segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Discurso falacioso

Tenho pouco tempo. Tenho muitas ideias. Logo, tenho muitas ideias em pouco tempo. Tenho pouco tempo para as ideias que tenho. Tenho muitas ideias para o tempo que tenho. (Não tenho tempo, logo não tenho ideias.) Se tivesse metade do tempo, teria metade das ideias. Preciso de um quarto de tempo para um quarto das ideias. Quero apenas uma ideia. Quanto mais tempo, mais ideias tenho. O tempo que tenho é proporcional à quantidade de ideias. Tenho muitas ideias, logo tenho muito tempo. Preciso de limitar o tempo para limitar as ideias. Divido o tempo em unidades. Conto as ideias que tenho. Tenho uma ideia por cada 100 unidades de tempo. Tenho 100 unidades de tempo, logo tenho uma ideia. Tenho 50 unidades de tempo, logo tenho metade de uma ideia. Perco todo o tempo que tenho para uma ideia. Tenho poucas ideias porque demoro muito tempo a tê-las. Tive uma ideia. Logo, tenho muito tempo. Para ter duas ideias demoro o dobro do tempo. Quanto mais ideias tenho, mais tempo terei para elas. Preciso de ter ideias para criar tempo. (Não tenho ideias, logo não tenho tempo.) Tenho todo o tempo do mundo para as minhas ideias.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Vermelho

Era uma tarde quase noite e estávamos no sofá. Dizíamos palavras vermelhas que saíam pesadas e vagarosas, letra ante letra. Por vezes, entrava pela boca um vinho arredondado que penetrava as veias, confundindo-se com o próprio sangue. Quando a tarde foi noite já a cor volumosa do néctar tinha manchado os teus lábios e lembro-me disso, do vermelho líquido e espesso do primeiro e único beijo (duas línguas répteis entrançadas num nó direito). Nessa altura éramos apenas duas bocas, tínhamos a cor inquieta das cerejas. Disse-te: Engole-me! e a tua boca abriu-se um pouco mais, pegou-me ao colo, pousou-me devagar. Foi uma noite bonita. Obrigada por me trazeres na tua língua, gosto da tua boca por dentro, de mergulhar na tua saliva, de ver as estrelas do teu céu vermelho.


(Daqui a muitos anos talvez alguém nos encontre no fundo do lago, à sombra dos nenúfares: tu agora concha e eu redonda, em forma de pérola.)

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

A cozinheira preta

Jamais se esqueceria dela, do volume da cozinheira na casa, as ancas enormes, o peito pato-do-mato, as pernas grossas e as panelas redondas nos braços duros. Ninguém se lembrava do nome da cozinheira e agora, que o tempo era cada vez menos real, o seu rosto era cada vez mais difuso. Um dia a mulher decidiu que a cozinheira era parecida com Cesária Évora, substituindo-a para sempre pela cantadeira. De tal forma que, quando ouvia o primeiro verso de Sodade se lembrava da cozinheira a cantar para os tachos, o dialecto sempre risonho e o nariz dilatando no vapor da cozinha, como se a canção fosse dela. Quem mostra' bo ess caminho longe?, perguntava-se agora. Naquele final de tarde lembrou-se da cozinheira. Estava em Gibraltar com os filhos e a mais nova apontou para o mar dizendo: "Ali já é África". O pai falou da Conquista de Ceuta e a mulher ficou a pensar na sua. Veio-lhe à memória a despedida, a cozinheira rindo sempre, o choro da menina a colar-se ao corpo como suor.
A cozinheira enorme, agora com o rosto de Cesária Évora, dizia-lhe com o mesmo sorriso: "Se calhar é melhor assim, menina, cada um para seu lado, assim fica tudo preto no branco. Talvez não voltes mais aqui, mas não tem mal, desde que faças coisas boas do outro lado. A vida é como os tachos da cozinha, menina, não se sabe o que fazer com ela até lhe darmos uso. É preciso aprender a mexer nos tachos, é muito difícil, tudo tem a sua medida certa, o seu tempo de cozedura, é preciso prestar atenção aos pormenores. Não te esqueças dos pormenores, menina. Faz coisas boas na vida, cozinha bem, convida os teus amigos para a tua casa, arranja um moço bonito, dança kizomba com ele, dança sempre kizomba!".
Estava frio e era tarde. Os miúdos entraram no carro primeiro, o pai abriu a porta da frente, ela a do outro lado, quase sincronizados. Olharam-se antes de entrar. Ele perguntou: "Que fazemos agora?" e ficou um segundo suspenso a olhar para ela. Ela pensou: "O moço bonito" e disse: "Vamos dançar".

