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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Uma mulher à janela

O último dia. Tão parecido com os outros. 
Um pouco mais quieto, um pouco mais final. 
Notícias do dia: em Bruxelas não vai haver foguetes. Babum! Para explodir de vez com a esperança. 
Está frescote em Aveiro.
Máximas previstas para hoje: 15 graus. Céu pouco nublado. Vento de intensidade moderada.
Algumas mulheres estão à janela. Uma, duas, três, cinco, sete. 
Umas estendem lençóis, outras sacodem tapetes. Para afastar os espíritos manhosos. 
E lavar a roupa suja.
No chão um resto de chuva. 
Penso no ciclo da água, nas alterações climáticas. 
Eu também sou uma mulher à janela.
No outro dia vimos andorinhas. Numa noite de inverno. Estavam muito bem pousadas num cabo elétrico. Pareciam esculturas, mas não eram esculturas. Eram andorinhas de verdade. 
Foi estranho. 
Andorinhas numa noite de inverno. Tirei-lhes uma fotografia. Sou cruel.
Faço planos dentro da cabeça: passas, vinho, champanhe. 
Faço outros planos dentro da cabeça: umas superstições de trazer por casa. Por exemplo, subir para cima de uma cadeira, guardar a rolha do champanhe, estrear roupa nova.
Para espantar o primeiro dia, qualquer coisa serve.
Fico a pensar nas andorinhas ao frio. Coitadas. Talvez tenham decidido não migrar. 
Faltam nove horas.
Mais coisa, menos coisa.
Já estou em contagem decrescente.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

No final do ano é sempre assim

No final do ano é sempre assim: subimos muito alto. Ficamos suspensos no ar a ver as casas lá em baixo. 
As casas, as estradas, as pontes.

Estamos dentro de um avião dentro das nuvens. 
São nuvens brancas e suaves, não fazem mal a uma mosca.

Ao longe, tudo é bonito: a cidade, as casas, as nuvens.

Ao longe, também o tempo é bonito: janeiro, fevereiro, março.

Um ligeiro peso nas pálpebras. No pescoço. Na consciência. 
Uma ressaca do mundo inteiro. Um cansaço antigo.

No final do ano é sempre assim: fechamos os olhos para o tempo. Interrompemos o mundo a meio de uma frase, a meio de um segundo.

Estamos dentro de um sono dentro de um avião dentro do tempo, a passear pelas nuvens. 
Descalços e descontinuados.

De súbito, uma turbulência qualquer no corpo. Uma ansiedade minúscula alinhada à esquerda.

Abrimos os olhos e vemo-la: a cidade do Porto. As casas, as estradas, as pontes.

Ao longe, a cidade invicta é bonita.
A beleza tranquila da distância.

Pousamos devagar no mundo. Como pequenos deuses. Primeiro os pés e depois a cabeça.
Só então o tempo recomeça.
O tempo e o mundo.

2016 ao virar da esquina. 

Mais um ano, mais uma viagem. 
O tempo ao longe.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Facebook, o livro dos rostos (II)

Sei lá. Era domingo. Estava frio. Fiz bolachas de chocolate no forno. E depois abri a janela para o mundo e também uma página no Facebook, o livro dos rostos.
Foto de perfil: nhec.
Pode ser a karateca. Não é bem o meu rosto, eu sei, mas também é um rosto meu.
As bolachas de chocolate ficaram assim assim. Não tenho grande jeito.
Mil e uma perguntas. Respondi Não a muitas delas.
Quer que o Facebook aceda aos seus contactos? Não.
Quer que os amigos dos amigos não-sei-quê na sua página? Não.
Quer que os seus amigos não-sei-quê das tags? Não.
Logo a seguir deu-me a timidez. Não disse nada.
Fiquei ali especada a olhar e a comer bolachas. Têm fermento a mais.
Há muito tempo escrevi: Abomino o livro dos rostos.
Mas agora passou-me a birra, acho. As pessoas mudam.
Mudam, não mudam?
Talvez.
Quarenta pedidos de amizade. Aceito? Não aceito?
Os rostos dos outros.
Assustei-me. Lembrei-me. Emocionei-me.
Olha-me esta moça! Casou-se no mês passado. Que bonita.
Onde ficou essa amizade? Não me lembro.
Uma vez acampámos juntas. Não sabíamos montar a tenda, estava a chover. Tínhamos 13 anos.
Lama por todo o lado. Deram-me uma alcunha qualquer porque eu era sempre a última a chegar. Talvez Turbo ou Racing. Não sei.
Fui a última a chegar ao livro dos rostos.
E, sinceramente, não me ocorre dizer nada.


