quarta-feira, 31 de outubro de 2007

o silêncio habitado das coisas

Para ler de cima para baixo e de baixo para cima
(ou de outra forma qualquer).

asas de um silêncio livre
para saudar a noite cheia
aquele que um dia me deste
branco como as salinas
o tal silêncio do pássaro
que me pousas nas mãos
o silêncio
das fogueiras
que caminha
para o silêncio
de janelas abertas
tão cheias de ar e de tempo

o tal silêncio habitado das coisas

terça-feira, 30 de outubro de 2007

O fiscal - Capítulo II

Para perceber o que aqui se passa, clique aqui.

Por Ana Pessoa

A palavra autoria explodiu no ar como um fogo de artifício. A mulher gostava que a tratassem por autora e por isso respondeu prontamente "Sim, sou eu a autora!".
O fiscal não a ouvira muito bem porque entretanto a mulher resolvera desembaraçar-se da porta e havia trincos e chaves tilintando contra a madeira. As mãos da mulher eram cheias como balões mas certeiras no toque: em dois segundos estava escancarada a porta e a autora surgia inteira.
Dizia: "Aqui é tudo legal, senhor fiscal!" oferecendo o perfil ao homem para que ele entrasse. E enquanto ela se admirava com a sua frase rimada, ele estava ocupado em interpretar a autora (ainda nem tinha tirado o chapéu nem guardado o seu título de fiscal). Era difícil entender aquela mulher e o homem precipitou-se para o seu bloco de notas, onde escreveu: "má dicção". A mulher repetia "Tudo legal!" e o som do último compasso vinha de um lugar secreto – entre a ponta da língua e a dentição. Era fechado, misterioso, irreproduzível.
Já estavam na sala. A mulher não perdia tempo por o tempo ser dinheiro. Tinha chegado ao Brasil havia anos, morava na Rua Atlântica desde então e logo aprendera a lidar com os brasileiros: não podia falar-se muito com eles, eram demasiado conversadores para o que queriam dizer e a senhora aprendera a ouvir apenas as palavras essenciais dos seus discursos. Naquele caso: "fiscal".
Repetiu muito alto as duas frases do pedaço de papel ("De facto, um óptimo negócio. Compre.") e era como se o som viesse do bolso do homem, pois ele saltou assustado com as palavras da mulher. Não só na escrita mas também na fala, a senhora dizia "facto" com o fonema oclusivo "k" a meio. Estava realmente estupefacto mas, de repente, esqueceu-se deste fenómeno, pois a mulher dissera ainda: "Sente-se, senhor fiscal!". O homem derreteu devagar até ao sofá, vaidoso com o seu novo título de senhor à frente de fiscal, ensenhorando-se no seu lugar. O homem gostava da forma como a mulher dizia "senhor", a vogal vinha fechada e a última nota vibrava discreta, nem a mais nem a menos, um "r" verdadeiramente elegante, impossível, inimaginável.
(continua)

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Sempre em pé

Pois é, cheiro a chulé e nem tenho pé. Désolée, mas sou um sempre em pé! Tenho cara de chimpazé e só sei cantar o giroflé. Bebi muita água-pé e estou resvés para cair. Portanto, s'il vous plaît, saia mas é da frente que ainda leva um pontapé.
Muito gosto eu da Salomé, é mais formosa que um canapé.
Sim, c'est vrai: sou um homem de fé. Daí estar sempre em pé.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

O fiscal - Capítulo I

Para perceber o que aqui se passa, clique aqui.