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Agosto

Entre, entre, Senhor Agosto, muito gosto, sente-se aqui neste encosto que eu ando bem coxo, o que o traz a este posto, belo cachopo, espero que seja o ar de Agosto e o fogo posto no corpo dos moços, venham inglesas mete-nojo com cinturinhas pele e osso, venham 40 graus e postas de bacalhau, haja grilos e mamilos tranquilos que eu ando farto disto, quero o povo em alvoroço e biquinis de mau gosto, que em Agosto é tudo nosso, não há desgostos nem impostos, só azeitonas sem caroços, pernas ao léu de tirar o chapéu e o resto é céu estrelado, um beijo doirado no novo namorado e noites longas como as ondas, um corneto da Olá a andar de cá para lá, uma cerveja para já, a praia da Rocha bem-disposta e a merenda às costas, a tenda atrás do arbusto (ai, que susto) e por que não, pois então, se o Verão é só isto, ó petisco, e já me dói o pescoço, ó Agosto, de estar a comer um caracol de olhos postos no sol.

terça-feira, 31 de julho de 2007

A máquina de sonhos

Na casa das máquinas havia uma máquina de sonhos e o rapaz sonhava acordado com os sonhos que ela fabricava. No sábado de manhã, antes de os pais acordarem, o rapaz vestia o roupão e calçava os sapatos porque a casa das máquinas era sempre fria. A mãe tinha estendido uma esteira no chão para o rapaz não se sentar na pedra gelada e ele aí ficava toda a manhã, de pernas cruzadas sobre o tapete mágico, trabalhando na sua máquina de sonhos. O rapaz dizia à irmã "Sou cientista" e ficava horas a pensar em sonhos, a fazer medições, a colocar hipóteses. A máquina tinha vários botões: um que rodava, outro que se puxava, outro que andava para os lados, outro que tinha luzinhas e outro que era um interruptor. O rapaz explicava à irmã: "Na máquina dos sonhos escolhe-se primeiro o meio de transporte! Ou seja, tens de escolher entre o meio terrestre, marítimo, aéreo, tubular ou espacial. Depois escolhes o resto!", o que incluía a velocidade, o volume, a área, a temperatura exterior e interior, o nível de pressão sonora, de pressão atmosférica, de pressão hidrostática, de pressão arterial, entre outros. Há semanas que a irmã tentava descobrir um sonho qualquer que quisesse sonhar.
Naquela manhã, o rapaz anunciou na cozinha "Já está!" e os pais bateram palmas. A mãe disse que queria ir à Lua e o pai perguntou se podia ser o primeiro a experimentar a máquina dos sonhos. O rapaz disse que sim, agarrou-o pela mão e levou-o à casa das máquinas. Quando lá chegaram, perguntou surpreendido: "E vais assim, de pijama?". O pai encolheu os ombros despreocupado: "Mas eu não vou a lado nenhum! Quero sonhar que estou a comer uma laranja doce!". O rapaz ficou em silêncio, era um sonho francamente estúpido e tentou convencer o pai a sonhar com outra coisa (sem êxito). O filho começou então a fazer anotações no caderno, desenhou alguns esquemas, tocou na língua como quem explora, suspirou, coçou a cabeça. O pai disse: "Bem, depois chama-me para eu vir sonhar com a minha laranja". A irmã queria ficar a ver mas o rapaz expulsou-a dizendo: "Preciso de silêncio".
Horas mais tarde o rapaz chamou o pai: "Anda comer laranja!". Com grande pompa e circunstância, o rapaz abriu a porta redonda da máquina de sonhos e disse em jeito de quem ensina: "Como tudo na vida, esta máquina não faz tudo por ti. Usa a tua imaginação!".

