sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Dança africana

A negra bate com o pé no chão e nasce poeira dos seus pés descalços, nasce vida e ar (na verdade nascemos todos juntos por baixo dos pés da negra, muito pequenos, insignificantes, desnecessários). Batem batuques e já não sabemos quem chegou primeiro, se o pé da negra ou os batuques porque estão em perfeita sintonia. É enorme esta negra mas é como se não fosse, pois a sua leveza é própria dos que habitam as nuvens. Fazemos-lhe uma vénia, daí ela parecer maior ainda. Bate com o pé no chão e o outro pé bate de seguida, muito irmãos, e o corpo vibra com as ondas invisíveis dos batuques. A negra abana avolumada as ancas aveludadas, bem-aventuradas e sai-lhe música do ventre. É a própria terra que canta através dela e o que parecia um caos é agora ordem, por o seu corpo ser a origem de todas as coisas. A negra tem um tambor por dentro e quando bate o pé no chão, temos a certeza de que esse é o primeiro batuque do mundo, o primeiro som, a palavra de ordem. Lembramo-nos: "No princípio era o Verbo" e vemos nesta negra o corpo e a alma do início. Queremos comunicar. Por isso levantamo-nos e batemos com o pé no chão. A negra leva-nos pela mão e estamos em perfeita sintonia. Pensamos: "Um pouco mais de inocência para sermos autênticos" e tentamos esquecer-nos de nós próprios. A certa altura conseguimos e abrimos os braços para o mundo. Somos apenas poeira por baixo dos pés da negra.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Espaço

Nesta noite somos enormes. Esticamos a cabeça e temos nuvens agarradas ao cabelo, damos um passo e estamos fora do mundo. Arrancas a lua do céu e ofereces-ma dizendo: "Para que não te percas nesta noite escura!". Faço um colar de meteoritos e meto a lua ao centro. És tu que prendes a fita à volta do meu pescoço (é um colar lindíssimo). Queremos ir para longe, por isso damos cinco passos e estamos em Neptuno, onde a noite é fria e azul. Falamos sobre o mar e os teus olhos são agora água, neles mergulho feita sereia. Digo: "Tenho frio" e levas-me ao colo até Vénus. Sentamo-nos de frente para o Sol e as pernas baloiçam no espaço. Chamas-me: "Princesa vermelha" e a tua boca pega fogo. Toco ao de leve na Terra e ela roda sobre si própria muito rápido. Rimo-nos do movimento e rodamo-la um pouco mais. Esticas os braços enormes e pegas em Saturno. Exclamo: "Que bonito!". Despe-lo com cuidado e pões-me o seu anel no dedo. Gritas: "O universo é nosso!", mas não temos pressa de partir. Guardamos os planetas e as pequenas luas nos bolsos e procuramos um espaço vazio. Damos cinco passos e estamos num sítio deserto. Aí ficamos muito tempo. A jogar ao berlinde à luz das estrelas.


A propósito do poema de Jorge de Sousa Braga:
"Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno.
E quase ia morrendo com o receio de que ele não te coubesse no dedo."

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Arlequim

Cheirava a jasmim o meu primeiro amor e tinha um fato de muitas cores. Declamava: "Morra o Dantas! Morra!" e quando dizia: "Pim!", eu ria até ao fim do dia. Cantávamos juntos a canção do alecrim e os dias eram assim, brancos e macios como as mãos de cetim do meu arlequim.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Espécie de peça de teatro em 5 voos – 5.º voo

