sexta-feira, 20 de julho de 2007

A frase

Não consigo pensar no que sinto, ponto final. Ela sabia a frase de cor e ia dizê-la assim que chegasse, à pressa, à pedrada, aos gritos. Bastar-lhe-ia dizer a primeira palavra para as outras saírem de seguida, em fila indiana, uma após a outra. Se ele não viesse a correr para a porta, já não a apanhava pois ela teria desaparecido por uma porta travessa. A frase era tão curta que não precisava de respirar a meio e talvez ainda tivesse fôlego para um beijo, se ele a agarrasse. Repetiu as palavras de si para si, era uma excelente frase para resumir o inexplicável: Não consigo pensar no que sinto.
Depois divagou um pouco. Era uma bela imagem aquela (se ele a agarrasse), ele a roubar-lhe um beijo, ela ainda em fuga. No fundo tudo seria mais simples, se a vida fosse uma banda desenhada. Pendurava-se as frases em qualquer lado com molas de madeira e o resto eram quadrados de imagens, sem pressa nem contradições: ela a dizer, ele a ouvir, ela a fugir, ele a puxar, ele a beijar, ela a deixar. Seriam as imagens perfeitas de eles próprios.
No cimo da rua aparecia então a casa e ela subia decidida, os passos largos e a cabeça erguida, tinha seis palavras coladas ao céu-da-boca e saboreou-as uma última vez antes de entrar. Ele esperava-a afinal cá fora e ela quase tropeçou nas pernas ao vê-lo. Nesse momento desconcentrou-se, esqueceu-se, desculpou-se e engoliu as palavras com a última leva de saliva. Os olhos dele puxavam os olhos dela, quatro olhos escancarados, extasiados, encadeados. Não disseram nada e os olhos dele começaram de repente a afastar-se, passaram brevemente pela testa dela e subiram em direcção ao céu. Ela olhou para onde ele olhava e o que viu espantou-a.
No alto da sua cabeça surgia um balão enorme que trazia escrito: Agarra-me. Depois olharam os dois para a rua e viram mil e um balões brancos alinhados no passeio. Diziam: Não consigo pensar no que sinto. Ficaram a ver os balões subir durante muito tempo, não disseram nada. No final, quando os balões desapareceram no céu, olharam-se novamente, os olhos de um dentro dos olhos do outro. No meio deles brotaram então mil e um balões vermelhos, tinham a forma de coração e pulsavam sozinhos. Ele agarrou-a com uma mão e com a outra os balões. Subiram lentamente até às nuvens. Eram a imagem perfeita de eles próprios, não pensavam no que sentiam.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

A nuvem mais escura

No cinzento de Bruxelas há sempre uma nuvem mais escura do que as outras, uma nuvem mais condensada do que as outras e, por isso, mais chorosa. As outras nuvens dizem-lhe "Não chovas agora que ainda não é hora", mas a nuvem encolhe-se sobre si própria com as lágrimas na ponta dos olhos, à beira de um ataque de choro. Era uma nuvem, por assim dizer, mais sensível do que as outras e tinha o hábito de chover por motivos estranhos. Uma vez chorou uma intensa carga de água por causa do sol! Desculpou-se às outras nuvens dizendo que o sol lhe magoava os olhos, mas a verdade era que a nuvem mais escura do que as outras se emocionava com a luz. E hoje alguém lhe disse: "Gosto das lágrimas que trazes por dentro" e ela condensou-se mais um pouco, estava agora em estado quase líquido, era uma nuvem quase água. A nuvem mais clara (ou seja, a mais esclarecida e, portanto, possivelmente a mais velha) perguntou-lhe "Fizeram-te mal?" e a nuvem em estado quase líquido soluçou baixinho: "Não, fizeram-me um elogio!". "Então fizeram-te bem!" concluiu a nuvem mais clara "e o Bem liberta-te". A nuvem mais escura acenou com a cabeça. "Pois, eu sei! É por isso que preciso de chover!".

