A Margareta tinha sete, mascava chiclete e usava bandolete no alto da testa. Qual foguete em dia de festa vinha Margareta pela praceta em cima da sua bicicleta. Pois logo ali foi cair na valeta da praceta a pobre Margareta da bicicleta. E naquilo engoliu a chiclete, perdeu a bandolete e partiu a bicicleta. Tinha sete a Margareta e desde esse dia nunca mais foi foguete em dia de festa, por já não querer a bicicleta nem andar pela praceta a mascar chiclete. Dizem que a culpa é da valeta, mas eu acho que isso é tudo treta! A culpa é só de Margareta que, depois dos sete, já não quis a bandolete nem ser mais foguete.
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
O sonho do psicanalista
O psicanalista sonhou o sonho da sua vida e nesse sonho era ele que se deitava no divã. Falava para o tecto. Não demorou a perceber que afinal falava consigo próprio, pois também ele se sentava na cadeira do psicanalista.
No sonho sonhava que se deitava, embora já estivesse deitado. No fundo, a sensação era a de se afundar mais um pouco no divã. Sentia-se extremamente confortável. Pedia: "Analise-me!" e o psicanalista retorquia: "Analise você!". Um deles olhava para o tecto, o outro olhava para o primeiro.
Silêncio, um silêncio profundíssimo e ele um pouco mais deitado do que antes, no fundo de si mesmo, cada vez mais no fundo. Uma voz pedia-lhe: "Fale-me dos seus sonhos!" e ele reclamou silêncio, um pouco mais de silêncio, ainda mais silêncio, o maior silêncio de todos. Explicou: "Aquele silêncio que vem de dentro e é opaco, impenetrável". Ele deitado no divã e sentado na cadeira: via-se a si próprio na posição do outro e já não sabia quem era.
Quis falar de um sonho e tentou lembrar-se de um. Contou que estava deitado num divã, que pedia ao psicanalista: "Analise-me!" e que este lhe retorquia: "Analise você!". Depois disse que afinal aquilo não era um sonho, que era o momento dentro do sonho e que portanto era real. Tentou falar de outros sonhos e, quando abriu novamente a boca, não tinha voz. O psicanalista deixara de o ouvir, observava-o apenas. Ele deitado no divã a esbracejar, sem uma palavra para dizer.
(Visto assim, do lugar do psicanalista, o psicanalisado mais parecia um náufrago. Morreria afogado no divã a qualquer momento.)
O psicanalista ainda disse: "Fale-me de um sonho que não esse!" e o outro, cada vez mais deitado, queria dizer-lhe bem alto: "Só conheço os sonhos dos outros", mas a sua boca não produzia sons.
Na manhã seguinte, o psicanalista acordou no seu próprio divã e não conseguia levantar-se. Agitava os braços no ar, agarrava-se às almofadas, mas tudo parecia afundar-se com ele. Era o divã que o engolia e o psicanalista, quando se cansara da luta, deixou-se estar naquela enorme boca.
Tinha a esperança de que se tratasse de um sonho dentro do sonho.
Mas era evidente que não.
O psicanalista não sabia nada sobre o seu universo onírico. De facto, só conhecia os sonhos dos outros, alimentava-se deles, vivia para eles. E naquele dia, os outros – unidos por aquele divã e já sem sonhos para sonhar – comiam-no vivo. Para terem os seus sonhos de volta.
No sonho sonhava que se deitava, embora já estivesse deitado. No fundo, a sensação era a de se afundar mais um pouco no divã. Sentia-se extremamente confortável. Pedia: "Analise-me!" e o psicanalista retorquia: "Analise você!". Um deles olhava para o tecto, o outro olhava para o primeiro.
Silêncio, um silêncio profundíssimo e ele um pouco mais deitado do que antes, no fundo de si mesmo, cada vez mais no fundo. Uma voz pedia-lhe: "Fale-me dos seus sonhos!" e ele reclamou silêncio, um pouco mais de silêncio, ainda mais silêncio, o maior silêncio de todos. Explicou: "Aquele silêncio que vem de dentro e é opaco, impenetrável". Ele deitado no divã e sentado na cadeira: via-se a si próprio na posição do outro e já não sabia quem era.
