quinta-feira, 13 de março de 2008

O rapaz e a neve

Naquela noite o rapaz achou que amava. Estava escuro e havia neve.
Na mão veio pousar um pequeno floco e ele emocionou-se. Depois, num segundo, a neve morreu água e o rapaz pensou: "Este amor é impossível". Por causa disso, amou ainda mais.
Os flocos de neve eram iguais às bolas de sabão: frágeis, intocáveis, sublimes.
Os flocos caíam.
As bolas subiam.
O rapaz apercebeu-se então que o mundo estava ao contrário e soprou violento para a noite. Os flocos de neve ficaram então suspensos no ar e logo mudaram de trajectória.
(A neve já não cai; sobe.)
O rapaz fica a vê-la subir.
Os flocos de neve flutuam depois sobre as casas e tomam a forma das nuvens, confundindo a própria noite. É tão branca a neve, que os pássaros acordam para o dia. Tão bela, tão irrepreensivelmente bela, que o corpo do rapaz sente uma dor só de a ver.
O rapaz ordenou: "Cai!" e ela caiu das nuvens para morrer nas suas mãos. Ele emociona-se. Diz: "Amo-te!" pensando que o amor é a contemplação do Belo.
O rapaz bebe então a água da neve: são agora um só corpo.
Tudo isto se passa no interior de um pisa-papéis, atrás de uma redoma de vidro. Daí o movimento aleatório da neve. E o mundo ao contrário.
Tudo ali é ficção.
À excepção do Belo.
E da dor.
(Só aquele amor é real.)

terça-feira, 11 de março de 2008

História sobre o choro

Para a Scout

De vez em quando chorava. Com uma raiva tal que o choro fazia barulho. Repito: o choro fazia barulho. Não a voz nem o esboço de voz nem o soluço tantas vezes reprimido. Nada disso, porque ela não soluçava nem dizia nada: chorava apenas. E portanto era o choro em si que fazia barulho, a água que vinha de dentro. A sua força era tal que caía com violência, explodindo no chão como pedaços de mar contra as rochas.
O que conhecia de mais parecido com o seu choro eram as quedas de água. Essa comparação apaziguava-a.
Por vezes sentia que desperdiçava energia, que alguém devia inventar barragens e moinhos portáteis que aproveitassem o seu choro. Pensava: A energia da minha queda de água iluminaria o prédio durante dias.
Adiantemos que ela não percebia nada de física nem de electricidade nem de mecânica. Estes seus planos eram portanto simples divagações do seu espírito aberto e da sua mente imaginativa.
Certo era que naquele dia estava realmente triste e chorou durante horas. Horas. E de repente, num abrir e fechar de olhos, parou de chorar. Estava ainda com a cara torta mas, de um momento para o outro, já não havia lágrimas para a sua queda de água. Era a primeira vez que tal sucedia. Perguntou-se se o choro seria uma fonte de energia renovável. Não sabia e ficou chateada por não saber. (A eventualidade de nunca mais chorar assustava-a.)
Pegou no telefone. Era urgente saber se o choro era renovável. Apercebeu-se que não tinha a quem perguntar tal coisa e foi antes para o escritório. Abriu o terceiro volume da enciclopédia.
Encontrou.
Choro s.m.
E leu algumas palavras aleatoriamente.
Fisiológico, sistema nervoso, lacrimação, pressão ocular, limbo, neurológico. De seguida, uma figura enorme representando a glândula lacrimal. Mais abaixo: género musical brasileiro. Por fim: derramamento de seiva. Voltou atrás. Derramamento de seiva a partir de superfícies cortadas das plantas. Disse:
- Curioso!
Depois: provérbios. Escolheu um.
Quem chora ou canta, seus males espanta.
Não tinha uma resposta para a sua pergunta. Fechou o terceiro volume da enciclopédia, arrumou-o e voltou para a sala.
Cansada do silêncio pôs-se a cantar. A canção não saía propriamente cantada, porque não conhecia letras de canções. Achou essa falha gravíssima e esforçou-se um pouco mais.
Lembrou-se então de uma canção de infância sobre um gato mariquinhas que fugia dos ratos. Aprendera-a nos escuteiros, era uma canção divertida.
Cantou-a.
De repente pensou: O canto é uma fonte de energia.
Repetiu o pensamento: O canto é uma fonte de energia.
Parecia-lhe uma descoberta fantástica e endireitou-se no sofá para ganhar seriedade. Era um projecto exequível, mas não sabia onde começar.
Talvez por isso tenha começado por rir.
Depois levantou-se.
Declarou para as paredes: Vou por aí mudar o mundo.
E foi.