Voilà, c'est ça !


Cheguei.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

À porta fechada

Chegas a casa, fechas a porta, rodas o trinco.
Olhas para trás para te certificares de que rodaste o trinco.
Sim, rodaste.
Tu suspiras. Há um certo alívio no isolamento. Uma liberdade na clausura.
Como assim?
Tu olhas para a tua mão direita, que rodou o trinco, e não gostas da tua mão direita, porque rodou o trinco. É um movimento novo.
Estás trancada.
Como se fosses um tesouro. Uma pérola. Uma relíquia. Uma princesa isolada no cimo da torre.
Tu pensas: É mais seguro assim. É tão mais seguro assim.
Estás na tua casa, na tua torre. À porta fechada.
E ninguém entrará aqui. Absolutamente ninguém.
Só a porteira poderia entrar na tua casa.
Não. Nem sequer a porteira. (Está de férias.)
Tu suspiras um sufoco bonito.
Só o teu marido entrará. Há de voltar não tarda.
E de repente lembras-te daquele teu amigo, que também tem a chave da tua casa.
O teu amigo podia entrar agora mesmo.
Podia, não podia?
Sim, podia.
Por que deste a chave da tua casa?
Um ladrão também poderia entrar na tua casa. Primeiro espreitaria pela fechadura e depois entraria de rompante ou então devagarinho, sem fazer barulho.
Tu escutas o barulho da casa. Tu não fazes barulho para escutares o barulho da casa.
É como se jogasses às escondidas com o mundo. É como se jogasses às escondidas contigo própria.
E antes não eras assim, pois não?
Não.
Antes perdias as chaves aqui e ali. O senhorio ralhava contigo. Mudava-se o trinco. Mudava-se o senhorio. Perdias as chaves outra vez.
Nem sequer trancavas a porta por dentro ou por fora. Trazias para casa as chaves de outras pessoas. Chaves de hotéis longínquos.
Também te esquecias das chaves em casa. Ficavas do lado de fora. Pedias à senhora da livraria que ligasse a um serralheiro. A senhora da livraria oferecia-te guarida, tu recusavas. Ligavas a uma amiga. Dormias num sofá. Em lençóis mais frescos do que os teus.
Tu estás fechada dentro da cabeça e pensas nessa pessoa que não trancava a porta de casa.
Hoje acordas de manhã e rodas o trinco. Abres a porta, abres os olhos e dás com as tuas chaves do lado de fora. As tuas chaves de casa penduradas na porta, a convidar qualquer um a entrar. Esqueceste-te delas ali, na fechadura.
E é como se o mundo inteiro jogasse às escondidas contigo. É como se tu própria jogasses às escondidas contigo.
Por um lado, fechas-te por dentro. Por outro, atiras a chave à rua.
De um lado da porta, és uma coisa. Do outro lado, és outra coisa.
Tu espreitas pela fechadura e vês o teu reflexo, a tua sombra.
Uma parte de ti está fechada em copas. E a outra está aberta ao mundo.

