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quarta-feira, 26 de março de 2014

Os que não têm

Os que não têm, pedem ou então pedincham, suplicam, imploram. Passam os dias num degrau, na boca do metro, e dizem ladainhas que ninguém entende. Alguns trazem cartazes ao peito: Tenho fome, tenho SIDA. Outros andam de carruagem em carruagem com uma viola ao ombro, ou ficam num canto a soprar numa flauta ou num clarinete ou numa harmónica. Também há os que cantam ou os que falam sozinhos, os que olham em frente mas não nos vêem porque entretanto enlouqueceram e já não moram aqui. Também há os que vendem revistas ou porta-chaves ou peluches e trazem um cão pela trela ou uma criança pela mão e uma lata ou um chapéu ou um mealheiro.
Se forem bons tocadores, recebem moeda; se não forem, não recebem. Se forem criativos ou agressivos, safam-se melhor. Se roubarem, safam-se melhor ainda. Roubar compensa mais do que pedir, claro, claro.
Algumas pessoas dão moeda. Mas a maioria não. Por uma questão de princípio, naturalmente. Os europeus também têm sentimentos. E sobretudo convicções.
As convicções são mais importantes do que os sentimentos.
Não se pode encorajar a imigração ilegal.
Não se pode, pois não?
Não.
Os europeus têm convicções, mas vacilam. Eu, pelo menos, vacilo.
Mas não dou.
Os que pedem não são daqui.
Eu também não sou daqui.
Ninguém é daqui. Nem os que pedem, nem os que dão.
Os ingleses querem acabar com a livre circulação dos europeus. O melhor é ficar cada um na sua terra, é mais fácil assim.
E os que não têm terra?
Pois, não sei.
A história é feita destes ciclos que também vacilam.
De boas intenções está o incerto cheio.
Os europeus também foram imigrantes ilegais.
Foram, não foram?
Foram.
Atravessaram fronteiras descalços.
E agora baixam os olhos quando lhes pedem uma moeda. O que fazer?
Antes acertávamos as contas com Deus. Pagávamos o dízimo à Igreja. Agora apaziguamos a alma com atividades de voluntariado ou transferências automáticas para organizações que apoiam crianças ou imigrantes ilegais ou pessoas deficientes ou ex-toxicodependentes ou outros grupos a dar para o desfavorecido e marginal.
Já fizemos a nossa parte.
Já, não já?
Já.
Os mais sentimentalistas apadrinham crianças africanas que aprendem a pedinchar logo de pequeninas. A Europa é a que mais ajuda.
É, não é?
É.
Ajudar é preciso. Desde que não venham para cá pedir esmola. Estamos melhor sozinhos do que mal acompanhados.
Ai, sim?
Não, não estamos.
Os que não têm imploram com os olhos, mas já ninguém os vê.
É muito melhor olhar para o chão.
A Europa não é um bom sítio para pedir esmola. E os europeus também já não moram aqui.

quinta-feira, 20 de março de 2014

A boneca essencial

A primavera chegou a Bruxelas e, com ela, a Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo. E manifestações. À volta da rotunda, polícias e barreiras e também camionetas com repórteres e jornalistas. Ninguém passa em frente ao Conselho hoje, nem sequer os autocarros; vão dar uma granda volta. Já tive ataques de fúria por causa disso. Ia atrasada para um voo.
Os meus problemas são ridículos quando comparados com os problemas do mundo.
As transportadores aéreas não querem voar para a Venezuela. Israel bombardeou a Síria. Os Estados Unidos aprovaram mais sanções contra a Rússia.
Os líderes da UE chegam em carros pretos e compridos. Hoje não os vi, mas às vezes vejo-os. Os carros, não os líderes. Os líderes vão escondidos atrás dos vidros fumados.
Michelle Obama está em visita oficial na China.
Na ordem do dia da cimeira europeia: emprego, união bancária, Ucrânia, política energética, relações da UE com África.
Nas últimas 48 horas, mais de dois mil migrantes africanos foram resgatados na costa italiana.
Houve um atentado na Líbia e outro no Afeganistão.
As grandes questões do mundo estão dentro umas das outras. As grandes questões do mundo parecem Matryoshkas.
As palavras "cimeira" e "Crimeia" escrevem-se com as mesmas letras, que estranho.
Ninguém conhece ao certo os objetivos da Rússia a longo prazo.
A única boneca russa que não é oca por dentro é a mais pequena de todas. É a boneca essencial.
Os líderes da UE já devem ter tirado uma foto de família, todos alinhadinhos. Parecem soldadinhos de chumbo. O Presidente do Conselho tem cara de rato.
A UE vai aprovar mais sanções contra a Rússia.
O rato roeu a rolha da garrafa do Rei da Rússia.
Se calhar a guerra já começou e ainda não demos por ela.
Está sol na rua. Bendita primavera. Tenho mesmo de comprar uns óculos escuros.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Líricos, porcos e rascos


