segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Sempre em pé

Pois é, cheiro a chulé e nem tenho pé. Désolée, mas sou um sempre em pé! Tenho cara de chimpazé e só sei cantar o giroflé. Bebi muita água-pé e estou resvés para cair. Portanto, s'il vous plaît, saia mas é da frente que ainda leva um pontapé.
Muito gosto eu da Salomé, é mais formosa que um canapé.
Sim, c'est vrai: sou um homem de fé. Daí estar sempre em pé.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

O fiscal - Capítulo I

Para perceber o que aqui se passa, clique aqui.

Por Fábio Reynol

Reticente e incomodado foi o fiscal de palavras ter com a portuguesa que usava mal, segundo ele, o português. Muito mais incomodado do que reticente, a bem da verdade, a ponto de deixar as reticências ao largo para atravessar a Rua Atlântica a fim de tirar satisfações com a mulher. A pedra no sapato do homem era um pedaço de papel de pão no qual a mulher havia escrito: “De facto, um óptimo negócio. Compre.”
Eis a razão da hesitação do fiscal: ele não era o destinatário do bilhete. Esse fato o transformava num intrometido e o colocava na obrigação de explicar como o papel que não lhe dizia respeito havia parado em suas mãos. Seu dever de defender a boa língua portuguesa, no entanto, falava mais alto do que a vergonha de assumir a própria indiscrição.
Outro empecilho dessa empreitada era a sua bizarra profissão que, pelo simples fato de ela não ser reconhecida por ninguém com exceção dele próprio, era motivo de chacota e desdém por aqueles que eram interpelados por um dito fiscal de palavras. Mas quanto a isso, ele já estava acostumado e não seria esse o impedimento para cobrar o zelo esperado de uma mulher nascida no nobre berço da língua.
Abra-se um parêntese necessário. A nomeação de um fiscal de palavras se dá, naturalmente, a alguém que conheça a língua, mas principalmente a uma pessoa que acredite que terá autoridade sobre as demais para cobrar e ver cumprir o bom uso da palavra. Em outras palavras, um louco. Fechemos o parêntese.
Lá foi ele, chapéu na cabeça e prova do crime no bolso. Esta obtida de maneira vil e ilegal, como já frisado. Atravessou a Atlântica sem molhar os pés e bateu na porta da casa sentindo ares de uma autoridade policial. A porta entreabriu-se.
- O que deseja? Respondeu a própria suspeita colocando a cara na fresta.
- Minha senhora, eu sou fiscal de palavras da língua portuguesa. Disse ele mostrando uma folha amarela e surrada, a mesma que tinha sido carimbada em cartório e que havia sido rejeitada pela secretaria da Academia Brasileira de Letras e rechaçada pela Embaixada Portuguesa em Brasília, ambas as instituições se recusaram a dar mais combustível a tal insanidade.
- O que deseja? Repetiu a mulher sem se dar ao trabalho de ler o conteúdo da folha.
- Este bilhete é de sua autoria?
(continua)

Brasil-Portugal - Uma Relação de Língua

Caros leitores,
isto não é uma ficção. Escrevo-vos para anunciar que redescobri o caminho marítimo para o Brasil, onde conheci Fábio Reynol. No regresso a Portugal li o seu diário e, de repente, viajava a bordo de uma garrafa com textos dentro. Bebi desta garrafa muitos dias. E certa manhã atirei-a ao Tejo para que ela regressasse às mãos do Fábio. Ia com uma mensagem dentro.
Foi assim que a língua atravessou o oceano (de cá para lá e de lá para cá) e, quase sem querer, nasceu um texto escrito a quatro mãos: duas batem palmas ao som do samba, as outras duas bóiam no ar com o fado.
Este texto tem a forma de um mapa, chamámo-lo "folhetim" e demos-lhe um título: "O fiscal". Hoje abrimos a garrafa para comemorar. Segue o texto.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Generation gap

