Mostrar mensagens com a etiqueta Dos livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dos livros. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Julie Delporte

Descobri a Julie Delporte. Os lápis de cor da Julie Delporte, o gato da Julie Delporte, o apartamento, o ex-namorado, as angústias da Julie Delporte. Ando a atrasar a leitura para que o diário não acabe. Este diário é sobre mim.


A Julie Delporte abre as páginas da sua vida ao mundo.
Ainda bem.
Journal é um livro subtil e impetuoso.
Não há nada como escrever sobre a nossa verdade. Com as nossas palavras. O nosso pulso. Os nossos lápis.
A Julie Delporte tem os ovários atestados de testosterona, mas disfarça bem. Por momentos, até parece frágil.

Tenho saudades dos meus lápis de cor.
Vou desenhar as letras como a Julie Delporte.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Lá fora

Fartinho de estar em casa a anhar? 
Vai lá fora passear!
Pentear macacos. 
Rir como uma hiena.
Vai até Sesimbra! 
Dar uma volta ao bilhar grande. Ou a uma lagoa pequena. 
Escorrega na lama. Cai que nem um pato. Faz uma cena.
Não te esqueças de levar um chapéu. E uma canção alegre.
E, já agora, o Lá Fora!
Para aprenderes qualquer coisinha.
E não levares gato por lebre.


(clicar na imagem para ficar mais maior grande)

domingo, 4 de maio de 2014

Marguerite Duras


"Elle avait aimé démesurément la vie et c’était son espérance infatigable, incurable, qui en avait fait ce qu’elle était devenue, une désespérée de l’espoir même."

Marguerite Duras, Un barrage contre le Pacifique

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Um livro qualquer

O narrador deste texto decidiu celebrar o dia mundial do livro comprando um livro qualquer. E quando dizemos qualquer, é mesmo qualquer: um livro desconhecido com um título bonito ou uma capa que apetecesse apertar. O narrador deste texto tinha saudades disso, de comprar um livro só porque lhe apetecia e não porque alguém lhe falara dele ou porque lera um artigo sobre o dito ou porque andava empolgado com um determinado autor ou porque a Amazon definira que o narrador também ia gostar disto se gostou daquilo. Todos diziam ao narrador que tinha de ler isto ou aquilo, era muito aborrecido. No entender do narrador, o pior da vida eram mesmo as listas de livros. As 5 autobiografias para mudar a sua vida. Os 10 livros policiais mais policiados. Os 100 livros sem limites. Os 40 livros para ler antes dos 40. Os narradores mais apetecidos. Os mais proibidos. Os mais amorosos. Os mais saborosos. Os mais risíveis. Os mais enervantes.
O narrador deste texto andava farto dos livros dos outros. Gostava de entrar nas livrarias e namorar com os livros que lhe caíssem no goto. Dava uma beijoca neste porque gostava da capa, apalpava a contracapa de outro, abraçava-se à lombada daquele, não havia mal nenhum nisso. E portanto, hoje decidira fazer isso mesmo: comprar um livro qualquer por um motivo qualquer. E quando saiu de casa decidiu ser ainda mais perverso: não só iria comprar um livro qualquer, como a seguir o iria ler.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Gabriel García Márquez

«¡La estación!», exclamó mi madre. «Cómo habrá cambiado el mundo que ya nadie espera el tren». Entonces la locomotora acabó de pitar, disminuyó la marcha y se detuvo con un lamento largo. 
Lo primero que me impresionó fue el silencio. Un silencio material que hubiera podido identificar con los ojos vendados entre los otros silencios del mundo. La reverberación del calor era tan intensa que todo se veía como a través de un vidrio ondulante. No había memoria alguna de la vida humana hasta donde alcanzaba la vista, ni nada que no estuviera cubierto por un rocío tenue de polvo ardiente. Mi madre permaneció todavía unos minutos en el asiento, mirando el pueblo muerto y tendido en las calles desiertas, y por fin exclamó aterrada: «¡Dios mío!». Fue lo único que dijo antes de bajar. Mientras el tren permaneció allí tuve la sensación de que no estábamos solos por completo. Pero cuando arrancó, con una pitada instantánea y desgarradora, mi madre y yo nos quedamos desamparados bajo el sol infernal y toda la pesadumbre del pueblo se nos vino encima. Pero no nos dijimos nada.