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Pedaços

Para a Ana

O menino tinha um tique nervoso, que era afinal um hábito ou um vício, segundo a educadora de infância. De resto, era igual aos outros meninos: não gostava de se assoar, não brincava com meninas e não comia a sopa até ao fim. O tique nervoso, que era afinal um hábito ou um vício, era este: frequentemente, o menino encostava-se a um canto sozinho com uma folha de papel e rasgava-a devagarinho até os pedaços de papel desaparecerem de tão rasgados que estavam. No fim, a educadora varria os pedacinhos de papel em silêncio, mas havia sempre um ou outro que sobrevivia ao arrastão. O menino apanhava-os contente e guardava-os no bolso. A mãe era mais eficiente, pegava no Black & Decker e engolia todas as peças de uma só vez, dizendo coisas indecifráveis ao som do aspirador.
Um dia, ao ver o menino ocupado com os seus pedaços de papel, o pai perguntou: "O que é isso?" e o menino disse: "São as peças do jogo!". O pai gritou "Eureka!" e foi a correr comprar um puzzle de 16 peças, outro de 49, outro de 250, outro de 500 e finalmente outro de 1000. O menino encantou-se com tantas prendas, brincou com o primeiro puzzle, depois com o segundo até que, no final da tarde, se recolheu a um canto para rasgar as folhas de instruções. Nunca mais voltou a brincar com os puzzles.
Certo dia, semanas mais tarde, a mãe vinha de Black & Decker em punho e perguntou impaciente: "Para quê tantos pedaços de papel?" e o menino, debruçado sobre eles, respondeu: "Para serem muitos!". A mãe telefonou a correr para o marido e disse: "O menino não quer ser sozinho!" e, nessa mesma noite, mãe e pai trataram do assunto. Nove meses depois nascia a irmã e o menino encantou-se com a prenda: dava-lhe festinhas enquanto dormia, falava baixinho ao seu ouvido, ficava a vê-la tomar banho. De resto, nas horas mortas, encostava-se a um canto e rasgava papel.
Até que, numa manhã de Primavera, ninguém disse nada. O menino estava sozinho na sala a rasgar papel, tão sozinho que até o barulho do papel ecoava nas paredes. No fim, o menino suspirou. "Pena ter de se deitar fora o papel", pensou e de repente lembrou-se que podia colar os pedacinhos de papel. O menino passou toda a manhã a colar o papel ao chão e, quando já lhe doíam o pescoço e as pernas por causa da posição, ainda foi buscar as canetas de feltro e pintou todos os pedacinhos com cores diferentes. Só tinha 12 canetas mas misturou todos os tons possíveis, para que as cores não se repetissem.
Quando os pais chegaram, o menino apontou orgulhoso para o chão. A mãe levou a mão à boca e depois ao peito, o pai pousou a mão na cabeça e deixou-a ficar. Perguntaram ao mesmo tempo: "Mas o que é isto?" e o menino franziu a testa intrigado. Olhou para o chão, depois para os pais, voltou a olhar para o chão e depois para os pais. "Então não se vê logo que é um quadro?".

terça-feira, 17 de julho de 2007

A queda

Peço-te: anda cair comigo na toca do coelho enquanto a tarde cai. A queda parece-me mais bonita do que o voo por ser mais leve. Contamos até três em uníssono e atiramo-nos ao mesmo tempo (bem sei que não preciso de apertar o nariz, mas foi assim que me ensinaram a mergulhar). Olha para mim agora, os meus cabelos enrolam-se numa trança incompreensível, ficarão assim para sempre, jamais os poderei separar. Vamos brincar às cambalhotas ou boiar no vazio, podemos até virar a cabeça para baixo, juntar os pés, os ombros, os rostos, rodar sobre nós próprios, desenhar espirais infinitas ao som de gritos inaudíveis. Temos todo o tempo do mundo para darmos as mãos nesta toca sem fundo, não há um fim para este final de tarde. Os outros que fiquem com o tempo e o espaço, nós não precisamos disso.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Sonho de uma noite de Verão