Quis falar de um sonho e tentou lembrar-se de um. Contou que estava deitado num divã, que pedia ao psicanalista: "Analise-me!" e que este lhe retorquia: "Analise você!". Depois disse que afinal aquilo não era um sonho, que era o momento dentro do sonho e que portanto era real. Tentou falar de outros sonhos e, quando abriu novamente a boca, não tinha voz. O psicanalista deixara de o ouvir, observava-o apenas. Ele deitado no divã a esbracejar, sem uma palavra para dizer.
(Visto assim, do lugar do psicanalista, o psicanalisado mais parecia um náufrago. Morreria afogado no divã a qualquer momento.)
O psicanalista ainda disse: "Fale-me de um sonho que não esse!" e o outro, cada vez mais deitado, queria dizer-lhe bem alto: "Só conheço os sonhos dos outros", mas a sua boca não produzia sons.
Na manhã seguinte, o psicanalista acordou no seu próprio divã e não conseguia levantar-se. Agitava os braços no ar, agarrava-se às almofadas, mas tudo parecia afundar-se com ele. Era o divã que o engolia e o psicanalista, quando se cansara da luta, deixou-se estar naquela enorme boca.
Tinha a esperança de que se tratasse de um sonho dentro do sonho.
Mas era evidente que não.
O psicanalista não sabia nada sobre o seu universo onírico. De facto, só conhecia os sonhos dos outros, alimentava-se deles, vivia para eles. E naquele dia, os outros – unidos por aquele divã e já sem sonhos para sonhar – comiam-no vivo. Para terem os seus sonhos de volta.
(O chamado sonho contra sonhador.)
terça-feira, 27 de novembro de 2007
Western revisited: Lucky Luke
Terça-feira, dia oficial das séries.
Estreia hoje a série "Western revisited".
Estreia hoje a série "Western revisited".
Acendi a luz e tive a certeza: vi esta manhã Lucky Luke.
A bem dizer, não o vi: na parede branca do quarto estava apenas a sua sombra. Portanto corrijo: esta manhã quase vi Lucky Luke. A parede enorme e ele alinhado ligeiramente à direita, um lenço esvoaçando no pescoço. Trazia o mesmo chapéu de abas largas, o cano da pistola ladeando a perna em arco. Estávamos frente a frente e ouvi ao longe uma harmónica de sopro.
Fechei os olhos e depois a luz. A música calou-se.
Depois reacendi o candeeiro e lá estava ele espelhado na parede, a arma ainda arrumada no cinto, os braços afastados do corpo como quem se prepara para o voo.
De repente ouvi um tiro e pensei que morria.
Mas não, Lucky Luke não se tinha mexido: a pistola junto à cintura, os braços ainda suspensos. E no entanto, inexplicavelmente, assaltou-me a dor da morte.
Olhei para mim: no centro do corpo um furo muito redondo. Gritei um grito de vida e o sangue saiu inteiro com as palavras. Vi-o ainda contra a parede, o chapéu impecável e as botas muito assentes no chão. A arma ainda em repouso. Misteriosamente.
Só então me lembrei. Lucky Luke, sempre mais rápido do que a própria sombra.
A bem dizer, não o vi: na parede branca do quarto estava apenas a sua sombra. Portanto corrijo: esta manhã quase vi Lucky Luke. A parede enorme e ele alinhado ligeiramente à direita, um lenço esvoaçando no pescoço. Trazia o mesmo chapéu de abas largas, o cano da pistola ladeando a perna em arco. Estávamos frente a frente e ouvi ao longe uma harmónica de sopro.
Fechei os olhos e depois a luz. A música calou-se.
Depois reacendi o candeeiro e lá estava ele espelhado na parede, a arma ainda arrumada no cinto, os braços afastados do corpo como quem se prepara para o voo.
De repente ouvi um tiro e pensei que morria.
Mas não, Lucky Luke não se tinha mexido: a pistola junto à cintura, os braços ainda suspensos. E no entanto, inexplicavelmente, assaltou-me a dor da morte.
Olhei para mim: no centro do corpo um furo muito redondo. Gritei um grito de vida e o sangue saiu inteiro com as palavras. Vi-o ainda contra a parede, o chapéu impecável e as botas muito assentes no chão. A arma ainda em repouso. Misteriosamente.
Só então me lembrei. Lucky Luke, sempre mais rápido do que a própria sombra.
Terça-feira - Dia oficial das séries
"É terça-feira". Bela música do Sérgio Godinho.
Em memória desta terça-feira (da música e não do dia) apeteceu-me estrear qualquer coisa hoje, terça-feira, 27. Só pelo gozo de estrear!
