quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Declaração

Quando o dia caiu inteiro e o mundo a espreitou através da janela, a rapariga fechou as persianas e os olhos para não o ver. Queria sentir-se sozinha e, pela primeira vez, disse: "Amo-te!". Era um sentimento estranho, até porque a declaração não era dirigida ao mundo nem à janela. Na verdade não era dirigida a ninguém, já que estava sozinha e queria realmente sentir-se só. A rapariga diria mais tarde que amar era um estado de espírito. Mas naquela altura não sabia disso e quis esquecer-se.
Abriu o frigorífico para comer o resto de qualquer coisa e por momentos assaltou-a a ideia de que amava aquele electrodoméstico (a porta cheia de ímanes, a pequena luz ao fundo, o frio sempre pálido, qualquer coisa com sabor a fresco). Era um frigorífico agradável ao toque e ela acariciou-o distraída como as grávidas fazem às barrigas. Claro que, quando desligou a luz do quarto se riu de si própria. Era evidente que não amava o frigorífico.
Antes de adormecer, pensou naquele sentimento de pertença e apercebeu-se de que amava simplesmente o regresso a casa. Que regressar tinha um certo toque de amor e dedicação. Que aquele electrodoméstico simbolizava esse regresso. Estava extasiada com a sua descoberta.
Dormiu toda a noite um sono profundo e na manhã seguinte escreveu uma declaração de amor.
"O teu corpo é para mim um regresso a casa". Afixou-a na porta do frigorífico, releu-a mil e uma vezes.
Claro que a declaração não era dirigida ao electrodoméstico. Na verdade, mais uma vez, não era dirigida a ninguém.
A rapariga sentiu subitamente uma enorme urgência em apaixonar-se e saiu de casa a correr. Tinha imensa pressa.
Era, de certa forma, um regresso a si própria.

Nota aos leitores assíduos: Agora sim, um regresso a sério!

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

A decoradora

O filho da decoradora tinha 9 anos quando disse à mãe: "Só agora é que percebi o que fazes.". Estavam a lanchar na cozinha, os dois a beber leite e a comer pão com manteiga. A mãe não percebeu logo a frase e o filho explicou: "Antes achava que decoravas mesmo as casas!".
A mãe engoliu o último gole de leite e esclareceu que era isso mesmo que ela fazia. O filho continuou: "Não, mas tu decoras no sentido de pôr bonito e eu achava que decoravas no sentido de decorar mesmo, como quem sabe a tabuada!". A mãe riu-se: "Então tu achavas que a mãe ia a casa das pessoas decorar a tabuada?". "Não, achava que ias a casa das pessoas memorizar a casa inteira para saberes tudo-tudo-tudo o que as pessoas têm lá dentro." A mãe riu-se mais ainda, abanava a cabeça com tal disparate. "Então, e de que serviria o meu trabalho?".
O miúdo encolheu os ombros e disparatou. Depois disse: "Às tantas fazia mais sentido seres decoradora da tabuada!" e a mãe divertia-se. O filho entusiasmou-se, tinha imensos projectos para a mãe, levantou os braços, disse quase num grito: "Podias ser assim uma espécie de psicóloga das casas! Entravas, decoravas o que as pessoas tinham lá dentro e depois debitavas tudo!".
A mãe arrumava os pratos no lava-loiças e repetiu atónita: "Psicóloga das casas?". O filho exclamou pela primeira vez um "evidentemente" e, de súbito, era como se já não tivesse 9 anos. A decoradora perguntou: "E o que faz a psicóloga das casas?". O filho fez uma cara feia, voltava a ter 9 anos. "Ó mãe! O mesmo que as psicólogas da cabeça. Vai lá dentro ver o que existe, para as pessoas saberem quem são!".
A mãe não disse nada.
Depois de lanchar, o filho foi brincar com os vizinhos e a decoradora afundou-se no sofá, afogou-se, fundiu-se. Era urgente olhar para a sua própria casa, contemplá-la, examiná-la, decorá-la. Intitulou-se psicóloga das casas e começou pela sua. Queria arrumar a casa toda para se conhecer um pouco.
Disse: "Antes de mais, sou mãe!" e começou pelo quarto do filho.
Era o início da decoração (no sentido da tabuada).