Relativamente a este presente sem futuro, penso que a proposta do Cavaco Silva de juntar os três porquinhos na mesma casa até faz sentido, apesar do lirismo da coisa. Por vezes, o lirismo faz sentido. Assimcomoassim, a alternativa era fingir que havia alternativa. Os três porquinhos, que tanto chafurdaram na lama, que se cheguem à frente e cumpram a sua parte. É a única maneira de tratar os porquinhos como porcos crescidos, que é o que eles são. Eles que enfrentem o lobo mau e que prestem contas apontando o focinho, não para as próximas eleições, mas para o futuro a longo prazo.
E era só isto que eu tinha para dizer sobre este assunto.
Ah! A propósito de futuro, gostava só de acrescentar que, às vezes, para me distrair, imagino uma pessoa do futuro a olhar para o presente e isso funciona sempre, porque efetivamente distraio-me e, nos dias melhores, farto-me de rir.
Por exemplo, eu acho que uma pessoa do futuro ia ter um ataque de riso de ir às lágrimas se (ou)visse um discurso do Cavaco Silva, porque a voz e a postura do Cavaco Silva, para uma pessoa - digamos - do século XXII, devem fazer lembrar a voz e a postura de uma marca de robôs muita rasca, que um dia (no futuro do futuro) se tornará vintage, mas na atualidade do futuro é só uma marca muita rasca de mandar para a sucata e isso deve ser cómico, especialmente se o emissor for um Chefe de Estado. 
E então pus-me a pensar que se calhar o Cavaco Silva é mesmo um robô muita rasca que veio do futuro mais ou menos próximo com uma missão qualquer que nós ainda não percebemos qual é e isso dá-me logo vontade de rir outra vez, o que é muito infantil da minha parte, eu sei, tendo em consideração que a crise política em Portugal é um assunto extremamente sério.
E portanto, olhem, acabou-se a brincadeira.
Nunca mais brinco.


NUNCA MAIS.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Dia Internacional da Mulher

Hoje, além de sexta-feira, é Dia da Mulher. Eu gosto do Dia da Mulher, de pensar nas mulheres, de celebrar as mulheres. As que estão e as que já estiveram, as mulheres do meu círculo, as do meu clã. Também penso nas outras mulheres. Nas que não conheço, que nunca conheci nem hei de conhecer, porque já morreram ou não pertencem ao meu mundo.  
Nas que ficam sem uma mão porque querem estudar, por exemplo.
Nas que são apedrejadas em praça pública. Nas que levam dois tiros, porque defendem o direito à educação.
As mulheres têm direito à educação e à liberdade de pensamento. Foi a ONU que disse, não fui eu. Também têm direito à liberdade e à segurança pessoal. Têm direito à privacidade. À liberdade de reunião e participação política. As mulheres têm direito a não ser submetidas a torturas e a maltratos. Têm direito a decidir ter ou não ter filhos e quando tê-los. Têm direito aos benefícios do progresso científico.
E, no entanto, a maior parte das mulheres nem deve conhecer os seus próprios direitos.
As mulheres têm direito à igualdade, claro. As mulheres ocidentais, pelo menos, sabem perfeitamente disso, mas às vezes confundem-se. São gajas.
As mulheres ocidentais querem igualdade para umas coisas e para outras não.
Querem receber salários iguais aos dos homens (certo). Querem estar nos conselhos de administração das empresas (certo), querem exercer uma atividade política (certo). Querem ter filhos e uma carreira (certo e certo). Não querem que lhes segurem a porta (mais ou menos). Não querem ser discriminadas (certo). Não aceitam que lhes digam: Isso é um livro pa gajas, Isso é um cocktail pa gajas, Isso é conversa de gajas, porque tudo o que diz respeito à mulher ou ao homem pertence a toda a humanidade. Não à discriminação!
Mas no Dia das Mulheres (e noutros dias também), alto! As mulheres ocidentais, de repente, deixam de querer ser iguais aos homens. Já não querem igualdade de tratamento, querem receber flores e bonbons. Querem ser tratadas com cavalheirismo. Querem andar aprumadas por cima e por baixo e fazer um bolo bonito, como as mulheres norteamericanas dos anos 50. Querem ser boas na cozinha, boas na escola e boas na cama, querem ser melhores do que os homens em tudo isto. Querem ser, no absoluto, as melhores. As mulheres. Por causa disso, também querem ter partos naturais, porque se esqueceram dos benefícios da ciência e têm um certo apego à dor.

As mulheres são mesmo gajas.
É que são mesmo. 

Hoje, vou beber um copo por todas elas. Um cocktail assim de gaja, como eu gosto.  Com cores de gaja e sabores de gaja.

Ai dele que não me ofereça uma flor hoje!

sexta-feira, 1 de março de 2013

Flocos de Neve


Quando penso em miminhos, lembro-me sempre de uma menina lá da escola. Era uma menina muito pequenina, devia ter uns 5 anos. Por vezes - não sei por que carga de água - a menina muito pequenina ia até ao bar da escola e comprava dezenas de Flocos de Neve com uma moeda grande. A menina enchia então os bolsos do casaco e das calças com os rebuçados e depois andava pela escola a distribuí-los pelos outros meninos. Queres um rebuçado? Toma, é para ti! Papelinhos vermelhos por todo o lado, era uma autêntica festa de Flocos de Neve.
Claro que a menina ficava à espera que os seus Flocos de Neve fossem retribuídos com miminhos. Era pequenininha, mas não era parva. E a verdade é que a menina recebia sempre miminhos de volta. Os mais velhos faziam-lhe cócegas, por exemplo, e fazer cócegas é dar miminhos para rir.
No fundo, as relações humanas não vão muito além disto: dar e receber Flocos de Neve para depois dar e receber Flocos de Neve.
Dizemos Gosto de ti! e ficamos à espera que os outros também gostem de nós.
Dar para receber para dar para receber para dar para receber para dar para receber.
Já os mercados financeiros não são nada assim. Os mercados financeiros nem sequer sabem apreciar Flocos de Neve.
Mas, enfim, os mercados financeiros não têm nada a ver com a natureza humana.
Não têm?!
Não, não têm.
Os mercados financeiros pertencem a outra espécie e do cruzamento entre seres humanos e mercados financeiros não saem mulas nem seres humanos híbridos.
Saem monstros.
Não dá para fazer cócegas a monstros nem para alimentá-los a Flocos de Neve.
Conclusão?
Não há, era mesmo só isto.

