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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Rua do Alecrim com Gonçalo M Tavares

No ano passado, no final do mês de dezembro (há uns dias, vá), vínhamos (eu e o homem ilimitado) a descer entusiasmados a Rua do Alecrim, quando reconheci à minha frente os caracóis do Gonçalo M Tavares. Palavra de honra, reconheci-lhe os caracóis antes de lhe reconhecer as lunetas, até porque o senhor Tavares estava de costas, não dava para lhe ver o frontispício.

Gosto de caracóis no geral e dos caracóis do senhor Tavares em particular.

Antes de dar de caras com os caracóis do Gonçalo M Tavares, já vinha toda contente a descer a Rua do Alecrim. A bem dizer, não precisava do senhor Tavares para ganhar o dia, até porque estava sol e eu vinha a descer a rua com o homem ilimitado, falávamos animadamente sobre coisas da vida, o rio brincava ao longe com a luz e nós íamos apanhar o comboio para Cascais. Isso tudo (sol, rua, coisas da vida, rio, luz, comboio) já era suficiente para descer a Rua do Alecrim aos pulinhos.

Além disso, quando desço a Rua do Alecrim lembro-me sempre da canção do alecrim-aos-molhos e essa canção dá-me logo vontade de andar aos pulinhos.

Ao avistar os caracóis do Gonçalo M Tavares, fiquei ainda mais contente (Alecrim, alecrim aos molhos...). Por momentos, até achei que lhe ia dar assim uma palmada bem dada nas costas. Mas depois pensei outra vez e não dei uma palmada bem dada nas costas do senhor Tavares, fiquei só a vê-lo descer a Rua do Alecrim.

O senhor Tavares trazia pela mão, não um cãozinho, não um gatinho, mas uma misteriosa mala preta e vinha assim curvado para a frente, a falar e a rir, muito debruçado sobre outro ser humano que também falava e também ria, mas a quem não prestei atenção absolutamente nenhuma.

Durante esta observação atenta (Alecrim, alecrim, aos molhos, por causa de ti...), reparei que o Gonçalo M Tavares tem um ar bonacheirão. Tem mesmo um ar bonacheirão, deve gostar de comer bom queijo e beber bom vinho, imaginei logo um respeitável caderno Moleskine cheio de nódoas de tinto, extremamente difíceis de tirar. Depois reparei que, ao contrário do que eu imaginava, os ombros do Gonçalo M Tavares são muito magrinhos. Isto, primeiro, surpreendeu-me, depois assustou-me.

Uma pessoa com ar bonacheirão não tem ombros magrinhos. Fiquei logo apoquentada. Seria isto um indicador de que Gonçalo M Tavares afinal não é bonacheirão? Ou que o Gonçalo M Tavares não come bom queijo? Teria o senhor Tavares perdido a vontade de comer? Estaria a criatividade do senhor Tavares a alimentar-se dos ombros do senhor Tavares? Estaria o senhor Tavares a alimentar-se exclusivamente de papel não reciclado?

Em qualquer dos casos, os ombros do senhor Tavares não mereciam uma palmada bem dada e eu perdi logo a vontade de lhe dar uma palmada bem dada nas costas. Na verdade, substituí essa vontade por uma outra vontade: a de fazer uma sopa de cenoura para o senhor Tavares. No entanto, não fiz uma sopa de cenoura para o senhor Tavares, porque afinal a vontade não era assim tão grande e também não havia por ali cenouras nem batatas nem cebolas à mão de semear.

Por causa de todas estas coisas (sol, rua, coisas da vida, rio, luz, comboio, Gonçalo M Tavares, cenouras, batatas, cebolas), eu e o homem ilimitado íamos muito lançados rua fora (Alecrim, alecrim, aos molhos...) e não conseguíamos abrandar o passo, de maneira que acabámos por ultrapassar o senhor Tavares.

Ao passar pelos seus ombros magrinhos assim pela esquerda, olhei para o senhor Tavares e o senhor Tavares, sentindo-se observado por comuns mortais, aguçou o olfato, parou de rir e de falar e olhou para mim. Sorri envergonhada como uma menina de 8 anos e meio (até me saiu um risinho agudo de menina de 8 anos de meio e corei). De seguida, desatei a correr pela Rua do Alecrim a cantar a canção do alecrim aos berros.

Ora, este episódio serve para demonstrar, mais uma vez, que a criatividade é um bicho muito cruel, instala-se no corpo de repente e é muito difícil uma pessoa livrar-se do bicho.

Estou muito preocupada com os ombros magrinhos do Gonçalo M Tavares.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Prémio Branquinho da Fonseca 2011


Um dia destes fartei-me do meu joelho direito. Vinha no táxi a caminho de casa, e quando olhei para ele, achei-o horrível. Vinha inchado como um sapo e tinha vários cortes na cara. Além disso, era um verdadeiro emplastro, não servia para absolutamente nada.

Nessa altura arrependi-me de várias coisas. Na verdade, de uma só coisa.

Do karaté.

A bem dizer, se não tivesse feito karaté, talvez nunca chegasse a ser operada ao joelho.
Pus-me então a imaginar vidas alternativas para o meu joelho direito, que parecia agora um sapo: natação, equitação, bodyboard, ginástica rítmica, bowling, parapente...
A viagem chegou ao fim, saí do táxi.

