terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Western revisited: O que brilhava à noite

Terça-feira, dia oficial das séries.
Mais um episódio da série "Western revisited".
Ver último episódio.

À noite, quando só a fogueira existia na planície, o chefe da tribo contava então a lenda do cowboy negro e todos os índios ouviam: as penas da cabeça pousadas no chão, um calor sereno do farwest, o céu inteiro a entrar pelos pulmões. O chefe descrevia um cowboy de pele negra com curvas acentuadas no rosto e lábios escuros, enormes, tão avolumados que se distinguiam na própria sombra. As crianças tinham medo. Era um homem misterioso, invisível no escuro à excepção do branco puríssimo que trazia nos olhos e nos dentes perfeitamente alinhados. Os índios achavam-no dono da escuridão, temiam-no, adoravam-no, pediam-lhe desejos nocturnos. Chamavam-lhe: "O que brilha à noite", juravam que o cowboy negro tinha estrelas nos olhos. Era o mais sozinho de todos os homens, ou pelo menos assim contava o chefe. Não falava, não ria, não comia, não bebia, não chorava. Os homens contavam a lenda do cowboy negro às crianças e as mulheres ouviam aquela história pela boca dos filhos (eles muito aconchegados no colo das mães e elas um pouco menos mães do que antes, fascinadas com aquele cowboy).
E secretamente, em traços quase imperceptíveis, as mulheres desenhavam nas peças de roupa os lábios do homem que brilhava à noite. Depois, quando o escuro era total, sonhavam que o beijavam tão intensamente que mergulhavam na sua enorme boca. No fundo, só aquele beijo poderia explicar as estrelas. O mundo inteiro estava dentro de uma boca escura e elas, as mulheres, ficavam toda a noite a vigiar o céu (olhos postos nos olhos do cowboy negro). Era um amor correspondido, claro. Isto porque as estrelas dos olhos continuavam a brilhar.
Digamos que a vida tinha uma beleza própria, quando a arte de amar ainda era ciência.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Frase sem sinais de pontuação

Para a Marta.

Chegou a um sítio qualquer como aliás sempre chegava por estar sempre a ir ou a vir de outros sítios que não aquele onde morava e ao sentar-se pensou que gostaria de ficar sentada por um tempo suficiente quase próximo do eterno para que fosse possível descansar as pernas e os braços e os ombros e a cabeça e o tronco e nesse preciso momento levantou-se e pensou que o facto de andar de um lado para o outro sem nunca voltar era contra natura já que tinha um sonho dentro de si no qual era uma árvore afunilada como o pinheiro manso de todos os natais que alguém plantara numa só terra de onde não era possível sair por as raízes serem profundíssimas e então pensou como era bom estar num sítio bom com bom tempo e todo aquele tempo quase próximo do eterno e lembrou-se de repente daquele lugar bom onde alguém lhe dava água para que os seus braços crescessem e as suas folhas não morressem e disse a si própria que as suas raízes tinham ficado nesse sítio onde era sempre possível voltar e por isso chamou àquela mão que lhe dava água amizade e apelidou a sua sede de saudade e decidiu partir não para outro sítio que não aquele onde morava mas sim para o lugar onde nascera o pinheiro manso de todos os seus natais

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Cantiga

Um senhor muito composto atravessa a rua.
(Tem as costas muito direitas.)
Do lado oposto vem uma mulher nua
E encontram-se a meio da passadeira.

Passam à beira um do outro e cada um segue na sua.

A miúda vem formosa e bem segura.

E o senhor espreita,
vê-lhe a traseira
e logo fica cheio de tusa.

O senhor composto fica então muito descomposto
Com a gargalhada nua da miúda que atravessa a rua.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A personagem

