terça-feira, 23 de outubro de 2007

Cotoveladas

Uma criança extraterrestre perguntou à mãe: "Se os humanos andam todos às cotoveladas, por que razão não lhes cortam os braços?" e a mãe explicou-lhe que cortar braços às espécies era contra natura. A criança extraterrestre fechou-se no quarto e passou o dia a catar seres humanos da cabeça. Guardava-os religiosamente num frasco e batia no vidro para os acordar. A criança observou os seres humanos durante semanas e verificou que andavam realmente sempre às cotoveladas. A criança extraterrestre pegou numa tesoura e cortou-lhes os braços. Durante dias os seres humanos pareciam mais normalizados, mas logo começaram a bater com a cabeça uns nos outros. A criança resolveu então cortar-lhes as cabeças.
Verificou que morriam.
A criança decidiu dedicar toda a vida àquela investigação e tornou-se num especialista em seres humanos.
Certo dia, quando a criança já era professor, escreveu um livro revelando a sua teoria. Anunciou: "Os seres humanos são cegos" e tinha provas. A comunidade científica exclamou: "Ooooohh" e começou a demonstrar verdadeiro interesse pelo estudo de seres humanos. Era realmente fascinante que uma espécie inteira fosse capaz de viver em sociedade sem ter a capacidade da visão.
Um caso único na história do Universo.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A metamorfose

No dia das mudanças meteu a casa inteira num caixote e fechou-o com fita-cola para garantir que a vida não saía. Disse: "Vou com a casa às costas" e pensou subitamente que era um caracol. Sentia-se lento e elástico como os relógios de Dalí, tudo era longínquo, enorme, inalcançável. Rastejou até à rua e apontou as antenas para cima atento aos pormenores da cidade. Era uma despedida triste, o tempo desacelerava um pouco mais, o corpo diminuía até ao chão. Desceu vagarosamente a rua com a carapaça às costas. Disse para o caixote: "Onde eu acabo, começas tu! Ou vice-versa.". A sua casa era parte do seu pulmão por isso, a certa altura, enfiou-se dentro do caixote. Aí ficou muito tempo com os seus objectos, era uma viagem bonita ao fundo do ser. Prometeu que sairia um dia da sua carapaça, quando o sol fosse quente e a rua seca. Por enquanto só queria estar a sós com a sua casa.
Depois, numa noite igual às outras, lembrou-se que era hermafrodita e ficou contente por isso. A vida tornava-se de repente mais interessante.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Costa dos ciclopes

Veio dar à costa uma pescada ignota e bem formosa. Vinha cheia de areia e deitada de costas a pobre pescada. (Estava quase morta: a boca tosca, a língua solta e os olhos abertos para a estrada). Já era tarde posta quando a bruxa maldisposta veio ver a tal pescada. E nessa altura já estava a fogueira acesa e a sereia cortada às postas. Disse a bruxa indisposta: "O belo para uns é comestível para outros" e de repente ficou contente e bem-disposta por achar que uma bruxa feia pudesse ser sereia para os ciclopes daquela encosta. E então, porque não?, endireitou as costas e comeu muito composta a posta da pescada ignota.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O texto e quem escrevia

Disse o texto a quem escrevia: "Não me escreverás!" e quem escrevia bateu no texto com força dizendo: "Cala-te!". Com o embate, o texto saltou da cabeça e foi aterrar na boca. Quem escrevia tossiu engasgado e levou as mãos aos lábios sentindo o peso do texto na língua. Disse: "Tu nem sequer existes!" e o texto mexeu-se inquieto por dentro. Quem escrevia estava muito parado, quase suspenso sobre a folha tão branca como os voos de infância e, ao soltarem-se, era quem escrevia que caía vagaroso e não a folha, de tal modo impenetrável que não se rasgaria com o gesto de uma mão nem de duas nem de mil. "Pára!", gritou quem escrevia e o texto estava agora na ponta da língua, à beira do abismo, queria falar mas tinha medo de morrer na folha. Calaram-se os dois. Saiu uma palavra dos lábios. O resto do texto tentou puxá-la para dentro da boca, mas ela seguiu corajosa para o mundo. Pousou nas maçãs do rosto e subiu muito réptil, letra a letra. Havia um buraco misterioso e a palavra estalou no ar em salto mortal desaparecendo no ouvido. Quem escrevia ouviu: "Serpente" e endireitou as costas como as serpentes se endireitam para o ataque. A imagem daquele corpo esguio hipnotizava quem escrevia: viu na folha branca o corpo maleável da cobra, a língua repetitiva como as marés, os olhos poderosos em forma de luas. Disse a serpente: "Não me escreverás!" e quem escrevia obedeceu. No sono quase acordado quis desculpar-se. Disse: "Há textos que ficam por dentro" e, ao engolir a saliva, engoliu o texto inteiro que trazia na ponta da língua. Só a serpente ficou no ouvido, as oito letras muito juntas e flexíveis dormindo contra o tímpano. Naquela noite a palavra maleável falou outras palavras e no ouvido nasceram outras letras. Quem escrevia acordou e escreveu o que a serpente lhe ditava.

