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segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A metamorfose

No dia das mudanças meteu a casa inteira num caixote e fechou-o com fita-cola para garantir que a vida não saía. Disse: "Vou com a casa às costas" e pensou subitamente que era um caracol. Sentia-se lento e elástico como os relógios de Dalí, tudo era longínquo, enorme, inalcançável. Rastejou até à rua e apontou as antenas para cima atento aos pormenores da cidade. Era uma despedida triste, o tempo desacelerava um pouco mais, o corpo diminuía até ao chão. Desceu vagarosamente a rua com a carapaça às costas. Disse para o caixote: "Onde eu acabo, começas tu! Ou vice-versa.". A sua casa era parte do seu pulmão por isso, a certa altura, enfiou-se dentro do caixote. Aí ficou muito tempo com os seus objectos, era uma viagem bonita ao fundo do ser. Prometeu que sairia um dia da sua carapaça, quando o sol fosse quente e a rua seca. Por enquanto só queria estar a sós com a sua casa.
Depois, numa noite igual às outras, lembrou-se que era hermafrodita e ficou contente por isso. A vida tornava-se de repente mais interessante.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Dores de crescimento

Chorava convulsivamente porque tinha feridas no corpo e nódoas sempre negras. (Esclareça-se: ninguém lhe fizera mal.) Na verdade todos a tratavam demasiado bem e nem mesmo em criança ela caía ao chão. O pai dizia que tal se devia ao facto de a pequena andar sempre ao colo da mãe; a mãe dizia que não, que a pequena tinha um equilíbrio de rã, as pernas muito assertivas e os pés muito estáveis.
A adolescente dançava ballet desde cedo e só tinha fatos que lhe cobrissem as costas por causa das manchas horríveis de alergias inventadas. Quando lhe apareceu o primeiro pêlo negro na púbis, chorou horrorizada em frente ao espelho e arrancou-o com uma pinça. Tal era a sua obsessão que, ao lhe perguntarem o que queria ser quando fosse grande, em vez de bailarina, a menina respondeu "perfeita".
Certa vez diagnosticaram-lhe uma arritmia no coração e ela achou que o seu corpo já não tinha música. Não queria ir ao ballet e logo a seguir deixou de dançar. Depois, por as borbulhas lhe cobrirem o rosto e as ancas terem inchado, declarou que não iria mais à escola.
A mãe desesperou e levou-a a uma psicóloga com dentes amarelos. A adolescente mal falava e não ouvia, não gostava de ler nem de pintar nem de escrever e, agora, nem mesmo de dançar. Por isso, a psicóloga ofereceu-lhe um bilhete para uma exposição dizendo: "Aqui está a tua cura!". A rapariga queria curar-se da sua falta de perfeição, por isso, nesse dia e em segredo, foi ao centro cultural.
Nas paredes havia quadros da Frida Kahlo e a adolescente, ao ver as feridas de Frida, calou as suas. Viu os auto-retratos e auto-reflectiu. Havia pregos no corpo, uma coluna vertebral de ferro, camas de hospital. A rapariga saiu da exposição muito calada, comprou um poster do quadro "A Coluna Quebrada", afixou-o no quarto e não contou a ninguém o que vira.
Nessa noite a rapariga sonhou com o corpo enrolado em gesso, tão igual ao dos egípcios depois da morte: queria gritar e a sua boca mumificada era muda, queria fugir e os seus pés de anfíbio desequilibravam-se, caíam, nunca se levantavam. Ao acordar libertou-se dos lençóis e da roupa como quem sacode insectos, abanou o corpo e assim ficou muito tempo, completamente nua e sentada no chão.
De repente, assaltou-a um pensamento. Repetiu: "As feridas definem-nos!". Ouviu por dentro o coração sem ritmo e entendeu-o.
A adolescente concluiu: "Preciso de auto-retratar-me!" e ficou nua todo o dia, à excepção dos sapatos de ballet que entretanto calçara. Dançou sem música: deu saltos impossíveis e pousava certeira no chão, estava quase sempre em pontas, cheia de pontaria. Ao desequilibrar-se a primeira vez riu-se: era preciso conhecer os limites. Por isso, no dia seguinte, quando a psicóloga perguntou como se sentia, só a adolescente percebeu o que disse:
"Mal posso esperar por cair!".

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Alegoria da caverna

Dizem-me: "Não és sombra do que eras!" e não percebo logo o sentido da frase.
Reajo sem pensar: olho para trás à procura da minha sombra e, em vez dela, vejo outra pessoa. Assusto-me e viro-me para a frente.
Não olho para trás durante muito tempo e imagino um monstro nas minhas costas, pronto para me devorar.
Lembro-me do sombrio Peter Schlemihl que se tornou sombra de si próprio depois de vender a sombra ao diabo. Penso: "Se não sou sombra do que era, hei-de ser sombra de outra coisa".
Fecho os olhos e regresso à infância, a uma noite de Verão em que Peter Pan voou pela minha janela deixando a sua sombra no meu quarto. (Era uma boa amiga a sombra de Peter Pan, brincávamos juntas pela noite fora à luz do candeeiro.)
Segredam-me ao ouvido: "Não tens sombra porque estás no escuro" e abro os olhos.
Não o podia ver, talvez fosse este o monstro nas minhas costas. Ouvia-o mexer em objectos estaladiços e de repente acendeu-se uma chama. E da chama nasceu a luz. Olhei para ele.
Tinha o rosto afunilado de Peter Pan, os mesmos olhos rebeldes. Pensei: "A criança feita homem".
Disse-me: "Há outra forma de luz lá fora" e levou-me pela mão. Podia ser este o diabo a quem Fausto vendera a alma e outros venderam o corpo, mas encolhi os ombros despreocupada. Ofereço-lhe tudo isso de bom grado por ser dono da luz. Caminhamos lado a lado com a dignidade com que os amantes caminham para o altar. Estamos fora da caverna.
Não somos sombra do que éramos e a luz atravessa-nos ao meio. Ou seja, não temos sombra e trocamos de alma como quem troca de corpo. Somos livres.


Nota informativa: volto dia 18 de Setembro depois de uma viagem pela luz.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

A menina rouca

Diz-se que a menina é rouca, tem uma distorção nas cordas vocais, é um grande desgosto, desgostou a velha, a terapeuta da fala fá-la falar mas do que a menina gosta é de cantar, daí a sua boca em forma de bico esquisito como as dos passarinhos pequeninos e os braços quase asas bem puxados para trás. Mas a sua cantilena dá pena, mete dó, diz a avó encolhendo os ombros como quem encerra o caso e dá um abraço à cantadeira. A menina abana a cabeça com a destreza dos pombos do Rossio e logo faz pio e começa a cantar. Vêm de dentro sons guturais, grotescos, têm forma de grutas, metem medo. Estamos nisto e chega o Evaristo cantor. "Menina", chamou, "precisas de ajuda para o teu cantar" e nisto o Evaristo estende-lhe uma flauta e a menina começa a tocar. Tocou primeiro um sol e depois um dó e já não metia dó o cantar da menina.