Vivir para contarla, Gabriel García Márquez

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

To the lighthouse

So that is marriage, Lily thought, a man and a woman looking at a girl throwing a ball. That is what Mrs. Ramsay tried to tell me the other night, she thought. For she was wearing a green shawl, and they were standing close together watching Prue and Jasper throwing catches. And suddenly the meaning which, for no reason at all, as perhaps they are stepping out of the Tube or ringing a doorbell, descends on people, making them symbolical, making them representative, came upon them, and made them in the dusk standing, looking, the symbols of marriage, husband and wife. Then, after an instant, the symbolical outline which transcended the real figures sank down again, and they became, as they met them, Mr. and Mrs. Ramsay watching the children throwing catches.
 
Virginia Woolf, To the lighthouse (Rumo ao farol)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Cor de pele: Mel

Acabei de ler o segundo livro da banda desenhada Couleur de Peau: Miel.
Ainda não percebi se gosto desta trilogia. Às vezes acho que não, outras vezes acho que sim, outras ainda mais ou menos. Isto acontece-me com frequência: não perceber se gosto de uma camisola que estou a usar, de um livro que estou a ler, de uma canção que estou a ouvir, de um sabor novo, de uma cor.
Sou um bocado pim-pam-pum. Leio isto e aquilo, hoje apetece-me, amanhã logo se vê. E não sou de colecionar coleções e ler os livros por ordem, que grande maçada. Mas esta novela autobiográfica de Jung, autor sul-coreano que faz bande dessinée à belga, começa com um grande empurrão e eu caí dentro de uma lixeira em Seul, onde um polícia encontrou um menino de cinco anos. E pronto, uma pessoa põe-se logo a ler.
Para salvar a criança.
E salva mesmo. A páginas tantas a criança é adotada por uma família numerosa algures na Bélgica, por isso continuei. O segundo livro fala disso mesmo, de ser igual e diferente, de crescer num país chamado Bélgica e de cortar a identidade pela raiz. "Je savais bien que je n'étais pas japonais. Mais quand je me regardais dans un miroir, je ne me sentais pas belge non plus ! Je voyais un coréen. C'était inéluctable."
Ando preocupada com este moço fora do sítio porque, do alto da sua adolescência, decidiu nunca mais dizer palavra à hora de jantar. Come e cala.
É um bocado desconcertante.
Hoje vou passar na livraria e pedir o terceiro volume do Couleur de Peau. O senhor da livraria não vai perceber e eu vou repetir: Couleur de Peau. Se o senhor não perceber, vou dizer a palavra-chave: Jung.
 
Às vezes não gosto de crescer em Bruxelas. Outras vezes sim, gosto muito.
É lixado dizer Couleur de Peau.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Albert Camus

Se a vida não fosse absurda, o Albert Camus fazia hoje 100 anos. Felizmente, a vida é mesmo absurda e o Albert Camus escreveu grandes romances sobre isso (ou apesar disso) (ou além disso).
O Albert Camus é eterno. Continua de carinha laroca com três linhas na testa e cigarro ao canto da boca. Assim:
 
 
Eu conheci as palavras de Camus antes de lhe conhecer a carinha laroca com três linhas na testa e cigarro ao canto da boca. Agora que penso nisto, é como se o tivesse conhecido online, eu e o Camus a teclar no messenger. Eu pergunto: R U there? Ele responde:
Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J’ai reçu un télégramme de l’asile: « Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués. » Cela ne veut rien dire. C’était peut-être hier.
 