O taxista ralhou-me, disse-me não-sei-o-quê da tinta nova e eu pedi muitas desculpas (desolada), expliquei que não era fácil controlar várias pernas ao mesmo tempo. Fui para casa, pé ante canadianas. A esta altura o meu joelho direito coaxava qualquer coisa ao meu ouvido e eu calei-o com um saco de gelo assim que cheguei a casa.

Liguei o computador, li os e-mails.

Pouco tempo depois soube que o meu trabalho com o inacreditável título O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca tinha conquistado o Prémio Branquinho da Fonseca 2011 na categoria de literatura juvenil.

Pausa.

Olhei para o meu joelho direito, mas não consegui olhar para ele por causa do saco de gelo. Debrucei-me sobre o meu joelho, libertei-o do gelo e dei-lhe um beijinho.

Ao contrário do que se podia esperar, o meu joelho direito não se transformou num príncipe. Ficou tal como estava, muito sapudo, as bochechas vermelhas cheias de ar e cicatrizes.

Pensei um pouco sobre poucos assuntos: a ficção e a realidade, o karaté, as vidas alternativas, o Branquinho da Fonseca, a literatura juvenil, O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca.

Concluí que, se não tivesse feito karaté, nada disto teria acontecido.
Não era uma conclusão brilhante, é certo, mas era uma conclusão possível.

O meu joelho direito olhava para mim todo inchado e eu já não o achei tão feio.

Depois fui fazer pipocas e estive a ver um filme do Bruce Lee.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Diálogo entre canadianas

- Ó vizinha, já viste que, se esta tipa não nos tivesse, se estatelava no chão?
- É um facto.
- Isso não te dá um certo gozo?
- Um certo gozo? Não, nenhum.
- A sério? A mim dá-me um gozo do caraças.
- O quê? Saber que a tipa se estatelava no chão?!
- Sim, mas sobretudo que precisa do nosso apoio.
- Ah, nesse sentido! É muito gratificante, sim.
- Gratificante?!
- Sim, o facto de podermos dar apoio.
- Ora essa! E a nós, quem nos apoia?
- Nós não precisamos de apoio.
- Não?! Eu acho é que nos contentamos com pouco. Esta tipa atira-nos assim de qualquer maneira para o chão ou contra a parede... Chego a ficar horas de cabeça para baixo.
- Certo. Mas não precisas propriamente de apoio. Nós somos o apoio.
- Exactamente. Nós é que somos o apoio! E, no entanto, ninguém nos dá valor.
- Claro que dá. Toda a gente nos dá valor!
- Não dá, não. Se nos dessem o devido valor, não nos atiravam assim para o chão ou contra a parede.
- Talvez...
- Ouve o que eu te digo: Se andássemos por aí a pregar rasteiras aos doentes, as pessoas respeitavam-nos mais.
- Não respeitavam, nada. Íamos era logo presas!
- Não íamos, não. Repara que as nossas rasteiras são tão rápidas e eficazes que ninguém ia dar por ela.
- Claro que iam.
- Não iam, não. As canadianas são como os mercados financeiros.
- O que são mercados financeiros?
- Não sei, mas parece que estão sempre a pregar rasteiras às pessoas e também ninguém se apercebe disso. Precisamente porque dão assim rasteiras muito rápidas e eficazes.
- Mas quando forem descobertos, vão presos.
- O quê? Os mercados financeiros?! Não vão, não.
- Por que não?
- Porque as pessoas têm muito respeitinho pelos mercados financeiros.
- Que raio?! Então, mas se eles passam a vida a pregar-lhes rasteiras...
- Pois, mas as pessoas são assim. Gostam de ser maltratadas. Já viste alguém a atirar mercados financeiros para o chão?
- Acho que não.
- Pois é... Mas nós passamos a vida aí largadas... Ninguém nos respeita, essa é que é essa.
- Tens razão, vizinha, devíamos fazer qualquer coisa para inverter essa situação.
- Olha, eu, por mim, atirava já esta tipa ao chão.
- Então, e depois?
- E depois, quando ela se levantar, atiramo-la outra vez. Vais ver que, num instantinho, somos nós a mandar nisto tudo.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Fisioterapia