Dia Mundial dos Elogios

Hoje, além de sexta-feira, é o dia de aniversário de Justin Bieber e - last but not least - o Dia Mundial dos Elogios.
São três desejos que se concretizam de uma só vez, daí as pessoas andarem por aí mais satisfeitas do que é costume. Também andam mais aprumadas, na esperança de receberem um elogio, claro.


Os entendidos dizem que dar um elogio transmite um sinal de apreciação e respeito e que receber um elogio faz bem à pele e reduz o colesterol mau. Isto quer dizer que todos ficamos a ganhar com este intercâmbio de louvores.
Um elogio é um miminho de palavras, por isso não vale oferecer flores nem garrafas de champanhe.
Eu pessoalmente prefiro miminhos de chocolate belga com recheio de avelã, mas aparentemente o chocolate não transmite apreciação nem respeito.
Por favor, elogiem-me. Careço de açúcar.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Justiça

Sou da geração que cresceu a ver o MacGyver aos domingos à noite e a música do genérico sempre foi uma inspiração para mim. Também cresci a ver o Justiceiro, mas o David Hasselhoff, ainda que bem-intencionado, já era ridículo nos anos 80 e o Kitt era mais um papagaio do que outra coisa.
O MacGyver, sim, fazia Justiça. Era um agente secreto e não usava armas, utilizava antes a cabeça e uns pedaços de fita-cola e cordas e clips. Bom, também usava uns explosivos de vez em quando, vá. Do alto dos meus 10 anos, aprendi que nem sempre a Justiça é justa, que não há uma justiça absoluta. Mas, ainda assim, sempre acreditei no princípio da coisa, mesmo quando eu própria não cumpria as regras (e até gostava bastante de não cumprir as regras). Catch me if you can. Quando me apanhavam, cumpria a pena. A bem da Justiça.
É preciso acreditar na Justiça para acreditar na igualdade.
Não há democracia sem Justiça. Não há Estado sem Justiça. E, por isso, é injusto quando a Justiça tarda ou não funciona. Não dá para acreditar numa sociedade que não tenha um sistema judicial capaz.
Quando li a notícia da Grécia, senti-me inspirada. Há que punir os corruptos. Com rotativos na cabeça ou com clips e explosivos ou então com a prisão perpétua, que é uma forma de tratamento aparentemente mais justa.
É preciso acreditar na Justiça em tempos de crise. Tal como é preciso acreditar na paz em tempos de guerra (imagino eu).
Quando a Justiça funciona, sinto-me esperançada e começo logo a cantarolar o MacGyver.
É preciso rebentar com os injustos.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Imigrantes, intocáveis e imortais

Quando como lasanha fico com o estômago a levedar durante a tarde inteira. É um facto. O mesmo acontece quando falo sobre multiculturalismo. Fico tão enfastiada que tenho de beber um chá verde para digerir. Mesmo assim, como lasanha porque gosto de comer e falo sobre multiculturalismo porque vivo em Bruxelas, onde o multiculturalismo está sempre na ordem do dia. Trata-se de um tema extremamente cosmopolita e moderno. Ora, num discurso proferido este domingo, a Angela Merkel disse qualquer coisa como "o multiculturalismo falhou redondamente". Como se não bastasse, disse isto em alemão, uma língua medonha e nada cândida, ao contrário do português.
É óbvio que Angela Merkel já sabia que todos lhe cairiam em cima. Há que apreciar Angela Merkel, nem que seja, por isso. Há pouca gente temerária à frente da Europa, são todos demasiado cosmopolitas, demasiado modernos. É certo que, antes de dizer isto, a chanceler também disse outras coisas. Por exemplo, que os alemães aceitaram os Gastarbeiter nos anos 60 na expectativa de que eles se fossem embora passado pouco tempo. Que, constatando o contrário, os alemães resolveram acolher os imigrantes e adoptaram uma perspectiva multikulti, num espírito leviano e contente de coexistência.
Não percebo muito do assunto, porque não sou pessoa para perceber muito dos assuntos mas, como muita gente da minha geração, sou um bocadinho cosmopolita e também um bocadinho modernaça, de maneira que me apetece dizer algo sobre isto.
Só ouvi o discurso de Angela Merkel hoje e devo dizer que as suas palavras não me chocam absolutamente nada. Parece-me, aliás, que a chanceler disse o que outros já disseram ou, pelo menos, queriam ter dito. O multiculturalismo é, na Europa, uma tendência imperiosa como as calças de ganga. Qualquer europeu que se preze tem vários pares de calças de ganga e é multicultural, ou seja, vai ao cinema ver filmes turcos, vai jantar ao indiano e ao vietnamita, tira cursos de cozinha marroquina e fala várias línguas.
A meu favor, digo o seguinte: como kebabs com frequência, dividi o apartamento com uma turca e com uma alemã durante um ano, estou a aprender a quarta língua estrangeira, trabalhei em quatro países europeus, vou de fim-de-semana com amigas búlgaras e eslovenas, jogo vólei numa equipa flamenga e casei com um português porque cheguei à conclusão evidente de que essa era a melhor nacionalidade do mundo. Estou, portanto, integradíssima neste meio multicultural, não tenho nada contra o diálogo intercultural. Adoro multiculturalismo e calças de ganga, desde que não me roubem a identidade.
Admito, no entanto, o seguinte: o multiculturalismo é, como tudo o que é moda, uma verdadeira fachada. Há muito que a Europa enfrenta problemas relacionados com a imigração. Isto é tão verdade que até soa a lugar-comum, desculpem lá. A perspectiva multikulti de tudo-ao-molho-e-fé-em-Deus-desde-que-não-seja-assim-muita-muita-fé não resulta. A Europa foi demasiado branda com os que cá chegaram. Aceitou-os, mas não exigiu ser aceite. Era demasiado cosmopolita e moderna para isso. Chegou a hora de repensar o multiculturalismo.
E quem se choca quando a Angela Merkel diz que os alemães se sentem ligados aos valores cristãos, recomponha-se. Não acredito em Deus, mas acredito na História e é isto que ela nos diz.
Não concordo com as medidas de Sarkozy, não me parece que resolvam o problema. Mas também me parece que não podemos olhar para os imigrantes como se fossem intocáveis. É preciso mexer nos imigrantes, integrá-los nos países que os acolhem. Sobre isto, uma palavra: educação. Já se disse demasiado sobre isso, não vou repetir o que foi dito.
Claro que Angela Merkel não tem a vida facilitada na Europa. Não só por ser mulher, mas sobretudo por ser alemã e discursar em alemão. Já se sabe que o mundo inteiro morre de medo quando alguém diz o que quer que seja em alemão. Esta é, quanto a mim, uma reacção normal. Não quero falar de judeus. Por uma vez, que não se fale em judeus, mas o trauma da Segunda Guerra Mundial está para ficar. Os judeus que morreram são imortais. Mas eu não quero falar nos 6 milhões de judeus que morreram na Segunda Guerra Mundial, porque senão também teria de falar nos 10 milhões de chineses e nos 24 milhões de soviéticos e, mesmo assim, só estaríamos a falar de metade das pessoas que perderam a vida nessa guerra. Não quero falar sobre isso. Prefiro falar sobre o multiculturalismo. Ainda que fique um pouco enfastiada depois.
Nada como um chá verde para ajudar.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