Li o Estrangeiro na idade certa. Tinha 16 anos, acho, e andava com o moço de mão dada pela rua. Depois voltei a ler o Estrangeiro na idade certa. Tinha 20 e poucos. O Estrangeiro e eu éramos cúmplices, ele ia ao volante e eu ia no lugar do morto. Depois voltei a ler o Estrangeiro na idade certa. Tinha 30, ou quase 30, e desta vez até o li em francês, oh là là ! Nessa altura, juntámos os trapinhos, passámos a ser roommates. Ele dorme na casinha dos livros e eu durmo com outro homem numa cama king size. Isso é-lhe indiferente. O Estrangeiro não gosta de ninguém. Está-se nas tintas para mim.
Who cares?
Eu também me estou nas tintas para ele.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Mia Couto

A primeira vez que percebi que nunca-jamais-na-vida ia ser escritora nem coisa do género foi quando li as Estórias Abensonhadas do Mia Couto. Tinha 15 anos ou então 16, e li o livro como quem lê um mapa, a girá-lo para um lado e para o outro, a pô-lo de cabeça para baixo para perceber onde estava, cheia de cuidados e expectativas, numa viagem pelo desconhecido. A capa era azul-meiga, dava vontade de dormir lá dentro. Mas o livro, de abensonhado, tinha muito pouco. Na verdade, tirava-me o sono, parecia infernizado por algum feitiço, brilhava no escuro! Estranhíssimo.

O Mia Couto foi o meu primeiro escritor. Assim o primeiro escritor de eu decidir que quero ler porque me apetece e gostei à brava. Mas, enfim, isto de gostar do Mia Couto era mais um correr por desgosto, porque os livros do Mia Couto eram leves por fora e pesados por dentro. Os textos do Mia Couto induziam-me em erro e eu ficava horas com uma azia terrível, as palavras às voltas na barriga. Era preciso beber chá para digerir e eu não sou muito de beber chá. Ainda assim, lia Mia Couto porque me apetecia e gostava à brava.

Uma vez, o Mia Couto foi à Faculdade de Letras, lembro-me perfeitamente disso.

Não, por acaso não me lembro muito bem.

Deve ter sido há uns 10 anos, o que para mim quer dizer que foi há montes de tempo. O encontro foi numa sala que eu associava a um exame de não-sei-quê, mas a partir desse momento, na minha cabeça, aquela passou a ser a “sala do Mia Couto”, porque o Mia Couto esteve mesmo ali, naquela sala igual às outras, com mesas e cadeiras. Lembro-me que o Mia Couto estava sentado na mesa do professor, de frente para os estudantes estudiosos. Eu, estudante assim-assim, tentava reter tudo o que o Mia Couto ia dizendo, mas infelizmente distraía-me com facilidade. Pensava em coisas do género: Olha, o Mia Couto está ali à frente! ou então A voz do Mia Couto é assim, que engraçado!

No final desse encontro, houve um momento para as perguntas dos estudantes estudiosos e eu estive no meu cantinho a inventar coragem. Os estudantes estudiosos iam fazendo perguntas e eu só pensava na minha pergunta que era igual às outras: tinha um ponto de interrogação no fim. E então, num acesso de desmesurada intenção, pus a mão no ar, contei até três e fiz a pergunta. Era uma pergunta pobrezinha certamente, a pedinchar resposta. Enquanto eu fazia a pergunta, o Mia Couto olhava para mim e ouvia as minhas palavras em silêncio, o que demonstrava que o Mia Couto, além de bom escritor, era uma pessoa bem-educada. Isto surpreendeu-me.

Estava à espera que o Mia Couto fosse um bicho esdrúxulo, porque os escritores com um certo nível de sofisticação são bichos esdrúxulos e não pessoas bem-educadas. Quando cheguei ao fim da minha pergunta, o Mia Couto continuou a olhar para mim e respondeu tranquilamente ainda a olhar para mim, o que me pareceu absolutamente extraordinário. Era como se, de repente, o Mia Couto estivesse a conversar comigo. Pensei: Olha, o Mia Couto está a olhar para mim e a responder à minha pergunta. E, em vez de ouvir a resposta do Mia Couto, que deve ter sido muito interessante, fiquei a pensar em coisas deste tipo: Eu estou a comunicar com o Mia Couto!

Senti então qualquer coisa nova. Uma capacidade qualquer de intervir, de ter um impacto na vida dos outros, incluindo na de escritores bem-educados. Isto encheu-me de esperança relativamente ao mundo. A oportunidade existia. A igualdade existia. A justiça existia. Blablabla. Dar e receber. Aprender e ensinar. Ser e estar.

Palermices.