Vou à fisioterapia quatro vezes por semana.
Gosto de ir à fisioterapia, sempre tenho uma desculpa para sair de casa com a minha tala no joelho e as minhas canadianas nos cotovelos.
O meu fisioterapeuta é muito simpático, tem uma carequinha no cocuruto e sabe dizer umas coisas em português porque teve uma paciente portuguesa durante muito tempo. Diz-me: Boa tarde, Até quarta-feira, dobra a perna, e depois ri-se muito, como se o conjunto de sons não fizesse sentido nenhum.
Quem me liga à máquina dos choquezinhos eléctricos é a estagiária, que não se ri nem diz muitas coisas, liga-me só à máquina e dá instruções breves. Fico para ali abandonada, a esticar a perna e a levar choquezinhos eléctricos, diz que faz bem aos músculos.
O outro fisioterapeuta, que é desgrenhado, esbugalhado mas, ainda assim, bem parecido, corrige-me ao longe, diz: Tenta esticar mais, insiste um pouco, dobra agora devagar. Eu faço o que me mandam: estico, insisto, dobro.
Um dos exercícios consiste em brincar com uma bola de ténis. Estou sentadinha e eles põem-me uma bola de ténis por baixo do pé. Não é muito divertido, mas dá para passar o tempo. Ando com a bola para a frente e para trás, já dobro o joelho a 90º e o fisioterapeuta exclama qualquer coisa com um ar muito impressionado como se faz às crianças. Fico a ver o que os outros fazem.
À minha frente, um tipo pedala na bicicleta. À medida que pedala também abana a cabeça ao som do rock foleiro que passa na rádio. Abanar a cabeça ao som de guitarras está tão fora de moda, que o tipo até tem piada. Ao lado, um rapaz de barba rala com ar muito preocupado salta no trampolim. À minha direita, uma búlgara que não fala francês enrola um tecido plastificado à volta do pé e puxa-o com toda a força. Foi operada ao tornozelo em Agosto e ainda cá anda. Ao fundo, em frente a um espelho de quarto de dormir, um homem gordo segura uma vara com as duas mãos e mantém-na paralela ao chão. Roda o corpo para um lado e para o outro, muito sério. Do lado de cá, uma senhora está literalmente de cabeça para baixo, pendurada num engenho esquisito que lhe estica as costas. A senhora não gosta lá muito daquela máquina, porque às vezes tem tonturas quando sai daquela posição e fica muito tempo sentada a recuperar. Acho que é italiana.
Eu gosto de ir à fisioterapia. Parece que mudo de planeta durante uma hora e meia e sempre tenho um objectivo nesta fase de convalescença.
O meu objectivo é saltar no trampolim.
O rapaz de barba rala e com ar preocupado está quase bom. E eu já ando farta de brincar com a bola de ténis.
Não sou nenhuma gata.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Diálogo com Enfermeira de Branco II - Fome

- Boa tarde, dá-me licença? Queria mudar aqui o soro, pode ser?
- Sim, obrigada. Entretanto já posso comer?
- Ainda não comeu nada?
- Não.
- A que horas foi a operação?
- Não sei.
- Não sabe?!
- Não. Estava a dormir, mas deve dizer na ficha.
- Mas não sabe mais ou menos quando foi?
- Não. Quer dizer, foi de manhã. Lá para as 9h30, talvez 10h.
- Mas já são 16 horas! Ainda não comeu nada hoje?
- Não.
- Nada de nada?
- Não.
- Devem-se ter esquecido, sabe?
- Esquecido?
- Pois, quando serviram o almoço já estava no quarto, não estava?
- Não sei... Posso então comer agora?
- Pois, o problema é que eu agora tenho o frigorífico vazio...
- Vazio?!
- Sim. Acha que consegue esperar até às 17h?
- Até às 17h?
- É quando eles trazem o lanche.
- O lanche?
- Sim. É mais uma horinha, está bem?
- ... Está bem.

Na televisão só passavam programas sobre gastronomia e culinária. O capítulo do livro que estava a ler falava sobre a matança do porco. Livro injusto. O lanche acabou por chegar às 17h30. Duas fatias de pão, duas fatias de queijo, um café e um pudim de baunilha. Engoli tudo de uma vez. Mais tarde, o homem ilimitado trouxe-me bolachas e eu devorei-as de madrugada. Eram boas, acho.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Diálogo com Enfermeira de Branco I - Sede


- Boa tarde, como se sente?
- Bem, obrigada.
- Venho medir-lhe a tensão, está bem?
- Claro... Entretanto, acha que já posso beber água?
- Está com sede?
- Estou.
- Mas ainda não lhe deram nada para beber?
- Não.
- A sério? Deve estar com muita sede, então!
- Sim, estou.
- A operação já foi há muitas horas, não foi?
- Foi.
- Pois, mas agora ainda não pode beber nada, está bem?
- Ai não?!
- Não.
- Ah, pensei que...
- Mais uma horinha, está bem?

A Enfermeira de Branco sai de cena. Rogo-lhe pragas dentro da cabeça.

Passado uma horinha entra em cena novamente. Traz-me uma garrafa de litro e meio selada e um copo. Pousa-os na mesinha ao meu lado e diz-me com o dedinho indicador apontado para o tecto: Não beba muito.
Deito-lhe a língua de fora dentro da cabeça.

Sai de cena outra vez. Eu e a garrafa de litro e meio entreolhamo-nos timidamente.
De seguida apercebo-me de que não vou conseguir abrir a garrafa com nenhuma das mãos: uma está muito ocupada com o soro fisiológico e a outra anda um bocado atrofiada por causa das análises de sangue. Nesse momento ocorreu-me chamar a enfermeira, mas depois cresceram-me tantas coisas na boca, que agarrei a garrafa pelo pescoço e abri-a com os dentes. Matei a sede convulsivamente com um meio-sorriso nos lábios. E depois chamei a Enfermeira de Branco, que me apresentou à Arrastadeira.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Pós-operatório

Digo-vos uma coisa: Não é mau ser operado ao joelho. Eu, na verdade, até gosto.

Estou em casa há seis dias e um dos momentos mais activos das minhas manhãs consiste em levantar-me da cama, ir até à sala, sentar-me no sofá e pousar a perna direita na cadeira em frente. De resto, as actividades variam consoante o dia: como bolachas, vejo televisão, leio, escrevo, como chocolates, faço Sudoku, vejo um filme, adormeço a ler ou a ver a BBC ou a fazer Sudoku. As pessoas telefonam-me, preocupadas e disponíveis (às vezes, acordam-me). Algumas trazem-me chocolates, flores, queques, livros, sopas, revistas, séries de televisão.

