domingo, 6 de janeiro de 2008

Aprender a contar

Por ocasião da 100.ª história neste blogue.

- Mãe, não consigo dormir!
- Tens de contar carneirinhos, filho!
- Só sei contar até 10!
- Então conta até 10!
- Já contei até 10 e não adormeci!
- Conta outra vez! Se contares 10 vezes até 10, já sabes contar até 100.
- Até 100? Porquê?
- Porque 10 vezes 10 é igual a 100.
- Mas eu ainda não aprendi a fazer contas de multiplicar.
- Não faz mal! Se contares 10 vezes até 10, estás a contar até 100.
- Quer dizer que já sei contar até 100?
- Sim!
- Então já não preciso de ir à escola.
- Precisas, sim! Para aprenderes a contar até 1000.
- Até 1000?! Então quando é que os números acabam?
- Nunca!

O miúdo foi para a cama. Não conseguia dormir.
A perspectiva de contar carneirinhos para sempre angustiava-o.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Faz-de-conta

Toco-lhe. E o bicho-de-conta faz-de-conta que é bola.
Dou-lhe um pontapé e ele rebola pé ante pé.
No final da calçada a bola desenrola e o bicho-de-conta dá por si noutro lugar.
É o único animal invertebrado de Lisboa, sente-se só.
Não sabe o que se passou nem onde está.

Há dias assim.

domingo, 30 de dezembro de 2007

2008

Lembrei-me que o próximo ano é par.
Trata-se obviamente de um pensamento estúpido para este final de 2007, admito.
Mas lembrei-me que o facto de o próximo ano ser par pode significar que não será ímpar. Ou seja, que não será inesquecível nem único nem extraordinário. Pode realmente significar que nada acontecerá no próximo ano, que não haverá nada de nada de nada para recordar em 2008 por nem sequer haver fotografias.
(Infelizmente isso poderá significar igualmente um défice de histórias para contar, a morte do contador de histórias, uma catástrofe natural.)
E quanto mais penso nesta perspectiva para 2008, mais feliz me sinto. Seria verdadeiramente inesquecível viver um ano sem histórias, nem idas nem voltas nem nada de nada de nada.
Concluí que me apetece realmente qualquer coisa normal, rotineira, domingueira, um ano esquecível, arrumável, previsível. Com poemas do Caeiro e profecias do Bandarra. Mais nada.
É uma emoção de tal forma banal que me apetece escrever histórias banais. Iguais a esta.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Diálogo existencial

- Estou fechada para férias.
- Como? As pessoas não podem fechar para férias.
- Pois, mas eu não sou uma pessoa!
- Então és o quê?
- Sou uma personagem.
- Uma personagem?
- Sim, uma personagem!
- E eu também sou uma personagem?
- Não, tu és uma pessoa.
- Isso faz de nós incompatíveis?
- Claro!
- Mas isso é uma tragédia.
- Sim, e eu sou a protagonista.
- Da minha tragédia?
- Não, da minha!
- Serás fruto da minha imaginação?
- Sim!
- E eu, que sou?
- Fruto da minha!
- Então somos o fruto um do outro!
- Sim! Daí a tragédia!

Nota aos leitores:
Estou fechada para férias (a pessoa e não a personagem). Até ao meu regresso!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Gelo

se fossemos pedras de gelo

cairíamos
juntos naquele copo alto
para que alguém nos bebesse

seríamos
um pouco mais sólidos do que antes
um pouco mais amantes

traríamos
os rostos sempre próximos
e dançaríamos no chão de vidro

se fossemos pedras de gelo

seríamos
mais iguais do que antes
mais correctos
mais rectos
completos
mais

um pouco mais de frio
e congelaríamos

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

A pessoa

Ler também "A personagem".

