terça-feira, 4 de setembro de 2007

A casa (II)

No Sábado, o senhor do fundo da rua desceu a rua, foi almoçar fora e quando voltou, não sabia onde morava. Era um senhor muito jovem, filho único, divorciado, trabalhador por conta de outrem. Dir-se-ia que a sua intuição era boa pois não estava longe do seu prédio e a sua intenção era ainda melhor porque começou a bater à porta dos vizinhos sem pudor nem receio. Mas infelizmente, naquele bairro ninguém se metia na vida alheia porque, verdade seja dita, ninguém queria saber de ninguém e nenhum vizinho sabia ao certo onde morava o senhor do fundo da rua.
O acontecimento era verdadeiramente estranho, porque o senhor lembrava-se de tudo o resto. Começou a exercitar a memória e sabia quase tudo: o preço do café no café da rua, o horário de funcionamento, o sabor a ferrugem da água da torneira, até o nome da empregada e da filha da empregada. Chamavam-se as duas Joanas e a Joana-mãe ria-se muito alto. Quando lhe contou o sucedido, a Joana-mãe ria-se às gargalhadas, batia com as mãos nas pernas, dobrava-se ao meio com uma flexibilidade impossível. "Beba lá um café que já se lembra", mas o senhor não se lembrou.
A Joana-filha era já uma adolescente em idade avançada ou pelo menos portava-se como tal. Ria-se baixinho e andava devagar como as mulheres verdadeiramente adultas. Estendeu um caderno da escola ao senhor do fundo da rua e uma caneta muito trincada com uma tampa disforme devido à violência dos dentes contra o plástico. Disse: "Escreva um número de telefone que saiba de cor e depois ligue daqui a perguntar onde fica a sua casa". O senhor não pensou logo no carácter absurdo daquele telefonema. Pelo contrário, pareceu-lhe uma ideia de tal forma genial, que se concentrou na tarefa e desatou a escrever algarismos de forma convulsiva: o número de conta, o número da segurança social, o código postal, o número de bilhete de identidade, o código secreto do cartão multibanco, o PIN do telemóvel, a data de nascimento do filho e, de repente, um número de telefone. Mostrou o papel orgulhoso e a Joana-mãe ligou entusiasmada. Passou o telefone ao senhor do fundo da rua mas ficou do seu lado, ouvindo a conversa.
A ex-mulher atendeu e o senhor apercebeu-se de que a sua voz não tinha mudado em anos, era uma voz em estado puro, sempre tão impenetrável, impermeável, imperdoável. Teve vergonha da sua própria voz por isso não falou logo, mas a Joana-mãe bateu-lhe com força nas costas e ele tossiu as palavras. Disse com a voz dorida: "Não sei para onde ir!". As Joanas entreolharam-se incrédulas, não era uma boa maneira de começar o discurso. O senhor do fundo da rua apercebeu-se a tempo do seu ridículo e desligou o telefone. Ficaram em silêncio.
Não tinham passado 10 minutos. Certamente 5 e, com alguma probabilidade 7, mas não tinham passado 10 minutos. O senhor descia a pé e a ex-mulher subia de carro, encontraram-se a meio da rua. A ex-mulher saltou do carro num segundo como uma rã que abandona um nenúfar. Olharam-se estupefactos, há anos que não se falavam. Tinham-se encontrado 3 vezes por causa de assuntos familiares (ela dizia asneiras entre dentes, ele trincava a língua, os dois davam pontapés nas mesas, acenavam cordialmente à distância). Agora ali estavam, frente a frente, sem pretextos familiares nem o filho único, o único elo entre os dois. Ela disse: "Eu também não" e, sem darem por isso, beijaram-se. Queriam esconder-se e enfiaram-se um no outro, era uma reacção mais ou menos normal. O senhor do fundo da rua lembrou-se de repente da sua morada. Repetiu-a de si para si enquanto subiam a rua e sentiu-se aliviado quando a chave rodou na porta. Entraram em casa e não saíram durante muito tempo, embora este dado seja questionável, pois naquele bairro ninguém queria saber de ninguém e consequentemente não se sabe ao certo a que horas desceram à rua.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

A casa (I)