História do cerco dos minaretes e das torres de igreja

1. A única altura na vida em que pessoana pensou em minaretes foi enquanto lia a História do Cerco de Lisboa. (O José Saramago prefere a palavra almádena à palavra minarete. A pessoana também.) A História do Cerco de Lisboa tem pouco mais de 200 páginas, pelo que a pessoana não passou muito tempo da sua vida a pensar em almádenas. As descrições de José Saramago são, porém, inesquecíveis e a pessoana jamais se esqueceria do almuadem cego e das escadas em caracol da almádena.

2. Numa certa época da sua vida, a janela da sala de estar da casa da pessoana tinha vista para a torre de uma igreja. Agora já não é assim, porque pessoana mudou de casa, mas nessa época, nos fins-de-semana, o homem ilimitado acordava muito cedo por causa dos sinos. Ela não. (Os sinos da igreja não a despertam; dão-lhe sono.) Por esta razão, e também pelo facto de ter tido uma educação católica (muito embora não tenha casado pela igreja) e não conhecer um único muçulmano (muito embora viva rodeada deles), a pessoana pensa mais rapidamente em sinos de igrejas do que em almádenas.

3. A pessoana percebe muito pouco (quase nada) de religião e arquitectura, mas tem para si que a almádena está para o islamismo como a torre da igreja está para o cristianismo, porque a almádena e a torre da igreja cumpriam, num passado mais ou menos longínquo, a função de chamar os crentes à oração. (Esta comparação, como é evidente, não é original.) Porém, nos dias que correm, a pessoana tem dúvidas quanto à função das almádenas e das torres de igrejas. Gostaria, aliás, de subir uma almádena ou a torre de uma igreja para perguntar aos fiéis e infiéis: Para que servem as almádenas e as torres das igrejas? A pessoana gostaria também de confessar o seguinte: por princípio, não tem nada contra a ideia de se começar a construir mesquitas sem almádenas, desde que as igrejas passem também a ser construídas sem torres. Tão simples quanto isto.

4. Se Portugal e outros países decidissem o seu futuro com base em referendos e noutras formas de democracia directa, é provável que muitas pessoanas votassem, por exemplo, contra a entrada da Suíça na União Europeia (os suíços decidiram – também por referendo – não pertencer à União Europeia). Muitas pessoanas não percebem nada sobre a Suíça nem sobre a União Europeia e, por isso mesmo, votariam contra a entrada da Suíça na União Europeia. No entender de pessoana e de outras pessoanas, o exercício da democracia directa exprime, não as vontades de um povo nem as suas convicções, mas sim os seus medos. Já se sabe que todos os europeus têm medo dos suíços, incluindo os próprios suíços. Os suíços, por seu turno, também têm medo dos muçulmanos, daí não quererem almádenas. A pessoana, por sua vez, tem medo dos suíços, dos muçulmanos e da democracia directa.