Dez anos depois, nem há um ano, conheci o Mia Couto em Natal. Conheci mesmo. De dizer: Olá, eu sou a Ana. E o Mia Couto respondeu: Olá, eu sou o Mia. Por acaso acho que foi ao contrário. O Mia Couto apresentou-se e eu depois respondi. Desta vez, ouvi o que o Mia Couto disse, porque enfim, já sou mais crescidinha e a minha atenção já não é constantemente interrompida por pensamentos. Aliás, hoje em dia, é raro ter pensamentos. É um grande silêncio na minha cabeça.

Ora, hoje (ontem) lembrei-me de tudo isto, porque o Mia Couto ganhou e eu fico sempre contente quando o Mia Couto ganha.

Sou do Mia Couto como sou do Benfica. Sou, pronto. Estou sempre a torcer por eles.

E quando as minhas equipas ganham, sinto uma coisa estranha e abstrata que brilha no escuro, algo parecido com aquela palermice de ter esperança no mundo.

Acabo de ler que o Mia Couto quer apoiar os jovens escritores moçambicanos.

É uma luzinha no escuro!

Eu penso* que o Camões deve estar contente.





*Olha, um pensamento!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Comer, orar, amar

Vejamos: Não ando propriamente a correr atrás de bestsellers, mas não tenho nada contra eles. Li O Código Da Vinci com enorme interesse e gostei muito d'A Sombra do Vento. Ando a ler The Girl with the Dragon Tattoo e no ano passado cheguei ao cúmulo de ler os dois primeiros livros vampirescos da Stephanie Meyer, portanto é como digo: Não tenho nada contra bestsellers.
Confesso, no entanto, que livros com tipos de letra frufru e subtítulos do género "A divertida aventura de uma mulher à descoberta de si mesma" provocam em mim uma alergia gravíssima. É de uma rareza estapafúrdia, bem sei, mas quando vejo um livro assim fico logo cheia de borbulhas e incha-se-me a garganta de tal maneira que nem consigo respirar.
Até há coisa de meia hora, o livro Comer, orar, amar inscrevia-se nesse género de livros perigosos e a evitar. A história de uma mulher que se casa aos 25 anos, se divorcia uns anos mais tarde, manda tudo às urtigas e vai viajar pelo mundo durante um ano só não me dá sono por causa da comichão que provoca em mim e eu não consigo parar de me coçar quando tenho comichão. Isto vindo de alguém que se casou aos 25 anos e só ainda não se divorciou porque ainda não ingressou, claramente, numa divertida aventura à procura de si mesma.
Ando pelos cabelos com a mulher moderna e com a sua revelia histérica de emancipação depois da emancipação. A mulher moderna não serve para nada: não quer casamento nem estabilidade nem filhos, anda por aí à procura de si mesma, comendo, orando, amando, não há paciência. A mulher moderna não interessa ao Menino Jesus.
Há coisa de meia hora, o livro Comer, orar, amar simbolizava para mim todos esses lugares-comuns de mulheres que se descobrem na Índia e fazem ioga para se sentirem íntegras. Mesmo assim, até não me importaria de ver o filme por causa do Javier Bardem e da Julia Roberts, mas mais por causa do Javier Bardem do que da Julia Roberts (mais depressa me descobria no Javier Bardem do que na Índia).
Ora, há coisa de meia hora, estava muito bem a ler o jornal, quando me deparei com uma fotografia de Elizabeth Gilbert, a autora do livro. Era (achava eu) a primeira vez que pousava os olhos no rosto de Elizabeth Gilbert, porque, por mais que tenha ouvido falar do bestseller e da senhora, nunca tinha tido a curiosidade (pelas razões acima expostas) de ver o rosto de Elizabeth Gilbert. No entanto, assim que os seus olhos aguados entraram pelos meus olhos dentro, reconheci-a imediatamente. Bastou-me uma pesquisa de cinco segundos para reencontrar este seu discurso de dezanove minutos sobre criatividade (legendas disponíveis).
Foi a Nocas que me enviou este filme no ano passado e eu nunca mais me esqueci deste discurso nem da mulher atrás do discurso: uma mulher que não quer ser mais nada senão uma mulher de quarenta anos com os seus medos, frustrações, ambições e expectativas.
Quando me apercebi de que esta mulher do discurso e a senhora do livro com tipos de letra frufru e subtítulos do género "A divertida aventura de uma mulher à descoberta de si mesma" eram uma só, disse em alto e bom som: "Alto lá."
Andei na Internet a ler entrevistas a Elizabeth Gilbert e descobri que tenho mais a ver com esta americana loira que escreve sobre mulheres à procura de si mesmas do que com muito boa gente com quem saio à noite.
Decidi imediatamente ler o livro. Não que o vá ler já de seguida, porque também não tenho pressa, mas vou ler, sim. Para descobrir a autora e a mulher que há em Elizabeth Gilbert.
Passou-me a alergia.
Acho.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Mario Vargas Llosa

