sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

A pergunta

Sentaram-se numa esplanada, embora apenas um esboço de sol espreitasse atrás das nuvens. Pediram chás (um quente, outro gelado) e falaram de qualquer coisa sem interesse, pelo menos à luz da expressão dos olhos.
Ele bebia o chá gelado e fez subitamente uma pergunta. Era uma pergunta de natureza quase militar, seguia uma estratégia ofensiva própria de soldados em marcha. Arrependeu-se mal a frase saltara da boca.
Deu-se felizmente um milagre e o vento soprou nesse instante levando as palavras ao colo. Ela bebia o chá quente e achou o vento injusto. Retorquiu: “Como?”, mas ele não repetiu a pergunta.
Ela sabia bem que era uma pergunta, não obstante o voo imprevisto das palavras (a música da voz revela sempre a forma). Pedinchou: “Não ouvi, desculpa!”.
“Deixa, não foi nada!”.
Do outro lado da mesa, ela bebeu do seu chá como quem tem sede e queimou a língua. Magoou-se um pouco mais porque a mordeu estupidamente, tentando controlar a dor. Mais um trago de chá e ela ferveria, daí que tenha decidido insistir: “Fizeste uma pergunta!” e ele desdisse. Ordenou: “Repete!” e naquele momento repetiu-se apenas um olhar sem sol por causa das nuvens que traziam nos olhos.
Ele quebrava agora o gelo do Ice Tea, enfiava pequenos cubos na boca e partia-os com os dentes, era um barulho ensurdecedor para aquele silêncio. Declarou entre dentes: “Já não quero fazer essa pergunta!” e ela quis saber: “Porquê?”.
Não havia chá nos copos, por isso pediram uma água das pedras e uma cola light. Era um bom pretexto para uma pausa. Ela foi à casa de banho, ele pôs-se a fumar. No regresso ela exigiu: “Repete a pergunta!” e ele abanou a cabeça. Insistiu. Desesperou.
“Então faz uma pergunta qualquer!”.
Era um pedido deveras estranho e ele não se lembrou de nenhuma pergunta inteligente nem oportuna. Desistiu de pensar.
“Queres partir gelo?”.
Se quisessem mover-se talvez se partissem aos bocados: estavam ambos congelados.
Mas descongelaram logo a seguir.
Ficaram vários minutos a partir cubos de gelo: a boca quase roxa por causa do frio e os dentes poderosos como quebra-nozes. Ela disse: “Tenho sensibilidade dentária!” e riram-se.
Era um dia bom. Graças à pergunta.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Western revisited: O justiceiro

Terça-feira, dia oficial das séries, desta vez à quarta-feira.
Ver 4.º episódio desta série aqui.

Chamemos-lhe Clint Eastwood por não haver outro rosto possível para aquele cowboy. Salta do cavalo e avança decidido, as botas a baterem no chão marcando o ritmo. Sobe um degrau, dois degraus, três degraus. A casa de madeira traz na frente uma porta que mais parece uma janela por ter duas portadas curtas (dir-se-ia que é uma porta literalmente sem pés nem cabeça). O cowboy bate com a bota direita no tronco das portadas e estas dão-lhe passagem. Trata-se aliás de uma porta que não abre nem fecha, está ali só por estar. Sendo assim, digamos que é uma casa sempre aberta e pela descrição adivinhamos que se trata de um bar à moda do faroeste. Não nos enganámos. O cavalo espera pacientemente na rua (não é um local para quadrúpedes).
Clint Eastwood pede da porta uma aguardente e as botas são como batuques. Pára ao balcão, bebe de um só trago e bate com o copo na mesa para que o sirvam outra vez.
Bebe novamente de um só trago. Atira com o copo e o homem atrás do balcão enche o copo em silêncio. O cowboy pergunta: “É você o Mr. Bush?” e o outro responde que sim, recolhendo a garrafa. Num segundo e meio, o cowboy atira-lhe o copo à cara, saca do bolso um fósforo, acende-o na sola do sapato, dá início à combustão de Mr. Bush e enquanto o rosto deste arde, o cowboy aproveita o mesmo fósforo para acender um cigarro. Encaminha-se então para a saída com o mesmo ritmo nos pés. Os outros homens acodem o dono e Clint Eastwood prepara-se para sair de cena. Alguém lhe pergunta: “Por que fizeste isto ao Mr. Bush?” e ele demora-se com o seu cigarro. Responde: “Para que a sua família tenha vergonha na cara!”.
Os outros espantam-se, entreolham-se, não compreendem, perguntam em coro: “Vergonha de quê?”. Clint Eastwood apaga o cigarro no chão, encolhe os ombros e responde já de costas: “Não sei! Mas nunca se sabe o que o futuro nos reserva!”.
Os outros concordam com as palavras do cowboy.
Os homens daquele tempo eram naturalmente mais intuitivos.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Aprender a contar