Era, por assim dizer, a corrupção de quem escrevia, a perdição, a salvação.

O pecado original da escrita.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

O poço

É certo que fomos de mão dada ao fundo do poço e vimos as trevas (ou talvez tenhamos antes cegado e nesse caso não vimos nada, o que vai dar ao mesmo, porque no fundo do poço o cenário é negro e a vida também). Um dia também nós, os mensageiros dos deuses, fomos negros, levámos outros a enterrar no poço e descemos com eles até a um certo degrau em que a tocha morria num suspiro. Peço-te: não esqueças as tuas origens, volta comigo àquele poço, anda sentar-te naquele degrau. Fomos e viemos carregando corpos de outros às costas. Pergunto: o que seria da vida e da morte sem nós, os caminheiros? Orgulha-te de quem és, meu amor, ninguém é superior a isto, nem mesmo os deuses (eles não sabem o que é a vida nem a morte). Lembro-me do deus das trevas, que nos deu a provar o néctar do fim do mundo. Lembras-te? A mão de Hades à beira dos nossos lábios e nós a morrer um pouco mais do que antes. Repara que essa espécie de morte nos deu outra espécie de luz. Confesso: fico grata à morte por isso. Lembra-te que saímos sempre do poço à força destes braços, eu e tu empoleirados nas costas dos que ficavam no fundo, os embriagados de morte. Somos um pouco mais vivos do que os vivos graças a estes braços, a este poço, a esta morte. Lembra-te dos que nasceram no poço e nunca saíram de lá por não conhecerem o segredo da vida, os filhos dos mortos que corriam atrás de nós pelas escadas. Tinham tanta sede de vida que nos comeriam, se alguma vez nos tocassem. Por tudo isto te digo que somos nós os homens verdadeiramente felizes. Estou grata à vida por poder saborear o teu beijo, mas os vivos não apreciam a beleza das coisas, são como os filhos em berços de ouro, incapazes de dar valor ao próprio ouro. (É trágico ser-se vivo.) Escuta a melodia do nosso andar, pé ante pé, somos tão serenos e sabedores. O lugar da paz está aqui, entre um mundo e o outro, tenho a certeza. Por isso te digo: "Senta-te comigo neste degrau!", a meio do poço. Erguemos a cabeça e faz-se luz, baixamo-la e é noite escura, olhamos em frente e somos apenas. Admite: Somos felizes. No final, depois de tudo isto, quando não houver lugar para a vida nem para a morte, verás como nós, os mortos-vivos, subiremos este poço, pé ante pé, serenos e sabedores como dantes. Será uma outra espécie de morte. Uma outra espécie de vida.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Dores de crescimento