sábado, 8 de agosto de 2015

Trinta e três

Eu digo: Trinta e três. E a língua destrava e tropeça, dou uma trinca no três.
Trinta e três é um trava-línguas atarantado.
Eu penso: Vai ser um ano tramado. Ou talvez não.
Aos trinta e três, Jesus morreu e regressou à vida. (Cruzes, canhoto!)
Aos trinta e três, Jesus mudou o mundo e também o tempo: antes de Cristo, depois de Cristo.
Aos trinta e três, tudo é possível.
O inverso de trinta e três é trinta e três. É o mesmo número para a frente e para trás.
E eu gosto à farta de capicuas.
O meu nome também é uma capicua.
Eu própria sou uma capicua. Sou o mesmo número para a frente e para trás.
Isto quer dizer que eu e o número trinta e três temos coisas em comum.
Eu digo: Trinta e três.
E já não trinco o número. Já não tropeço no tempo.
Antes de mim, depois de mim.

Voilà!

Ressuscitei.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Perder a cabeça

Por vezes, perco a paciência. Perco o sangue-frio. Perco a cabeça.
Logo a seguir perco o comboio.
Também perco objetos.
Alguns objetos existem para se perderem.
Meias, luvas, moedas. Óculos, sapatos. Chapéus, guarda-chuvas. Anéis, brincos, colares.
São objetos perdidos.
Por vezes, reaparecem. Mudam de lugar ou de dono.
Na maior parte das vezes, desaparecem para sempre. Livros, telemóveis, cartões. Cadernos, carteiras, bilhetes.
Eu não perco tempo com as coisas perdidas.
Encolho os ombros e sigo caminho. Digo-lhes adeus ao longe. Um aceno, um beijinho, um abraço.
Os gestos também se perdem.
Eu não tenho apego às coisas perdidas.
Não perco o meu latim. Não perco as estribeiras.
Dou pela falta de um brinco e não sinto pena nem arrependimento.
Sinto uma enorme indiferença. Uma indiferença a perder de vista.
Se calhar ganhei calo com tanta perda, não sei.
A verdade é que só perde quem tem. E eu estou-me nas tintas para os objetos.
Deito tudo a perder.
Uma vez perdi a consciência.
Outra vez perdi a virgindade e nunca mais a encontrei.
Por vezes, perco a cabeça. Perco terreno. Perco a razão. Perco a noção das coisas.
Perco o equilíbrio.
Em certos dias, perco-me de amores. Perco-me num livro.
Sou uma grande perdedora. Mas nem por isso tenho bom perder.
Nunca gostei de perder no Monopólio.
Ainda hoje odeio perder no Sudoku.
Quando jogava vólei, perdia a voz de tanto gritar.
Não gosto de perder o pé. Não gosto de perder a vez.
Infelizmente, já perdi pessoas. É terrível perder pessoas.
Eu tenho mau perder a perder pessoas.
Nos dias bons, perco o medo. Nos dias maus, perco o tino.
Raramente perco o sono. Raramente perco peso.
Quase sempre, perco a vergonha.
Nem sempre é mau perder a vergonha. Por vezes, é bom. É bem melhor.
Sempre se ganha alguma coisa quando se perde.
Talvez juízo.
Talvez experiência.
Sei lá.
Pode ser que sim.
Por vezes, perco o norte. Perco o fio à meada. Perco-me em divagações.
Mas não perco pitada.
Não perco pela demora.
E nunca perco a esperança.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Shake to shuffle

O meu iPod pode muita coisa.
É pequenino, fininho e inofensivo, mas dá-me muita música. Além disso, tem o poder mágico de transformar o mundo.
Quando quero mudar de banda sonora, agito o iPod no ar e ele muda de ideias. Põe outra música qualquer. E o mundo altera-se.
Eu abano e ele abana, o mundo transforma-se.
Alguém chamou a isto Shake to Shuffle.

Era bom que o mundo fosse um pouco mais parecido com o meu iPod.
Uma pessoa abanava-o e ele mudava de paradigma.
Seria um mundo completamente diferente. Todas as vezes diferente.
Admiravelmente novo e renovado. Modificado.
Com outro ritmo, outro tom, outra música.
Uma pessoa shake e ele shuffle.