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Estado líquido

E ao ver o mar morria um pouco por nascer de outra forma, os olhos vacilavam nas ondas e a boca enchia-se de água. Sentia-se - por assim dizer - inteira e naquele dia, quis ser mar e foi desaguar na maré baixa, longínqua como os horizontes. Um erro de perspectiva e, ao esticar as mãos, os dedos pareciam dedilhar as ondas, as unhas crepitavam à superfície com a espuma. Os pés enterravam-se finalmente na água e as pernas eram longas, movediças, instáveis. Disse: "Sou mar!" e saboreou o último raio de sol no rosto. Depois dissolvera-se na maré, era agora um corpo em estado líquido. Ao provar a sua saliva, disse de si para si: "Sou salgada!". Um corpo dentro de outro corpo, sem limites, era uma parte do todo. De repente desejou que alguém a bebesse, quis ser o sabor salgado numa língua qualquer. Mas normalmente queria ser apenas sal, sonhava que era um grão no topo de uma salina, branca como os sonhos bons. De resto parecia reconciliada com o seu corpo em estado líquido. Era uma parte de mar, esquecia-se muitas vezes do corpo anterior a este. Quando tentava entender-se, dizia de si própria: "Sou o sal da água" e rebentava vaidosa com as ondas.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O fiscal - Capítulo III

Para perceber o que aqui se passa, clique aqui.

Por Fábio Reynol

A mulher virou-se e foi à cozinha. Enfim o homem encontrara alguém que reconhecia e até respeitava o seu honroso cargo auto-proclamado de fiscal da língua portuguesa. Isso o fez lembrar de sua última diligência, na qual interpelou um padre pelo uso inadequado da palavra "mesmo" como pronome relativo. Sem delongas, ele entrara na sacristia logo após a missa e fora direto ao sacerdote:
- Desculpe-me, reverendo, mas um erro grosseiro foi cometido hoje em sua homilia.
- A que se refere? Virou-se o padre com ares de preocupação.
- Lembra-se de quando se referiu ao cálice do altar?
- Sim. O que o senhor tem contra o mesmo?
- É exatamente isso, "o mesmo" não é adequado. Na verdade, eu o considero um erro horroroso de estilo. Eu devo pedir que o senhor não use mais "o mesmo".
- Quer dizer que eu não posso usar o mesmo porque o senhor não gosta do estilo dele?
- É mais do que isso, reverendo. Ele faz parecer que o senhor é pouco versado na língua, compreende?
- O senhor está dizendo que o cálice que eu utilizo na liturgia faz as pessoas julgarem a minha educação, por isso eu não devo mais usar o mesmo?
- O senhor não entendeu, padre. Não é o cálice a questão, ele pode continuar, só peço que o senhor não use mais "o mesmo".
- Que cálice devo utilizar então?
O fiscal perdeu a paciência e as estribeiras e berrou com o funcionário de Deus:
- O MESMO, PADRE!
E o padre desceu das tamancas eclesiais:
- Ponha-se para fora daqui seu maluco de... As demais palavras do padre lhe escaparam da memória, talvez por serem totalmente inadequadas a um vocabulário sacerdotal. Enquanto o homem de Deus disparava ofensas contra o fiscal, o homem dos vocábulos foi arrastado para fora da igreja pelos braços do sacristão. Desde então ele decidiu apresentar suas credenciais de fiscal antes de interpelar qualquer outro infrator. Isso deveria lhe garantir um mínimo de respeito.
O tratamento que agora recebia da mulher era prova disso. Nunca havia sido recebido com tanta deferência desde que se aventurara nessa perigosa profissão. O espanto pela educada recepção e o flashback da humilhação na sacristia o fizeram distrair a ponto de só agora perceber o local onde estava. A sala parecia ter saído de um página de Eça de Queiroz. Uma cristaleira do século XIX com licoreiras coloridas parecia ser a peça mais nova do recinto. Em cima do móvel um galo de louça preto de crista vermelha fitava uma coleção de mais de vinte pratos ornamentais na parede oposta. Pesadas cortinas de veludo mantinham o sol quase completamente do lado de fora.
Sem tirar o traseiro do assento, o fiscal esticou o pescoço para os lados aproveintando-se da ausência momentânea da proprietária. Observou o ponto que mais lhe chamou a atenção e o anotou imediatamente em seu bloco: "Ausência de livros de qualquer espécie. Sem evidências de consultas freqüêntes à gramática, nem mesmo um mini-dicionário à vista. Possível biblioteca no andar superior (?)". Deparou-se de repente com uma foto antiga na parede de uma casa de campo em meio a um vinhedo, imaginou que lugar seria aquele e meteu novamente o bloco no bolso. (continua)