É a primeira vez que conheço o autor que recebe o Prémio Nobel da Literatura.
Li a notícia e fiquei surpreendida por conhecer o nome, os títulos, as personagens. Nunca me tinha acontecido antes. Sinto-me sempre uma ignorante quando leio o nome dos laureados.
No ano passado, quando vi as trombas da Herta Müller, assustei-me. Nunca tinha visto tal ave rara: lábios demasiado rubros, um cabelo que acabava logo depois das orelhas, uns olhos de bruxa má, uma miscelânea esquisita, entre o romeno e o alemão. Tive medo de Herta Müller. Mesmo assim, fui a correr à Fnac comprar o Atemschaukel para fingir que leio em alemão e também porque senti uma obrigação de ler o raio do livro, uma vez que estudei literatura alemã e vivi na Alemanha dois anos. Depois de ler o livro, continuei cheia de medo de Herta Müller e não me parece que vá ler mais livros desta senhora.
Em 1998, quando José Saramago recebeu os milhares de coroas suecas, só lhe conheci o nome por partilharmos a nacionalidade e não propriamente por ter lido A Jangada de Pedra ou a História do Cerco de Lisboa. Era então uma adolescente e interessavam-me títulos mais provincianos como Vai aonde te leva o Coração e Como Água para Chocolate. Antes disso, então, nem sequer era gente quando foi a vez de Gabriel García Márquez e li O Estrangeiro uns sessenta anos depois de o Albert Camus o ter escrito.
Descobri Mario Vargas Llosa quase sem querer.
No final de 2009, eu e o homem ilimitado decidimos ir ao Peru, mas acabámos por não ir ao Peru porque em Janeiro deste ano encerraram o Machu Picchu por causa das cheias. Na altura disse um palavrão, vários palavrões e, para me vingar da Natureza Mãe, decidi ir na mesma ao Peru, mas através da literatura.
Escolhi Mario Vargas Llosa, porque, a bem dizer, não conhecia outro autor peruano e até me dava jeito ler Mario Vargas Llosa, dado que a mãe tinha oferecido ao homem ilimitado A Conversa n'a Catedral e a Tia Carmito me tinha emprestado as Travessuras da Menina Má. Li os dois livros de enfiada e logo a seguir comprei A Casa Verde. Ainda não li A Casa Verde, mas vou ler.
De maneira que, quando li o nome Mario Vargas Llosa, reconheci um bocadinho do homem, do autor, da sua obra. Fiquei contente por Mario Vargas Llosa ter recebido o Nobel. Gosto dele, das suas personangens, da sua escrita desenvolta. Gosto, especialmente, da sua pinta de mulherengo latino-americano, da sua rebeldia contra os outros e contra si próprio.
Confesso que simpatizo com Mario Vargas Llosa também pelo facto de ele ter dado uma pêra valente no Gabriel García Márquez. Não é qualquer um que dá uma pêra valente no Gabriel García Márquez. É preciso ter sangue na guelra para dar uma pêra no Gabriel García Márquez. Gosto de homens com sangue na guelra. Principalmente se, além de mulherengos, forem escritores.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Tipo da unidade de tradução inglesa

