terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Conto infantil para adultos: Cadeia alimentar

Naquele jardim vivem animais em harmonia: aves que voam, aves que nadam, répteis, anfíbios e insectos de toda a espécie. E naquele dia, estava uma abelha pousada numa flor quando um gafanhoto saltitão a apanhou em pleno voo. Engoliu-a, claro. Dá-se então a coincidência de vir saltitando atrás do gafanhoto um enorme sapo que lançou a língua esfomeada e apanhou o outro em pleno salto. Atrás do sapo - claro está - vinha a saltar contente um homem chinês que, lançando a confusão, o apanhou com uma só mão. Assustado, soltou o sapo um arroto e da boca saltou o gafanhoto que, abrindo a sua, deixou escapar a abelha que, por sua vez, espetou o ferrão no nariz do chinês. Fugiram todos aos saltos e em alvoroço - chinês, sapo e gafanhoto – os três muito tristes por já não terem almoço. No fim caiu a abelha aos pés da flor e os três saltitões desapareceram.
A flor abriu então as pétalas e riu-se daquele espectáculo. Estava ela nisto e aproximou-se um cágado, encantado com aquele riso. Disse:
- És muito bela!
E antes que a flor respondesse, o cagádo desceu até ela e comeu-a. Devagar. Pétala a pétala.
Curioso!, pensou o cágado, A mim ninguém me come!.
E era verdade. Havia gente que comia tartarugas, especialmente os ovos e as espécies mais carnudas, mas cágados não.
Sentiu-se, de certa forma, pouco saboroso, pouco saboreado, completamente rejeitado pela Natureza. Decidiu acabar com aquilo.
Partiu à procura de outros cágados.
Era o início de outra espécie de canibalismo.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O moleiro

Falava sozinho. Dizia:
- Só o ar importa!
e nisto o Senhor Müller inspirava toda a inspiração do mundo e dizia sentir o ar por dentro, a ventania do corpo. Havia dias de furacão, explicava, e nessas alturas o corpo inchava como um balão, ia com o vento, completamente dominado. Dizia tudo isto e rodava a anca larga.

No fundo do moinho havia um saco e ninguém sabia o que tinha dentro. O Senhor Müller recusava-se a abri-lo e guardava o moinho como um guarda prisional. Dizia que era secreto, mais valioso que os tesouros, que um moleiro tinha mais do que qualquer pirata no mar alto, por interpretar melhor o vento.

O moleiro inspirava até o fim de si mesmo e ficava suspenso, cheio, gasoso, branco como as nuvens. Dizia:
- Só o ar é puro e livre, só o ar viaja pelos corpos, dentro do próprio sangue.
O Senhor Müller era naturalmente louco, mas a sua loucura parecia saudável, fazia-lhe bem ao corpo, não fosse o segredo perturbante do saco.

Claro que na aldeia se falava constantemente daquele mistério e o padre servia-se dele aos domingos, para incentivar o terror a Deus. As crianças diziam que nele (no saco e não em Deus) dormia um monstro e as senhoras benziam-se quando alguém falava no nome da Senhora Müller e sugeria que a pobre mulher estava muito bem embrulhada no saco.
A padeira remexia desconfiada a farinha que vinha do moinho e provava-a antes de fazer a massa. Mas no final, todos comiam do pão, até mesmo o padre e as beatas nas suas metaformoses religiosas de pão que se transforma em corpo.

- O corpo transforma-se em ar!
(Era assim que o Senhor Müller explicava a morte.)

O moleiro morreu no próprio moinho, numa tarde sem vento. Antes de se ocuparem do corpo, os aldeões dirigiram-se ao saco. Era tão pesado que até o próprio padre teve de ajudar os homens a arrastarem-no para a rua. As crianças esconderam-se no moinho e as mulheres, cheias de terror nos olhos e no corpo, agarravam-se umas às outras. E fizeram bem.

Porque quando a boca do saco se abriu, saltaram para o mundo todas as inspirações possíveis, todo o ar imaginado, desde um furacão até às nuvens mais brancas, de formas variadas. Era um espectáculo bonito de se ver aquele, o ar a explodir de liberdade, cheio de cores, texturas e cheiros.

Os aldeões pensaram ter visto um milagre, mas o padre acusou o moleiro de heresia e o assunto foi literalmente enterrado.