5. É por estas e por outras que pessoana acredita que se vive tão bem sem a democracia directa como se vive sem minaretes e torres de igrejas. A pessoana acredita também noutras coisas, mas não propriamente em Deus. Na verdade, a pessoana tem mais dúvidas do que crenças. Ou seja, é céptica. Isto deve-se, provavelmente, à sua educação católica.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Mohammed Ajmal Amir Kasab

O narrador deste texto anda a pensar em Mohammed Ajmal Amir Kasab há dois dias. O autor deste texto também, mas não pelos mesmos motivos.
Vejamos: o narrador deste texto interessa-se por Mohammed Ajmal Amir Kasab, pela pessoa de 21 anos; o autor não, está-se profundamente nas tintas para este paquistanês.
O narrador pensa em Mohammed Ajmal Amir Kasab e vê o indivíduo, lamenta o indivíduo, não o compreende, não o aceita e anda preocupado precisamente com o seguinte: se encontrar na rua o rapaz de nome Mohammed Ajmal Amir Kasab, não sabe o que dizer-lhe. Isto porque o narrador deste texto fica de rastos sempre que lhe faltam as palavras, parte do princípio de que o diálogo não é possível sem as palavras.
Ora, a verdade é que o narrador deste texto gostaria de ter uma coisa clarividente para dizer a este rapaz. Uma coisa única, extraordinária, brutal, capaz de mudar o jovem capaz de matar dezenas de pessoas. O narrador deste texto gostaria de o encontrar na rua e de lhe dizer uma coisa capaz de mudar o mundo. Apenas isto.
O narrador, por lhe faltar o corpo, tem destas presunções, mas o autor deste texto não o leva a sério, como é evidente. Desce a rua, sem lhe prestar atenção.
O autor não esconde que também anda a pensar em Mohammed Ajmal Amir Kasab, mas, na prática, não quer saber do rapaz. Quando pensa nele, pensa nos atentados de Bombaim, como é natural, e depois deixa logo de pensar em Bombaim e na Índia e no mundo, passa a pensar só na Europa e, logo a seguir, só na sua casa. O autor, quando pensa em Mohammed Ajmal Amir Kasab, espera o seguinte: que o terrorismo não chegue a Bruxelas. Depois distrai-se com esta ideia, pensa nos potenciais alvos para um ataque terrorista nesta capital europeia e tem pena de estar ao pé de todos eles.
Enquanto desce a rua, o autor acha todas estas suposições mais mórbidas do que o livro sobre vampiros que anda a ler, por isso resolve pensar noutra coisa. Regressa a Mohammed Ajmal Amir Kasab e pensa novamente em Bombaim, na tal estação de comboios. Depois distrai-se outra vez e começa a planear uma viagem nos comboios indianos. Lembra-se do anúncio "Incredible India" que tanto passa na BBC, lembra-se do filme Slumdog Millionaire. Gostaria de ir, por exemplo, a Goa, ao Taj Mahal, a Deli.
O autor deste texto anda evidentemente preocupado com o seu umbigo e, a propósito disso, pensa em Mohammed Ajmal Amir Kasab. Não anda propriamente preocupado com o rapaz paquistanês de 21 anos.
O narrador deste texto sim, anda preocupado com o rapaz de 21 anos, porque é europeu e acredita na carta dos direitos fundamentais, nomeadamente no artigo 2.º relativo ao direito à vida. Mas enquanto desce a rua enfiado no capuz do autor assusta-se com a ideia de encontrar Mohammed Ajmal Amir Kasab ao virar da esquina, tem vergonha da sua incapacidade para o diálogo, deixa de perceber a razão da sua existência.
O autor deste texto também é europeu mas, antes de mais, é humano, tem um corpo a sério e uma vida pela frente. O narrador não, tem uma existência intermitente: aparece e desaparece no capuz do autor. Indiferente a tudo isto, o autor desce a rua e pensa agora em Gandhi, nos seus ensinamentos. Volta a pensar no seu umbigo e depois em Mohammed Ajmal Amir Kasab.
Repete na sua cabeça a esperança de que o terrorismo não chegue a Bruxelas. Depois pensou em coisas boas. Por exemplo, no facto de o rapaz estar a ser julgado na Índia. Essa era uma coisa boa. Por a Índia ser um país longínquo. E por aí se aplicar a pena de morte.
O narrador fica tão chocado com o pensamento do autor que decide morrer. Atira-se do capuz e morre. Não obstante o seu direito à vida.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Da noite e do espaço


Sonhava muitas vezes que voava até à última nuvem e mergulhava para fora da Terra. O voo era tão silencioso que deixava de ser e o corpo caía devagar.
No Espaço.
Trazia vestido um fato de astronauta e a respiração repetia-se na cabeça como as ondas da praia.
O Espaço era igual à noite.
Havia certas luzes que interrompiam a escuridão e, portanto, muitas sombras. Havia também sons desconhecidos, tão misteriosos e longínquos que era necessário conter a respiração para ouvi-los.
O corpo vestido de astronauta boiava no Espaço de planeta em planeta, assistia ao nascer de outros sóis. Nem sempre sabia regressar à Terra.
O ar expirado embaciava o visor, por isso também era preciso conter a respiração para contemplar.
Nos sonhos bons, a Terra resplandecia inteira num outro céu e os lobos uivavam para ela. O corpo regressava, então, a casa.
Nos sonhos maus, a Terra não estava à vista e o corpo perdia-se para sempre no Espaço.
Aquele astronauta tinha, como é natural, um certo fascínio pelo Espaço. Mas gostava mais da Terra. Muito mais da Terra.
Vista do Espaço.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Das raízes

A propósito de um post da Pitucha sobre esta notícia.