Seria uma proeza ao estilo da Dorothy, que batia com os pés no chão e ia parar à Terra de Oz.

Apetecia-me passear na Terra de Oz com o Homem de Lata.
Em vez disso, vou sair para a terra bruxuleante de Bruxelas.
Mas vou bater com os pés no chão na mesma. Só para abanar um bocadinho.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Mads Mikkelsen

Nos últimos tempos dou de caras com o Mads Mikkelsen todos os dias. Está sentado à minha porta, vestido de preto e de perna cruzada.
Eu assusto-me quase sempre: dou um gritinho e levo a mão ao peito.
É que o Mads Mikkelsen provoca em mim um certo respeito e também acentuado fascínio. Seja como vilão do James Bond, seja como amante da rainha.
Saio de casa e olho para ele, ele olha para mim. Traz um sorriso matreiro pendurado nos lábios, como se soubesse tudo sobre os comuns mortais, eu incluída.
Eu sigo em frente e ele fica para trás, na sua poltrona profunda.
Há qualquer coisa intrigante e espicaçante no Mads Mikkelsen. Tem cara e nome de louco. E uma voz profunda, de assustar os corvos.
O que faz o Mads à minha porta?
Não-sei-quê de mobília escandinava. Estou-me nas tintas para a mobília escandinava.
De qualquer forma, agradeço o cartaz em tamanho real.
Nada me põe mais mad do que ver o Mads logo pela manhã.
Dá-se-me logo a espertina.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Manhãs difusas

As minhas manhãs são difusas e nebulosas. Vou até à cozinha e espreito o dia turvo através da janela. Está embaciada ou talvez suja, não sei.
Agarro numa faca que parece mesmo uma faca e corto duas fatias de uma coisa que parece um pão. Tomo um pequeno-almoço baço e confuso.
As torradas são foscas. A manteiga é ambígua.
O café é sombrio.

Nunca ponho os óculos de manhã. É uma questão de princípio, acho.
Sou uma pessoa desfocada e obscura.
Tenho vistas curtas.

E gosto.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Descascar batatas

Há um consolo subtil na atividade doméstica de descascar batatas.
A rotação da esfera imperfeita.
Um pedaço de terra nas mãos.
A pele rugosa e antiga.
Que pele?
A pele da batata. A pele das mãos.
A sensação ingénua de que, afinal, sempre dominamos algo.
Por exemplo, uma faca.
Por exemplo, o destino de um tubérculo.
Qualquer coisa cortada pela raiz.
Descasco uma batata e lembro-me.
De quê?
Não sei.
Uma recordação muito mais velha do que eu.
A minha mãe com uma batata na mão. A minha avó, a minha bisavó, a trisavó.
O gesto repetido desde o século XVI.
Uma esfera imperfeita de mulheres a descascarem esferas imperfeitas.
Eu igual a um tubérculo, cortada pela raiz.
A memória comum.
A lógica da batata.
O sentimento de pertença.
Qualquer coisa anterior a nós.
Impercetível.
Subterrânea.
Imperfeita.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Do coração