O Senhor Müller ainda disse:
- Guardei tudo isto para que nunca nos faltasse o ar!
E algumas pessoas ouviram-no, já que a sua voz andava à solta, a viajar pelos corpos.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Sede

Abriu uma porta do armário, tirou um copo, abriu a torneira. Ergueu o copo cheio como outros erguem o cálice do vinho.
Bebeu. E suspirou.
Limpou a boca com as costas de uma mão e reparou que estavam secas:
a boca e a mão.
Tinha sede. Imensa sede. Bebeu mais um copo de água. Dois copos de água, três, quatro.
- Este copo é pequeno! - concluiu, e atirou-o para o chão.
O copo partiu-se.
Abriu uma porta do armário e tirou uma taça. Achou-a pequena. Tirou uma taça maior, depois outra. Eram todas pequenas. Atirou-as para o chão.
Partiram-se.
Abriu outra porta e tirou um tacho, depois outro. No final, tirou uma panela de pressão. Pousou a panela no lavatório e encheu-a de água. Enquanto esperava, outra espécie de água brotava da boca. Quis beber mas os braços não conseguiam levantar a panela. Debruçou-se sobre o lavatório e sorveu a água com a língua.
Desistiu.
Tirou a panela do lavatório e enfiou nele a cabeça. Abriu a torneira, molhou o rosto e os cabelos. Depois bebeu toda a água que o corpo permitia. Finalmente, fechou a torneira e caiu no chão com o peso do líquido.
Os vidros enfiaram-se no corpo e havia sangue no chão da cozinha. Suspirou e nessa altura reparou que os lábios continuavam secos. Quis levantar-se para beber e não conseguia.
Era uma sede inexplicável, impossível, insaciável.
Arrastou-se até ao lavatório e ergueu-se com a ajuda das mãos. Estendeu a língua por baixo da torneira e saboreou uma gota que caía. Não tinha força para rodar o manípulo, mas tinha sede. Imensa sede.
Uma luta aterradora contra o próprio corpo.
Declarou:
- A sede da minha alma é indomável.
E abriu a torneira.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

História do rapaz que deixou de ver

Uma manhã igual a outras, um pouco mais tímida, mais jovem, mais ingénua. O rapaz dos óculos saiu do metro e começou a subir a Rue de la Loi. De repente, estava ele a seguir com o olhar os carros que vinham do sentido oposto e deixou de ver. O rapaz parou. Esperou. Continuou a andar pela rua, de pés inseguros, seguindo o compasso apressado das pessoas. O rapaz tirou os óculos. Tentou ver e não via. Limpou os óculos com a ponta da camisola. Voltou a equilibrá-los na ponta do nariz. Continuava sem ver. O rapaz estendeu então os braços, tocava nas pessoas fugidias, rodopiava em plena rua. Gritou: Estou cego!
Mas não estava, claro.
O oftalmologista quase diagnoticou um daltonismo estranho, qualquer coisa a ver com o cinzento. Mas depois lá percebeu que se tratava de uma coisa de pele. Mandou-o ao dermatologista. Este também não percebeu a causa daquela cegueira momentânea. Mandou-o para o psicólogo.
Consta que o rapaz dos óculos tinha uma alergia ao nevoeiro.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Incompatibilidades (I)

O homem sobe a rua. De um lado, vivendas atrás de grades. Do outro também. Atravessa a rua mais ou menos a meio. Do lado de lá de um gradeamento, um cão ladra. O homem assusta-se, pula para trás. O cão pula também, mas para a frente, contra o gradeamento. Ladra. Homem e cão não se vêem. O primeiro adivinha espuma no focinho do outro e este fareja-lhe o medo. Ladra outra vez.
O homem insulta: Cabrão!. Depois recompõe-se, ajeita o casaco, faz-se ao caminho. Insulta ainda: Cabrãozão!. O outro fica encurralado na esquina. Ladra.
O homem não gosta de cães. Nem percebe pessoas que gostem de cães. O cão, por seu turno, não percebe cães que gostem de pessoas.
Passam a vida a ladrar!, diz o homem sobre os cães.
O cão diz o mesmo sobre os homens.
Ambos tinham razão.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