Uma mulher de nome Maria decidiu cortar as raízes que trazia nos pés. Ora, não era costume as pessoas andarem por aí a cortar as raízes dos pés, na verdade nunca se tinha ouvido falar de tal prática. Diga-se que a mulher de nome Maria também não gostava propriamente de cortar: parecia-lhe um verbo demasiado definitivo e tinha medo do arrependimento. Contudo, a mulher de nome Maria estava muito habituada a usar a tesoura no seu dia-a-dia e não via nenhum problema em cortar também as raízes.
Tinha, por exemplo, o hábito de cortar as unhas das mãos. Outras mulheres e outros homens também cortavam as unhas das mãos, mas algumas pessoas roíam-nas simplesmente e outras deixavam-nas crescer até que elas se partissem.
A mulher de nome Maria preferia cortar as unhas das mãos e fazia-o com alguma regularidade. Também não se importava de cortar as unhas dos pés, embora tal implicasse um esforço físico maior que exigia desenterrar as pernas, lavar os dedos, cortar as unhas onduladas e voltar a enterrar as pernas até aos joelhos. Ora, isto era extremamente custoso, além de que ninguém via as unhas dos pés da mulher de nome Maria por estarem precisamente enterradas com os ditos pés.
Em dias especiais cortava também os cabelos. Nessas alturas não cortava o cabelo a si própria: ia ao cabeleireiro e uma outra pessoa cortava o seu cabelo. Outros seres humanos também iam ao cabeleireiro cortar o cabelo, mas também havia quem cortasse o cabelo em casa, em frente ao espelho.
Naquele dia, porém, a mulher de nome Maria decidiu cortar as raízes. E sem dramatismos, agarrou na tesoura e cortou.
O corte em si não foi doloroso, porque não implicava nenhuma cirurgia, apenas uma manobra parecida com a poda, porque as raízes, como todos sabemos, são como os cabelos e as unhas: voltam a crescer indefinidamente e, em excesso, não fazem falta.
A mulher de nome Maria disse ainda: "Já não pertenço a esta terra" e deitou a terra fora. Como não podia sobreviver sem terra, escolheu uma terra nova para passar o tempo. Escolheu também um vaso novo, de terracota. Deitou o antigo fora, que era da Vista Alegre. Empurrou o vaso novo até à janela, para apanhar mais sol.
Depois atirou-se para dentro do vaso e enterrou-se até aos joelhos.
As outras mulheres e os outros homens ficaram muito indignados. Disseram que ninguém podia cortar as raízes, por isso, esquecendo-se das suas outras raízes católicas, atiraram pedras à mulher de nome Maria, que se estava profundamente nas tintas, porque o seu lugar ao sol estava longe dos seres humanos indignados e as pedras não a alcançavam.
Ora, o narrador e o autor deste texto jamais cortariam as suas raízes, apesar de terem mudado de terra há cerca de cinco anos. Gostam de ter as mesmas raízes do início. A mulher de nome Maria não. Nós - autor e narrador - não vemos problema nisso.
Até porque a pátria, como disse um certo mestre desta pátria, é a nossa língua e a mulher de nome Maria, falando português, gostava mais de ser brasileira. Por causa do samba, imaginamos. Nós compreendemos e aceitamos.
Pena a mulher de nome Maria estar enterrada até aos joelhos. Senão, até podia sambar como os brasileiros.
Mas assim, enterrada como está, não pode. Deve ser estranho uma pessoa ser estrangeira na sua própria terra.
O que vale à mulher de nome Maria é o piano.
E a ortografia, que é milagrosamente a mesma.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Coração Independente Dourado

Gostaríamos de trazer pela mão um coração dourado.
Não um cão, não um papagaio, não um brinquedo nem uma criança.
Gostaríamos de trazer pela mão um coração dourado. Independente.
Maior do que o corpo, do que as portas das casas. Mais aberto do que as janelas.
Um coração impossível, flutuando no ar como uma nuvem. Como um balão.
Gostaríamos de trazer pela mão um coração independente dourado.
Para respirarmos mais alto. Mais profundo.
Mais ar, mais sentimento.
Um coração maior do que o corpo.
Para sermos mais humanos, mais transparentes.
E percorreríamos as ruas da cidade para que os outros vissem o nosso coração, sentissem o nosso pulsar.
Para que tocassem nos nossos ventrículos.
Bem que nós gostaríamos de percorrer a cidade trazendo pela mão aquele coração dourado. E partilhar todo aquele sangue, todo aquele amor, todo aquele engenho, para os quais nunca tivemos corpo nem alma nem tempo. Nem arte.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Das pessoas que escarram