Qualquer coisa se passou no dia anterior porque hoje, às oito e meia, já se tratam por tu e sabem o nome um do outro. No céu estrelado dos olhos adivinha-se o sonho de cada um: no sonho dele o elevador encrava, ficam dias e noites presos no elevador que é entretanto a gruta dos ladrões, onde Ali Babá encontrara a lâmpada mágica. No sonho dela o elevador não pára de subir, sobe pelo céu como um balão, atravessa as nuvens e de repente é uma nave espacial em viagem.
Talvez ele saiba do sonho dela pois, quando o elevador chega ("plim"), ele diz: "Lá vamos nós de viagem!".
(Diz o público: "Abre-te, Sésamo" e as cortinas abrem-se.)
Ela encolhe os ombros e entra no elevador. Responde: "É uma viagem curta!" e ele encurta-a ainda mais: sai imediatamente do elevador. As portas vão-se fechando, mas ela sai a tempo. Ri o tal riso primaveril de passarinho na copa da árvore e canta: "Então!". Ele anuncia: "Sei o mapa de cor!" e ela segue-o divertida.
(Indicações cénicas: a escada de vários lances do 3.º voo aparece devagar no fundo do palco, anda sobre rodas ou emerge do chão – fica ao critério do encenador.)
Eles abrem a porta das escadas e é como se outro mundo se abrisse. Há um silêncio com eco e caminhos por descobrir. Chamam às escadas montanha e partem. Inventam histórias próprias da Disney, fazem caras assustadoras de piratas, têm vozes de monstros e imitam gritos de animais que se repetem pelas escadas. Chegam ofegantes ao 5.º andar. Ele diz: "Isto assim não custa nada!" e ela ri com dificuldade.
Olham para o céu estrelado um do outro e despedem-se cordialmente. Ela abre a porta e ele fica a vê-la. Entre um mundo e o outro, ela diz: "Não digas a ninguém onde ficam as escadas!" e agora é ele que ri. Pensa: "Fecha-te, Sésamo!" e ela larga a porta. Por causa das leis da física há uma explosão nas escadas e a porta fecha-se em queda livre.
Eles estão agora frente a frente e abrem as asas.
Quando o voo acaba, começa o beijo. Mas nós só ouvimos o eco.
Ele e ela desaparecem de cena como que por milagre e as cortinas voam.
Fim do 5.º voo. Início de tudo o resto.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Espécie de peça de teatro em 5 voos – 4.º Voo

Por volta das seis, ele cansa-se e olha para o relógio. Decide que é hora de ir para casa, desliga o computador, veste o casaco e sai. Chama o elevador e quando a pequena luz acende, faz-se luz na sua cabeça: pensa na colega do 5.º andar e é como se o dia começasse. Esfrega as mãos como Ali Babá esfrega a lâmpada mágica e pede um desejo. O elevador diz "plim" como quem cede. Ele responde: "Abre-te, Sésamo!" e as portas abrem.
(As cortinas também.)
O elevador passa sem parar no 5.º andar e ele culpa o génio pelo seu mau génio. Tem uma ideia que considera genial e carrega apressado no 3. O elevador pára no 3.º andar. Alguns colegas entram e ele sai com dificuldade.
(Voo interrompido.)
Chama o elevador, mas desta vez carrega na seta que aponta para cima e não na que aponta para baixo. Pragueja contra Sésamo por o elevador tardar (na hora de ponta para descer, era uma má estratégia querer subir). De repente, ouve-se "plim" e ele entra. Carrega no 5 e murmura irritado: "Fecha-te, Sésamo!". As portas obedecem.
O elevador aterra no 5.º e ele ordena ao génio que a colega esteja atrás das portas. Ela não está e ele desespera. Sai do elevador e espera. Decide: 10 minutos.
Passam-se 11 e a colega não vem. Ele interpreta: já se foi embora, e abana a cabeça desiludido. Chama o elevador e insulta o génio da lâmpada mágica com os nomes mais ridículos que conhece.
O elevador diz "plim" e ele nem pia, desce com as mãos nos bolsos e nada por dentro. As portas abrem no rés-do-chão e o seu queixo cai no chão: a colega surge atrás das portas vagarosas. Ele desconfia que estivesse à sua espera, mas o seu pensamento é também ele vagaroso e ela interrompe-o sem querer. Exclama: "Afinal não viemos no mesmo!" e o génio dá-lhe uma frase rápida. Ele agradece e usa-a: "Até pensei que você tivesse vindo pelas escadas!". Ela diz teatral: "Nunca!" e eles riem-se em uníssono.
O génio desaparece no fumo do cigarro. Ele e ela vão a conversar pela rua, mas infelizmente não ouvimos nada pois entretanto as portas do elevador fecham-se e as cortinas também.
Fim do 4.º voo.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Espécie de peça de teatro em 5 voos – 3.º voo