O homem ilimitado cuida muito, esforça-se. Lava a loiça e a roupa, telefona-me do supermercado para saber o que quero jantar, actualiza o computador e o iPad, não quer que me falte nada. Ando a ver várias séries da BBC e já escolhi os filmes que vou ver durante a semana. Na sexta acabei de ler os contos do Kazuo Ishiguro e já vou a meio do Lord of the Flies, a vida avança.

Além disso, apesar de as canadianas serem mal-jeitosas e não condizerem com as minhas saias, até gosto de as passear pela rua, porque as pessoas olham para mim com interesse e compaixão.

Bom, é evidente que nem tudo são rosas: demoro, por exemplo, 15 minutos a ir à casa de banho e só consigo levar uma coisa de cada vez para a mesa-de-jantar, o que é desagradável quando a pessoa tem fome (primeiro o prato de sopa, depois o pão, depois o queijo, depois os talheres), mas também não tenho propriamente pressa de despachar as poucas tarefas que realizo durante o dia.

Admito que também me dói o joelho mas, fora isso, a vida não é nada injusta e eu aturo muito bem esta maleita, porque gosto muito de mimos e, sinceramente, não me apetece nada trabalhar.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O meu joelho direito

O meu joelho direito passa a vida a queixar-se. Nunca está contente com o tempo nem com as pessoas, resmunga muito por isto e por aquilo, parece um daqueles homens muito velhos e doentes que estão sempre a lembrar os mais novos que também eles um dia serão muito velhos e doentes.
Eu nunca liguei muito às queixas do meu joelho direito, mas ouvia-as com um dos meus ouvidos e sabia bem do seu mal.
Certo dia (na passada terça-feira, 20 de Setembro), passei o dia e a noite num hospital com tectos baixos e pessoas espadaúdas que vestiam toucas ridículas. Depois de uma breve história que envolveu personagens como a Enfermeira de Branco, o Médico, a Anestesia Geral, o Soro Fisiológico e a Arrastadeira, o meu joelho direito é agora outro: tem três furos no rosto e o dobro do tamanho.
O Médico diz que o meu joelho direito nasceu muito torto e que agora se pôs direito, como um homem bom. (Uma espécie de final feliz.)
Vim para a casa com um joelho direito desconhecido, escondido atrás de um curativo e de um saco de gelo. Já não lhe ouço as queixas de homem velho e doente, porque o meu joelho direito deixou de falar, calou-se para sempre; está para aqui deitado, túrgido e arroxeado como um recém-nascido.
Não gosto muito dos três furinhos.
E sinto-me só.

Saudades do meu homem muito velho e doente.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Dentista

Ontem fui ao dentista. Não me importo de ir ao dentista; tenho dentes fortes. Além disso, o gabinete do meu dentista é espaçoso, tem uma janela ampla com vista para umas árvores grandes. Não sei o nome dessas árvores (não percebo nada de árvores), mas gosto de olhar para elas.
(As pessoas que escrevem deviam perceber de árvores.)
As árvores que vejo do gabinete andam agora de ramos descalços, sem som nem movimento, por causa do Inverno e da crise. Ainda assim, são bonitas. (Há gente que continua bonita apesar do Inverno e da crise. O meu dentista, por exemplo.)
Sento-me na cadeira, olho para as árvores. O dentista conta-me qualquer coisa e entra agora na minha boca escancarada, caminha pelos meus dentes com os seus dedinhos e uns instrumentos de plástico e metal. Fala-me dos malefícios do tártaro, uma história com moral.
Há claramente um outro mundo dentro da minha boca. A propósito disso apercebo-me de que não conheço o céu da minha própria boca.
As árvores descalças devolvem-me uma tristeza boa.
(Não é mau sofrer.)
O dentista diz-me que os meus dentes são fortes, que as minhas gengivas são sensíveis. Que não é saudável ter gengivas sensíveis.
Um dia como os outros, porque o tempo passa e os meus olhos andam pelas árvores como passarinhos. No entanto, subitamente, algo acontece.
Uma mudança resoluta, definitiva, e o dia já não é o mesmo.
Sinto essa mudança na pele, na cabeça. E o dentista também. Desliga imediatamente os seus instrumentos de plástico e metal. Pergunta-me: "É uma canção portuguesa?" e os Madredeus entram-me pelos ouvidos, pelo céu da boca. Não respondo; tenho a boca escancarada assim como os ouvidos, e eu nem gosto dos Madredeus.
As mesmas árvores descalças na rua, o mesmo Inverno, a mesma crise, e o céu é de repente um outro céu, o mundo é um outro mundo, e eu já não quero estar ali, no gabinete do dentista, a ver as árvores descalças. Tenho agora pressa de chegar a casa e saio a correr do gabinete, o casaco por vestir num dia de chuva, onde está o guarda-chuva?
Estou na rua das árvores descalças, mas já não olho para elas, ando num outro lugar como um passarinho, num outro mundo dentro de mim, no céu da minha boca, onde o tempo não passa.
Tenho gengivas sensíveis.
Eis o meu ponto fraco.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A vingança da mulher na casa dos vinte