Certas pessoas escarram. Não espirram, não cospem, não tossem: escarram. Vejamos o seguinte: eu não tenho nada contra o muco. Não tenho. Sinceramente, do fundo de mim mesma (onde tudo é muco), não tenho. Na verdade, simpatizo com o muco, com a sua elasticidade, plasticidade, consistência. Gosto verdadeiramente de muco, adoro muco, só quero muco, mas é exactamente por isso que o guardo só para mim (de preferência por dentro) e não ando a escarafunchar o corpo para expelir certos dejectos não identificados.
Aliás, como muito bem sabemos, o muco é uma coisa boa, faz bem ao corpo e à alma, protege-nos de certas forças do Mal, é confortável por dentro e por fora, faz parte do que somos. Logo, não há razão para não gostarmos dele.
Portanto, quando sigo contente pelo meu caminho e vejo alguém a escarrar violentamente para o chão, coloco imediatamente as seguintes hipóteses: esta pessoa, que expele tão convictamente o muco que tão bem a protege, ou não tem amor ao corpo ou tem muco para dar e vender.
Sobre a primeira hipótese, digo o seguinte: Não acredito. As pessoas que escarram têm certamente amor ao corpo. Encontro-as constantemente na rua e vejo que são, por norma, pessoas com um certo à vontade na vida e no corpo: dominam os ossos, a carne, os passeios, o alcatrão, cumprimentam os vizinhos, compram jornais no quiosque. Por isso, não acredito. Como é conhecido, quem não tem amor ao corpo, é triste, anda trancado na alma, não gosta do início de si próprio, é depressivo. E, de acordo com o que tenho visto, quem escarra, anda contente ou, pelo menos, satisfeito. Escarra, como já disse, convictamente.
Inclino-me, portanto, para a segunda hipótese: As pessoas que escarram têm muco a mais. Isto, realmente, deve ser uma chatice, há que soltar o bicho. A ciência tem demonstrado que o excesso de muco é causado por doenças, nomeadamente infecções, inflamações ou maleitas do género. Logo, se as pessoas que escarram tiverem verdadeiramente muco a mais no corpo, tenho de admitir o seguinte: além de me meterem nojo (um enorme nojo, todo o nojo), metem-me medo (imenso medo), porque estão infectadas ou inflamadas ou coisa que o valha. E eu, instintivamente, afasto-me delas, não vá a peste pegar-se.
No entanto, com base numa observação mais cuidada do acto de escarrar, noto que os verdadeiros escarradores escarram sempre, a toda a hora, onde quer que estejam. Saem de casa e escarram, esperam pelo eléctrico e escarram, saem do eléctrico e escarram, viram a esquina e escarram, entram na padaria e escarram. Ora, uma pessoa não pode estar doente toda a vida, a não ser os verdadeiramente fracos ou verdadeiramente depressivos que, como vimos, não é o caso das pessoas que escarram. Coloco, pois, mais uma hipótese: certas pessoas escarram por vício.
Outros há que fumam por vício. Que bebem. Que assobiam. Que mascam. Que comem. Que cantam. Que escrevem. Que lêem. Que roem as unhas por vício. E certas pessoas escarram. (Entram pelo corpo adentro através das vias respiratórias e trazem ao mundo todo o muco que encontram.) Os outros vícios, comparados com este, parecem-me consideravelmente mais normais. Mais ligeiros. Mais admissíveis.
Por instinto e convicção, não me dou com pessoas que escarram, não gosto delas, não as suporto, não as aceito. Ou seja, discrimino-as.
Pura e simplesmente.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Banda sonora para a manhã de quarta-feira

Acordou mais ou menos cedo. Isto é, tinha tempo. Mas não muito. Apenas o suficiente.
Vestiu-se só. Não tomou banho (já tinha tomado um duche na noite anterior).
Foi à cozinha. Para pôr o café a fazer.
Pôs.
Enquanto a água borbulhava na máquina, foi até à sala. No armário do fundo havia paralelepípedos com botões. Carregou num desses botões, depois noutro. Nesse instante, uma música preencheu o espaço.
Regulou o volume como quem controla a temperatura da água: primeiro para a direita, depois para a esquerda.
Era uma música sem voz. Ou seja, instrumental. Isto é, uma música com voz de instrumento. A mulher tentava explicar por dentro o que ouvia. Era uma nódoa em música, já se sabe. Mas identifica.
O instrumento. Uma guitarra.
A melodia era uma boa banda sonora para a manhã de quarta-feira, tinha um certo ar de viagem pelo Sul da Europa, com praia ao fundo e gente na esplanada. Era uma música boa, sim. Ajudava a disfarçar o cinzento do céu e o cansaço muito inchado das pálpebras.
(Sempre tivera olheiras. Desde que nascera, explicava a mãe. Um desgosto.)
Quem será o guitarrista?, pergunta-se, mas não quer realmente saber: há outras prioridades na vida, como beber café.
A propósito deste pensamento, regressou à cozinha. Passado pouco tempo reapareceu na sala. Trazia um tabuleiro nas mãos. E nele vinham deitados os talheres e um prato, a cafeteira e uma chávena que dizia: Dreams come true. Num dos cantos vinha escondido um pacote de manteiga. Pousou o tabuleiro na mesa de jantar e voltou à cozinha. Regressou com um saco de pão de forma que se chamava British breakfast.
A música acabou entretanto e ela teve pena. Teve realmente pena, imensa pena. Talvez se viesse a esquecer da melodia muito em breve, ou mesmo daqui a nada, parecia-lhe até que já se esquecia, que já se tinha esquecido. Uma música de viagem pelo Sul da Europa não devia acabar. Nunca. Ou pelo menos, não agora. Nesta manhã de quarta-feira. Como se chamaria a música? Como dar um nome a uma música sem voz?
Interrompeu o pensamento para ouvir o homem da rádio. Contava qualquer coisa. Um tom monocórdico, igual às manhãs. Ela pediu um desejo: Diz o nome do guitarrista, mas o homem da rádio não disse nada disso, tinha naturalmente outras prioridades.
O preto ganhou as eleições. Foi o que disse o homem da rádio. Não assim, claro. Ela é que já tinha processado a informação. Não se apercebera de que o pensamento fizera isto, muito menos de que substituíra a pessoa pela cor.
Parecia contente. Ele, o homem da rádio. (Estalavam-lhe pequenas esperanças na boca.) Ela não. Estava igual. Concentrava-se na tarefa árdua de barrar o pão e arqueava um pouco a testa por causa disso.
Bebeu café. Bebeu mais café. Comeu pão com manteiga. Pensou: E a música? Já não me lembro da música. Encolhe os ombros e escuta.
If there is anyone out there who still doubts that America is a place where all things are possible, who still wonders if the dream of our founders is alive in our time; who still questions the power of our democracy, tonight is your answer.
Do saco tirou mais uma fatia, barrou-a atenciosamente. Enquanto o fazia, pensava coisas boas sobre o preto. Por exemplo, que era bom orador. Que tinha coragem. Que era bonito. Que a sua voz também era uma banda sonora para aquela manhã de quarta-feira.
Bebeu café. A chávena dizia: Dreams come true e ela riu-se.
Disso. Dos sonhos. Dos seus. Dos sonhos dos outros. Daquele outro sonho. Da história da escravidão, daquele país feito de escravos, do descendente dos escravos que se fez rei. Perdão, presidente.
(Era a própria mulher que se corrigia.)
Se fosse rei, teria mais piada. Seria digno de conto tradicional, ao bom estilo dos irmãos Grimm ou do Andersen. Presidente já não servia. Era demasiado moderno.
Comeu pão com manteiga.
Pergunta-se: Como será a vida de alguém que muda o mundo? Que pode mudar o mundo? Que vai mudar o mundo? Que quer mudar o mundo? Que pessoa é essa? Para onde vai?
Admite: Antes ser música. Sim, antes música. Sem nome nem voz. Uma melodia que ninguém conheça, mas que toda a gente tenha ouvido. Uma vez na vida. De manhãzinha. Na rádio. Uma banda sonora para a manhã de quarta-feira.
Antes música, que presidente, pensava a mulher enquanto saía de casa.
Tinha outros sonhos.
Outras prioridades.
(Como, por exemplo, tomar o pequeno-almoço de manhã).