Tinha pânico de se esquecer das chaves de casa, por isso a senhora do rés-do-chão verificava três vezes se as trazia no bolso antes de sair. Às vezes, não confiando no tacto, tirava-as do casaco para ver com os próprios olhos se o porta-chaves de três guizos trazia as chaves consigo. Tinha o hábito de trancar a porta mesmo quando só ia à padaria do lado. Antes de sair do prédio, apesar dos guizos cantarem a cada passo, metia a mão no bolso e cumprimentava as chaves mais uma vez.
Portanto, naquele Domingo, qual não foi o seu espanto quando, no regresso a casa, tirou do bolso um porta-chaves demasiado leve. O cantar dos três guizos parecia mais pobre, como se alguns membros da banda não estivessem presentes. A senhora examinou o objecto com as mãos e verificou o impossível: o porta-chaves estava vazio, não havia uma única chave pendurada nos três guizos. O mistério era de tal forma misterioso que a senhora nem o questionou. Olhou para o chão, meteu a mão em todos os bolsos, espreitou debaixo do tapete e nada, as chaves tinham realmente desaparecido. Era um Domingo demasiado agradável para os vizinhos estarem em casa e, por ser uma pessoa informada, a senhora achou que os bombeiros não atenderiam o telefone por causa dos incêndios de Verão.
Sem pensar duas vezes, a senhora fez-se à estrada. Era a primeira vez que andava pela rua sem um destino concreto e o coração batia nervoso atrás da pele. Depois, ao dobrar a primeira esquina, o coração entusiasmou-se com tanta rua por explorar, por isso encheu-se de sangue e deu ordens ao corpo. A senhora riu-se satisfeita, estava contente por alguém lhe indicar o caminho. Dentro do bolso, os três guizos marcavam o compasso com o seu cantar. Ao longe, mais pareciam risos de meninos depois de fazerem uma asneira.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Discurso sensorial

Diz-me qualquer coisa que não seja azul nem amarela, apetece-me algo um pouco mais dramático, irónico, brutal. Toca-me ao de leve para eu me arrepiar. Preciso de um cor-de-laranja com sabor a álcool, dá-me a provar desse fósforo, sabes bem que adoro o cheiro a madeira queimada.
Diz-me qualquer coisa em degradé que comece lilás e acabe roxa como as noites no castelo do drácula. Canta-me em si menor uma sílaba fugaz de asas negras. Bato com os pés no chão e sou vampiro, vou por aí cheirar as chaminés das casas. Pouso no final da noite e fico a ouvir o crepitar lento do sangue atrás da pele.
Vamos ficar aqui, nesta praça castanha, a ver os pombos passar. Senta-te comigo aos pés da estátua, somos a pedra azeda da calçada. Um pouco mais de branco e esta tarde era perfeita, as minhas mãos a traço grosso pousadas no colo, as tuas ao fundo, desfocadas, inconcebíveis.
Grita qualquer coisa com contraste, uma palavra definitiva, imprevista, acidental.
Um pouco mais de amarelo nos olhos, por favor, para que o feitiço funcione. Dá-me água à boca, quero ser um pouco mais elástica, maleável, transparente.
O eléctrico guincha no fundo da rua como um beijo imprevisto, gosto do sabor do ferro na língua, do sol repentino à flor da pele. Diz-me qualquer coisa no tom impossível do vinho tinto e desce comigo por esta escada, dois degraus de cada vez, quatro oitavas abaixo do chão.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

A fadista

Há uma rua com poucos carros que separa as duas margens. De um lado um prédio baixo, do outro uma paragem de autocarro. No prédio baixo há uma janela com vista para a rua. A janela e a paragem estão frente a frente. Do lado de lá da janela há uma senhora reformada que se senta todas as tardes em frente à janela. Vista da paragem, a senhora mais parece um quadro e a janela uma moldura. A senhora reformada era fadista mas deixou de o ser por causa da vida e não da voz. Há meses que vem pousar à janela esperando as pessoas que esperam o autocarro. Curiosamente, o tempo pára todas as tardes e a senhora fica parada a ver as pessoas pararem na paragem. Certo dia, a solidão da senhora comoveu a própria senhora e saltou um choro da ponta da voz. O nó na garganta lembrou-a do fado, por isso pegou nas cordas vocais e tocou-as para dentro como já não fazia há muito. A senhora era viúva, portanto já estava vestida de negro. Abriu a janela e cumprimentou o público do lado de lá da rua com um sorriso. Encheu o peito de ar, esperou o primeiro acorde, fechou os olhos e pôs-se a cantar. Nesse momento o tempo acordou e fez-se ao caminho, ou seja, voltou para trás.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Toma lá, dá cá

Disse Abdullah a Alá: "Então pá, já sou presidente, estás contente?" e Alá pediu impaciente: "Opá, deixa-me cá beber o meu chá!". Abdullah sussurrou: "É para já!" e fez-se um silêncio profundo. Depois, querendo meter a colher, disse Alá a Abdullah: "Olha lá, que é feito do véu da tua mulher?" e Abdullah olhou para o céu, depois para Deus e respondeu: "Deixa lá a mulher e o seu véu. O presidente aqui sou eu!". "Mas eu é que sou Deus", respondeu Alá com cara má. "Aaaaaahh", exclamou Abdullah e enterrou-se caladinho no sofá. Disse Alá: "Anda lá, Abdullah, dá-me cá o véu! Tanto na terra como no céu, tudo é toma lá, dá cá!". Abdullah ficou sem ar e disse para o seu crachá: "Assim não dá!". Mas não há discussão possível com Alá. "E para que queres tu o véu?", lá perguntou Abdullah. E Alá recostou-se no sofá como um paxá e respondeu: "Do véu farei um chapéu do tamanho do céu para tapar os olhos dos ursos e abafar soluços. E tu, Abdullah, enfiarás o barruço". Abdullah tinha apanhado um grande susto, mas logo ficou contente por ser presidente e andar de barruço.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