O coração cansa-me.
O meu e o dos outros.
E também aqueles corações rechonchudos que pululam o Dia dos Namorados. Bolachas e chocolates em forma de coração, meias e cuecas repletas de corações palpitantes, velas, canecas, livros vibrando de amor. Corações atravessados por uma seta ou então partidos ao meio para os mais desiludidos.
Atenção: não tenho nada contra o São Valentim. Até acho piada à história do santo e regozijo-me com a celebração do amor.
Eu passo a vida a celebrar o amor.
Ainda assim, vivo muito melhor sem o Dia dos Namorados.
O meu coração deve ter endurecido porque, a bem dizer, não percebo muito bem a sobrevalorização deste órgão muscular.
Por que razão será ele o símbolo por excelência das emoções e, em particular, do amor e da paixão?
É certo que o coração conhece razões que a razão desconhece, mas eu não me emociono no coração, acho. Aquele bater misterioso e previsível aborrece-me de morte (e de vida, no caso).
Eu cá sinto as emoções pelo corpo todo. Regra geral, comovo-me no fígado ou então na vesícula, fico com náuseas. As emoções mais bicudas picam-me nos pulmões. Falta-me logo o ar e dá-me a fraqueza por dentro. 
Nos dias que antecedem um momento fulcral, emociono-me nos joelhos, tremem-se-me as pernas. A comoção dá-me cabo das articulações e não propriamente dos ventrículos.
A verdade é que não sinto nada no coração além do bate-bate, bate-bate, bate-bate.
Apesar disso, sou emotiva. E desmesuradamente lamechas.
A paixão, em especial, dá-me a volta às entranhas. Ou seja, faço das tripas coração. Levo chibatadas no intestino delgado, valentes socos no estômago. Ou então mais abaixo, diretamente no útero.
O coração para mim é a vida.
Nos videojogos, por exemplo, é mesmo assim: quantos mais corações, mais vidas.
Paradoxalmente, o coração para mim também simboliza a morte.
Deve ser por causa da rainha de copas da Alice no País das Maravilhas ("Cortem-lhe a cabeça!"). E agora também me lembrei do mais inesquecível vilão do Indiana Jones, que arrancava corações com a mão. Para os que têm miocárdios mais resistentes, a cena está em linha.
Apesar do acima exposto, apraz-me que um dos símbolos de Portugal seja o coração de Viana, por ser um coração torto que nunca mais se endireita. Além disso, traz umas cornucópias de filigrana em cima que, segundo me contaram, simbolizam o fogo.
É um coração torcido e fogoso.
Eu tenho uns brincos desses. E um pêndulo também.
Não que eu seja uma portuguesa amorosa.
Sou é bastante torcida.
E também fogosa.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

10 anos

Saí de Portugal há 10 anos. Foi no dia 4 de novembro de 2004.
Tinha um bilhete de ida e volta, mas afinal não voltei. Emigrei para o inverno. Trazia comigo uma mala e uma cabeça cheia de coisas lá dentro.
Na Alemanha comecei a ler o que me apetecia e não o que me mandavam ler.
Comprei A Carta ao Pai numa livraria pequenina que vendia livros pequeninos.
Eu tropeçava na língua alemã e também na neve e no vinho quente. O meu primeiro gorro tinha trancinhas.
Os meus amigos alemães tinham convicções. Eu tinha cada vez mais dúvidas.
Eu vivia nas águas-furtadas de um prédio de esquina. A chuva fazia muito barulho contra a janela e eu escrevia longas cartas ao som da chuva. A minha escrivaninha abanava com a força da minha caneta. A minha caneta fazia barulho contra o mundo.
Quando vou a Portugal, regresso ao passado. O meu país é a casa dos meus pais.
Talvez por isso as minhas histórias morem na adolescência.
Em 10 anos, aprendi mais sobre mim do que sobre os outros. Sei cada vez mais sobre cada vez menos.
Uma década depois, continuo com saudades do meu país e da casa dos meus pais.
Eu gosto de ter saudades do meu país e da casa dos meus pais.
Gosto de ser um bicho estranho e sofredor.
Estou cada vez mais nostálgica. Cada vez mais portuguesa.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Domingo em pantufas

Uma espreguiçadela prolongada no espaço e no tempo. Onze e meia da manhã. O sol através das cortinas. Vários livros à cabeceira.  Um, dois, três. Muito longe das mãos. Lá fora tudo fechado. As lojas, os bancos, os supermercados. Meia vontade de fome. Cozinha com sol nas pontas dos pés. Uma revista qualquer. Não sei quê do ego. A obsessão pelo sentido das coisas, pelo terceiro olho, bladiblá. Um bocejo. Pequeno-almoço na varanda. Ovos mexidos, torradas, café com leite. O eco das torradas nas traseiras. O eco das vozes. O nosso ego na varanda.
O prédio da frente, sem flores nos parapeitos. Um prédio feio quase bonito.
A máquina da roupa contra o silêncio. Cinco quilos de roupa interior. Cuecas e meias.
Meia vontade de caneta e papel. Um texto de domingo em pantufas.
Sem verbos sequer.
E um livro vazio no sofá.