- Ai, que lindo! Que idade tem esta doçura?
- Fez agora 5 meses!
- Que fofinho! Tem uns olhos tão grandes!
- Sim, é verdade! São iguais aos do pai!
- Ai, que giro! Posso dar uma festinha?
- Pode, claro! Ele gosta!
- Ai sim? E não morde?
- Ai, que disparate!
- Que disparate, não! Já vi bichos mais pequenos a morder!
- Ó minha senhora, isto não é um cão, é uma criança!
- Ai sim?! Aaaahh, é que parece mesmo um cão!
- Um cão?! Mas desde quando é que as crianças são parecidas com cães?!
- Pois, realmente é estranho! O pai não será lobisomem?
- Olhe, não sei! Desculpe: tenho de sair nesta paragem.
- Está bem, não é preciso ladrar!
- Ladrar?! A senhora deve ser louca!
(A mulher vira as costas e sai do metro, empurrando o carrinho à sua frente. A primeira senhora vira-se para outra senhora qualquer.)
- Com um bebé nas mãos e nem sabe se o pai é lobisomem.
- Ai sim? Que horror!
- E ainda me chamou de louca!
- Credo! Grande cadela!
- Pode crer! Estamos mesmo num mundo cão!
- É verdade!
(Abanam as duas a cabeça.)

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Choque térmico

Sou um pouco mais feliz quando bebo chá em dias frios,
Principalmente se queimar a língua.
(O contraste atrás da pele desperta-me.)
Há qualquer coisa de artístico nisto.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Cotoveladas

Uma criança extraterrestre perguntou à mãe: "Se os humanos andam todos às cotoveladas, por que razão não lhes cortam os braços?" e a mãe explicou-lhe que cortar braços às espécies era contra natura. A criança extraterrestre fechou-se no quarto e passou o dia a catar seres humanos da cabeça. Guardava-os religiosamente num frasco e batia no vidro para os acordar. A criança observou os seres humanos durante semanas e verificou que andavam realmente sempre às cotoveladas. A criança extraterrestre pegou numa tesoura e cortou-lhes os braços. Durante dias os seres humanos pareciam mais normalizados, mas logo começaram a bater com a cabeça uns nos outros. A criança resolveu então cortar-lhes as cabeças.
Verificou que morriam.
A criança decidiu dedicar toda a vida àquela investigação e tornou-se num especialista em seres humanos.
Certo dia, quando a criança já era professor, escreveu um livro revelando a sua teoria. Anunciou: "Os seres humanos são cegos" e tinha provas. A comunidade científica exclamou: "Ooooohh" e começou a demonstrar verdadeiro interesse pelo estudo de seres humanos. Era realmente fascinante que uma espécie inteira fosse capaz de viver em sociedade sem ter a capacidade da visão.
Um caso único na história do Universo.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A metamorfose

No dia das mudanças meteu a casa inteira num caixote e fechou-o com fita-cola para garantir que a vida não saía. Disse: "Vou com a casa às costas" e pensou subitamente que era um caracol. Sentia-se lento e elástico como os relógios de Dalí, tudo era longínquo, enorme, inalcançável. Rastejou até à rua e apontou as antenas para cima atento aos pormenores da cidade. Era uma despedida triste, o tempo desacelerava um pouco mais, o corpo diminuía até ao chão. Desceu vagarosamente a rua com a carapaça às costas. Disse para o caixote: "Onde eu acabo, começas tu! Ou vice-versa.". A sua casa era parte do seu pulmão por isso, a certa altura, enfiou-se dentro do caixote. Aí ficou muito tempo com os seus objectos, era uma viagem bonita ao fundo do ser. Prometeu que sairia um dia da sua carapaça, quando o sol fosse quente e a rua seca. Por enquanto só queria estar a sós com a sua casa.
Depois, numa noite igual às outras, lembrou-se que era hermafrodita e ficou contente por isso. A vida tornava-se de repente mais interessante.