Vai daí, inventei que a terça-feira é o dia oficial das séries!
Ou seja, às terças sai um texto que se integre numa série qualquer.
Acham bem?
Eu acho!
Em memória desta terça-feira (da música e não do dia) apeteceu-me estrear qualquer coisa hoje, terça-feira, 27. Só pelo gozo de estrear!
Vai daí, inventei que a terça-feira é o dia oficial das séries!
Ou seja, às terças sai um texto que se integre numa série qualquer.
Acham bem?
Eu acho!
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
Diálogo vítreo
Duas pessoas estão lado a lado numa igreja. Não se conhecem. Um senhor e uma senhora: ele com gabardina de trabalhador independente, ela com coluna vertebral igual à das beatas. Olham para cima procurando a luz que desce do céu (não porque estejam a rezar mas porque contemplam os vitrais de uma janela). A senhora fala primeiro.
- Desculpe, está a rezar?
- Não, estou só a olhar.
- Então posso falar consigo!
- Por acaso, não. Falar interrompe o olhar, sabe?
- Ah, que bela frase. É da Bíblia?
- Não, acho que é minha, mas não tenho a certeza.
- Se calhar é mesmo da Bíblia.
- Se calhar.
(Silêncio.)
- O senhor gosta destes vitrais.
- Sim, gosto.
- Eu também. Parece que Deus desce do céu pela janela, não é assim?
- Não, não desce.
- Não desce?
- Não, Ele está no meio de nós.
- É verdade! O menino é padre?
- Não, sou arquitecto.
- Mas conhece bem a Bíblia.
- Não, nunca a li.
- Então vem muito à missa.
- Não, nunca vou à missa.
- Mas isso é pecado.
- Se calhar. Mas eu não sou crente, sabe?
- Não é crente? Então o que está a fazer nesta igreja?
- A ver os vitrais!
- Mas só vai à igreja quem quer rezar.
- Ora essa! Não posso ir à igreja só ver os vitrais?
- Não!
- Bom, a senhora também não está a rezar.
- Mas vou começar agora! Vou rezar por si, para que veja a luz.
- E se eu não vir a luz?
- Foi porque Deus desistiu de si.
- Desistiu de mim? Mas isso é pecado!
(Silêncio. Agora é ele que fala primeiro.)
- Vou-me embora.
- Faz muito bem. E só volte se for para rezar.
- Está bem! Entretanto vou ali acender uma vela por si.
- Mas você não acredita!
- Em Deus não, mas tenho muita fé em si!
- E por que quer acender uma vela por mim?
- Para que você veja a luz.
- Mas eu já vi a luz, você é que não!
- Para mim, foi você que não viu. É tudo uma questão de fé!
- Desculpe, está a rezar?
- Não, estou só a olhar.
- Então posso falar consigo!
- Por acaso, não. Falar interrompe o olhar, sabe?
- Ah, que bela frase. É da Bíblia?
- Não, acho que é minha, mas não tenho a certeza.
- Se calhar é mesmo da Bíblia.
- Se calhar.
(Silêncio.)
- O senhor gosta destes vitrais.
- Sim, gosto.
- Eu também. Parece que Deus desce do céu pela janela, não é assim?
- Não, não desce.
- Não desce?
- Não, Ele está no meio de nós.
- É verdade! O menino é padre?
- Não, sou arquitecto.
- Mas conhece bem a Bíblia.
- Não, nunca a li.
- Então vem muito à missa.
- Não, nunca vou à missa.
- Mas isso é pecado.
- Se calhar. Mas eu não sou crente, sabe?
- Não é crente? Então o que está a fazer nesta igreja?
- A ver os vitrais!
- Mas só vai à igreja quem quer rezar.
- Ora essa! Não posso ir à igreja só ver os vitrais?
- Não!
- Bom, a senhora também não está a rezar.
- Mas vou começar agora! Vou rezar por si, para que veja a luz.
- E se eu não vir a luz?
- Foi porque Deus desistiu de si.
- Desistiu de mim? Mas isso é pecado!
(Silêncio. Agora é ele que fala primeiro.)
- Vou-me embora.
- Faz muito bem. E só volte se for para rezar.
- Está bem! Entretanto vou ali acender uma vela por si.
- Mas você não acredita!
- Em Deus não, mas tenho muita fé em si!
- E por que quer acender uma vela por mim?
- Para que você veja a luz.
- Mas eu já vi a luz, você é que não!