Há aqui um tipo na unidade de tradução inglesa que é parecido com o valter hugo mãe. Não, não é parecido com o valter hugo mãe, mas tem o mesmo ar direitinho, uma calvície precoce como o Outono em Bruxelas, uns óculos de massa em cima de sobrancelhas espessas, que são duas centopeias à espera de larvas, uma testa enorme, de alguém que pensa sobre o sentido da vida e lê livros complicadíssimos. Nunca falei com o tipo da unidade de tradução inglesa, mas encontro-o muitas vezes nos corredores e na cafetaria. Nunca lhe digo bom dia nem boa tarde, não sei bem porquê. O tipo da unidade de tradução inglesa não é propriamente simpático, também não diz bom dia nem boa tarde. Ri-se pouco. Ora, hoje encontrei o tipo da unidade de tradução inglesa no elevador. Vinha com um cachecol pendurado no braço e com uns auscultadores nos ouvidos. Nenhum de nós disse nada durante a viagem. No entanto, tive vontade de dizer qualquer coisa, de fazer uma pergunta. Gostaria de saber, por exemplo, que música ouve o tipo da unidade de tradução inglesa. De que quadros gosta. Que livros lê. Gostaria também de dizer ao tipo da unidade de tradução inglesa que li a máquina de fazer espanhóis em três tempos e que eu não costumo ler livros em três tempos, que sou uma leitora muito vagarosa. Gostaria de dizer ao tipo da unidade de tradução inglesa que o valter hugo mãe não é um homem velho mas que podia muito bem ser um homem velho. Por causa da calvície precoce. E da sua escrita de gente velha. Como é possível um homem novo ser um homem tão velho?
Agrada-me a ideia de que há alguém parecido com o valter hugo mãe no meu local de trabalho. Gosto imenso de trabalhar num edifício, onde vejo de vez em quando uma pessoa parecida com o valter hugo mãe. O dia parece-me logo outro.
De resto, estou-me verdadeiramente nas tintas para o tipo da unidade de tradução inglesa.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

The Death of Bunny Munro ou o Nick Cave e as suas más sementes ou más intenções or something