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Estados muito Unidos

Coloquemos a seguinte pergunta:

Se os Estados muito Unidos fossem um corpo humano
com cabeça, tronco e membros,
o que seria o Alasca?

Sim, o que seria o Alasca? Veja o mapa e diga-me o que seria o Alasca.
É uma pergunta interessante.
Para ajudar o leitor a dar uma resposta, resolvemos fazer uma coisa muito americana, nomeadamente uma multiple choice question que é, basicamente, uma pergunta seguida de respostas: umas erradas e outras correctas. A pergunta vai atrás e as respostas à frente. Cá estão elas:

Se os Estados fossem um corpo humano com cabeça, tronco e membros, o Alasca seria…

a) …uma cabeça sem cavaleiro.
b) …o cu de Judas.
c) …um cão rafeiro.


Clique na sua resposta ou veja a sua resposta em baixo.

Se respondeu a)

Leia a pergunta aqui.

Na sua opinião, o Alasca seria uma cabeça sem cavaleiro.

Sim, percebo perfeitamente a sua escolha. À primeira vista somos tentados a dizer que o Alasca seria, de facto, uma cabeça separada do resto do corpo. Flutuante, fantasmagórica. Esta imagem traz-nos naturalmente à cabeça o tal cavaleiro sem a dita: uma lenda inventada - lá está! - por um americano, também ele com nome capital.
Infelizmente, esta resposta não está correcta. Se pretende saber qual a resposta certa, clique aqui ou continue a ler em baixo.

Se respondeu b)

Leia a pergunta aqui.

Na sua opinião, o Alasca seria o cu de Judas.

Ena! Você foi suficientemente perspicaz para virar o mapa ao contrário (e nunca o mundo, que esse está sempre em pé, para onde quer que o rodemos).
Neste caso, estando a América do avesso, somos obrigados a admitir que o Alasca passa de cabeça sem cavaleiro a cu de Judas ou a calcanhar de Aquiles ou a qualquer coisa no final do corpo, muito separado, muito desunido.
(Por exemplo, se os Estados Unidos defecassem, o Alasca poderia ser o seu resultado. No entanto, esta resposta não consta das múltiplas escolhas porque o Alasca também tem direito à vida. E como sabemos, a merda não vive.)
E estando o Alasca no final do corpo, o cu parece ser a resposta apropriada.
Infelizmente, esta resposta não é correcta. Já se sabe que não existem cus separados do corpo.
Se pretende saber qual a resposta certa, clique aqui ou continue a ler em baixo.

Se respondeu c)

Leia a pergunta aqui.

Na sua opinião, o Alasca seria um cão rafeiro.

Parabéns! Você acertou na resposta certa. Realmente, estando separado dos Estados muito Unidos, e caso estes fossem um corpo humano com cabeça, tronco e membros, o Alasca só poderia consistir num outro corpo. Independente dos Estados mais unidos, como é evidente, mas seguindo-os sempre e para todo o lado, mais ou menos perto, mais ou menos longe, fielmente. Concluímos assim que o Alasca seria, nem mais nem menos, do que um animal de estimação. Amicíssimo do corpo muito unido.
Um cão, portanto. Branco como a neve, com a cabeça naturalmente fria. Muito fria. (Não seria o Alasca se não tivesse a cabeça muito fria.) Tão fria que o cão não a usaria. Os seus próprios membros também não a coçariam.
E os outros Estados, por uma questão de comodidade, também não dariam festinhas no seu cocuruto gelado. O Alasca, coitado, seria um cão de circunstância. Muito carente, desamado, desacarinhado, desunido. O Alasca dormiria, comeria, ladraria. Nada mais.
E portanto, se os Estados Unidos fossem um corpo humano com cabeça, tronco e membros, o Alasca seria um cão, com a sua cabeça, o seu tronco e os seus membros. Provavelmente feio. Rafeiro. Doente. Cheio de pulgas carraças.

(E estava eu neste exercício de escrita quando me apercebi do seguinte: Ora bolas, a Sarah Palin é governadora do Alasca! Que triste coincidência. E vai daí, voltei atrás e substituí as pulgas por carraças.)