- Para mim, foi você que não viu. É tudo uma questão de fé!
(Despediram-se respeitosos. O senhor acendeu uma vela pela senhora e a senhora rezou pelo senhor. No final olharam um para o outro e depois para os vitrais da janela. Saíam da igreja um pouco mais iluminados do que antes. Graças aos vitrais.)
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
Os dez dedos das mãos
Aquela rapariga lambe os dez dedos das mãos. Está sentada sozinha numa mesa de quatro e come uma salada agressiva, cheia de pormenores coloridos. Tem um garfo numa das mãos e na outra três anéis. Espeta o garfo na salada e encosta-o aos dedos da mão dos três anéis, que ajudam a dobrar a folha de alface. Olha só para o prato enquanto come e é agora que lambe os dez dedos. Um a um e sempre o mindinho primeiro (só depois os outros, por ordem de chegada). De vez em quando não lambe mas chupa. Faz imenso barulho, mas mal se ouve porque a música do bar toca mais alto.
Interesso-me pela rapariga que lambe os dez dedos das mãos.
Interesso-me pela rapariga que lambe os dez dedos das mãos.
No final da refeição rápida lambe apenas quatro dedos: os dois polegares, um dos indicadores e um mindinho. É rápida com a língua e com as mãos. Limpa depois a saliva dos dedos nas calças de ganga, puxa uma mala inquieta e tira do seu interior um pacote de tabaco de enrolar e uma bolsa velha, que tem na frente um arco-íris estranho de loja marroquina. Da bolsa emerge uma pequeníssima caixa de cartolina e, de dentro da caixa, uma folha de papel muito frágil. Deita tabaco para cima da folha, enrola-a com ambas as mãos, lambe uma das margens e, quase por magia, nasce um cigarro. A rapariga tem um esboço de sorriso no rosto, lambe novamente o papel, depois um dos dedos, mete o cigarro na boca, roda-o com a língua, acende e fuma.
Entretanto começa a roer as unhas de ambas as mãos, passa o cigarro de um dedo para outro. Quando a beata deixa de minguar, a rapariga apaga o cigarro com força, esmaga-o no cinzeiro. E de repente, acontece algo verdadeiramente imprevisível: para meu grande espanto, a rapariga lambe a palma da mão inteira. Explico: põe a língua de fora, estica-a para os lados exibindo-a em toda a sua amplitude e lambe a mão dos três anéis, que ergue alta e muito aberta.
Entretanto começa a roer as unhas de ambas as mãos, passa o cigarro de um dedo para outro. Quando a beata deixa de minguar, a rapariga apaga o cigarro com força, esmaga-o no cinzeiro. E de repente, acontece algo verdadeiramente imprevisível: para meu grande espanto, a rapariga lambe a palma da mão inteira. Explico: põe a língua de fora, estica-a para os lados exibindo-a em toda a sua amplitude e lambe a mão dos três anéis, que ergue alta e muito aberta.
Descontrolo-me com aquela visão. Levanto-me sobressaltada, dirijo-me à rapariga: "O que é que está a fazer?". Ela olha-me de lado, quase indignada. Responde: "Estou a lavar-me!" e dobra-se sobre si mesma para lamber o seu próprio lombo.
Era evidentemente a primeira mulher-gata que eu conhecia. Uma mulher fantástica e uma gata extremamente limpa, as duas numa só. A partir desse dia invejei a rapariga que lambia os dez dedos das mãos. Por ela me fazer sentir realmente incompleta.
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
O fiscal - Capítulo IV
Para perceber o que aqui se passa, clique aqui
Por Ana Pessoa
Depois lembrou-se do que o trouxera ali e, antes que a mulher falasse outra vez, apressou-se com a acusação: "A senhora fala mau português!". A autora gargalhou da cozinha, onde começou a preparar um chá. A porta entreaberta deixava ver o seu riso não contido e o homem corou de raiva. Respondeu misteriosa: "Isso não existe, senhor fiscal!" e o homem desesperou com aquela afronta. Saltou no sofá como um sapo: "Como assim, senhora?" e a mulher retorquiu calmamente: "Não há mau nem bom português, senhor fiscal. A língua é de quem a fala!".