quinta-feira, 6 de março de 2008

O vizinho polaco

O meu vizinho finge falar sozinho mas eu bem sei que fala com o cão. Passeiam-se pelo quarteirão e eu passo por eles de manhã. Não percebo o que dizem.
O vizinho vê-me, ri-se, cumprimenta. Diz: Bonjour! como quem fala às crianças e eu sorrio. Queixamo-nos normalmente do frio.
À noite desce as escadas desde o 4.º andar e fica à porta do prédio a falar baixinho. O cão ouve-o e cheira insistentemente o passeio. Encontro-o à entrada: eu de saco de lixo na mão e ele de cigarro na boca. Falamos do lixo ou do cão.
Ontem contou-me que tem família em Itália e eu interessei-me. Um minuto e meio de conversa. Depois perguntou-me: Também tem família em Itália? e eu disse que não.
O meu vizinho polaco ficou desolado por eu não ter família em Itália. Apercebi-me disso enquanto abria a porta. Corrigi a tempo: Vou procurar um primo em Roma. Gostava de ter família em Roma.
Ele riu-se. Eu também. Passou-lhe a tristeza. Deseja-me: Bonne nuit! como quem promete sonhos. Respondo no mesmo tom e subo a escada a rir.
Há nestes encontros uma dimensão de amor: o meu vizinho gostava de ser meu avô.
Estava a meio das escadas e decidi aprender polaco.
Para ser sua neta, claro. E falar com o cão.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Gosto e não gosto

Isto é um trabalho de casa. A Sinapse e a Carlota lançaram-me o desafio de escolher 12 palavras de que eu não goste. E eu escolhi. Demorei mas escolhi!
Aproveitei e escolhi também 12 palavras de que gosto. Ninguém me pediu, mas apeteceu-me.
E, já agora, lanço o desafio a mais 3 mentes criativas: ao OrCa, ao Fábio e à Cata. 12 palavras de que não gostem (e, se vos apetecer, 12 palavras de que gostem).


Palavras de que gosto

Gosto de saudade. De sentir saudade, de matar saudade, de dizer saudade, de ouvir a sodade de Cesária. Gosto de sal. Do sal do corpo, do sal do mar, das salinas de Aveiro. Gosto de malmequer, da palavra e da flor, do jogo da infância: mal-me-quer, bem-me-quer. Adoro pão e manteiga, pão com manteiga, dizer pão com manteiga e comê-lo sem mais nada, especialmente ao pequeno-almoço com uma taça de café. Gosto de beijinhos. De dar beijinhos e receber beijinhos, de beija-flores. Gosto da palavra e da cor azul. Gosto da palavra e da cor amarelo. A primeira lembra-me o mar, a segunda o sol. Gosto naturalmente de sol: da estrela e da clave de sol. Gosto de espectáculo. De dar espectáculo, de ver espectáculos, de dizer: «És um espectáculo!», de gritar «espectáculo» sempre que marco um ponto no volley. Gosto de chamar alguém de macambúzio, por ser um nome ridículo, por me fazer rir e ter algo de macaco e de búzio no meio. Gosto do lusco-fusco por a palavra ser estranha e condizer com os finais do dia, que eu adoro. A este propósito, gosto do lusco-fusco dos gato fedorento (5, 7 minutos). Gosto de interjeições a acabar em céu aberto como Opá!, Epá!, Anda lá!, Oxalá!, Vá lá!.
São 13, mas não faz mal: talvez as interjeições não sejam palavras ou o macambúzio nem exista.