Uma mulher na casa dos vinte chegou à conclusão de que o mundo se virou contra ela pelo simples facto de as nuvens, que ainda há pouco eram impossivelmente brancas como nos quadros de Magritte, serem agora cinzentas como os velhos. O facto de as nuvens serem agora cinzentas como os velhos estragava o dia à mulher na casa dos vinte. E isto por diversas razões:
Primeira razão: a mulher na casa dos vinte estava de bicicleta.
Segunda razão: a mulher na casa dos vinte estava a caminho de uma sessão de ginástica ao ar livre.
Terceira razão: a mulher na casa dos vinte não tinha trazido um casaco.
Ora, na cabeça da mulher na casa dos vinte, a qual trazia um capacete redondo como o mundo injusto, o mundo só podia ter-se virado contra ela.
Na cabeça das mulheres na casa dos vinte, o mundo é, tal como elas, uma mulher na casa dos vinte e vira-se, tal como elas, contra as outras mulheres.
(As mulheres na casa dos vinte passam o tempo a ver o seu reflexo nas coisas e nos outros: o mundo inteiro é uma reprodução do seu corpo e da sua cabeça redonda como o mundo injusto.)
A mulher na casa dos vinte decidiu que, para se vingar do mundo injusto e redondo como o seu capacete, ia sentar-se em frente à televisão e ver, de seguida, todos os episódios da quarta temporada das Donas de Casa Desesperadas.
(As Donas de Casa Desesperadas são uma série interessantíssima, precisamente porque as protagonistas são mulheres na casa dos quarenta e não mulheres na casa dos vinte.)
A mulher na casa dos vinte pensava em tudo isto (no mundo que se virou contra ela, nas nuvens cinzentas como os velhos, nas Donas de Casa Desesperadas, nas mulheres na casa dos quarenta, no seu casaco e na sessão de ginástica ao ar livre) enquanto pedalava a caminho da sua televisão, a cabeça enfiada dentro do capacete redondo como o mundo injusto.
De repente, sentia-se francamente mais animada.
Não com a perspectiva de ver, ainda hoje, todos os episódios da quarta temporada das Donas de Casa Desesperadas. Mas com a perspectiva de se tornar uma pessoa mais interessante com a idade.
As mulheres na casa dos vinte são impossíveis como os quadros de Magritte. E ainda mais enfadonhas do que as nuvens desta cidade, as quais são cinzentas (como os velhos) e injustas (como o mundo).

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Primeiro dia



No primeiro dia, a rapariga ficou mais velha. Acordou de manhã e viu isso mesmo, que estava mais velha. A constatação passou-se em frente ao espelho, mas o envelhecimento não, tinha sucedido provavelmente antes, durante a noite. A rapariga só dera por ela de manhã e olhou para si própria em frente ao espelho. Fenómeno esquisito.
Depois foi fazer café. A rapariga, agora mais velha, pensou que não era mau envelhecer.
O homem ilimitado andava à solta pela casa e assobiava ilimitadamente. A rapariga chamou-o como quem chama um pássaro, mas o homem ilimitado não era um pássaro porque era mais parecido com o Peter Pan: tinha uma terra longínqua dentro dele. Além disso, tinha asas nas mãos, nos pés, nas orelhas, nos cabelos. Também tinha voos no corpo e muitos ventos. Não era um pássaro.
A rapariga, agora mais velha, ligou a música. Ouvia M. Ward dia sim, dia não: num dia passava os minutos todos atrás dele, no dia seguinte ignorava-o, para que ele fosse atrás dela. Uma história de amor como as outras. Naquele domingo, por exemplo, a rapariga não ouviu M. Ward, o que foi uma pena, porque o M. Ward tinha sido a banda sonora perfeita para aquele primeiro dia.
A rapariga, agora mais velha, comia torradas despreocupadas com ovos mexidos. O homem ilimitado também. Falavam de boca cheia porque queriam comer e falar ao mesmo tempo.
Não, não era mau envelhecer. Desde que houvesse pão e café de manhã. Desde que a música tocasse aos domingos. E o homem ilimitado assobiasse. Ilimitadamente. À solta pela casa.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Facebook, o livro dos rostos

Um certo rosto está no livro dos rostos, tem uma página no livro dos rostos, por isso passa muito tempo com os seus rostos e os rostos dos outros. Todos os rostos têm outros rostos além do rosto original. Os rostos dos outros também têm páginas no livro dos rostos. Dentro de cada rosto há outros rostos de outros rostos. Nem todos os rostos têm pessoas dentro, podem ser só rostos ou então máscaras.
Eu não tenho uma página no livro dos rostos, mas tenho muitos rostos na mesma.
Trago na cara o meu rosto original e nos bolsos os outros todos. Tenho também uma máscara, que é esta, a pessoana.
De uma vez por todas: Não gosto do livro dos rostos. Abomino o livro dos rostos. Não me convidem para o livro dos rostos. Os outros rostos que me desculpem, mas eu não quero uma página no livro dos rostos.
Antes perder-me na floresta como o Hansel e a Gretel e ser escrava de uma bruxa.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Rapariga ao som de Air

A cidade a nevar baixinho, a chorar branco, muito branco, branquíssimo (os olhos da cidade a doerem de branco), e a rapariga a passear-se nela, a pensar-se nela, e não de branco, não de neve, mas de outras cores, de outras formas. A arte nova atrás das costas, itinerante como nos filmes, e a rapariga a ver outras artes, outros filmes. Pensa, por exemplo, no Japão. Num silêncio possível para o Monte Fuji. Para os templos. Pensa em Quioto. Na cidade de Quioto. No protocolo de Quioto. Nos americanos. Pensa em Hiroshima. Em Nagasaki. Nos arranha-céus de Tóquio. No Lost in Translation. Na cara de náufrago do Bill Murray. No Oceano Pacífico. No programa da RFM. Nas madrugadas de regresso a casa. Em todas as madrugadas de regresso a casa. Na marginal de Cascais. No Oceano Atlântico. Na era dos Descobrimentos.
A música termina na boca do metro. Pura coincidência.
Depois começa outra.
A tempo da viagem.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

PerCursos de Cascais: um mar de escritas

No dia 20 de Dezembro do ano passado, aconteceu isto:


Isto não é ficção. Ou melhor, tem muita ficção, mas é um mar de verdade. Um livro com muita gente dentro, fruto de duas oficinas de escrita criativa orientadas por Luís Miguel Viterbo. Um bem-haja à Câmara Municipal de Cascais, que nunca deixou de acreditar no projecto. E um obrigada também ao OrCa, que ao seu alcance tudo fez para que o livro nascesse. Percorri os sete mares para roubar as fotos: cá está o link.