A pessoa que queria ser personagem entrou no gabinete sem bater à porta e sentou-se antes mesmo de o escritor lhe indicar a cadeira. Apercebendo-se da existência do aquário das personagens mínimas, a pessoa bateu no vidro, assustando-as. O escritor tossiu incomodado e esticou o peito ao mesmo tempo para ganhar em altura, abanou as pernas nervosas, quase gritou:
- Diga!
O outro tirou calmamente o cachecol como quem se instala no consultório do doutor.
- Vim aqui para dizer que gostava de ser uma das suas personagens.
O escritor tirou desenvolto um bloco de notas da primeira gaveta à sua esquerda. Era um bloco de capa negra e por dentro tinha apontamentos vários que apontavam várias direcções, escritos a várias cores e presumivelmente em dias diferentes. O autor apressou-se a encontrar uma folha em branco e, de repente, lá estava ela, muito direita, muito virgem.
- Uma biografia, certo? E para quando queria o trabalho?
O escritor escreveu ao centro "Biografia" e à direita: "Para sair em". Ficou de caneta em punho à espera da resposta.
- Não, uma biografia não. Já me chega a minha vida. Queria passar para um livro.
O escritor encolheu os ombros, era uma espécie de tique nervoso perante o capricho dos clientes.
- Uma ficção sobre a sua biografia, é isso?
O outro demorou a decifrar o género de trabalho que o outro lhe propunha e depois pôs-se a abanar a cabeça, as mãos, o corpo, a alma.
- Não, nada disso! Esqueça a minha existência. Eu queria ser uma personagem sua, ponto final. Uma daquelas que tem no aquário, pronto, só isso. Deixar de ser isto e passar a ser aquilo.
- Uma personagem minha?
- Sim, uma personagem sua. Gostava de passar para os seus livros. Mas não aos bocadinhos, percebe? Gostava de passar para o papel completamente, na íntegra, de um lado para o outro, em harmonia. Gostava de ser o que você quiser.
- Desculpe, mas isso não faz sentido nenhum!
- Não faz mal! Há uma altura na vida em que nos estamos a marimbar para o sentido, percebe?
- Não, não percebo! E você também não! Vejamos: eu não posso fazer de si uma personagem!
- Ora essa! Então fez dos outros todos personagens e de mim não pode?
- As minhas personagens são inventadas, não existem.
- E como as inventou você?
- Olhe, inventando! Mas não vou buscar pessoas para fazer delas personagens. Não sou nenhum ilusionista.
- Pois digo-lhe eu, que conheço todo o seu trabalho - todo o seu trabalho, percebe? - que há muita gente por aí que podia ser bem as personagens dos seus livros.
- Só que não são!
- Pois não! Falta-lhes aquele toque artístico que você dá à vida!
- Justamente!
- Daí que eu queira ser uma personagem sua!
O escritor riu-se e no seu riso havia um misto de ironia e deleite. Recostou-se na cadeira almofadada e ficou a contemplar a pessoa que queria ser personagem. Disse:
- Para ser personagem e não pessoa, teria de o matar.
- Evidentemente! Força!
O escritor riu-se novamente. Sentia-se subitamente todo-poderoso, era incrível que alguém quisesse morrer por ele. Disse de si para si: "Sou eu que mando na vida!". O outro interrompeu-lhe inesperadamente o pensamento.
- Não, você não manda em nada! É uma pessoa como outra qualquer!
- Como outra qualquer? Você acabou de dizer que morria por mim!
- Por si, não! Pelas suas personagens!
- É o mesmo! Eu sou as minhas personagens! Aliás, sou mais do que elas, porque sou o criador!
- Que disparate! Você é uma pessoa como outra qualquer.
- Sou o criador!
- Mas falta-lhe na sua vida aquele toque artístico que você dá às personagens.
- E esse toque é meu! E é tão bom que você morria por ele!
- Exacto! Eu posso dar-me ao luxo de ser uma personagem sua. Você é que não!
O escritor ficou confuso, expulsou a pessoa do seu gabinete e decidiu não a matar. Nessa noite bebeu toda a vida num só trago, teve uma crise de fígado e outra existencial, pegou na pistola e matou-se.
Era um dia histórico: ficção e realidade uniam-se em plenitude.
E as personagens saíram à rua para festejar a vitória.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Western revisited: O cowboy errante


Ao longe há um novelo de palha que voa para sempre.

Com o passar do vento.
Com o passar do tempo.

Só aquele cowboy sabe olhar.