Depois divagou um pouco. Era uma bela imagem aquela (se ele a agarrasse), ele a roubar-lhe um beijo, ela ainda em fuga. No fundo tudo seria mais simples, se a vida fosse uma banda desenhada. Pendurava-se as frases em qualquer lado com molas de madeira e o resto eram quadrados de imagens, sem pressa nem contradições: ela a dizer, ele a ouvir, ela a fugir, ele a puxar, ele a beijar, ela a deixar. Seriam as imagens perfeitas de eles próprios.
No cimo da rua aparecia então a casa e ela subia decidida, os passos largos e a cabeça erguida, tinha seis palavras coladas ao céu-da-boca e saboreou-as uma última vez antes de entrar. Ele esperava-a afinal cá fora e ela quase tropeçou nas pernas ao vê-lo. Nesse momento desconcentrou-se, esqueceu-se, desculpou-se e engoliu as palavras com a última leva de saliva. Os olhos dele puxavam os olhos dela, quatro olhos escancarados, extasiados, encadeados. Não disseram nada e os olhos dele começaram de repente a afastar-se, passaram brevemente pela testa dela e subiram em direcção ao céu. Ela olhou para onde ele olhava e o que viu espantou-a.
No alto da sua cabeça surgia um balão enorme que trazia escrito: Agarra-me. Depois olharam os dois para a rua e viram mil e um balões brancos alinhados no passeio. Diziam: Não consigo pensar no que sinto. Ficaram a ver os balões subir durante muito tempo, não disseram nada. No final, quando os balões desapareceram no céu, olharam-se novamente, os olhos de um dentro dos olhos do outro. No meio deles brotaram então mil e um balões vermelhos, tinham a forma de coração e pulsavam sozinhos. Ele agarrou-a com uma mão e com a outra os balões. Subiram lentamente até às nuvens. Eram a imagem perfeita de eles próprios, não pensavam no que sentiam.