"Cheira-me a Verão", anunciou contente com o nariz bem içado e os bigodes direitos, de pontas levantadas. Ao dizê-lo, crescia-lhe água na boca, como se o Verão tivesse sabor. Saiu de casa de rompante, vinha em bicos dos pés para o nariz chegar mais longe e, ao abrir a porta da rua, viu o sol inteiro, triunfando no céu sem nuvens, amarelo como nos sonhos. A água que trazia na boca escorria agora pelas esquinas dos lábios até ao chão. Havia uma árvore enorme à frente da casa e ele trepou-a agilmente até ao topo. No último ramo estava finalmente em frente ao sol e a água que escorria da boca secava agora nos lábios. Empoleirou-se e esticou os braços, mergulhando as mãos no sol. Encantado, levou as mãos à boca e provou o sol amanteigado. Lambeu primeiro o polegar da mão direita, depois o dedo indicador, depois todos os outros. Passou rapidamente para a mão esquerda e lambeu-a sofregamente. A seguir, ainda insatisfeito, saltou de cabeça para dentro do sol e ficou a nadar na sua via láctea durante horas. O rato acordou de repente com a luz da manhã e sorriu para o sol. Levantou-se prontamente e olhou em seu redor até avistar, no final do horizonte, um prédio enorme, da altura do sol. Orgulhou-se da sua esperteza e fez-se sozinho à estrada. Não queria partilhar o seu queijo com ninguém.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

A mulher do eléctrico

Todas as manhãs, a mulher do eléctrico apanhava o 23 na Gare du Midi e saía em Heysel. Era um trajecto demasiado longo e não muito directo, havia várias curvas pelo caminho e o compasso da viagem era lento. Mas a senhora não tinha pressa, ou pelo menos assim pensava o condutor, era provavelmente reformada e parecia conformada e descansada com a vida. Entrava no eléctrico devagar e observava os pés enquanto subia os degraus, certificando-se de que traziam consigo o resto do corpo. Depois deixava-se cair num lugar à janela, pousava uma mão sobre a outra, palma contra palma, e esquecia-se delas no colo. Vinha normalmente a meio da carruagem e não fazia absolutamente nada durante o percurso, senão olhar para fora da janela. Em Heysel, a senhora era sempre a última a sair, sacudia a mão ao condutor em jeito de despedida e descia os degraus olhando para os pés atentamente. Não se sabia o que a senhora fazia em Heysel, mas o condutor imaginava-a, por vezes, sentada num banco de jardim partilhando migalhas do seu pão com os pombos. Outras vezes, imaginava-a numa casa bonita com netos e bisnetos, que talvez a viessem esperar todos os dias do outro lado da linha. Com o cair da manhã, a senhora apanhava novamente o 23, desta vez em Heysel, saindo uma hora mais tarde na Gare du Midi. Tudo isto se repetia de igual forma dia após dia, até que certo dia o condutor, demasiado intrigado com a mulher do eléctrico, resolveu perguntar-lhe: "Desculpe, senhora, bem sei que não tenho nada com isso, mas se tem de ir todos os dias para o outro lado da cidade, por que razão não se muda para lá?". O condutor apanhou a mulher do eléctrico numa má altura, a senhora estava demasiado focada nos seus pés para lhe dar atenção, tinha o ar mais concentrado do mundo e talvez precisasse de silêncio enquanto descia da carruagem. "Como?" perguntou a mulher momentos mais tarde, já liberta dos enormes degraus. O condutor repetiu a pergunta um pouco mais alto do que antes, não fosse a senhora ouvir mal. A mulher do eléctrico ouviu a pergunta respeitosamente e ficou a pensar durante algum tempo. Talvez nunca tivesse considerado essa hipótese e estivesse agora a debruçar-se sobre ela. A senhora parecia agradada com a ideia, havia um esboço de sorriso no seu rosto. Finalmente uniu as sobrancelhas numa ruga profunda e, ainda sorrindo, disse: "Mas assim não andava de eléctrico!".

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Sonho português

Eu fui ao mar e vice-versa: o mar veio até mim.
Mais um amor correspondido.
Felizes de nós, marinheiros tristes.