Palavras de que não gosto

Não gosto de parir (salvo seja, nunca experimentei!), parece-me uma palavra feia, mas talvez não seja. Por me causar dúvidas, não gosto. Não gosto de diapasão. Da palavra nem do instrumento. O professor de música dizia: «Segue o diapasão!» e a frase causava-me náuseas. (Proponho que se diga: «Segue o diapasão!» como quem manda pentear macacos!) Acho infeliz chamar rabanete a uma raiz redonda que nada tem que ver com rabos! E por falar em rabos, detesto todos os nomes que designam os ditos, incluindo rabo, cu, rabiosque e peida. Será que não podíamos arranjar algo equivalente a bunda? Desculpem a rabocada, mas realmente não gosto. Detesto a palavra piscina, parece-me condenada a ser sempre mal dita (maldita): ou fica demasiado feia (pexina) ou demasiado afectada (pis-sina). Porque não mergulhamos antes no tanque? Ou no poço... Não gosto de gosma (lembra-me osgas e centupeias), mas não tenho nada contra pegajoso nem peganhento: parecem-me palavras justas para a qualidade que designam. Acho injusto terem chamado os gnomos azúis de estrunfos. Bem sei que a ideia não foi nossa (o original francês ainda é pior: Les Schtroumpfs, mas até não desgosto da tradução inglesa: The Smurfs). Mas estrunfo é muito mau e eu realmente nunca morri de amores pelos ditos: achava-os uns bonecos estúpidos. Estrunfo soa a gente estúpida. Sendo assim, proponho que se use estrunfo como atributo de ofensa (quer em português quer em francês). Algo do tipo: Espèce de Schtroumpf! Concordo com a Sinapse no que toca o penduricalho, com a Pitucha em relação ao verbo implementar e com a Mulher Aranha quanto ao atributo rançoso. Detesto o adjectivo pudico, principalmente a discussão sobre a correcta pronunciação (púdico ou pudíco?). De uma maneira ou de outra, soa-me sempre a asneirada. Faz-me querer insultar da seguinte maneira: «Granda pudica aquela!». Por fim, e infelizmente, não gosto da palavra alfarrabista e adoro o ofício; tenho aliás imenso respeito pelos profissionais do livro-em-pó. Mas a palavra em si lembra-me sempre alfarrobas e alforrecas, que nada têm que ver com livros.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Ovo, larva e fase adulta

Amadurece atrás do ovo e chama-o «ventre» por uma questão de fé: quer nascer mamífero e sugar o alimento. Nasce e é quase nada: um volume sem metafísica, uma alma sem peso. Querem matá-la e é ela a predadora: olha-os nos olhos e eles hesitam. É pequena e brutal. Tem um projecto de asas nas costas e adivinhamos o sangue de todos os homens no corpo translúcido da virgem. Vem pela noite e o seu voo é sôfrego, sofrido, total. As pernas leves e longas como as bailarinas dos sonhos e o corpo negro, tão negro que a noite nasce mais clara do que antes. Vem pela escuridão e as suas asas são ágeis, delicadas, dedicadas, iguais às das fadas que pousam nas janelas. Vem graciosa e feminina beijar os pescoços dos homens para colher do seu sangue. A boca prolongada numa espécie de bico e é agora uma espécie de ave. Abre a boca e tem dentes, é afinal um mamífero. Chamam-lhe vampira e ela encolhe-se para desaparecer na noite: as mãos cobertas de sangue, o fruto proibido nos lábios. Quando amanhece, ela morre. É uma morte triste e da sua boca escorre o fruto de todos os homens.
Do laço de sangue nasce outro ovo. Ela chama-o «ventre».
Por uma questão de fé.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Conto infantil para adultos: Cadeia alimentar