Um abraço ao maestro Luís Miguel Viterbo e aos co-criadores: Ana Flor Neves, António José Santos, Camila França, Clara Macedo Cabral, Cristina Vieira, Filipa Múrias, Isabel Coelho, João Mendes, Jorge Castro, José Farinha, Lima Rodrigues, Margarida Cipriano Rebelo, Miguel Brito, Rui Vieira Farinha e Vera Craveiro Reis.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Do dia em que foi para casa

Levanta-se às 8h, mas devia levantar-se mais cedo. Por causa disso, acelera o passo. Puxa o autoclismo e o dia começa. Bebe um copo de água e queixa-se (a água é muito fria no Inverno). Toma um duche rápido e eficaz. Enquanto o faz, não pensa em nada. Seca-se e veste o pijama. Depois repara que não devia ter vestido o pijama e pragueja baixinho. Despe o pijama, veste outra coisa. Vai até à sala. Nessa altura já vem de casaco e cachecol vestidos. Abre as cortinas, espreita. O céu cinzento, a rua cinzenta, tudo cinzento. Encolhe os ombros. É melhor que preto. Canta um fado. Não, não canta, esboça palavras na boca. Não, não é um fado, é outra coisa. Uma melodia doce. Sobre Lisboa, parece. Bela canção. Vai à cozinha, regressa com um regador em punho. Rega as plantas do parapeito (são muito bonitas, apesar do céu cinzento). Vai até ao quarto, beija a testa de quem ficou na cama, sai de casa, desce as escadas, entra no mundo. O vizinho polaco passeia o cão, cumprimentam-se com um aceno. (Na entrada do metro, mesmo antes das escadas rolantes, há, pelo menos, vinte beatas no chão. Toda a gente apaga o cigarro no mesmo sítio, é um fenómeno curioso.) O metro está a chegar e a mulher corre para ele. Vem cheio, entulhado, impossível. Por isso, não entra, espera pelo próximo. Enquanto espera, vê as pessoas passar. As mulheres não gostam que olhem para elas. Os homens gostam. Os cães também. Algumas crianças adoram, outras escondem-se atrás da mãe. Entra na última carruagem e sai duas paragens depois. Encontra um colega. Dois colegas. Três colegas. Ou nenhum. Hoje, por exemplo, não tinha encontrado ninguém, subia sozinha a rua. Pára nos semáforos. Algumas pessoas não esperam pelo sinal verde, atravessam a rua a correr. Ela não. Espera. Entra no edifício e abre a mala para procurar o cartão. Em vez disso, tira as chaves de casa. Devolve-as à mala e tira o cartão. As portas abrem-se. O segurança pisca o olho às mulheres, é atrevido. Apanha o elevador para o quinto andar, diz uma frase de circunstância para os colegas que sobem com ela. Algumas pessoas detestam frases de circunstância, não respondem. Entra no gabinete, abre a janela, liga o computador. Tem uma chamada não atendida. Do chefe. Liga de volta. Se podia fazer uma nota da mesa até às onze, para sair ao meio-dia. Com certeza. Desliga o telefone, sai do gabinete, desce as escadas, cumprimenta os colegas, cumprimenta o chefe, recebe o documento, sobe as escadas, entra no gabinete, lê a nota. É pequena. Pega na caneca e vai até ao café do primeiro andar. Às vezes esquece-se da caneca. Por norma, esquece-se da caneca. Um café, uma garrafa de água, um pão-de-leite. Paga. Senta-se com os colegas, bebe, fala, come. Não devia falar de boca cheia, mas fala. Paciência. Volta para o gabinete, trabalha. Alguém telefona. É uma colega. Se quer ir almoçar à cantina. Claro, almoçar na cantina é sempre bom. Ao meio-dia e meia. Imprime o documento, lê o documento, corrige. Não gosta de certas frases, de certas palavras, não sabe como resolvê-las. Consulta páginas na Internet, abre dicionários, fecha dicionários. Escreve, risca, reescreve. Imprime novamente. Sai do gabinete, desce as escadas, entrega o documento, explica qualquer coisa, diz: "Até logo!". Sobe as escadas, entra no gabinete, continua qualquer coisa do dia anterior. Mais interessante do que a nota da mesa. Ao meio-dia e vinte e cinco sai do gabinete, desce as escadas, atravessa a ponte, entra no outro edifício, segue pelo corredor, apanha o elevador, sai no primeiro e espera em frente à cantina. A colega atrasa-se dois minutos, nada de grave, riem-se de qualquer coisa. Hoje havia espetadas, bolonhesa e uma espécie de empadão com conteúdo imperceptível. Escolhe as espetadas. Espera na fila. Pega no tabuleiro, espera noutra fila, paga, senta-se numa mesa sem fim e espera pela colega, que chega, pousa o tabuleiro e se senta. Comem. Contam coisas, imensas coisas, são muito expressivas nos gestos e nas palavras. Acabam de comer, vão ao café, bebem café, separam-se. Cada uma para o seu edifício. Continuamos com a mulher inicial. Apanha o elevador, sai do elevador, vira à direita, segue o corredor, atravessa a ponte, entra no seu edifício, sobe as escadas, entra no gabinete. Nas restantes horas fica a maior parte do tempo a olhar para o computador. Por vezes, imprime folhas e lê no papel. Também vai à casa de banho. Encontra colegas por lá, conversam animadamente enquanto lavam as mãos. (Algumas colegas não falam, dizem só bom dia ou boa tarde.). Às cinco e meia sai a correr para apanhar a perfumaria aberta. Cheira um perfume, resolve comprar 50 mililitros, escolhe um verniz para as unhas, uma água-de-colónia. Pede à menina para embrulhar tudo em separado. Tira da carteira uma lista, risca alguns nomes. Pensa nas prendas que faltam, distrai-se com as ideias. Quer pagar e, em vez da carteira, tira as chaves de casa. Devolve-as à mala, paga com o multibanco. Sai da loja, entra no metro. Desce duas paragens depois, vai ao supermercado. Tinha-se esquecido dos sacos, esquecia-se sempre dos sacos. Azar. Compra peitos de frango, leite, pão, queijo, salmão fumado, um champô da Dove, cotonetes, papel higiénico, amaciador para a roupa, uma alface, um quarto de abóbora, maçãs, uvas, pêra abacate e pinhões. Na fila, as pessoas são muito sérias. Enquanto se passeiam pelo supermercado não são tão sérias. Paga novamente com o multibanco. Despede-se da senhora da caixa, vai para casa. Caminha devagar por causa do peso, doem-lhe os braços a meio do caminho. O vizinho polaco está a passear o cão, diz-lhe qualquer coisa em italiano, não sabemos porquê. Entra em casa, liga o computador, põe música. Talvez Seasick. Enquanto ouve, arruma as compras. O marido chega. Vem a ouvir outra música no iPod. Cozinham juntos. Ou não. Depende. Comem juntos. Sempre. Nem sempre lavam a loiça a seguir. Têm pressa. Saem de casa, vão a qualquer lado. Atrasados, sempre atrasados. Não gostam de chegar atrasados, mas chegam. Sempre. Uma peça de teatro, provavelmente. Ou uma festa em casa de alguém. Ou um concerto na AB. É menos comum irem ao cinema. É estranho que assim seja: toda a gente vai ao cinema. Comentam isso, interessam-se por isso, conversam sobre todas as coisas. Chegam ao sítio que os espera. Ela quer encontrar os bilhetes ou a carteira ou os óculos e, em vez disso, tira as chaves de casa. Mais uma vez, as chaves de casa. Conclui que quer estar em casa e não está. Quer ir para casa e não vai. Apercebe-se de que tem saudades de casa. Imensas saudades. Anuncia: "Vou para casa". E vai.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Incompatibilidades (II)