A leitora

Em certos dias lia um livro inteiro. Não havia um único barulho de fundo naquela sala além do ressonar longínquo do frigorífico e a respiração quase inaudível do televisor em stand by.
Sentava-se no sofá com o café da manhã e inaugurava a leitura. Levantava-se a meio da tarde para comer qualquer coisa. Normalmente pão barrado com uma espécie de queijo. Depois comia uma maçã (descascava-a vagarosamente para um prato de sobremesa, tirava-lhe a pele e os caroços, mordia cada pedaço como se fosse o último).
Continuava a ler. Tinha sobre a mesa de apoio um caderno preto. E uma caneta sobre o caderno preto. Nele apontava certos nomes de personagens, certas frases promissoras. Nunca lia o que apontava no caderno preto. Apontava apenas.
Certo dia, leu um livro sobre uma mulher que, em certos dias, lia um livro inteiro. Era um livro sobre si própria, adivinhou. A história parecia-lhe desinteressante, a personagem também. Pensou: A minha vida é mais interessante na vida real do que no livro. Devia ser ao contrário.
Na narrativa faltava-lhe certas características excepcionais, por exemplo. Pela primeira vez na vida, aborreceu-se e deixou um livro a meio (a um terço, para sermos mais precisos). Concluiu: Não sou suficientemente interessante para um livro.
Preparou-se para sair de casa. Queria comprar outro livro qualquer, mas lembrou-se a tempo que não tinha a carteira consigo. Deixara-a caída no carro, que tinha entretanto emprestado à senhora do terceiro andar.
(Não se importava de emprestar o carro, mas não gostava de emprestar livros.)
Pensou: A realidade tem ficções verdadeiramente estúpidas. Acrescentou: Os livros são tão mais interessantes do que a vida.
Tinha pressa em ler qualquer coisa, por isso pôs-se a ler o caderno preto. A páginas tantas leu: «O pior pecado é não amar» e lembrou-se imediatamente daquele livro de bolso. Disse: José Eduardo Agualusa, como quem diz o nome de Deus e confessou:
Pequei.
Fechou o caderno. Repetiu:
Pequei.
Sentiu o sabor da palavra na boca, saboreou-a como saboreava as maçãs.
Achou-se um pouco mais interessante do que antes. Pegou no livro sobre si própria e leu a contracapa: A história de uma mulher que aprende a amar.
Recomeçou a leitura. Já agora, queria saber o fim.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

A planta

O Senhor Adelino casou aos 30. Tinha uma casa, dois filhos, dois automóveis, um cão, um gato, um periquito. Divorciou-se aos 50. A ex-mulher ficou com os filhos, o gato e o periquito. Venderam-se a casa e os automóveis. O Senhor Adelino ficou com o cão. Depois de tudo isto reformou-se. Era novo. O cão morreu no ano seguinte. Abatido.
O Senhor Adelino resolveu então comprar uma planta. Parecia-lhe uma forma de vida fantástica: o silêncio profundo, o segredo alquímico da fotossíntese, a natureza completa no toque fibroso das folhas, a simplicidade da vida. Anunciou para as paredes: Vou comprar uma planta.
A florista da rua tinha orquídeas na montra. O Senhor Adelino considerava-as exuberantes. Uma questão de gosto. Não queria flores, queria uma planta. Verde. Só verde.
Entrou na loja. A florista tinha cara de flor: o rosto muito redondo, o cabelo aos caracóis, volumosos como pétalas. O Senhor Adelino disse: Queria uma planta. Verde. Só verde. A florista olhou-o em silêncio, de cabeça um pouco pendurada para a frente, igual às flores.
No fundo da loja havia uma planta verde, de caule longo e folhas largas, cheias de saúde. O Senhor Adelino apontou. Levo aquela.
A florista baptizou-a com um qualquer nome latino, trouxe-a para o balcão. Tratava-se de uma palmeira de interior. Origem mexicana. O Senhor Adelino achou aquele exotismo interessante.
A florista deu conselhos.
Era uma planta cheia de vitalidade. Muita água. Muita luz. O caule crescia tanto que era preciso mudar de vaso daqui a algumas semanas. Também falou da qualidade da terra. Da quantidade de luz e de sombra. Dos cuidados a ter no Inverno. Dos cuidados a ter no Verão.
O Senhor Adelino decidiu não levar a planta verde. Desculpou-se: Sou incompetente. A florista calou-se. Repetiu: Sou incompetente. A florista pendurou um pouco mais a cabeça. Acrescentou: Para cuidar da vida. Da vida dos outros. Para cuidar da vida em geral.
Voltou para casa. Muita água. Muita luz, muita sombra. O Senhor Adelino bebeu um litro de água e plantou-se no sofá. Se criasse raízes, talvez os seus braços crescessem e nascessem outras mãos, outros braços. Assim talvez as coisas se tornassem mais alcançáveis. O tecto, por exemplo. As nuvens. A vida.
O Senhor Adelino resolveu então comprar um escadote.
Na cozinha havia um espaço entre o frigorífico e o armário. Arrumaria aí o escadote. O Senhor Adelino sentia-se menos incompetente. Anunciou para as paredes: Vou comprar um escadote.
Já dava para chegar ao tecto.