A personagem que queria ser pessoa saltou furiosa da folha de papel e foi aterrar em cima da secretária. O escritor assustou-se com a sua aparição repentina mas, como coleccionava protagonistas de romances, ficou contente com aquela visita.
Para caberem nos livros, as personagens eram extremamente pequenas. Na verdade eram uma espécie de polegarezinhos, mais pareciam os duendes de que nos falavam na infância. A colecção de personagens daquele escritor era absolutamente fantástica: cabia toda dentro de um aquário e era preciosíssima.
O autor agarrou gentilmente na caneca do seu chá e preparava-se para apanhar o protagonista do seu novo romance em pleno voo, quando este lhe interrompeu o movimento da mão. Tudo porque a personagem falou e a sua voz era muito grave. O escritor ficou espantado e queixou-se:
– Mas a voz desta personagem não é assim.
– É assim, sim! A minha voz, a partir de hoje, é extremamente grossa.
– Mas que estupidez! É por teres uma voz fina que este romance existe.
– Pois, precisamente! Saí do livro e vim até aqui para dizer que gostaria de sair deste romance!
O escritor não reagiu logo, era a primeira vez que uma personagem se revoltava com o seu papel. Mas a seguir, já recomposto, desatou a rir e a personagem caiu para trás com a força da gargalhada.
– Isso é ridículo! Se abandonasses o romance, deixavas de ser uma personagem!
– Precisamente! É que gostava mais de ser uma pessoa! Isto de ser um protagonista é uma seca, é muito previsível!
O escritor ofendeu-se. Previsível?! Optou por uma estratégia mais pedagógica.
– Garanto-te, protagonista, que a vida de uma personagem é muito mais interessante do que a vida de uma pessoa.
– Mas eu quero ser de carne e osso. Quero ser eu a decidir o que faço e o que vou fazer!
– Ora agora! Tu és uma invenção minha, terás sempre de fazer o que eu quero.
A personagem alarmou-se, abriu muito a boca por a indignação não lhe caber no peito. Reclamou:
- Acaso um filho é invenção dos pais? Eu sou o fruto da tua imaginação e exijo ser tratado como tal. Sou sangue do teu sangue.
O escritor estava estupefacto, não era nada daquilo que tinha previsto para a sua personagem. Tornou-se mais autoritário.
– Tu aqui não és nada, caríssima personagem! No meu livro quem manda sou eu!
– Mas eu já disse que não quero fazer parte desse livro! Quero ser uma pessoa como outra qualquer!
O escritor ergueu o manuscrito colérico, abanou-o no ar, gritou:
– As personagens dos meus livros são pessoas! São iguais a elas! São melhores do que elas!
- Melhores? Como podes ter a presunção de que fazes cópias melhores do que o original?
O escritor não respondeu logo, estava mudo de raiva. A personagem repetia:
– Como? Como? Como?
- Eu não sou copista! – gritou ainda o escritor.
Depois, no exacto segundo em que a personagem acabara de dizer: "Detesto pessoas que se comparam a Deus!", o manuscrito caiu-lhe com toda a força na cabeça e o protagonista morreu esmagado contra a última página.
O escritor repetiu:
– No meu livro quem manda sou eu!
Mas estava enganado. Estava tão enganado que dava pena.
O livro é que mandava nele. O livro e as personagens.
O escritor só fazia o que elas lhe diziam. E o protagonista desta história queria claramente morrer.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Chuva

Como se não bastasse, chovia. Torrencialmente.
E ele descia a rua cabisbaixo, trazia os ombros caídos como folhas em final de vida e por cima da cabeça um chapéu-de-chuva murcho, quase roto. Uma mulher apressada subia na sua direcção e ele, de vista curta por causa do chapéu muito negro em frente aos olhos, ia também direito a ela. Noutro dia qualquer ouviria os seus passos (saltos altos falando alto com o passeio), mas hoje não.
A mulher vira-o quase a tempo, desviara-se ainda uns bons centímetros, mas os chapéus-de-chuva bateram um no outro e inexplicavelmente, contra a vontade de um e de outro, contra a chuva e o vento, entrelaçaram-se. Ela puxou do seu chapéu determinada, mas nada parecia quebrar aquele abraço. Ele a querer descer a rua, ela a querer subi-la. Inspeccionaram os chapéus e descobriram que a vareta de um tinha rompido o pano do outro. Ele lançou a mão à vareta, ela ao pano, e tentavam sem êxito desfazer o nó complicado. Não falavam um com o outro, nem sequer se olhavam por estarem demasiado próximos.
Por cada um querer ir para seu lado, resolveram então puxar os chapéus à força. E tanto puxaram que a vareta cedeu e o pano caiu. Ficaram ambos à chuva, um de chapéu partido, outro de chapéu roto. Primeiro não disseram nada: estavam estupefactos com o acontecimento. Depois espantaram-se antes com a chuva e olharam um para o outro. Estavam ensopados.
Deitaram os chapéus no lixo e refugiaram-se debaixo de um telhado. Queixavam-se ambos do tempo. Inicialmente para introduzirem um tópico de conversa, depois para justificarem os males de todos os tempos. Queixaram-se tanto da chuva que a certa altura a culparam de todos os problemas, infortúnios e pecados. Uma hora depois continuavam debaixo daquele telhado e conversavam animadamente sobre os efeitos prejudiciais do tempo. Depois a chuva parou e eles fingiram ter de continuar caminho.
Despediram-se sem saberem se voltariam a ver-se. Choviam torrencialmente por dentro e culparam o tempo por isso. Era naturalmente a última gota naqueles corpos de água.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Western revisited: Monument Valley

Mais um episódio da série "Western revisited".
Ver episódio: Lucky Luke.