Ego sum.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Sapatos, pés e calcanhares

As sapatarias irritam-me. É preciso falar com a senhora da loja, pedir aquela bota naquele número e ficar à espera da resposta e depois da caixa, que nunca mais chega, que se calhar nem vai chegar. Olhe, só tenho assim. Ou então: Há, mas são verdes. 
Cheira logo a esturro e não é dos sapatos, porque os da loja são novos.
E se quero comprar botas, compro sabrinas. Se quero em preto, só há em castanho. Se estão apertados, não há maior. Paciência.
Os meus pés transpiram de angústia.
E nunca é um bom momento para experimentar sapatos. Tenho a meia rota ou as unhas feias ou os sapatos gastos ou as pernas tortas. Se encontro o que procuro, não têm o meu número. Se têm o meu número, ficam largos. Se quero o número abaixo, não há. Se há, não me servem.
Às vezes compro na mesma. Que se lixe, pode ser que alarguem. Se alargam, nunca os uso. Se não alargam, ficam para lá. Se me servem, não gosto deles. Se gosto deles, fico indecisa.
Se são confortáveis, são feios. Se são bonitos, são caros. Caneco.
Às vezes compro na mesma. Tenho pés sofisticados.
Se compro em camurça, alguém me pisa. Se compro sandálias, começa a chover. Se estou satisfeita, parte-se o salto. That's it. Estou calejada.
Talvez valesse a pena andarmos para aí descalços. Ganharíamos mais calo para a vida. E desistíamos daquela ideia de ter pés macios e hidratados. Que parvoíce.
Os meus pés servem para andar e dar pontapés. Não servem para ser bonitos nem elegantes. São o nível mais baixinho de todos. São reles e malcheirosos.
Não me chegam aos calcanhares.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Um oito deitado de bruços

Ao oitavo dia do oitavo mês chegou uma criança que era um oito prolongado. Um oito deitado de bruços. À espera da eternidade.
Era o "símbolo do infinito, um oito preguiçoso".

(citação e imagem do livro "O pintor debaixo do lava-loiças" de Afonso Cruz)

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Segunda de manhã na capital da Europa