O Nick Cave podia ter saído de um filme de animação, por causa das pernas muito magras, demasiado longas, das suas más sementes e dos olhos profundíssimos como poços (no fundo dos quais cantamos para o céu que vemos ao fundo) e da testa montanhosa (no cimo da qual vive um pastor que talvez seja um ciclope). O Nick Cave bem podia ser uma personagem de um filme de animação de Tim Burton (e a ideia nem sequer é do autor nem do narrador deste texto), porque é branquíssimo e se veste de preto e tem um ar meio fúnebre ou maquiavélico ou infernal, próprio de quem emergiu das profundezas de um vulcão ou das Brumas de Avalon ou de Gotham City ou de um qualquer sítio desconhecido dos comuns mortais ou dos imortais mais puros, por estes não saberem o mal que habita por baixo da superfície, no centro da terra ou no fundo do mar. A propósito disto, o narrador e o autor deste texto dão-se conta de que ouvem Nick Cave preferencialmente por baixo da terra, quando andam de metro pela Gotham City e não de eléctrico nem de autocarro. Curiosamente, Nick Cave escreveu The Death of Bunny Munro num autocarro ou, pelo menos, parte do livro. Estava em digressão na Europa e escreveu esta tal morte de Bunny Munro em 6 semanas, no seu iPhone, cujo teclado exige mais precisão aos dedos do que um piano ou uma flauta ou uma máquina de calcular or something. O Nick Cave emerge do seu vulcão e traz metáforas desse outro mundo, acrescentando, quase sempre, qualquer coisa or something: Her face is the purple colour of an aubergine or something. Isto pensa, por exemplo, Bunny Munro sobre o rosto arroxeado da mulher. Bunny Munro pensa sobre várias coisas, entre elas sobre a sua mulher e também sobre todas as outras mulheres, especialmente nos possíveis formatos das suas vaginas. Bunny Munro é, naturalmente, um tarado sexual que, além de alcóolico, é, possivelmente, a pior pessoa do mundo. Isto no entender de Nick Cave, que apresentou o seu livro também no Arenbergschouwburg, um lugar impossível com nome inefável em Antuérpia, onde a pessoana, o homem ilimitado e a capuchinho vermelho estiveram numa certa noite de Outubro, só para o ver cantar, tocar e ler certos excertos de certos capítulos do seu livro. (A certa altura, Bunny takes a deep breath and allows himself to open up to her vibes like a medium or spiritualist or something.) O Nick Cave podia ter saído de um filme de animação do Tim Burton, é certo, mas o Tim Burton, que tem sete cabeças e sete vidas para a sétima arte e uma criatividade que mais parece uma cascata or something, jamais poderia ter criado o Nick Cave, a não ser que os homens criassem deuses ou os rios parissem mares, o que até pode ser o caso. O Nick Cave é maior do que Tim Burton. Ou seja, Nick Cave até podia ter criado Tim Burton, mas nunca o contrário, a não ser que a arte seja maior do que o criador, o que até pode ser o caso. E nesse caso, Nick Cave é, de facto, uma personagem de ficção, um produto imaginário, uma criação sem corpo, o que não é verdade, porque o autor e o narrador deste texto viram-no ali à frente, a cerca de 30 metros, em carne e osso, a tocar e a cantar Hold on to yourself e a ler pedaços da tal morte de Bunny Munro. Desculpem a interrupção, mas o narrador deste texto tem, dentro da cabeça, uma outra cabeça que o censura e critica e recrimina como uma madrasta má. Diz-lhe insistentemente: "Não és nada em comparação com as sobrancelhas de Nick Cave". A outra cabeça do narrador, que é blogueira nas horas livres como outros são palhaços, concorda com a cabeça madrasta. Ambas presenciaram o concerto intimista do Nick Cave, que apresentou o seu livro e leu o seu livro e tocou e cantou e falou como se estivesse na sua sala de estar ou de ser. Respondeu também a todas as perguntas. Aproximava-se do público, perguntava: Any questions? e as pessoas falavam alto, tratavam-no por Mr. Cave, perguntavam-lhe tudo e mais alguma coisa. (A pessoana e companhia ficaram caladinhas que nem uns ratos. Os olhos sem fundo do Mr. Cave, as suas mãos soltas, desarticuladas, independentes, o compasso irónico das pernas, o timbre acertado, de quem já tudo fez e tudo ganhou e perdeu, e tudo provou e conheceu, como só o Diabo terá provado e conhecido: tudo isso assustou pessoana e companhia.) O Nick Cave escreveu um livro sobre vaginas e outros mistérios em 6 semanas, usando para o efeito o teclado do seu iPhone enquanto atravessava a Europa de autocarro. A pessoana, que é boa pessoa mas não é nada em comparação com as sobrancelhas de Nick Cave, anda a ouvir e a ler Nick Cave. De momento, não precisa de mais nada, não deseja mais nada, não lhe apetece mais nada. Nem mesmo para o Natal. (Ainda assim, se alguém lhe der como prenda o saco de pano que a FNAC anda a oferecer na compra do livro, ficará extremamente feliz, como se, de facto, o desejasse.)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Derramada por Chico Buarque

