quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

A leitora

Em certos dias lia um livro inteiro. Não havia um único barulho de fundo naquela sala além do ressonar longínquo do frigorífico e a respiração quase inaudível do televisor em stand by.
Sentava-se no sofá com o café da manhã e inaugurava a leitura. Levantava-se a meio da tarde para comer qualquer coisa. Normalmente pão barrado com uma espécie de queijo. Depois comia uma maçã (descascava-a vagarosamente para um prato de sobremesa, tirava-lhe a pele e os caroços, mordia cada pedaço como se fosse o último).
Continuava a ler. Tinha sobre a mesa de apoio um caderno preto. E uma caneta sobre o caderno preto. Nele apontava certos nomes de personagens, certas frases promissoras. Nunca lia o que apontava no caderno preto. Apontava apenas.
Certo dia, leu um livro sobre uma mulher que, em certos dias, lia um livro inteiro. Era um livro sobre si própria, adivinhou. A história parecia-lhe desinteressante, a personagem também. Pensou: A minha vida é mais interessante na vida real do que no livro. Devia ser ao contrário.
Na narrativa faltava-lhe certas características excepcionais, por exemplo. Pela primeira vez na vida, aborreceu-se e deixou um livro a meio (a um terço, para sermos mais precisos). Concluiu: Não sou suficientemente interessante para um livro.
Preparou-se para sair de casa. Queria comprar outro livro qualquer, mas lembrou-se a tempo que não tinha a carteira consigo. Deixara-a caída no carro, que tinha entretanto emprestado à senhora do terceiro andar.
(Não se importava de emprestar o carro, mas não gostava de emprestar livros.)
Pensou: A realidade tem ficções verdadeiramente estúpidas. Acrescentou: Os livros são tão mais interessantes do que a vida.
Tinha pressa em ler qualquer coisa, por isso pôs-se a ler o caderno preto. A páginas tantas leu: «O pior pecado é não amar» e lembrou-se imediatamente daquele livro de bolso. Disse: José Eduardo Agualusa, como quem diz o nome de Deus e confessou:
Pequei.
Fechou o caderno. Repetiu:
Pequei.
Sentiu o sabor da palavra na boca, saboreou-a como saboreava as maçãs.
Achou-se um pouco mais interessante do que antes. Pegou no livro sobre si própria e leu a contracapa: A história de uma mulher que aprende a amar.
Recomeçou a leitura. Já agora, queria saber o fim.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

A planta

O Senhor Adelino casou aos 30. Tinha uma casa, dois filhos, dois automóveis, um cão, um gato, um periquito. Divorciou-se aos 50. A ex-mulher ficou com os filhos, o gato e o periquito. Venderam-se a casa e os automóveis. O Senhor Adelino ficou com o cão. Depois de tudo isto reformou-se. Era novo. O cão morreu no ano seguinte. Abatido.
O Senhor Adelino resolveu então comprar uma planta. Parecia-lhe uma forma de vida fantástica: o silêncio profundo, o segredo alquímico da fotossíntese, a natureza completa no toque fibroso das folhas, a simplicidade da vida. Anunciou para as paredes: Vou comprar uma planta.
A florista da rua tinha orquídeas na montra. O Senhor Adelino considerava-as exuberantes. Uma questão de gosto. Não queria flores, queria uma planta. Verde. Só verde.
Entrou na loja. A florista tinha cara de flor: o rosto muito redondo, o cabelo aos caracóis, volumosos como pétalas. O Senhor Adelino disse: Queria uma planta. Verde. Só verde. A florista olhou-o em silêncio, de cabeça um pouco pendurada para a frente, igual às flores.
No fundo da loja havia uma planta verde, de caule longo e folhas largas, cheias de saúde. O Senhor Adelino apontou. Levo aquela.
A florista baptizou-a com um qualquer nome latino, trouxe-a para o balcão. Tratava-se de uma palmeira de interior. Origem mexicana. O Senhor Adelino achou aquele exotismo interessante.
A florista deu conselhos.
Era uma planta cheia de vitalidade. Muita água. Muita luz. O caule crescia tanto que era preciso mudar de vaso daqui a algumas semanas. Também falou da qualidade da terra. Da quantidade de luz e de sombra. Dos cuidados a ter no Inverno. Dos cuidados a ter no Verão.
O Senhor Adelino decidiu não levar a planta verde. Desculpou-se: Sou incompetente. A florista calou-se. Repetiu: Sou incompetente. A florista pendurou um pouco mais a cabeça. Acrescentou: Para cuidar da vida. Da vida dos outros. Para cuidar da vida em geral.
Voltou para casa. Muita água. Muita luz, muita sombra. O Senhor Adelino bebeu um litro de água e plantou-se no sofá. Se criasse raízes, talvez os seus braços crescessem e nascessem outras mãos, outros braços. Assim talvez as coisas se tornassem mais alcançáveis. O tecto, por exemplo. As nuvens. A vida.
O Senhor Adelino resolveu então comprar um escadote.
Na cozinha havia um espaço entre o frigorífico e o armário. Arrumaria aí o escadote. O Senhor Adelino sentia-se menos incompetente. Anunciou para as paredes: Vou comprar um escadote.
Já dava para chegar ao tecto.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Um dia