Por Fábio Reynol

Reticente e incomodado foi o fiscal de palavras ter com a portuguesa que usava mal, segundo ele, o português. Muito mais incomodado do que reticente, a bem da verdade, a ponto de deixar as reticências ao largo para atravessar a Rua Atlântica a fim de tirar satisfações com a mulher. A pedra no sapato do homem era um pedaço de papel de pão no qual a mulher havia escrito: “De facto, um óptimo negócio. Compre.”
Eis a razão da hesitação do fiscal: ele não era o destinatário do bilhete. Esse fato o transformava num intrometido e o colocava na obrigação de explicar como o papel que não lhe dizia respeito havia parado em suas mãos. Seu dever de defender a boa língua portuguesa, no entanto, falava mais alto do que a vergonha de assumir a própria indiscrição.
Outro empecilho dessa empreitada era a sua bizarra profissão que, pelo simples fato de ela não ser reconhecida por ninguém com exceção dele próprio, era motivo de chacota e desdém por aqueles que eram interpelados por um dito fiscal de palavras. Mas quanto a isso, ele já estava acostumado e não seria esse o impedimento para cobrar o zelo esperado de uma mulher nascida no nobre berço da língua.
Abra-se um parêntese necessário. A nomeação de um fiscal de palavras se dá, naturalmente, a alguém que conheça a língua, mas principalmente a uma pessoa que acredite que terá autoridade sobre as demais para cobrar e ver cumprir o bom uso da palavra. Em outras palavras, um louco. Fechemos o parêntese.
Lá foi ele, chapéu na cabeça e prova do crime no bolso. Esta obtida de maneira vil e ilegal, como já frisado. Atravessou a Atlântica sem molhar os pés e bateu na porta da casa sentindo ares de uma autoridade policial. A porta entreabriu-se.
- O que deseja? Respondeu a própria suspeita colocando a cara na fresta.
- Minha senhora, eu sou fiscal de palavras da língua portuguesa. Disse ele mostrando uma folha amarela e surrada, a mesma que tinha sido carimbada em cartório e que havia sido rejeitada pela secretaria da Academia Brasileira de Letras e rechaçada pela Embaixada Portuguesa em Brasília, ambas as instituições se recusaram a dar mais combustível a tal insanidade.
- O que deseja? Repetiu a mulher sem se dar ao trabalho de ler o conteúdo da folha.
- Este bilhete é de sua autoria?
(continua)

Brasil-Portugal - Uma Relação de Língua

Caros leitores,
isto não é uma ficção. Escrevo-vos para anunciar que redescobri o caminho marítimo para o Brasil, onde conheci Fábio Reynol. No regresso a Portugal li o seu diário e, de repente, viajava a bordo de uma garrafa com textos dentro. Bebi desta garrafa muitos dias. E certa manhã atirei-a ao Tejo para que ela regressasse às mãos do Fábio. Ia com uma mensagem dentro.
Foi assim que a língua atravessou o oceano (de cá para lá e de lá para cá) e, quase sem querer, nasceu um texto escrito a quatro mãos: duas batem palmas ao som do samba, as outras duas bóiam no ar com o fado.
Este texto tem a forma de um mapa, chamámo-lo "folhetim" e demos-lhe um título: "O fiscal". Hoje abrimos a garrafa para comemorar. Segue o texto.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Generation gap

- Ai, que lindo! Que idade tem esta doçura?
- Fez agora 5 meses!
- Que fofinho! Tem uns olhos tão grandes!
- Sim, é verdade! São iguais aos do pai!
- Ai, que giro! Posso dar uma festinha?
- Pode, claro! Ele gosta!
- Ai sim? E não morde?
- Ai, que disparate!
- Que disparate, não! Já vi bichos mais pequenos a morder!
- Ó minha senhora, isto não é um cão, é uma criança!
- Ai sim?! Aaaahh, é que parece mesmo um cão!
- Um cão?! Mas desde quando é que as crianças são parecidas com cães?!
- Pois, realmente é estranho! O pai não será lobisomem?
- Olhe, não sei! Desculpe: tenho de sair nesta paragem.
- Está bem, não é preciso ladrar!
- Ladrar?! A senhora deve ser louca!
(A mulher vira as costas e sai do metro, empurrando o carrinho à sua frente. A primeira senhora vira-se para outra senhora qualquer.)
- Com um bebé nas mãos e nem sabe se o pai é lobisomem.
- Ai sim? Que horror!
- E ainda me chamou de louca!
- Credo! Grande cadela!
- Pode crer! Estamos mesmo num mundo cão!
- É verdade!
(Abanam as duas a cabeça.)

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Choque térmico

Sou um pouco mais feliz quando bebo chá em dias frios,
Principalmente se queimar a língua.
(O contraste atrás da pele desperta-me.)
Há qualquer coisa de artístico nisto.