quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Erros de pontuação

O professor de português, que era uma pessoa ponderada, profunda, progressista, pró-activa, mandou: "Escrevam uma composição sobre as várias fases da vida!" e os alunos escreveram. Nessa noite, o professor sentou-se contente à secretária para corrigir os trabalhos. Um dos rapazes, que era mau aluno, mau escritor, mal amado, malcriado, mau humor e mau-olhado, escreveu um texto com vários erros de pontuação. O professor abanava a cabeça enquanto lia. Pensou: "Este rapaz não respira enquanto escreve" e releu o texto para o corrigir:

"Há três fases da vida: a infância a adolescência e a vida adulta, a diferença entre elas prende-se com a forma como a felicidade é encarada, senão vejamos: as crianças dizem que estão felizes quando estão felizes e que estão tristes quando estão tristes para que os outros saibam como se sentem, os adolescentes dizem que estão tristes mesmo quando estão felizes porque acham que estão sempre tristes e os adultos dizem que estão felizes quando estão tristes e que estão tristes quando estão desesperados porque acham que controlam o que sentem e não querem que os outros o saibam, assim a fase mais feliz da vida é a infância porque as crianças sabem o que querem."

O professor concluiu: "Este rapaz põe vírgulas quando deve pôr pontos e não põe nada quando deve pôr vírgulas!". Levantou-se e foi à casa de banho. Por uma estranha associação de ideias, o professor lembrou-se do ponto de interrogação e fez várias perguntas aos seus botões. Depois desenhou mentalmente um ponto e vírgula e respirou fundo. Sentou-se à secretária, corrigiu o texto do mau aluno a vermelho e escreveu no final: "Atenção aos sinais de pontuação".
De seguida o professor fechou a caneta e ficou a olhar para ela alguns segundos. Pensou: "Abre um parêntesis" e, de repente, sem pré-aviso, começou a chorar convulsivamente como nunca chorara antes. O seu descontrolo era tal que chorou até adormecer de exaustão.
Acordou de madrugada com a cabeça em cima do mesmo texto, tinha os olhos inchados e a boca seca. Leu a frase a vermelho: "Atenção aos sinais de pontuação" e releu-a várias vezes. O professor não percebia o que lhe tinha acontecido e quis fingir que nada se tinha passado. Pensou: "Ponto final, parágrafo" e gritou enraivecido: "Fecha parêntesis, fecha parêntesis!". Dir-se-ia que o professor não conseguia controlar o que sentia.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Frustrações

Há duas coisas que detesto:
uma é ter um chocolate no bolso e descobrir que está derretido;
outra é que me passem à frente na fila como quem não quer a coisa.

A primeira frustração é de mim para mim:
recrimino os meus bolsos, revolto-me, engulo a água contracorrente que nasce na boca.

A segunda frustração é de mim com os outros:
somos tristes, estendemos a tigela para a sopa e comemo-la em silêncio, mais sozinhos do que queríamos.

O chocolate derretido no bolso dá-me vontade de bater com a mão na minha testa.

Quando me passam à frente, dá-me vontade de bater com a mão na testa dos outros.

Lembro-me agora que bato mais na minha testa do que na dos outros.

Hipótese:
talvez ponha chocolates no bolso com mais frequência do que perco o meu lugar na fila.

Tento contar com os dedos das mãos e apercebo-me:
nunca bati com a mão na testa de ninguém.
Nunca. E sinto-me frustrada com isso.

Bato na minha testa para aliviar a frustração, mas ela estala na cabeça e permanece.

Cresce-me água na boca.
Imensa água na boca.

Vou por aí bater na testa dos outros.
Como quem não quer a coisa.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Conversa de final de dia