redondo profundo transparente
como as bolas de sabão da minha infância
um dia
cheio de horizonte
e mãos brancas
frias macias vazias
maternais
com a espuma das ondas
no final dos dedos

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

O ponteiro dos segundos

A mulher ouviu o ponteiro pela primeira vez.
Parou de trabalhar.
(Estava sozinha naquele gabinete e nunca antes se tinha apercebido do tempo a passar.)
Observou o relógio de parede e acompanhou os segundos com os olhos. Depois voltou aos ouvidos e logo a seguir desceu até ao peito: ouviu os segundos com o coração.
Eram três ponteiros, mas só um se mexia.
Esperou muitos segundos para apreciar o movimento dos minutos.
Chegada a sua vez, o ponteiro dos minutos moveu-se quase imperceptivelmente: inclinou a cabeça devagar e subitamente já apontava para o minuto seguinte.
O mesmo se passava com o ponteiro das horas. Era tão discreto no seu movimento que as horas não passavam.
A mulher apercebeu-se que, naquele escritório, apenas dois seres se mexiam:
1) ela própria,
2) o ponteiro dos segundos.
Contemplou a estagnação do gabinete, de maneira que agora só o ponteiro se mexia.
(Ouvia os segundos com o coração.)
Passado algum tempo, a mulher deu por si a movimentar os dois olhos.
De um lado para o outro. Ao som do ponteiro.
A mulher passou 100 segundos nisto.
Depois parou. Doíam-lhe os músculos oculares.
A mulher pensou: O movimento dos ponteiros do relógio faz sentido porque tem um sentido.
O movimento dos olhos não.
A mulher concluiu: Não faço sentido porque não tenho um sentido.
Consultou o relógio.
Disse: Não tenho tempo para isto.
E continuou a trabalhar.
No sentido dos ponteiros do relógio.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Conto infantil para adultos: Conversa de sereias

Ver 1.° episódio da série "Conto infantil para adultos":

Uma sereia disse à sereia-mãe:
- Estou apaixonada por um peixe.
- Por um peixe?! Que horror, filha!
- Que horror, porquê?!
- Os peixes não são da nossa espécie.
- E os seres humanos são?
- Não, mas são quase.
- Quase?! Somos metade humanas, metade peixes.
- Sim, mas um ser humano tem posses, pode dar-te uma vida melhor!
- Oh, uma vida melhor... Eles nem podem passear no fundo do mar!
- Podem, sim! Com uma botija de oxigénio.
- Para isso prefiro um peixe!
- Mas, filha! Os peixes são tão enfadonhos!
- Eu acho-os bem divertidos!
- Andam sempre às voltas e nem sequer falam!
- Mas pelo menos não querem sexo!
Fez-se um silêncio. A sereia-mãe nunca tinha pensado nessa enorme incompatibilidade entre homens e sereias. Estava casada desde sempre com Neptuno e sempre incentivara a relação entre marinheiros e sereias. Foi obrigada a concordar com a filha:
- Pronto, está bem! Tens razão! E de que espécie é o teu pretendente?
- É um linguado e chama-se Benjamim.
- Um linguado?! Tão pequenino?
- Sim, neste caso não precisa de ser grande!
- Ó filha, mas os linguados são bons é para comer!
- Pois, exacto! É disso que se trata!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Feitiço