Estamos pouco depois das três e o alarme toca. Ele diz um palavrão redondo e abana a cabeça. Sempre achou aqueles exercícios uma estupidez mas obedece ao sistema: pega no casaco e dirige-se para as escadas.
(Abrem-se as cortinas. No centro do palco há uma escada de vários lances numa estrutura impossível de metal, qual Torre Eiffel, por onde descem dezenas de figurantes cabisbaixos, de casacos postos ao ombro e olhos postos no chão, numa marcha disciplinada, pé ante pé, degrau a degrau.)
No lance de escadas abaixo, ele reconhece o cocuruto da colega do 5.º andar que, por milagre, olha para cima. Sorriem. Ela diz quase num grito: "Afinal também nos encontramos aqui!".
Já lá em baixo, ele puxa de um cigarro e tudo se torna mais misterioso atrás do fumo. Diz: "Pelo menos já sabemos onde ficam as escadas!" e ela ri um riso primaveril de passarinho na copa da árvore. Falam de elevadores, de arranha-céus, de Nova Iorque, sem nunca perguntarem nada sobre o outro.
Regressam no elevador com mais oito pessoas.
(Início do 3.º voo.)
Ele diz: "Podíamos ter ido pelas escadas!" e ela responde: "Mas nós não sabemos onde ficam!". Riem-se sincronizados. O elevador pára no 1.º e sai uma pessoa de cena. Ele sugere: "Podíamos perguntar a alguém!" e ela confessa: "Não me oriento neste edifício!". O elevador pára no 2.º e saem duas pessoas. "Já sei!", exclama ele, "Roubamos a planta do edifício aos seguranças!" e ela encolhe os ombros: "Sou péssima a ler mapas!". Ele oferece-se: "Eu levo-a!" e ela aceita. Pára no 3.º e saem três pessoas. No 4.º andar, por todos os desejos se tornarem realidade, já vão sozinhos. No 5.º ela diz: "Até amanhã!" e ele responde confiante: "Não, não! Ainda nos encontramos mais logo!". Ela diz que sim e, mais uma vez, sorri.
O elevador pousa no 6.º e ele vem a assobiar enquanto recolhe as asas.
(As cortinas vão-se fechando ao mesmo tempo.)

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Espécie de peça de teatro em 5 voos – 2.º voo

A meio do dia, já meio cansado, decide que tem fome. Levanta-se, veste o casaco e sai do escritório. Chama o elevador. Não espera quase nada. O voo começa mas é subitamente interrompido no 5.º andar. Ele pede um desejo e as portas do elevador abrem-se.
(As cortinas também.)
Entra a tal colega do 5.º andar com a sua gabardina simpática e ele agradece ao céu e à terra por isso. Ela diz descomprometida: "Cá nos encontramos!" e ele, por estar com fome, parte imediatamente para a ofensiva: "Coisa que não aconteceria, se tivesse ido pelas escadas!". Ela ri-se com vontade e ele faz-lhe a vontade: ri-se por ela se rir. O elevador pára no 2.º.
Ele e ela entreolham-se surpreendidos: acaba de entrar o tal senhor mal-disposto e eles mastigam silenciosos uma gargalhada. O elevador chega ao rés-do-chão e o colega carrancudo sai de cena. Ela deseja um "Bom apetite!" e ele dá-lhe passagem. Nessa altura, por a fome ser tudo, arrisca tudo. Diz: "Olhe, quando voltar não vá pelas escadas!". Ela lança a cabeça para trás soltando uma risada sonora e ele grita por dentro: "Quem não arrisca, não petisca!". As portas do elevador fecham-se.
(As cortinas também.)
Fim do 2.º voo.