Por ocasião da 100.ª história neste blogue.

- Mãe, não consigo dormir!
- Tens de contar carneirinhos, filho!
- Só sei contar até 10!
- Então conta até 10!
- Já contei até 10 e não adormeci!
- Conta outra vez! Se contares 10 vezes até 10, já sabes contar até 100.
- Até 100? Porquê?
- Porque 10 vezes 10 é igual a 100.
- Mas eu ainda não aprendi a fazer contas de multiplicar.
- Não faz mal! Se contares 10 vezes até 10, estás a contar até 100.
- Quer dizer que já sei contar até 100?
- Sim!
- Então já não preciso de ir à escola.
- Precisas, sim! Para aprenderes a contar até 1000.
- Até 1000?! Então quando é que os números acabam?
- Nunca!

O miúdo foi para a cama. Não conseguia dormir.
A perspectiva de contar carneirinhos para sempre angustiava-o.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Faz-de-conta

Toco-lhe. E o bicho-de-conta faz-de-conta que é bola.
Dou-lhe um pontapé e ele rebola pé ante pé.
No final da calçada a bola desenrola e o bicho-de-conta dá por si noutro lugar.
É o único animal invertebrado de Lisboa, sente-se só.
Não sabe o que se passou nem onde está.

Há dias assim.

domingo, 30 de dezembro de 2007

2008

Lembrei-me que o próximo ano é par.
Trata-se obviamente de um pensamento estúpido para este final de 2007, admito.
Mas lembrei-me que o facto de o próximo ano ser par pode significar que não será ímpar. Ou seja, que não será inesquecível nem único nem extraordinário. Pode realmente significar que nada acontecerá no próximo ano, que não haverá nada de nada de nada para recordar em 2008 por nem sequer haver fotografias.
(Infelizmente isso poderá significar igualmente um défice de histórias para contar, a morte do contador de histórias, uma catástrofe natural.)
E quanto mais penso nesta perspectiva para 2008, mais feliz me sinto. Seria verdadeiramente inesquecível viver um ano sem histórias, nem idas nem voltas nem nada de nada de nada.
Concluí que me apetece realmente qualquer coisa normal, rotineira, domingueira, um ano esquecível, arrumável, previsível. Com poemas do Caeiro e profecias do Bandarra. Mais nada.
É uma emoção de tal forma banal que me apetece escrever histórias banais. Iguais a esta.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Diálogo existencial

- Estou fechada para férias.
- Como? As pessoas não podem fechar para férias.
- Pois, mas eu não sou uma pessoa!
- Então és o quê?
- Sou uma personagem.
- Uma personagem?
- Sim, uma personagem!
- E eu também sou uma personagem?
- Não, tu és uma pessoa.
- Isso faz de nós incompatíveis?
- Claro!
- Mas isso é uma tragédia.
- Sim, e eu sou a protagonista.
- Da minha tragédia?
- Não, da minha!
- Serás fruto da minha imaginação?
- Sim!
- E eu, que sou?
- Fruto da minha!
- Então somos o fruto um do outro!
- Sim! Daí a tragédia!

Nota aos leitores:
Estou fechada para férias (a pessoa e não a personagem). Até ao meu regresso!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Gelo

se fossemos pedras de gelo

cairíamos
juntos naquele copo alto
para que alguém nos bebesse

seríamos
um pouco mais sólidos do que antes
um pouco mais amantes

traríamos
os rostos sempre próximos
e dançaríamos no chão de vidro

se fossemos pedras de gelo

seríamos
mais iguais do que antes
mais correctos
mais rectos
completos
mais

um pouco mais de frio
e congelaríamos