Lisboa fala e as palavras saem amarelas, de asas abertas, chiando pelas ruas como os eléctricos. A boca arqueia-se um pouco mais e a saliva é agora um rio cheio de história, onde tantos outros navegaram antes de mim. Chamo-lhe:
Puta!
e Lisboa ri-se inteira. Inclina-se para trás e a Rua Augusta amplia-se como um pescoço, a maçã de Adão em pleno Rossio.
Beijo-a e subo a Calçada do Lavra, lavrando-lhe o corpo.
Lisboa respira e os pássaros migram. O bater das asas é igual ao estrondo das ondas no oceano e eu mergulho.
Vejo Lisboa de perfil, do Jardim do Torel, onde alguns se conformam com a velhice das coisas.
Ela abraça-me maternal e caem folhas de plátano dos seus cabelos. Têm a forma de mãos e devolvem-me carícias.
Salto.
Braços contra braços.
E perco-me em Alfama. Digo:
Perdoa-me por não conhecer o teu corpo.
Lisboa ri-se, cheia de condescendência.
Desemboco no Martim Moniz e tenho medo das corujas que espreitam das casas.
Lisboa sussurra e eu arrepio-me. Imagino-a nocturna, vampira, silenciosa, Nosferatus. Prometo:
Subirei ao teu castelo esta noite.
Tenho frio nas mãos, por isso compro castanhas. Já não sei quem abraça quem.
Tropeço na calçada e caio no Príncipe Real, redondo como o ventre original.
Voo sobre o Campo Grande e arranco telhas de algumas casas. Rogo pragas aos que lá ficam.
Lisboa canta e o seu fado vem macio e branco como as nuvens.
O meu sono é profundo.
Lisboa sorri, cheia de mistério e segredo.
Engole-me com a lentidão das serpentes.
Chamo-lhe:
Feiticeira.
E fico.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Conto infantil para adultos: O duende revoltado

Começa hoje a série "Conto infantil para adultos"
com publicação às terças-feiras,
à excepção de hoje!

Dois duendes andam pela dispensa a roubar chocolates, que são para dar às crianças. Um é mais velho do que o outro, logo tem uma barriga maior e um colete mais gasto, bem como um ar mais sereno e uma certa inteligência na voz. De resto, parecem irmãos: vestimenta verde, olhos muito redondos, bochechas inchadas, sapatos compridos e, claro está, o chapéu em forma de funil muito preso à cabeça. São extremamente pequenos, daí que ninguém os ouça nem os veja. O mais novo não parece satisfeito. Confessa:

- Estou farto de ser duende!
- Farto de ser duende?!
- Sim, estou farto.
- Mas como podes estar farto de ser quem és?
- Porque quero ser outra coisa.
- Outra coisa?! Não há nada mais divertido do que ser duende!
- Dizes tu, que nunca fizeste mais nada na vida.
- E que queres tu fazer da tua?
- Não sei! Mas estou farto de ser duende.
- Tu já nasceste assim! Não podes ser outra coisa qualquer!
- Posso sim! Garanto-te que vou deixar de ser duende.
- Para passares a ser o quê?
- Não sei! Mas não quero ser como os outros. Os duendes são irritantes.
- Irritantes?!
- Sim, irritantes! Estão-se sempre a rir e só fazem coisas boas.
- E isso é mau?
- Não, daí que sejam ainda mais irritantes. Estou farto de ser bonzinho! A partir de hoje vou fazer tudo ao contrário.
- Ou seja, nunca mais te vais rir e só vais fazer coisas más?
- Por exemplo! Porque não? Seria algo inovador!
- Mas as crianças deixariam de gostar de ti!
- Não, eu é que deixo de gostar delas!
- Porquê?
- Porque são estúpidas! Estão sempre a crescer e depois deixam de nos prestar atenção!
- Mas isso é a ordem natural das coisas!
- Uma ova! Natural é haver o Bem e o Mal! E eu vou ser mau, que é para se lembrarem de mim para sempre!

E foi assim que o duende revoltado se tornou bicho papão. Entrava às escuras no quarto das crianças para elas não verem a sua pequena estatura e dizia coisas horríveis numa voz muito grossa. Mas, certa vez, uma criança assustada perguntou:

- Quem te fez mal?
O papão assustou-se. Respondeu:
- Ninguém!
A criança calou-se pensativa. Disse por fim:
- Então não és um papão! - e acendeu a luz.

Ao mesmo tempo fez-se luz na cabeça do duende e ele voltou à dispensa para roubar chocolates. Perguntaram-lhe:

- Então agora já és bom?
- Pois! Parece que já nasci assim!

Era a vitória do Bem sobre o Mal.
Por essa altura, uma criança entrou na dispensa e atirou com um pacote de arroz para a prateleira. Infelizmente acertou em cheio no duende revoltado matando-o instantaneamente.

Era a vitória do Caos.