A velha e o cão

A velha batia-lhe com o jornal se o visse, por isso ele esperava que a dona fosse à cozinha. O cão apoiava-se então nas patas traseiras, levantava a mão da frente e coçava a nuca com enorme fúria. Por vezes, a velha apanhava-o em flagrante e enrolava o jornal com as mãos muito trémulas. Enquanto lhe batia, cuspia asneiras entre lábios já que não tinha dentes e dizia-lhe que era mau, que as carraças vinham da mão de Deus, que ele seria punido depois da morte no Inferno por ser um cão tão reles. Em certos dias não lhe dava de comer para o castigar ainda mais e o cão já nem gania de lamento.
Certa manhã, a velha deu com o cão ao lado do sofá, deitado quase de costas. "Queres mimo, queres! Cão imundo, em ti não te toco eu!", jurava a velha e depois praguejava em silêncio, o queixo balbuciando alguma verdade. De facto, o cão estava deitado em posição de festinhas, mas já estava morto havia dias e a velha tardou em aperceber-se disso. Até que, certa vez, reparando que o peito do cão não crescia nem encolhia, lá sentenciou: "Vais pró Inferno!". A velha sentou-se no sofá com a ajuda da bengala enterrada na carpete. Explicou ao cão que o criado de Lúcifer o viria buscar e resolveram esperá-lo juntos durante dias, a velha no sofá e o cão a seus pés, deitado quase de costas, a língua desenrolada no chão. A velha só então se apercebeu do comprimento exagerado daquela língua. Possivelmente, articulando-a bem, aquele cão conseguiria falar. Assim como assim já era tarde para isso pois os mortos não falavam perante o Diabo.
Finalmente alguém abriu a porta da rua. A velha ajeitou a almofada satisfeita, o criado que viesse levar o cão imundo. Mas em vez do mensageiro de Lúcifer, entravam afinal a filha e o genro, um ao lado do outro, gordos como balões. Já não os via há anos, a filha estava cada vez mais feia e ficava ainda mais horrível quando vociferava por causa das veias em relevo no pescoço. O que a filha dizia era incompreensível, a sua dicção era péssima, antes fora que lhe tivesse amarrado uma língua de cão à boca quando a ensinara a falar. A velha levantou-se e disse que não era boa hora para estarem ali, pois esperavam o criado de Lúcifer. Depois coçou a nuca em compasso de espera, mas nenhum dos dois arredava pé. O genro disse qualquer coisa incompreensível à filha, mas esta não respondia, parecia em estado de choque. É que a mãe, em vez de falar, ladrava e tinha carraças no corpo todo.
Cão que ladra não morde, dizia o genro de si para si. Era um pensamento deveras estúpido.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Olhos em bico

Aquele menino chinês tinha os olhos em bico. Tão em bico, tão em bico, que mais parecia que os trazia sempre fechados. Ninguém sabia dizer qual a cor dos seus olhos (nem mesmo a mãe) pois, tanto ao longe como ao perto, nada se via no meio das quatro pálpebras quase unidas além de uma pequena fresta sem brilho. "Abre bem os olhos", mandava a mãe, mas o menino chinês só os abria enquanto dormia. Pelo menos assim dizia a irmã mais velha, que acordara numa certa madrugada e vira os olhos do irmão muito abertos para a noite escura. Revelava com um tom grave à família: "São castanhos-mel como os do pai".
Numa manhã de Inverno, decidida a desvendar aquele mistério, a mãe anunciou que ia levar o menino ao médico estrangeiro. A família levou as mãos ao peito com o susto e foi despedir-se dos dois parentes à porta de casa. Mãe e filho caminharam quilómetros até à aldeia mais próxima, onde vivia o médico. Dizia-se do estrangeiro que era melhor que os curandeiros, que via o que era visível e invisível, que tinha olhos tão redondos que pareciam nunca respirar.
O médico estrangeiro apertou com força a mão da mãe, depois a do filho, aceitou o dinheiro, contou-o com destreza e mandou-os sentar. Com uma mão desajeitada abriu as pálpebras do menino e observou com um só olho o olho do paciente. Depois pegou na lupa e examinou com um olho enorme os pequenos olhos misteriosos. O menino parecia interessado no efeito da lupa porque, ao ver o olho gigante do médico estrangeiro, abriu um pouco mais os olhos. A mãe disse "Óóóóó" com a boca em forma de lua cheia. O menino agarrou na lupa e o médico deixou que ele brincasse com ela. Doutor e paciente trocaram então de papéis e o menino de olhos quase fechados examinou o médico através da lupa. De repente, como que por milagre, o olho do menino abriu-se completamente, tinha agora o tamanho de um ovo cozido e a cor era castanho-mel como dissera a irmã. "Tens olhos de Outono" dizia a mãe e o estrangeiro escreveu decidido num caderno. O menino voltou a semicerrar os olhos, a mãe abriu-os o mais que podia. O médico apoderou-se da lupa, arrumou-a, sorriu por dentro e por fora. Diagnosticou num chinês imperfeito: "Este menino precisa de óculos".