteia o cabelo e veste camisa. Não é necessário, mas veste.
Está para sair e pergunta: "Trago pão?". Respondem-lhe: "Traz".
O homem vai à Sacolinha tomar o pequeno-almoço. Sempre à Sacolinha. E das duas, uma: ou vai a pé até à do Edifício Sol, ou vai de carro à do Bairro do Rosário. Por vezes, vai também àquela outra, não muito longe da praça de touros.
Fica ao balcão. Sempre ao balcão, embora não lhe falte tempo nem vontade.
Pede: Um quarto de vigor, como se não houvesse outro leite nem outra medida. Um quarto de vigor. Come uma merenda ou uma empada, qualquer coisa com sal dentro, que combine com o seu ar de marinheiro fora d'água.
Pede: "Dois mafrinhas!".
Não se engana no tipo de pão nem na quantidade. Estes variam, mas ele não.
Não se engana.
Bebe um café e paga, antes mesmo de saber quanto deve.
Não faz nada disto com pressa.
Faz, apenas.
Vai à tabacaria do Cidadela comprar o Expresso. Noutros tempos levaria também Português Suave, mas agora não. Só leva o Expresso. A senhora do quiosque tem ar de cozinheira, de governanta, de senhora que vive prós outros. Pergunta invariavelmente pela família.
Está tudo bem, obrigado!
O homem segue contente por lhe perguntarem pela família, por a senhora ser simpática, por a vida ser boa e branda aos sábados de manhã. Diz um Bom dia! satisfeito, quando chega a casa.
Tem dois sacos na mão. Num a leitura, no outro o pão.
Para alimentar a família.
É um homem fascinante.
Não faz por ser.
E, no entanto, é.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Mulher à janela

Queria estar em casa e, quando estava, queria estar noutro lugar. Escolhia por isso a janela da sala para os seus serões e ficava horas a ver a chuva, bem como as pessoas debaixo dela.
A chuva era fina e transparente. Por vezes, não se via. Uma chuva a fingir que não era.
As pessoas eram pequenas ou grandes. As que vinham da esquina eram pequenas e depois ficavam grandes. As que vinham da outra ponta da janela eram grandes e ficavam pequenas. As primeiras apareciam imprevistas no fundo da rua e subiam muito lentas, como caracóis, até desaparecerem enormes na outra ponta da janela. As segundas apareciam enormes e minguavam a cada passo, até desaparecerem formigas na esquina. Quem subia a rua era pequeno e inchava até ser gente. Quem descia a rua era pessoa, que se tornava depois em quase nada.
A mulher media as pessoas da esquina com o polegar da mão esquerda: alinhava-o com o olho e depois concordava com a designação "polegarezinhos". Achava que as pessoas que vinham da esquina eram duendes. Que só depois se transformavam em pessoas.
Por outro lado, os que vinham da ponta da janela já eram pessoas e depois ficavam cada vez mais pequenos até desaparecerem na esquina com o tamanho exacto de um polegar. Eram agora duendes.
A sua rua dividia os dois mundos e a mulher à janela preferia minguar a crescer. Ou seja, gostava mais de duendes do que de pessoas. Por isso, quando saía de casa, nunca subia a rua: descia sempre. Fosse qual fosse o seu destino, começava o seu trajecto por descer a rua que unia os dois mundos.
Pelos seus cálculos, minguava cinquenta vezes em cada saída, porque dava cinquenta passos até ao dobrar da esquina. A esta altura seria, pois, mil vezes mais pequena do que um polegar. Qualquer dia, serei um só átomo, prometia a si mesma.
Ninguém via a mulher à janela, pois era demasiado pequena para os olhos. Hoje à tardinha, olhou para o seu reflexo na janela e nem mesmo ela se viu.
Era quase igual à chuva:
uma pessoa a fingir que não era.

sexta-feira, 28 de março de 2008

No metro

Tem barriga em forma de ovo e sente com a mão o peso do fruto. Quase sorri. Os outros passageiros olham-na atentos, assustados com o fruto desconhecido.
A mulher grávida é, aos olhos dos passageiros, um bicho de duas cabeças.
O homem atrás do ventre vem a dormir. Corpo dobrado sobre si mesmo e barriga inchada, a mão esquerda muito aberta dedilhando a placenta.
Entre o fruto e o mundo, uma parede de sangue.
Entre mulher e mãe, o ovo. Entre mãe e filho, um cordão.
E nós, entre estações, à espera que os outros nasçam.
O metro abre-se como um ovo e nós, os de cá, a saltar para o mundo.
Entre o princípio e o fim, tudo o resto.
E nós, os da vida, no meio.