Pergunto-me: o que faz aquele cowboy no deserto vermelho de Monument Valley? Está sentado no seu cavalo que mal cavalga e vem assobiando descontraído (o próprio assobio traz terra nas pontas e concluo que tudo é sujo e velho naquele vale).
Há uma rocha vermelha por cima de outra rocha vermelha naquele deserto rochoso. Um cenário quase perfeito por ser demasiado seco e o cavalo abranda de repente. O sangue do cowboy e o compasso do cavalo são também eles secos e, quando a rocha se torna sombra, as quatro ferraduras pousam. O cowboy senta-se no chão sem frutos, as costas contra as costas da rocha, chapéu sobre o rosto. Adormece. O silêncio que se segue é comprido e, para interromper a imagem estática, o cavalo roda no ar a enorme cauda.
Atrás da rocha aparece então o inimigo, o tal índio americano, vermelho e seco como a terra. Dirige-se vagaroso para o cavalo mas este, fiel ao belo adormecido, ergue-se no ar deslumbrante. O cowboy mantém o rosto atrás do chapéu (o seu sono é naturalmente mais pesado do que as rochas daquele vale). O índio ameaça o cavalo e encaminha-se agora para o cowboy, lento e cauteloso como os predadores. Está quase em cima dele – é uma sombra por cima da sombra – até que o cowboy puxa réptil da pistola e carrega uma só vez no gatilho. O tiro certeiro segue pelo vale em eco e a morte conforta-me.
O índio cai aos pés do cowboy e este nem tira o chapéu para o ver. Volta a encostar as costas nas costas da rocha e, enquanto devolve a pistola ao cinto, repete o seu lema para o cavalo: "Never kill a man on his back!". Este olha-o condescendente e roda no ar a enorme cauda. "Never!", repete atrás do chapéu e não tarda a adormecer.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Olhos nos olhos [versão masculina]

Dois homens olham-se olhos nos olhos. Um é mais persistente do que o outro, olha sempre nos olhos do segundo e este intimida-se de vez em quando: os olhos, já muito tensos, descem como dois sóis em final de tarde, mas logo regressam à luta.
(Se um homem olha insistentemente para outro, este devolve-lhe um olhar ainda mais intenso. Os seres humanos do sexo masculino podem ficar nisto longos minutos por não saberem ladrar.)
Um deles, o mais incomodado, impacienta-se e enche-se de coragem.
– Desculpe, está a olhar para mim porquê?
– Eu logo vi que se passava aqui qualquer coisa.
– Ai sim? Então o que se passa?
– Passa-se que você é que está fixado em mim!
– Não, está muitíssimo enganado! Eu sentei-me neste lugar e você é que começou nessa insistência.
– Então devo ser eu que tenho uma fixação em si! – e riu-se descarado, ainda com os olhos contra os olhos do outro. Escancarados.
O mais incomodado alarmou-se, endireitou-se muito no seu assento. Um suor frio crescia-lhe na pele e o outro apercebia-se disso. O outro apercebia-se de tudo isso, pois os seus olhos passeavam-se agora pelos pormenores do rosto em frente: primeiro a testa, depois a barba rija até às têmporas, o queixo carismático, ansioso, apetecível. Um calafrio atacou-lhe as costas e o homem incomodado esperneou a coluna.
– Tenha calma! – disse dócil o homem insistente e os olhos regressavam aos olhos do outro, os dele muito azuis e os outros quase negros, uns diluindo-se nos outros até nascer da união das cores um azul ameno, nocturno, consensual.
(O homem incomodado estava deveras incomodado, o coração palpitava como um sapo no pescoço e agora uma das pálpebras tremia ansiosa como um peixe fora de água.)
O outro repetia a frase dócil e aquele ouvia-a, acalmava-se um pouco, desejava que a frase se repetisse. O azul gerado pela união dos quatro olhos era agora um pouco mais líquido, havia qualquer coisa de translúcido naquele azul quase aquático.
– O que quer você de mim? – perguntou quase tímido e o outro devolveu-lhe um sorriso torto, no canto da boca, secreto como o fundo do mar.
– O que é que você acha que eu quero? – e o outro respondeu: "Não sei". O mesmo sorriso na boca do outro.
– Eu também não!
Fora um resto de viagem longo devido ao silêncio dos lábios e aos gritos dos olhos. O homem incomodado relaxara, adormecera os olhos no azul daquele olhar. Queria ir na corrente daquele rio e quase se deixou levar. Disse o homem insistente:
– Saio na próxima paragem! – e o homem incomodado teve pena. Quase perguntou: "E agora, quando o vejo?", mas apercebeu-se a tempo do seu ridículo. O outro desejou um: "Até à vista!" e o homem incomodado, triste com a partida, perguntou mais alto, como quem fala para um comboio em andamento:
– Mas por que me olha assim?
O outro olhava-o ainda, o rosto muito assimétrico por causa do sorriso no canto do rosto. Concluiu:
– Cada um vê o que quer. – e levantou-se.
O azul ameno separou-se então em duas cores: agora eram dois olhos azuis e dois quase negros, afastados para sempre. O homem insistente desdobrou então uma bengala e apontou-a para o chão. E ostensivamente, qual sabedor Tirésias, exibiu com orgulho a sua cegueira sábia.
O homem incomodado ficou a vê-lo caminhar para o lado de lá, muito devagar e hesitante, atrás da bengala que lhe ditava o caminho. Depois, quase acidentalmente, viu o seu próprio reflexo no vidro e olhou-se olhos nos olhos. A cor daquele olhar não era azul, mas antes negra como as trevas. Repetiu de si para si: "Cada um vê o que quer!" e deixou de se reconhecer no vidro devido à escuridão do olhar. Depois esqueceu-se de sair na sua paragem. No fundo esquecera-se de si próprio.
Sonhou toda a noite com o mar. Era um azul realmente inesquecível.