O fiscal cortou a conversa com um gesto próprio de maestro perante a orquestra e disparou num compasso acelerado apontando o dedo indicador para o tecto: "A senhora é uma assassina de palavras: diz fato com um "c" ao meio, escreve ótimo com um "p" ao meio, são tiros directos no coração das palavras!". A mulher lançava a cabeça para trás para que as gargalhadas saíssem fluidas. Depois regressou à sala com um tabuleiro dançando nos braços ao som das chávenas que batiam delicadas nos pires.
Estavam agora sentados frente a frente, ela igual ao sol (cabelos eriçados como raios e o corpo avolumado, muito convexo) e ele igual a uma lua quase nova, minguando ainda (cabelo a escorrer pela testa e a coluna dobrada para a frente, um pouco côncavo).
Ela disse quase maternal que não era criminosa, que o português tinha vestígios de uma língua antiga e concluiu sem mais explicações: "Mas os polícias não têm de saber latim, não é assim?". Enquanto o senhor fiscal barafustava dizendo que não era polícia, a senhora espantava-se com a sua nova frase rimada. O homem escreveu no seu bloco: "problemas graves de isolamento, diz que português é latim". Depois fechou o caderno com uma violência teatral e impôs-se: "Minha senhora, eu sou o fiscal de palavras!".
A mulher olhou-o como se o visse pela primeira vez e o homem assustou-se com aquele olhar, saltou novamente no sofá e perguntou rápido: "Que foi?". A mulher abriu muito os olhos e depois os braços (a chávena muito equilibrada na mão direita, o pires pousado na esquerda). "Senhor fiscal, acabo de descobrir a sua palavra!" e o homem, um pouco mais curvado do que antes, repetiu várias vezes: "Como é que é?".
A autora sorveu ruidosa o seu chá e disse como quem revela um milagre: "Desumbigar. O senhor fiscal precisa de se desumbigar!". O homem estava confuso, repetiu mais uma vez a sua pergunta e a mulher esclareceu cheia de poesia: "O senhor fiscal precisa de sair de dentro, de se abrir ao mundo, de destorcer o cordão umbilical, de subir do ventre até aos olhos, de saltar para fora".
Fez-se silêncio à excepção do chá que continuava a estalar nos lábios da senhora. A palavra estranha ao ouvido regressava ao tímpano do homem, ganhava volume na boca, tinha um sabor qualquer a infância. O fiscal constatou: "Essa palavra não existe!", mas a mulher encolheu os ombros despreocupada. "Agora que eu a disse, passa a existir!".
O homem saltou outra vez: estava indignado. Abanou a cabeça e o bloco de notas no ar e, enquanto abria o caderno, dizia ameaçador: "A senhora pode ir presa por isto!". Ordenou muito formal: "Nome completo e profissão" e a mulher obedeceu prontamente: "Maria Apalavrada, inventora de palavras.".
A mão do homem congelou no bloco de notas. O fiscal ironizou ainda: "Ai sim? E que palavras inventa a senhora?". "Todas as que não existem e deviam ser inventadas!", respondeu criminosa a autora. O verbo desumbigar reapareceu no ouvido do homem e ele desejou secretamente que a palavra existisse. A mulher achou que tinha ganho um cliente por isso discursou: "Invento e vendo palavras. É, de facto, um óptimo negócio porque as pessoas precisam de se exprimir e não têm palavras. Você precisava do verbo desumbigar para organizar o seu pensamento. "Desumbigar" é o seu verbo, senhor fiscal! Há uma palavra para cada um de nós!".
Quase sem querer o homem riu e ela riu com ele.
Só então o homem tirou o chapéu e a mulher brincou dizendo: "Um negócio de tirar o chapéu, não é, senhor fiscal?" e ele riu com aquela frase tão bem dita. De repente, o senhor endireitou as costas, era agora mais homem do que fiscal, e quis saber: "E a sua palavra, qual é?".
A mulher sorriu o seu melhor sorriso. "Eu também tenho um verbo: inversar! Preciso do inverso das palavras, de inventar versos, de inverter o pensamento. Toda eu sou versos invertidos!".
O homem recostou-se no sofá, já não saltava, as palavras ganhavam subitamente um outro sabor.
E foi assim que naquela tarde, o senhor fiscal e a inventora de palavras viram o inverso de um no outro e gostaram do que viram. Ele desumbigou e ela inversou, entre os dois havia um fio invisível de sílabas que os ligava.
No final da noite já não se sabia quem era quem, a língua de um era a língua do outro.