segunda-feira, 30 de julho de 2007

O outro lado do espelho

A mulher saiu do duche de 5 minutos e meio, viu o seu reflexo no espelho ainda baço e perguntou: "Quem és tu?". É que, de repente, parecia-lhe que a mulher do outro lado era um pouco mais forte, um pouco mais alta, um pouco mais bonita. A mulher aproximou-se do espelho e limpou-o com uma toalha irritada. "Sou o outro lado espelho" ouviu da sua boca e riu-se de si própria. O reflexo ria-se também, depois ficaram as duas muito sérias, os lábios cerrados, duas testas inclinadas para a frente, tinham rugas tão profundas que mais pareciam feridas. Os cabelos da mulher estavam molhados e afunilavam nas pontas. Caíam gotas de água nos ombros magros, escorriam pelos seios murchos iguais às almofadinhas de cheiros inúteis que a avó fazia nos Natais. Uma gota mais robusta caía agora pelo ventre sempre maior do que desejara (a esperança estúpida de que ninguém o visse senão ela) e hesitava numa subida mais íngreme até morrer no umbigo. A imagem do espelho era definitivamente mais bonita do que a mulher e essa certeza enervava-a. As duas mulheres olharam-se fixamente e, num acesso de raiva, lançaram as mãos pelo espelho para puxarem o cabelo uma à outra. Os berros de uma eram iguais aos da outra, tinham unhas com demasiado cálcio e arranhavam-se com violência. Uma sangrava da testa, a outra da boca, estavam agora as duas deste lado e pontapeavam-se. A mais fraca escorregou no chão e, durante a queda, a outra agarrou-lhe o pescoço com um só punho erguendo-a à bruta. Depois, com a ajuda da outra mão, atirou-a contra a parede. A mulher caiu de costas no outro lado do espelho e aí ficou deitada engolindo tragos de oxigénio. A outra ficou a vê-la. Finalmente, olhou à sua volta e abriu todas as portas da casa de banho à procura de álcool para desinfectar as feridas. Por vezes dizia "Au!", mas não muito alto para a outra não ouvir. Depois cortou calmamente as unhas já que seis delas se tinham partido. Saiu da casa de banho, entrou no quarto, mexeu na roupa e gritou de lá para cá: "Que falta de gosto!". Vestiu qualquer coisa à pressa e regressou ao espelho para se maquilhar. Enquanto ali estava, o lápis preto contra as pálpebras dos olhos que estavam postos nos olhos do reflexo, pensou: "A lei do mais forte!". Depois acenou para o espelho como quem se despede dos comboios no apeadeiro. E enquanto movia o braço direito no ar, a sua imagem respondia-lhe com o esquerdo. Ou seja, uma era o inverso da outra.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

O planeta azul

Nos dias bons sonhava com o corpo caminhando contra o vento (e não com o vento contra o corpo). Mas o planeta era sempre o mesmo, muito redondo e demasiado pequeno para as pernas sempre longas. Explicava ao médico: "Não é o planeta do Principezinho porque não tem crateras e é azul". A psicóloga queria saber sobre a paisagem e ela explicava ao pormenor as várias estrelas ao longe, os planetas do lado que eram afinal rostos de pessoas desconhecidas. Havia também um mar ao fundo diferente do mar da Terra por cair de cima para baixo, escorrendo por uma parede invisível. O psiquiatra perguntou-lhe se via o seu planeta quando estava acordada e ela riu-se divertida. Nos sonhos maus havia uma nuvem redonda que era maior do que o planeta. Nessas alturas, tentava fugir do nevoeiro mas o corpo ficava no mesmo sítio e era o planeta que rodava debaixo dos pés. A naturista falou-lhe dos efeitos de uma nutrição desequilibrada. Também sonhava que abria os braços e se atirava para o espaço mas, por mais que saltasse, voltava sempre a cair no seu planeta. Falou deste sonho num almoço de domingo e a mãe disse-lhe: "Se calhar estás com falta de espaço!". A filha concordou. Nesse domingo foi de comboio para Bruxelas só porque era o próximo comboio a partir. Ao chegar à estação central viu uma placa de rua a apontar para a direita. Leu "Grand Place" e achou apropriado ir vê-la. Entrou na praça por um dos vértices, respirou fundo e sentou-se no centro. Adormeceu sem querer passados alguns minutos. Sonhou outra vez com o corpo contra o vento e, ao acordar, viu um homem ao seu lado. Estava sentado numa cadeira e fumava cachimbo. Aos pés do homem estava uma tela e ao lado dessa tela havia mais telas. Ela levantou-se e pensou "Este vento é igual ao do meu sonho". Depois olhou para os quadros. A imagem do meio era a mais confusa, tinha estrelas, planetas, nuvens, água, vento e luas. No centro da tela viu o seu planeta e perguntou ao homem o nome do quadro. O homem disse: "Universo Paralelo" e ela sorriu. Contou-lhe do seu sonho repetido e o homem ouviu atentamente. No final ela perguntou: "Que quererá isto dizer?" e ele encolheu os ombros. "Não sei, mas é uma sorte teres um planeta só para ti". Ela concordou e voltou satisfeita para a estação.