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Página 161

Perguntaram-me:
Qual é a frase que se encontra na 5.ª linha da página 161 do livro que andas a ler?
É que no cinzento de Bruxelas tudo acontece.
Admito: gosto destas correntes e fui a correr para casa ler!
E ao reler a frase da 5.ª linha da página 161, adorei-a um pouco mais do que antes.
É que gosto tanto dela que quase decidi não a partilhar convosco.
Até porque esta frase é um pouco complexa para a cortar: traz um travessão no ventre e ganha voz a meio.
Vai daí, decidi transcrever tudo, desde o final da 4.ª linha até ao final da 6.ª, para que a frase e a voz fossem completas:
"Já de porta fechada, tinha-a encarado - «Quero vê-la muito bem. Olhe para cá...»"
(Lídia Jorge, Combateremos a Sombra, D.Quixote, 2007)
Dita assim, esta frase é ainda mais estranha do que a pergunta.
Um pedido ("Olhe para cá") em forma de ordem, provavelmente de homem para mulher. Duas personagens à porta fechada, encarando-se e tratando-se por você. Faz-me querer chegar à última página ainda hoje!
Para que a corrente não acabe, pergunto a mais uns quantos.:
Cata, OrCa e Claudette, olhem para cá, qual é a frase que se encontra na 5.ª linha da página 161 do livro que andam a ler?

Nota aos leitores assíduos: vou nas asas dos livros para uma terra a cores e volto daqui a imensos voos.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

o silêncio habitado das coisas

Para ler de cima para baixo e de baixo para cima
(ou de outra forma qualquer).

asas de um silêncio livre
para saudar a noite cheia
aquele que um dia me deste
branco como as salinas
o tal silêncio do pássaro
que me pousas nas mãos
o silêncio
das fogueiras
que caminha
para o silêncio
de janelas abertas
tão cheias de ar e de tempo

o tal silêncio habitado das coisas

terça-feira, 30 de outubro de 2007

O fiscal - Capítulo II

Para perceber o que aqui se passa, clique aqui.

Por Ana Pessoa

A palavra autoria explodiu no ar como um fogo de artifício. A mulher gostava que a tratassem por autora e por isso respondeu prontamente "Sim, sou eu a autora!".
O fiscal não a ouvira muito bem porque entretanto a mulher resolvera desembaraçar-se da porta e havia trincos e chaves tilintando contra a madeira. As mãos da mulher eram cheias como balões mas certeiras no toque: em dois segundos estava escancarada a porta e a autora surgia inteira.
Dizia: "Aqui é tudo legal, senhor fiscal!" oferecendo o perfil ao homem para que ele entrasse. E enquanto ela se admirava com a sua frase rimada, ele estava ocupado em interpretar a autora (ainda nem tinha tirado o chapéu nem guardado o seu título de fiscal). Era difícil entender aquela mulher e o homem precipitou-se para o seu bloco de notas, onde escreveu: "má dicção". A mulher repetia "Tudo legal!" e o som do último compasso vinha de um lugar secreto – entre a ponta da língua e a dentição. Era fechado, misterioso, irreproduzível.
Já estavam na sala. A mulher não perdia tempo por o tempo ser dinheiro. Tinha chegado ao Brasil havia anos, morava na Rua Atlântica desde então e logo aprendera a lidar com os brasileiros: não podia falar-se muito com eles, eram demasiado conversadores para o que queriam dizer e a senhora aprendera a ouvir apenas as palavras essenciais dos seus discursos. Naquele caso: "fiscal".
Repetiu muito alto as duas frases do pedaço de papel ("De facto, um óptimo negócio. Compre.") e era como se o som viesse do bolso do homem, pois ele saltou assustado com as palavras da mulher. Não só na escrita mas também na fala, a senhora dizia "facto" com o fonema oclusivo "k" a meio. Estava realmente estupefacto mas, de repente, esqueceu-se deste fenómeno, pois a mulher dissera ainda: "Sente-se, senhor fiscal!". O homem derreteu devagar até ao sofá, vaidoso com o seu novo título de senhor à frente de fiscal, ensenhorando-se no seu lugar. O homem gostava da forma como a mulher dizia "senhor", a vogal vinha fechada e a última nota vibrava discreta, nem a mais nem a menos, um "r" verdadeiramente elegante, impossível, inimaginável.
(continua)