Auscultadores nos ouvidos, lenço ao pescoço. As segundas-feiras começam no elevador. Primeira porta, segunda porta, terceira porta. Afinal não está frio nem quente, está assim assim. Os dois sem-abrigo não pedem dinheiro, estão distraídos. Andam à procura de qualquer coisa por baixo das mantas. Estou a ouvir Austra. Um pai apressado empurra um carrinho de bebé. O miúdo traz um helicóptero ao colo e fala pelos cotovelos. Olho para trás, para o helicóptero e para os sem-abrigo, que ainda não encontraram o que procuram. O café de esquina está sempre cheio. Não percebo. São caros, antipáticos e vendem sandes esquisitas. Com pasta de atum. Ou tomate e bacon. Acho que nunca comi uma sandes de tomate e bacon. O elétrico passa, guincha na curva. Além disso, vêm dentro de sacos de plástico. As sandes. Passo por uma montra de pains au chocolat, vejo pessoas na montra a beberem café, nunca entrei aqui. Um dia destes. Tenho saudades dos cafés portugueses, das pessoas ao balcão, de uma meia de leite, de bolos de arroz. Passo por uma escola secundária. Alguns miúdos estão cá fora a olhar para o seu próprio reflexo nos carros e a partilhar auscultadores e cigarros. Uma mulher ultrapassa-me, parece determinada. Vai mudar o mundo ainda hoje, sem falta. Traz uma saia travada, mas a saia não a trava. Um cão enorme passeia um senhor franzino pela rua. Uma bicicleta passa por mim e logo a seguir outra. A última bicicleta faz triiiiiim. É um ex-colega por baixo de um capacete foleiro. Está tudo bem? Sim. E contigo? Tanta tecnologia, tanto design e ainda não inventaram um capacete de jeito. Uma senhora faz-me uma pergunta. Os olhos parecem perdidos, traz um mapa na mão. Tiro os auscultadores, pergunto: Como? A senhora balbucia qualquer coisa e eu aponto para o mapa. O meu francês é melhor que o dela. O cabelo dela é melhor que o meu. Tem sotaque nórdico. A florista da praceta tem sempre umas plantas sofisticadas cá fora. Qualquer dia compro uma planta nesta florista. Passo pelo homem que fuma à porta de casa. Está sempre no mesmo sítio à mesma hora, de cigarro em punho e chinelos nos pés. Sustenho a respiração. Não me apetece inalar tabaco. Uma mercearia marroquina já tem a fruta cá fora. Também nunca entrei aqui. Passo pelo cão velho, que ocupa o passeio todo. No outro dia, ladrou-me. Não sei porquê. Ao longe, os edifícios do Parlamento Europeu. Ficam sempre bem nas fotos. De qualquer ângulo, de qualquer maneira. A luz faz sempre ricochete nos vidros. Os edifícios do Parlamento Europeu parecem frágeis e robustos ao mesmo tempo. A extrema direita vai para o Parlamento Europeu trabalhar contra a Europa. Logo agora, que precisávamos tanto do contrário. Felizmente, o cartaz absurdo das eleições europeias já não está em cima da Avenue Belliard a olhar para mim e a dizer Use your power. Passei estranhos momentos em frente àquele cartaz enquanto esperava que o sinal mudasse. Um dos tipos estava com um chapéu de cowboy, à faroeste. Afinal ando farta dos Austra, vou mudar. Percorro a lista. Grande parte dos europeus não quer saber e a Europa vai avançando a meio gás, com pouco power. Escolho Real Estate. Devíamos ter mais aulas de História na escola. Era uma vez a Europa. A educação é uma competência exclusiva dos Estados-Membros. A Europa só dá bitaites; não mete o bedelho na educação. Cada um trabalha para o seu lado. Os únicos que me escreveram cartas a apelar ao meu voto foram os belgas. Eu não sou belga. Sou portuguesa. O consulado de Portugal não me passa cartão. Vejo o meu edifício ao longe e também vejo estrelas. É por causa da bandeirinha. Tem mesmo estrelas. Entro no elevador. Já lá estão duas mulheres, uma nova, outra menos nova. Nenhuma responde quando digo: Bonjour. Devem estar a ter um dia péssimo ou então são eslavas. Os eslavos não gostam de dizer: Bonjour. Foi um polaco que me disse. É estúpido dizer bom dia. Não me conhecem de lado nenhum. Não sei se isto é verdade. Se calhar é um daqueles mitos. Como aquele de as mulheres portuguesas terem bigode. Eu sou mais europeia do que outra coisa. Olho para o meu reflexo no espelho. Tenho de ir fazer este buço. É urgente. Tenho saudades de casa. Estamos muito melhor unidos do que separados. Ainda que cada um trabalhe para seu lado. Penso na mulher da saia travada, na que vai mudar o mundo ainda hoje. Desejo-lhe um bom dia. Embora não a conheça de lado nenhum. Depois tiro os auscultadores. Acabou-se a música.