quarta-feira, 26 de março de 2008

O homem triste

Imaginemos um homem mediano, de estatura média, meia-idade e gostos de classe quase baixa, muito preocupado em medir os outros e a vida. Em dias tristes esse homem dizia:
- Estou triste! - com a simplicidade de quem é triste.
E todos se compadeciam dele.
Um dia alguém disse sem pretensões:
- Uma pessoa feliz tem tanto de felicidade como de tristeza.
E ele foi para casa contar os seus dias tristes para saber os dias felizes. O homem admitiu depois:
- Estou triste!
E todos se compadeceram dele.
Naquela noite foi ao cinema para que os outros vivessem por ele e, no final do filme, sentiu que essa vida (a dos outros) era mais interessante do que a sua.
(Uma conclusão algo ingénua para um homem de meia-idade, admitamos.)
O homem triste decidiu então viver a vida de uma outra pessoa (que não a sua) e entrou num bar para escolher o seu actor. Rapidamente sentenciou que nenhuma pessoa do bar era decididamente interessante. Achou, em primeiro lugar, que o problema era seu, que tinha falta de interesse pela vida em geral, mas depois resolveu culpar o mundo. Disse:
- Ninguém é decididamente interessante.
E pediu a conta. Aquele homem mediano, de estatura média, meia-idade e gostos de classe quase baixa, muito preocupado em medir os outros e a vida, decidiu então mudar de ângulo, que é como quem diz: mudar de vida. Anunciou para o copo de vinho:
- A partir de agora, sou realizador de cinema - isto por lhe faltar o talento dramático dos actores, porque o homem triste prefereria encarnar personagens a racionalizá-las.
Pagou a bebida e perguntou ao rapaz que o servia:
- Onde posso comprar uma máquina de filmar?
O outro riu-se da ignorância do homem triste: um rapaz patético, de aparelho nos dentes, presumivelmente feliz.
- A estas horas em lado nenhum. Pelo menos, não na Bélgica.
O homem triste decidiu então começar por mudar de país. E foi para casa.
No silêncio do quarto assaltou-o uma reflexão sobre a vida. E a propósito disso deu um título ao filme por realizar:
No country for sad men.
Não era um título original, é evidente. Mas era mediano e isso bastava-lhe. O homem triste levantou-se do sofá e partiu a meio da noite.
Claro que o homem triste deu a volta ao mundo e não encontrou o lugar que procurava. Concluiu anos mais tarde, quando a sua estatura média se dobrava para a frente com o peso dos anos, que o mundo inteiro era mais triste do que ele. Pensou:
- Sou um pouco menos triste do que antes.
Isso animava-o imenso.
Era um velho feliz.

terça-feira, 25 de março de 2008

Ressurreição

Aquele vampiro foi à missa e nem sequer acreditava. Há anos que não entrava numa igreja e logo naquele domingo de Páscoa decidiu: Vou à missa. E foi.
Disse a quem o ouviu que ia à igreja ouvir o órgão antigo, de cantar austero e olhar profundo, soturno, vestido de negro. Disse: Aquele órgão com cara de Nosferatu, e logo se arrependeu da comparação. Tossiu, tropeçou, disse muito alto: Aquele órgão com cara de Adamastor. (Por ter barba nas pontas e todas as tormentas no rosto.)
Foi à missa.
O homem de Deus anunciou: Vós sois o sal da terra! e nisto o vampiro chorou o sal de dentro. Assim: de súbito, inexplicavelmente, de marinheiro em alto-mar. O padre falou da ressurreição de Cristo e o vampiro estremeceu, cheio de pecado. (Teve terror a Deus, imenso terror a Deus.)
Quando o órgão cantou no fundo do seu corpo, o vampiro perdeu as asas, virou peixe, entrou numa enorme boca. Chamou-a: Adamastor, e morreu.
Três dias depois abriu-se um caixão e dele saiu um vampiro. Renovado, inspirado, impossível. Disse: Sou Orfeu, por trazer música no corpo. Os homens disseram: É a ressurreição de Nosferatu.
Mas não era. No corpo do homem renascia a própria música, de cantar austero e olhar profundo, soturno, vestido de negro. Uma música um pouco mais real, brutal, divina.
Pelas ruas da cidade andava pé ante pé o órgão daquela igreja, com cara de Nosferatu ou Adamastor, cheio de pecado na voz. Apelidaram-no erradamente de vampiro ressuscitado por desconhecerem o rosto da música.
Do pecado.
Do sal da terra.
E de Deus.

terça-feira, 18 de março de 2008

Conto infantil para adultos: O mosquito

Naquele pinheiro-manso vivia um mosquito que não sabia que era mosquito por nunca ter visto outro na vida. Uma vez que os seus olhos eram do tamanho do corpo, a única coisa que via de si próprio eram as asas negras. Assim, o mosquito sabia que não era um pássaro por não ter penas, nem uma fada por as asas não serem brancas.
Até que certo dia o mosquito viu uma abelha pousada numa flor e anunciou:
- Olha, se calhar sou uma abelha!
Ficou a ver o que fazia a senhora abelha e achou o seu trabalho interessantíssimo: sugava néctar. O mosquito foi também beber de uma flor e depois, não sabendo o que fazer com tanto néctar, engoliu-o. Era uma experiência agradável aquela; não havia nada mais saboroso no mundo.
Estava o mosquito a deliciar-se com a sua refeição, quando, de repente, a flor da ameixeira gritou:
- Sai daqui, coisa porca!
O mosquito alarmou-se com o insulto e saltou assustado. Reclamou:
- Respeitinho, seu projecto de ameixa! Sou uma abelha! Ainda te corto a raiz com o meu ferrão!
A flor riu-se e abanava as pétalas para refrescar o rosto.
- Que coisa idiota! Tu não és uma abelha, és um mosquito!
- Um mosquito?! O que é um mosquito?
- É uma coisa odiosa! E porca, justamente!
- Porca?!
- Sim, PORCA! Os mosquitos pousam na merda e comem-na!
O mosquito parecia contemplativo. Ora aí estava uma óptima ideia! Perguntou:
- E a merda é má?
- Claro! Cheira mal! Só as flores é que têm um perfume bom!
O mosquito partiu. Agradava-lhe a ideia de comer merda, mas parecia-lhe injusto que a dita fosse mal-cheirosa. Daí o seu projecto de experiência científica:
Ia encher a flor da ameixeira com merda para ver se o perfume desta passava a ser bom.
Era uma ideia fantástica. E o mosquito voava contente.
Tinha finalmente descoberto quem era. E já sabia o que comer.