Um ouriço-do-mar picou-me. E dói-me o pé. O fundo do pé. Apetece-me partir o ouriço-do-mar ao meio, mas já não vou a tempo.
Na cabeça do ouriço é possível que nada disto se tenha passado. A seu ver, fora ele a vítima: estava o ouriço no seu lugar, quando fora pisado por um pé-de-terra.
Eu e o ouriço-do-mar ignoramos a história um do outro. Por isso, cada um ficará na sua terra e no seu mar a chorar o que sente (e não o que sabe).
Falássemos nós a mesma língua (ou a língua do outro) e seríamos um pouco menos ignotos. Menos ignorados.
Ignorantes.
Um pouco menos/mais iguais.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Gosto e não gosto

Isto é um trabalho de casa. A Sinapse e a Carlota lançaram-me o desafio de escolher 12 palavras de que eu não goste. E eu escolhi. Demorei mas escolhi!
Aproveitei e escolhi também 12 palavras de que gosto. Ninguém me pediu, mas apeteceu-me.
E, já agora, lanço o desafio a mais 3 mentes criativas: ao OrCa, ao Fábio e à Cata. 12 palavras de que não gostem (e, se vos apetecer, 12 palavras de que gostem).


Palavras de que gosto

Gosto de saudade. De sentir saudade, de matar saudade, de dizer saudade, de ouvir a sodade de Cesária. Gosto de sal. Do sal do corpo, do sal do mar, das salinas de Aveiro. Gosto de malmequer, da palavra e da flor, do jogo da infância: mal-me-quer, bem-me-quer. Adoro pão e manteiga, pão com manteiga, dizer pão com manteiga e comê-lo sem mais nada, especialmente ao pequeno-almoço com uma taça de café. Gosto de beijinhos. De dar beijinhos e receber beijinhos, de beija-flores. Gosto da palavra e da cor azul. Gosto da palavra e da cor amarelo. A primeira lembra-me o mar, a segunda o sol. Gosto naturalmente de sol: da estrela e da clave de sol. Gosto de espectáculo. De dar espectáculo, de ver espectáculos, de dizer: «És um espectáculo!», de gritar «espectáculo» sempre que marco um ponto no volley. Gosto de chamar alguém de macambúzio, por ser um nome ridículo, por me fazer rir e ter algo de macaco e de búzio no meio. Gosto do lusco-fusco por a palavra ser estranha e condizer com os finais do dia, que eu adoro. A este propósito, gosto do lusco-fusco dos gato fedorento (5, 7 minutos). Gosto de interjeições a acabar em céu aberto como Opá!, Epá!, Anda lá!, Oxalá!, Vá lá!.
São 13, mas não faz mal: talvez as interjeições não sejam palavras ou o macambúzio nem exista.