Chorava convulsivamente porque tinha feridas no corpo e nódoas sempre negras. (Esclareça-se: ninguém lhe fizera mal.) Na verdade todos a tratavam demasiado bem e nem mesmo em criança ela caía ao chão. O pai dizia que tal se devia ao facto de a pequena andar sempre ao colo da mãe; a mãe dizia que não, que a pequena tinha um equilíbrio de rã, as pernas muito assertivas e os pés muito estáveis.
A adolescente dançava ballet desde cedo e só tinha fatos que lhe cobrissem as costas por causa das manchas horríveis de alergias inventadas. Quando lhe apareceu o primeiro pêlo negro na púbis, chorou horrorizada em frente ao espelho e arrancou-o com uma pinça. Tal era a sua obsessão que, ao lhe perguntarem o que queria ser quando fosse grande, em vez de bailarina, a menina respondeu "perfeita".
Certa vez diagnosticaram-lhe uma arritmia no coração e ela achou que o seu corpo já não tinha música. Não queria ir ao ballet e logo a seguir deixou de dançar. Depois, por as borbulhas lhe cobrirem o rosto e as ancas terem inchado, declarou que não iria mais à escola.
A mãe desesperou e levou-a a uma psicóloga com dentes amarelos. A adolescente mal falava e não ouvia, não gostava de ler nem de pintar nem de escrever e, agora, nem mesmo de dançar. Por isso, a psicóloga ofereceu-lhe um bilhete para uma exposição dizendo: "Aqui está a tua cura!". A rapariga queria curar-se da sua falta de perfeição, por isso, nesse dia e em segredo, foi ao centro cultural.
Nas paredes havia quadros da Frida Kahlo e a adolescente, ao ver as feridas de Frida, calou as suas. Viu os auto-retratos e auto-reflectiu. Havia pregos no corpo, uma coluna vertebral de ferro, camas de hospital. A rapariga saiu da exposição muito calada, comprou um poster do quadro "A Coluna Quebrada", afixou-o no quarto e não contou a ninguém o que vira.
Nessa noite a rapariga sonhou com o corpo enrolado em gesso, tão igual ao dos egípcios depois da morte: queria gritar e a sua boca mumificada era muda, queria fugir e os seus pés de anfíbio desequilibravam-se, caíam, nunca se levantavam. Ao acordar libertou-se dos lençóis e da roupa como quem sacode insectos, abanou o corpo e assim ficou muito tempo, completamente nua e sentada no chão.
De repente, assaltou-a um pensamento. Repetiu: "As feridas definem-nos!". Ouviu por dentro o coração sem ritmo e entendeu-o.
A adolescente concluiu: "Preciso de auto-retratar-me!" e ficou nua todo o dia, à excepção dos sapatos de ballet que entretanto calçara. Dançou sem música: deu saltos impossíveis e pousava certeira no chão, estava quase sempre em pontas, cheia de pontaria. Ao desequilibrar-se a primeira vez riu-se: era preciso conhecer os limites. Por isso, no dia seguinte, quando a psicóloga perguntou como se sentia, só a adolescente percebeu o que disse:
"Mal posso esperar por cair!".

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Dança africana

A negra bate com o pé no chão e nasce poeira dos seus pés descalços, nasce vida e ar (na verdade nascemos todos juntos por baixo dos pés da negra, muito pequenos, insignificantes, desnecessários). Batem batuques e já não sabemos quem chegou primeiro, se o pé da negra ou os batuques porque estão em perfeita sintonia. É enorme esta negra mas é como se não fosse, pois a sua leveza é própria dos que habitam as nuvens. Fazemos-lhe uma vénia, daí ela parecer maior ainda. Bate com o pé no chão e o outro pé bate de seguida, muito irmãos, e o corpo vibra com as ondas invisíveis dos batuques. A negra abana avolumada as ancas aveludadas, bem-aventuradas e sai-lhe música do ventre. É a própria terra que canta através dela e o que parecia um caos é agora ordem, por o seu corpo ser a origem de todas as coisas. A negra tem um tambor por dentro e quando bate o pé no chão, temos a certeza de que esse é o primeiro batuque do mundo, o primeiro som, a palavra de ordem. Lembramo-nos: "No princípio era o Verbo" e vemos nesta negra o corpo e a alma do início. Queremos comunicar. Por isso levantamo-nos e batemos com o pé no chão. A negra leva-nos pela mão e estamos em perfeita sintonia. Pensamos: "Um pouco mais de inocência para sermos autênticos" e tentamos esquecer-nos de nós próprios. A certa altura conseguimos e abrimos os braços para o mundo. Somos apenas poeira por baixo dos pés da negra.