quarta-feira, 11 de julho de 2007

Voltar

O viajante e o viajado encontraram-se na estação. O viajante disse que ia dar a volta ao mundo e, na volta, esperava voltar a encontrar o viajado. O viajado disse que quem dava voltas, não voltava. Um dia, também ele fora dar uma volta e, na volta, ao passar pelo ponto de partida, pensou que era um ponto de passagem. Por isso, voltou para trás e agora, ao olhar para trás, sabia que dera demasiadas voltas para saber voltar. Um pensava que voltava, o outro não sabia como voltar. Quando partiram, disseram "Boa viagem". Um deu a volta ao comboio, o outro deu demasiadas voltas à cabeça. Ambos se perderam no caminho.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Heitor, o explorador

Numa madrugada de Agosto, o pescador Heitor fez-se explorador e atirou-se ao mar numa jangada de madeira. No primeiro dia, remou contente com a corrente e, na primeira noite, adormeceu profundamente. Na manhã seguinte, acordou num sobressalto com o primeiro raio de luz. "Ai Jesus", assustou-se Heitor, pois o sobressalto era afinal um salto que vinha do chão e ia bem alto. E então, ao espreitar o seu reflexo na água, descobriu que era rã. Heitor, outrora pescador, depois explorador e agora anfíbio, chorou toda a manhã o seu corpo de rã. Mas, pela tarde, disse num tom grave: "Eu conheço esta história!" e logo declarou vitória sobre o feitiço. Só um beijo libertaria Heitor, e o explorador, agora anfíbio, ficou à espera de ver alguém no além-mar. Mas não havia quem andasse por ali a pescar nem a explorar, não havia peixes a nadar nem gaivotas a voar. Heitor esperou, desesperou, cansou, descansou, dormiu, acordou, chorou, chorou.
Mas, no sétimo dia, apareceu finalmente uma mosca. A rã disse-lhe "Ó mosca, eu era pescador e depois explorador e, de repente, acordei uma manhã e era rã! Se me deres um beijo, quebrarás o feitiço!". A mosca fez-se rogada, não era nenhuma beijoqueira ao serviço de feitiços, mas teve pena do anfíbio sozinho na jangada de madeira. "Pois bem, marinheiro, aqui vou eu para te dar um beijo!". Heitor deu um salto bem alto e gritou de alegria em contrabaixo. Enquanto a mosca voava até si, disse a rã de si para si: "Eu estou apaixonado pela mosca, pois só o verdadeiro amor quebrará o feitiço". Fechou os olhos com força e concentrou-se no seu amor. Mas no momento do beijo, em vez dos lábios, a rã ofereceu a língua, engolindo o insecto de seguida. A natureza assim o quis: não se pode enganar a fome. E o pobre Heitor chorou infeliz a sua sorte.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

O senhor do lado

Naquela manhã, ao sentar-me ao balcão do café para o café da manhã, comentei para o senhor do lado: "Não sabia que chovia em Julho". "Não se pode saber tudo", respondeu-me o homem, atravessando-me com um olhar oblíquo que descia brutal do céu contra os meus pés. O senhor do lado sabia certamente tudo ou tinha a pretensão disso, de outra maneira teria falado sobre o tempo e não sobre a limitação dos homens. As pessoas pura e simplesmente não falam sobre evidências ou, pelo menos, têm a pretensão disso. Resolvi perdoar a frase infeliz ao senhor infeliz, a verdade é que as pessoas dizem coisas só para não estarem caladas. Nesse preciso momento, o senhor levantou os olhos do café e disse: "Às vezes mais valia estar calado" e eu, surpreendido com o comentário, apressei-me a engolir o pastel de nata para lhe perguntar: "Ó homem, você lê pensamentos?". O senhor do lado sorriu um sorriso amargo, amarelo, de cafeína matinal, depois endireitou-se para dar espaço ao riso que vinha de dentro, a certa altura curvou-se sobre si próprio com o peso das gargalhadas, os olhos fechavam-se bruscamente em esforço, o seu rosto era agora vermelho, há vários segundos que não respirava. Passados dois minutos, não mais do que isto, recompôs-se e limpou as lágrimas vagarosamente, libertando os últimos suspiros de riso. Fiquei a olhá-lo com estranheza e resolvi confessar assustado: "Bolas, pensei que ainda se ficava!". O senhor do lado levantou-se devagar e, enquanto pousava duas moedas no balcão, olhou-me com o mesmo olhar oblíquo e disse, em tom de despedida: "Vocês, os comuns mortais, preocupam-se com cada coisa".

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Déjà vu

No comboio vem um estrangeiro a ler um livro. Tem um ar estranho o estrangeiro, daí saber-se que é estrangeiro, de outra maneira só se o ouvíssemos falar e, como no comboio vem tudo calado, seria impossível sabê-lo senão através do seu ar estranho. O livro que o estrangeiro vem a ler chama-se "O estrangeiro", há algo estranho nisto. Ao lado vem uma rapariga de iPod ao colo, vê-se que é daqui, traz a cor desta terra nos olhos, ligeiramente verdes, quase chuvosos. Tem uma tez branca, igual à dos outros, e um nariz aquilino que, por sua vez, aponta tranquilo para a janela. E nela há a imagem repetida, a rapariga de iPod ao colo. Dir-se-ia que neste banco se sentam pessoas duplicadas. Doppelgänger.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Vizinhos

Encontram-se nas escadas. Um desce, o outro sobe, ambos param. Um é mais alto que o outro, está dois degraus acima. Sorriem. Diz um "Chove que se farta" e outro "Pois", pensam os dois "Azar". Pergunta um "Há quanto tempo está fora?" e o outro hesita. O primeiro pensa "Não se ofenda" e o segundo "Não me lembro". Diz o segundo "Há uns 6 meses" e o primeiro exclama "Aaaaaaaaaaaa". Pensa um "Não tenha pena" e o outro "Coitado". Um ameaça subir, o outro interrompe-o. "E custa-lhe estar fora?" e o segundo encolhe os ombros. Pensa o primeiro "Muitíssimo" e o segundo "Nada de nada". Diz este "Um bocadinho" e o outro acena com a cabeça. Lamentam em coro "Então com este tempo!" e riem da coincidência das vozes. Um sobe, o outro desce. O primeiro pensa "Maldita chuva" e sai do prédio. O outro entra em casa, não pensa nada. Senta-se devagar em silêncio e ouve a chuva. Diz para si "Peixe fora de água".

quarta-feira, 4 de julho de 2007

A menina rouca

Diz-se que a menina é rouca, tem uma distorção nas cordas vocais, é um grande desgosto, desgostou a velha, a terapeuta da fala fá-la falar mas do que a menina gosta é de cantar, daí a sua boca em forma de bico esquisito como as dos passarinhos pequeninos e os braços quase asas bem puxados para trás. Mas a sua cantilena dá pena, mete dó, diz a avó encolhendo os ombros como quem encerra o caso e dá um abraço à cantadeira. A menina abana a cabeça com a destreza dos pombos do Rossio e logo faz pio e começa a cantar. Vêm de dentro sons guturais, grotescos, têm forma de grutas, metem medo. Estamos nisto e chega o Evaristo cantor. "Menina", chamou, "precisas de ajuda para o teu cantar" e nisto o Evaristo estende-lhe uma flauta e a menina começa a tocar. Tocou primeiro um sol e depois um dó e já não metia dó o cantar da menina.