Um amigo disse ao amigo: "Epá, isto em Espanha deve estar um calor!" e o outro acrescentou: "Devíamos lá estar agora!". Os dois beberam da cerveja, daí o silêncio repentino. O primeiro amigo era mais demorado do que o outro, mais sôfrego, mais entusiasmado. Por ser melhor bebedor, tinha mais ideias e nesse segundo propôs: "Epá, podíamos fingir que íamos de férias! Só para chatear a malta. Tirávamos dias, fazíamos reservas, líamos guias. O pessoal ia ficar cheio de inveja!". O outro considerou a sugestão e olhou para o copo como quem procura respostas. Bebeu um gole demasiado curto e perguntou: "E depois íamos mesmo para Espanha?". O outro abriu os olhos atrás do copo, acenou com a cabeça, engoliu a cerveja à pressa. "Claro, íamos de sandália no pé e chapéus no cocuruto! E depois chegávamos lá e fingíamos mesmo que éramos turistas, só para chatear os trabalhadores da praia. Iam pensar: Olha, dois turistas contentes! e roíam-se de inveja." O outro ficou contemplativo, parecia gostar da ideia. Perguntou ainda: "E por que não vamos mesmo de férias para Espanha?". Houve um silêncio quase demorado, durante o qual nenhum dos dois bebeu da cerveja por acabar. Olharam-se surpreendidos, depois o menos bebedor sorriu e começaram os dois a rir muito alto. Foi um riso em simultâneo, escorregavam nas cadeiras com o peso das gargalhadas. Depois brindaram com lágrimas nos olhos, ainda riam enquanto bebiam, um engasgou-se, o outro não. Disse o melhor bebedor: "Que ideia tão estúpida!" e o outro desatou a rir outra vez.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Os leitores

No lançamento do seu livro, o escritor anunciou: "Não escrevo mais". Os leitores ficaram em estado de choque, preocuparam-se com o escritor e depois com o homem atrás do artista. Depois olharam para os seus umbigos e preocuparam-se com as suas leituras de Verão, alguns desmaiaram, degeneraram, desidrataram. Alguém disse: "Há tomates espanhóis no supermercado" e os leitores afluíram sôfregos ao supermercado, compraram tomates, comeram alguns e os outros atiraram ao escritor demissionário. A associação de protecção dos leitores tomou medidas imediatas, marcou a greve para os meses do Verão causando o caos no mundo livreiro. Fecharam-se livrarias e editoras, queimaram-se livros, penduraram-se cartazes na rua: "Queremos artistas responsáveis". Numa manifestação de 20 mil pessoas em Lisboa, várias dezenas de leitores invadiram a casa do escritor, amarraram-no à sanita, pontapearam-no. Depois soltaram-no, arrastaram-no até à rua, levaram-no para a prisão. Deram-lhe uma caneta e um caderno. Ordenaram: "Escreve!" e ele escreveu porque estava desesperado (o desespero inspira). Os leitores voltaram a ser felizes.
Meses mais tarde, o escritor disse: "Não escrevo mais!" e os leitores pontapearam-no outra vez. Num fôlego sofrido que parecia o último, o escritor murmurou: "Não consigo escrever!". Os leitores acharam o caso realmente insólito, discutiram o caso, chamaram um especialista. O médico dos artistas chegou a horas, examinou o escritor, deu ordens: "Abra a boca!", "Diga Aaaaaaaah!", "Inspire!", "Expire!", "Levante-se!", "Sente-se!". No final o doutor arrumou o estetoscópio e fez uma careta grave. Disse: "Tem falta de abstracção!" e os leitores ficaram horrorizados, era uma doença rara, quase sem cura, havia quem morresse disso. Que fazer?
Os leitores reuniram-se em plenária para a votação final e decidiram falar com a musa inspiradora. Ao vê-la, o escritor sorriu, a musa deu-lhe um beijo seco e perguntou: "Então, já passou?" e ele abanou a cabeça desanimada. A musa saiu da cela encolhendo os ombros e anunciou aos leitores: "O escritor precisa de férias!". Os leitores revoltaram-se, ameaçaram processá-la, atiraram cadeiras ao ar, apresentaram contas, diziam percentagens. Mas a maré vazou e com ela partiu a musa inspiradora na sua barca silenciosa. Marcaram encontro para o dia seguinte.
Após uma negociação que se arrastou por mais de uma semana, os leitores e a musa celebraram um contrato, no qual os leitores se comprometiam a dar anualmente uma semana de férias ao escritor. Soltaram o prisioneiro numa cerimónia orquestrada e o escritor partiu de Belém com a musa. Os leitores despediram-se dele no cais, abanavam as cabeças com os soluços e os lenços brancos com as mãos. O escritor ficou a vê-los e, de repente, começou a chorar. A musa inspiradora levou as mãos à cabeça, disse-lhe palavras meigas, lamentou para dentro: "Artistas!". O escritor ficou muito tempo de olhos postos em Belém. Depois pediu à musa: "Não me leves para longe!" e começou a escrever. Tinha saudade da prisão.