Palavras de que não gosto

Não gosto de parir (salvo seja, nunca experimentei!), parece-me uma palavra feia, mas talvez não seja. Por me causar dúvidas, não gosto. Não gosto de diapasão. Da palavra nem do instrumento. O professor de música dizia: «Segue o diapasão!» e a frase causava-me náuseas. (Proponho que se diga: «Segue o diapasão!» como quem manda pentear macacos!) Acho infeliz chamar rabanete a uma raiz redonda que nada tem que ver com rabos! E por falar em rabos, detesto todos os nomes que designam os ditos, incluindo rabo, cu, rabiosque e peida. Será que não podíamos arranjar algo equivalente a bunda? Desculpem a rabocada, mas realmente não gosto. Detesto a palavra piscina, parece-me condenada a ser sempre mal dita (maldita): ou fica demasiado feia (pexina) ou demasiado afectada (pis-sina). Porque não mergulhamos antes no tanque? Ou no poço... Não gosto de gosma (lembra-me osgas e centupeias), mas não tenho nada contra pegajoso nem peganhento: parecem-me palavras justas para a qualidade que designam. Acho injusto terem chamado os gnomos azúis de estrunfos. Bem sei que a ideia não foi nossa (o original francês ainda é pior: Les Schtroumpfs, mas até não desgosto da tradução inglesa: The Smurfs). Mas estrunfo é muito mau e eu realmente nunca morri de amores pelos ditos: achava-os uns bonecos estúpidos. Estrunfo soa a gente estúpida. Sendo assim, proponho que se use estrunfo como atributo de ofensa (quer em português quer em francês). Algo do tipo: Espèce de Schtroumpf! Concordo com a Sinapse no que toca o penduricalho, com a Pitucha em relação ao verbo implementar e com a Mulher Aranha quanto ao atributo rançoso. Detesto o adjectivo pudico, principalmente a discussão sobre a correcta pronunciação (púdico ou pudíco?). De uma maneira ou de outra, soa-me sempre a asneirada. Faz-me querer insultar da seguinte maneira: «Granda pudica aquela!». Por fim, e infelizmente, não gosto da palavra alfarrabista e adoro o ofício; tenho aliás imenso respeito pelos profissionais do livro-em-pó. Mas a palavra em si lembra-me sempre alfarrobas e alforrecas, que nada têm que ver com livros.

domingo, 30 de dezembro de 2007

2008

Lembrei-me que o próximo ano é par.
Trata-se obviamente de um pensamento estúpido para este final de 2007, admito.
Mas lembrei-me que o facto de o próximo ano ser par pode significar que não será ímpar. Ou seja, que não será inesquecível nem único nem extraordinário. Pode realmente significar que nada acontecerá no próximo ano, que não haverá nada de nada de nada para recordar em 2008 por nem sequer haver fotografias.
(Infelizmente isso poderá significar igualmente um défice de histórias para contar, a morte do contador de histórias, uma catástrofe natural.)
E quanto mais penso nesta perspectiva para 2008, mais feliz me sinto. Seria verdadeiramente inesquecível viver um ano sem histórias, nem idas nem voltas nem nada de nada de nada.
Concluí que me apetece realmente qualquer coisa normal, rotineira, domingueira, um ano esquecível, arrumável, previsível. Com poemas do Caeiro e profecias do Bandarra. Mais nada.
É uma emoção de tal forma banal que me apetece escrever histórias banais. Iguais a esta.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Página 161

Perguntaram-me:
Qual é a frase que se encontra na 5.ª linha da página 161 do livro que andas a ler?
É que no cinzento de Bruxelas tudo acontece.
Admito: gosto destas correntes e fui a correr para casa ler!
E ao reler a frase da 5.ª linha da página 161, adorei-a um pouco mais do que antes.
É que gosto tanto dela que quase decidi não a partilhar convosco.
Até porque esta frase é um pouco complexa para a cortar: traz um travessão no ventre e ganha voz a meio.
Vai daí, decidi transcrever tudo, desde o final da 4.ª linha até ao final da 6.ª, para que a frase e a voz fossem completas:
"Já de porta fechada, tinha-a encarado - «Quero vê-la muito bem. Olhe para cá...»"
(Lídia Jorge, Combateremos a Sombra, D.Quixote, 2007)
Dita assim, esta frase é ainda mais estranha do que a pergunta.
Um pedido ("Olhe para cá") em forma de ordem, provavelmente de homem para mulher. Duas personagens à porta fechada, encarando-se e tratando-se por você. Faz-me querer chegar à última página ainda hoje!
Para que a corrente não acabe, pergunto a mais uns quantos.:
Cata, OrCa e Claudette, olhem para cá, qual é a frase que se encontra na 5.ª linha da página 161 do livro que andam a ler?

Nota aos leitores assíduos: vou nas asas dos livros para uma terra a cores e volto daqui a imensos voos.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Choque térmico

Sou um pouco mais feliz quando bebo chá em dias frios,
Principalmente se queimar a língua.
(O contraste atrás da pele desperta-me.)
Há qualquer coisa de artístico nisto.