terça-feira, 20 de maio de 2014

O pássaro cá atrás

Há um pássaro novo cá atrás. Acorda-me todas as manhãs aos gritos e eu rogo-lhe pragas. O pássaro canta como um despertador: um grasnar histérico e insistente, que se repete até à exaustão. Não deve ser um pássaro bonito. Se fosse, não precisava de grasnar assim. A culpa é da primavera, quiçá. Levanto-me e vou à casa de banho. O pássaro continua a grasnar mesmo em cima da cabeça. Deve estar a marcar território ou então a afugentar um inimigo. Em qualquer dos casos, deve estar a ter sucesso porque os outros pássaros piam fininho. Vou para a cozinha e corto fatias de pão com a minha faca serrilhada de aço inoxidável. Eu, se pudesse, voava para longe com o meu ninho debaixo do braço. O pássaro continua a grasnar toda a gente. Deve ser um corvo, porque os corvos são feios e também não cantam. Grasnam. Além disso, comem o que vier ao bico, incluindo cadáveres. Os corvos são nojentos. Bebo café com leite e penso neste pássaro recém-chegado. Se calhar está muito aflito. Todos os imigrantes se afligem no princípio. Deve estar com medo da vida ou da morta. Ou então não gosta de passarinhas e ainda não saiu do armário. Estou a comer pão com doce de amora e penso na pressão de ar, nos chumbinhos que moravam em latas redondas. Sempre gostei do barulho dos chumbinhos dentro da lata. Infelizmente, nunca tive pontaria.
Se tivesse, era já. PUM!

terça-feira, 18 de março de 2014

Aeroporto de Bruxelas

Cheguei. Estou sempre a chegar. Aeroporto de Bruxelas, A 59, A 57, A 55. Welcome to Europe. Uma casa de banho, um bonequinho e uma bonequinha, tenho chichi. Faço chichi e lavo as mãos. O cabelo fora do sítio. Estou tão pálida. Como é que se diz isso em francês? Não há de ser palide. Um tapete rolante e depois outro. É pâle. Vi no dicionário. Vou sempre em frente com as minhas pernas e rodinhas. Dá jeito ter um dicionário no telefone inteligente. Neuhaus, Samsonite, Fine food, Gourmet. A 45. Malas, mochilas, sacos pela mão, carteiras, casacos. Andamos com tantas coisas às costas. Uitgang sortie ausgang exit. Uma seta para ali (Gates B) e outra para cima (One level up). Escadas rolantes. Eu rolo nas escadas rolantes. Feel inspired wallonia. Samsung galaxy - Design your life. Comprei o da concorrência. Terei feito bem? Claro que sim. O que faz aqui um Manneken Pis de chocolate? Um monstro-criança agarrado à pilinha. É horrível. Um cartaz da Calzedonia. Tenho as meias todas rotas. Nothing to declare. E.U. Leio EU e não E.U. Tiro o passe de metro. Sunglasses. Tenho de comprar uns. Para quê? Para nada. Currency exchange. Bus connections level 0. Vou para o nível 0. Sempre a descer até ao nível 0. Não gosto nada de descer. Autocarros Brussels City. Départ en 2 minutes. Acelero o passo. Vou atrás das minhas pernas e rodinhas. Em piloto automático. Num tapete rolante. Sempre em frente. Até à porta de embarque.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O nevoeiro parado no tempo

Se eu fosse uma pessoa dada a números, frações e percentagens, diria que são 11 e 11 da manhã, que o mês de janeiro já vai a dois terços e que 5% de 2014 já foi com os porcos. Também diria que não tarda faço 7 anos de Bruxelas e isso até deve ser um motivo para soprar as velas e desejar qualquer coisa, mas felizmente sou dada a palavras e não tenho apetência para o desejo, por isso digo só que as pessoas já pararam de me desejar "Bom ano!", porque o ano já começou há bué e a vida nunca está quieta, vai por aí fora de saltos altos num passo nervosinho, o que é bastante esquisito, porque eu ia jurar que o dia de hoje nunca mais passa e este nevoeiro ficou parado no tempo. Mas, em rigor algébrico, a verdade verdadinha é que este dia já vai quase a 50%, o que quer dizer que tenho de concluir os meus afazeres em metade do tempo. Isto também quer dizer que passo o tempo a perder tempo. Humidade: 93%.
Deve ser um grande stress pensar em números.
Olha-me para este nevoeiro.
Nunca mais passa.