O fiscal cortou a conversa com um gesto próprio de maestro perante a orquestra e disparou num compasso acelerado apontando o dedo indicador para o tecto: "A senhora é uma assassina de palavras: diz fato com um "c" ao meio, escreve ótimo com um "p" ao meio, são tiros directos no coração das palavras!". A mulher lançava a cabeça para trás para que as gargalhadas saíssem fluidas. Depois regressou à sala com um tabuleiro dançando nos braços ao som das chávenas que batiam delicadas nos pires.
Estavam agora sentados frente a frente, ela igual ao sol (cabelos eriçados como raios e o corpo avolumado, muito convexo) e ele igual a uma lua quase nova, minguando ainda (cabelo a escorrer pela testa e a coluna dobrada para a frente, um pouco côncavo).
Ela disse quase maternal que não era criminosa, que o português tinha vestígios de uma língua antiga e concluiu sem mais explicações: "Mas os polícias não têm de saber latim, não é assim?". Enquanto o senhor fiscal barafustava dizendo que não era polícia, a senhora espantava-se com a sua nova frase rimada. O homem escreveu no seu bloco: "problemas graves de isolamento, diz que português é latim". Depois fechou o caderno com uma violência teatral e impôs-se: "Minha senhora, eu sou o fiscal de palavras!".
A mulher olhou-o como se o visse pela primeira vez e o homem assustou-se com aquele olhar, saltou novamente no sofá e perguntou rápido: "Que foi?". A mulher abriu muito os olhos e depois os braços (a chávena muito equilibrada na mão direita, o pires pousado na esquerda). "Senhor fiscal, acabo de descobrir a sua palavra!" e o homem, um pouco mais curvado do que antes, repetiu várias vezes: "Como é que é?".
A autora sorveu ruidosa o seu chá e disse como quem revela um milagre: "Desumbigar. O senhor fiscal precisa de se desumbigar!". O homem estava confuso, repetiu mais uma vez a sua pergunta e a mulher esclareceu cheia de poesia: "O senhor fiscal precisa de sair de dentro, de se abrir ao mundo, de destorcer o cordão umbilical, de subir do ventre até aos olhos, de saltar para fora".
Fez-se silêncio à excepção do chá que continuava a estalar nos lábios da senhora. A palavra estranha ao ouvido regressava ao tímpano do homem, ganhava volume na boca, tinha um sabor qualquer a infância. O fiscal constatou: "Essa palavra não existe!", mas a mulher encolheu os ombros despreocupada. "Agora que eu a disse, passa a existir!".
O homem saltou outra vez: estava indignado. Abanou a cabeça e o bloco de notas no ar e, enquanto abria o caderno, dizia ameaçador: "A senhora pode ir presa por isto!". Ordenou muito formal: "Nome completo e profissão" e a mulher obedeceu prontamente: "Maria Apalavrada, inventora de palavras.".
A mão do homem congelou no bloco de notas. O fiscal ironizou ainda: "Ai sim? E que palavras inventa a senhora?". "Todas as que não existem e deviam ser inventadas!", respondeu criminosa a autora. O verbo desumbigar reapareceu no ouvido do homem e ele desejou secretamente que a palavra existisse. A mulher achou que tinha ganho um cliente por isso discursou: "Invento e vendo palavras. É, de facto, um óptimo negócio porque as pessoas precisam de se exprimir e não têm palavras. Você precisava do verbo desumbigar para organizar o seu pensamento. "Desumbigar" é o seu verbo, senhor fiscal! Há uma palavra para cada um de nós!".
Quase sem querer o homem riu e ela riu com ele.
Só então o homem tirou o chapéu e a mulher brincou dizendo: "Um negócio de tirar o chapéu, não é, senhor fiscal?" e ele riu com aquela frase tão bem dita. De repente, o senhor endireitou as costas, era agora mais homem do que fiscal, e quis saber: "E a sua palavra, qual é?".
A mulher sorriu o seu melhor sorriso. "Eu também tenho um verbo: inversar! Preciso do inverso das palavras, de inventar versos, de inverter o pensamento. Toda eu sou versos invertidos!".
O homem recostou-se no sofá, já não saltava, as palavras ganhavam subitamente um outro sabor.
E foi assim que naquela tarde, o senhor fiscal e a inventora de palavras viram o inverso de um no outro e gostaram do que viram. Ele desumbigou e ela inversou, entre os dois havia um fio invisível de sílabas que os ligava.
No final da noite já não se sabia quem era quem, a língua de um era a língua do outro.
FIM
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