PS – Esta história baseia-se num único facto real: há quem vá de férias amanhã e só volte para a semana, ou seja, dia 20 (escusam de me procurar por aqui entretanto)! O resto é tudo ficção: o escritor só podia ser inventado, os tomates não vinham de Espanha, a musa era uma boneca mecânica, o médico nem sequer tinha canudo e os leitores eram muitos mais violentos (tive a aligeirar a coisa).

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Mais olhos que barriga

O filho diz à mãe: "Tenho mais fome que barriga!" e a mãe corrige-o. O menino não percebe como é possível ter-se mais olhos que barriga e está na idade dos porquês, por isso pergunta: "Porquê?". A mãe explica que, quem tem mais olhos que barriga come mais com os olhos do que com a barriga. O menino fica chocado, estava realmente convencido de que só se podia comer com a boca. Pergunta: "Como é que se come com os olhos?" e a mãe ri-se. "Quem tem mais olhos que barriga, tem olhos muito maiores do que a barriga, ou seja, tem mais vontade de comer do que fome". O menino olha para o seu umbigo e imagina-se com olhos maiores do que a barriga. Pensa: tinha de ter olhos enormes para serem maiores do que a barriga. Assustado com o pensamento, quer saber: "E quem tem mais olhos que barriga?". A mãe diz com um ar dramático: "O lobo mau". Riem-se os dois e a mãe explica: "De vez em quando, toda a gente tem mais olhos que barriga!". Com a ajuda dos dedos, o menino abre muitos os olhos e espreita o seu reflexo no vidro. Não, não tem olhos maiores do que a barriga. O menino parece mais aliviado. Depois olha para a barriga da mãe e fica com medo. Pergunta: "De vez em quando também tens mais olhos que barriga?" e a mãe responde divertida que sim. O menino quer saber quando, mas a mãe não sabe dizer. "E o pai gosta de ti na mesma?". A pergunta surpreende-a, provoca-lhe risadas, é a vez de a mãe perguntar "Porquê?". O menino encolhe os ombros e diz: "Não sei! Com essa barriga tão grande, deves parecer um monstro!".

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Com a cabeça no tecto

A senhora do metro informa-me: "Para o mês que vem já não tem desconto!" e eu, apesar dos bons ouvidos e do raciocínio rápido, pergunto: "Como?". A senhora do metro explica-me que no próximo mês já não tenho idade para ter desconto para jovens. Esboço um sorriso esclarecido, compro o último passe com desconto e desço as escadas rolantes. O metro tinha acabado de passar e fico à espera do próximo. Enquanto espero, olho para dentro, penso na vida (há dias assim): eu e os meus pais a rirmo-nos, eu de olhos fechados na praia, eu a vir da escola com o João, eu a correr para o comboio, eu a beber café, eu e a Marta no trem velho, eu e a Isabel nas Avencas, eu na faculdade de tantas letras, eu e o Henrique no Pico, eu no aeroporto de Lisboa, a minha mãe a dizer: "Não chores!", eu noutras cidades, noutros aeroportos, noutras vidas. Depois faço planos: casar, ter filhos, escrever um livro, plantar uma árvore, comprar uma casa, ter desconto para reformados. Finalmente começo a rir de mim própria, abano a cabeça, lembro-me do Peter Pan, do nosso pacto de sangue, da Sininho aos pulos, da Terra do Nunca e, de repente, bato com a cabeça no tecto.
É que entretanto tinha começado a voar na paragem do metro e nem tinha dado por isso. Tenho uma sensação de vertigem quando olho para o chão, mas abro bem os braços e equilibro-me. Digo: "Detesto o metro" e voo dali para fora. Quando chego à rua, já voo a grande velocidade. Sem querer, arranco o chapéu de uma senhora e peço desculpa num berro. Um miúdo com óculos de Harry Potter corre atrás de mim e grita-me: "Então e a vassoura?". Olho para ele divertida, o cabelo à frente da cara: "Não sou dessa geração!" e a mãe do rapaz, que o espera nas escadas do metro, sorri-me um sorriso cúmplice. O miúdo acena-me, eu aceno, a mãe acena. Mãe e filho reúnem-se outra vez na entrada do metro, abraçam-se e ficam a ver-me desaparecer nas nuvens. Penso: "Gosto do vento!".