Quando sair daqui, vou comprar música do Chico Buarque, toda a música do Chico Buarque.
Tinha acabado de ouvir o Leite Derramado, quando pensou nisto, mas só dias mais tarde se lembrou dessa decisão. Disse: Saio daqui, reentro na chuva, apanho o metro e compro música do Chico Buarque, toda a música do Chico Buarque.
Não tem uma única música do Chico Buarque e tem pena, vergonha, raiva de si mesma, porque aprendeu a dançar samba no Rio de Janeiro e canta Caetano Veloso no duche. Não sabe porquê, tenta perceber porquê.
Observa: há qualquer coisa de profundamente inquietante na voz de Chico Buarque, nos seus lábios, nos seus cabelos. Uma certa manha de rapousa, uma astúcia de cavalo de Tróia e ela não gosta disso. Dança samba despreocupadamente, "como se pulasse corda", igual à Matilde que derrama o leite.
Preocupa-se em arranjar desculpas: O próprio nome Chico Buarque é estrondoso e a canção do Chico Fininho assenta-lhe que nem uma luva. Não consegue levar a sério aquela voz. O seu rosto é certinho, bonitinho, direitinho, tem um certo ar intelectual e as letras das canções são complicadas. Tudo isto a incomoda.
Tudo isto estava prestes a mudar, porque tinha acabado de ler o Leite Derramado e apercebera-se do seguinte: os olhos de Chico Buarque, a sua voz, o seu perfil, todo ele tinha alguma coisa de profundamente feminino. E isso era, de facto, inquietante. Com Caetano também era assim, mas Chico Buarque emanava, de facto, um entendimento feminino do mundo, era conhecedor da mulher por fora e por dentro.
Sim, isto inquieta-a. O conhecimento dos outros de um pedaço de si própria é sempre inquietante. Está derramada por Chico Buarque, quer ouvir a sua voz. Tinha lido o romance anterior há coisa de três anos, quando estava, precisamente, em Budapeste. Só o lera por isso mesmo, porque estava em Budapeste e o livro tinha o nome da cidade. Mais nada. É verdade que tinha gostado do livro, mas apreciou mais a viagem e esqueceu o Chico Buarque ainda durante a estadia: o seu amor era outro, a leitura era acessória. Guardou, contudo, aquele livro na memória e revisitou-o.
Comprou o Leite Derramado porque sim. Lê da mesma maneira como samba e era costume comprar livros porque sim. Também comprava livros por outras razões (por vezes pensava que os livros podiam desaparecer de repente de todas as estantes de todas as livrarias e isto assustava-a).
Além de tudo isso, também gosta das capas da Dom Quixote, os relevos das letras atraem as pontas dos dedos e dos olhos. Era branca, a capa. O Chico Buarque estava mais bonito com a idade, uma injustiça para os outros, que ficam, por norma, mais feios. Trouxe o livro para outro lugar e leu-o em três tempos: o primeiro tempo passou-se num quarto de hotel, o segundo tempo no comboio, o terceiro tempo no avião. Na verdade, talvez nada disto tenha acontecido, porque a sua sensação era a de que ouvira o Leite Derramado e não que o lera.
Quando pensa no livro, lembra-se da voz de Chico Buarque contando a história de um homem centenário que conta, por sua vez, a sua história para não se esquecer dela. Também conta a sua história para não ser esquecido. Nessa história fala da sua obsessão por Matilde, uma mulher "quase castanha" que colhe conchas na praia e ouve "maxixe e samba na vitrola". O homem centenário revive aquele amor, regressa àquele amor, repete esse amor. Também repete outras histórias. Conta tudo isto à enfermeira que se ocupa dele, à filha que o visita, ao neto, a toda a gente, a si próprio, a ninguém. Fala do Brasil, de escravos, de "mil oitocentos e lá vai fumaça", de mangas, capelas, portugueses, franceses, putas, vestidos, droga, religião e de outras coisas. Também fala das suas dúvidas, das suas angústias e convicções.
Um discurso tão real como a voz de Chico Buarque dentro dele.
Ouviu o livro e ficou derramada por Chico Buarque. Queria ouvir mais aquela voz e, enquanto não era hora de sair, vai ao Youtube. Ouve a Construção como se fosse a última canção.
O Chico Buarque inquieta-a. E ela gosta.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

valter hugo mãe

O novo presidente americano tomava posse, fazia um discurso importantíssimo e todos o ouviam, todos o seguiam, todos calavam. O mundo assistia redondo a este acontecimento e, no entanto, no primeiro andar de uma rua calmíssima de um bairro residencial de uma cidade europeia, uma mulher mantinha a televisão desligada, a rádio desligada, o computador desligado e lia concentrada, deliciada, conquistada, o último romance de valter hugo mãe. Como se nada mais houvesse no mundo senão aquelas páginas com as suas personagens esdrúxulas e vidas minúsculas. Um caso deveras estranho. O mundo parado para ver que rotação escolher e uma mulher deitada no sofá a ler um romance. Do valter hugo mãe.
Era, de facto, estranhíssimo, mas já se sabe que a realidade ultrapassa sobremaneira a fantasia. No final do livro a mulher ficou triste por haver um fim. Depois foi lavar os dentes e deitou-se.
O discurso do presidente havia de ter sido notável, mas não tão notável como o apocalipse dos trabalhadores. Na opinião daquela mulher, claro, que gostava muito mais do valter hugo mãe do que do Barack Obama. Francamente mais. Mil vezes mais.
Vá-se lá saber porquê*.

*O narrador desta história não percebe esta mulher, mas eu sim, percebo e concordo.