Naquele jardim vivem animais em harmonia: aves que voam, aves que nadam, répteis, anfíbios e insectos de toda a espécie. E naquele dia, estava uma abelha pousada numa flor quando um gafanhoto saltitão a apanhou em pleno voo. Engoliu-a, claro. Dá-se então a coincidência de vir saltitando atrás do gafanhoto um enorme sapo que lançou a língua esfomeada e apanhou o outro em pleno salto. Atrás do sapo - claro está - vinha a saltar contente um homem chinês que, lançando a confusão, o apanhou com uma só mão. Assustado, soltou o sapo um arroto e da boca saltou o gafanhoto que, abrindo a sua, deixou escapar a abelha que, por sua vez, espetou o ferrão no nariz do chinês. Fugiram todos aos saltos e em alvoroço - chinês, sapo e gafanhoto – os três muito tristes por já não terem almoço. No fim caiu a abelha aos pés da flor e os três saltitões desapareceram.
A flor abriu então as pétalas e riu-se daquele espectáculo. Estava ela nisto e aproximou-se um cágado, encantado com aquele riso. Disse:
- És muito bela!
E antes que a flor respondesse, o cagádo desceu até ela e comeu-a. Devagar. Pétala a pétala.
Curioso!, pensou o cágado, A mim ninguém me come!.
E era verdade. Havia gente que comia tartarugas, especialmente os ovos e as espécies mais carnudas, mas cágados não.
Sentiu-se, de certa forma, pouco saboroso, pouco saboreado, completamente rejeitado pela Natureza. Decidiu acabar com aquilo.
Partiu à procura de outros cágados.
Era o início de outra espécie de canibalismo.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O moleiro

Falava sozinho. Dizia:
- Só o ar importa!
e nisto o Senhor Müller inspirava toda a inspiração do mundo e dizia sentir o ar por dentro, a ventania do corpo. Havia dias de furacão, explicava, e nessas alturas o corpo inchava como um balão, ia com o vento, completamente dominado. Dizia tudo isto e rodava a anca larga.

No fundo do moinho havia um saco e ninguém sabia o que tinha dentro. O Senhor Müller recusava-se a abri-lo e guardava o moinho como um guarda prisional. Dizia que era secreto, mais valioso que os tesouros, que um moleiro tinha mais do que qualquer pirata no mar alto, por interpretar melhor o vento.

O moleiro inspirava até o fim de si mesmo e ficava suspenso, cheio, gasoso, branco como as nuvens. Dizia:
- Só o ar é puro e livre, só o ar viaja pelos corpos, dentro do próprio sangue.
O Senhor Müller era naturalmente louco, mas a sua loucura parecia saudável, fazia-lhe bem ao corpo, não fosse o segredo perturbante do saco.

Claro que na aldeia se falava constantemente daquele mistério e o padre servia-se dele aos domingos, para incentivar o terror a Deus. As crianças diziam que nele (no saco e não em Deus) dormia um monstro e as senhoras benziam-se quando alguém falava no nome da Senhora Müller e sugeria que a pobre mulher estava muito bem embrulhada no saco.
A padeira remexia desconfiada a farinha que vinha do moinho e provava-a antes de fazer a massa. Mas no final, todos comiam do pão, até mesmo o padre e as beatas nas suas metaformoses religiosas de pão que se transforma em corpo.

- O corpo transforma-se em ar!
(Era assim que o Senhor Müller explicava a morte.)

O moleiro morreu no próprio moinho, numa tarde sem vento. Antes de se ocuparem do corpo, os aldeões dirigiram-se ao saco. Era tão pesado que até o próprio padre teve de ajudar os homens a arrastarem-no para a rua. As crianças esconderam-se no moinho e as mulheres, cheias de terror nos olhos e no corpo, agarravam-se umas às outras. E fizeram bem.

Porque quando a boca do saco se abriu, saltaram para o mundo todas as inspirações possíveis, todo o ar imaginado, desde um furacão até às nuvens mais brancas, de formas variadas. Era um espectáculo bonito de se ver aquele, o ar a explodir de liberdade, cheio de cores, texturas e cheiros.

Os aldeões pensaram ter visto um milagre, mas o padre acusou o moleiro de heresia e o assunto foi literalmente enterrado.

O Senhor Müller ainda disse:
- Guardei tudo isto para que nunca nos faltasse o ar!
E algumas pessoas ouviram-no, já que a sua voz andava à solta, a viajar pelos corpos.