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Lei de Murphy

Independentemente da hora a que acordasse, o engenheiro era sempre o último a chegar ao trabalho. Se acordava cedo, atrasava-se. Se acordava tarde, já era tarde. Se ia de carro, a sua fila era sempre a mais lenta. Se ia de autocarro, perdia-o (mesmo que corresse), sendo que o segundo tardava sempre em chegar. Praguejava: "Cabrão do Murphy!".
O engenheiro começava a fumar pelas 7 da manhã, assim que saía de casa. Quando chegava à paragem, esmigalhava a beata contra o chão. Se viesse cedo, ainda arriscava acender outro cigarro, mas o autocarro teimava em chegar depois do primeiro bafo. Conclusão: a sua manhã começava invariavelmente mal.
Até que, numa noite como as outras, antes de adormecer, o engenheiro disse de si para si: "Já sei!" e no dia seguinte acordou tarde, cantou no duche, comeu torradas com manteiga, beijou a mulher antes de sair de casa, assobiou pela rua.
Quando chegou à paragem disse entre dentes: "Toma, cabrão!" e acendeu um cigarro com o gesto perfeito das estrelas de cinema. Como previsto, depois do primeiro bafo, o autocarro chegou. O homem riu-se de felicidade. Afinal também havia maneira de contornar a lei de Murphy, o engenheiro sentia-se todo-poderoso. Começou a chuviscar, mas o homem não quis saber da água nos ombros (pela lógica, amanhã traria o chapéu-de-chuva e não haveria chuviscos). Pisou o cigarro recém-aceso e quando ia a entrar no autocarro, ouviu atrás de si: "Mas o que é isto?".
Era um agente da autoridade e o engenheiro olhou-o com respeito. "Sabe que pode ser multado por deitar coisas para o chão? Limpe lá as pontas dos cigarrinhos!". A porta do autocarro fechou-se antes de o homem entrar mas, mesmo assim, o engenheiro petrificou em frente à estrada e assim ficou durante cinco segundos, a sentir o peso da chuva nos ombros. O polícia esperou-o pacientemente. O engenheiro baixou-se e apanhou as duas beatas em silêncio. Praguejou para dentro: "Cabrão do Murphy!". Não havia recipientes do lixo ali perto, por isso o homem atravessou a rua, desceu até à rotunda e deitou as beatas num contentor verde.
Voltou para a paragem e o polícia felicitou-o pelo acto. Depois deu-lhe uma breve lição de cidadania. Não se contendo, o engenheiro declarou gravemente: "Vou fazer queixa de si!" e o outro riu-se indignado: "De mim? A quem? Aqui quem manda sou eu!". Desafiaram-se com um olhar afiado, afinado, afidalgado. O engenheiro tirou um bloco de notas do bolso da camisa. Depois tirou uma esferográfica barata, olhou-a com interesse, apertou-lhe a cabeça e a caneta fez clic-clic. Pediu com ar importante: "O seu nome, por favor" e na boca do outro explodiu uma gargalhada, tinha agora o queixo e o peito para fora.
"Chamo-me Murphy!", disse o agente já recomposto, "Escreve-se com ph e tem um ípsilon no fim". O engenheiro petrificou outra vez e foi homem-pedra durante cinco segundos. Entretanto, ao fundo da rua, aparecia mais um autocarro mas nenhum dos homens deu por isso. O engenheiro escreveu demoradamente o nome do polícia enquanto este o soletrava. Desafiaram-se outra vez com os olhos. O homem viu o autocarro, quando este já estava parado à sua frente, mas não quis correr. Tinha medo do ridículo.
O polícia afastou-se devagar e atravessou a rua fora da passadeira. Gritou-lhe já do outro lado: "A minha lei é transcendente!". O autocarro partiu e o engenheiro petrificou outra vez em frente à estrada. E agora sim, chovia torrencialmente.