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segunda-feira, 30 de junho de 2008

Noves fora, nada

O homem-que-conduzia-autocarros não conseguia pensar enquanto conduzia. Havia muitas interrupções, infracções, distracções. E passageiros. Que perguntavam, compravam, entravam, saíam, reclamavam, pediam, ordenavam.
Era impossível pensar.
E portanto, em vez disso, o homem-que-conduzia-autocarros contava: somava, subtraía, dividia, multiplicava, calculava raízes quadradas. Tudo de cabeça.
Era curioso, por exemplo, que a carreira do autocarro vinte e sete tivesse exactamente vinte e sete paragens.
O homem-que-conduzia-autocarros não tardara a perceber isto: 2+7=9.
E noves fora, nada.
Outra coincidência era o facto de o seu percurso demorar trinta e seis minutos. O homem-que-conduzia-autocarros tinha um relógio-cronómetro e, em média, de facto, o percurso demorava exactamente 36 minutos.
3+6=9.
E noves fora, nada.
(O homem-que-conduzia-autocarros sublinhava o número nove para que ninguém o confundisse com o seis.)
Nas contagens de passageiros, o número nove era também o mais comum. Em muitas paragens saíam nove passageiros. Noutras entravam outros nove. E na carreira da noite, quando passava em Montgomery às 23 e 40 (Dois mais três são cinco e mais quatro faz nove), o autocarro só já trazia nove pessoas.
O homem-que-conduzia-autocarros começou então a ver o número nove em todas as coisas. Nove botões nas camisas, quarenta e cinco semáforos (4+5=9), vinte e sete Estados-Membros (2+7=9), dezoito curvas à direita (1+8=9).
Anos mais tarde (precisamente nove), o homem-que-conduzia-autocarros enlouqueceu.
E tudo por não conseguir pensar. Enquanto conduzia.
Ou por contar enquanto conduzia.
Por pensar sobre o que contava.
Por conduzir enquanto contava.
Ou por não o deixarem pensar.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Sol

Naquela manhã, porém, a vida era um pouco menos triste por causa do sol que rompia as persianas e a D. Teresa, que há vários dias não saía da cama por causa da dor nos ossos, do peso insustentável do corpo e de uma certa pressa de morrer, levantou-se quase sem dor e abriu a janela para saborear a luz. Dizemos saborear a luz, porque de facto a D. Teresa escancarou a janela, apoiou os braços no parapeito e abriu a boca para a manhã, saboreando-a.
De vez em quando fechava a boca para o sol crepitar no céu do corpo (isto lembrava-a o algodão doce da feira popular). Fechava também os olhos, para que eles vissem outros lugares, os mesmos de outra época já que a imaginação não ia além da memória.
D. Teresa sentia-se de tal forma feliz que lançou os braços para o dia e deitou literalmente a língua de fora (as papilas gustativas, em contacto directo com o sol, abriam-se como poros).
Uma manhã suculenta, disse de si para si.
Mas de repente, quando a tarde caiu, D. Teresa assustou-se e pediu àquela manhã que não partisse, que voltasse, que fosse para sempre. Agarrou então o sol com as mãos, puxou-o com todas as forças que tinha, atirou-o para dentro de um frasco e guardou-o no frigorífico.
Depois saiu. Para comprar baguetes.
Tinha uma enorme vontade de comer pão com sol.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Um homem caminha no parque.

Não passeia pelo parque. Caminha. Senão vejamos:
É quase baixo e anda cabisbaixo a contar as pedras do chão. Vem aliás zangado com as pedras do chão. A bater nas pedras do chão. (Indignamo-nos.)
Traz também as mãos presas nos bolsos.
(Imaginamo-las pesadas como as pedras do chão.)
O homem traz portanto pedras nos bolsos.
Além disso, o homem não segue o trilho que o jardineiro tão cuidadosamente esculpiu para os homens que passeiam. Em vez disso, vai em frente (sempre em frente), atrás de uma recta que só ele vê.
Temos a certeza que o homem vê essa recta, porque o seu trajecto é impecavelmente alinhado, alheado, alienado. Vai sempre a direito pela relva, pisa o que tiver a pisar (incluindo eventuais pedaços de merda que julgamos ver daqui). Dá a sensação que, havendo por aqui um lago, o homem o atravessaria sem hesitar. Seguiria em frente como um touro e caminharia inacreditavelmente sobre a água, ainda zangado com as pedras do chão e dos bolsos, ignorando o milagre.
(Infelizmente, não há por aqui um lago e o homem segue mortal como os outros.)
O homem caminha. Não passeia.
Se passeasse, traria a cabeça içada, o nariz elevado, o olhar mais ainda. Tocaria naturalmente com o pensamento nas nuvens. Seria um homem um pouco mais alto, um pouco mais livre, um pouco mais pássaro. E, como já se disse, o homem que caminha é baixo, cabisbaixo.
(De pássaro só o nariz, que adivinhamos aquilino, como os bicos das aves de rapina.)
E subitamente apercebemo-nos de que este homem tem qualquer coisa de árvore. Repetimos: de árvore. É uma semelhança curiosa, tendo em conta que este homem caminha sempre em frente e as árvores só andam para dentro.
(Da terra, claro.)
Observamo-lo com mais atenção e reparamos que este homem e as árvores têm em comum a curvatura do tronco. Um é vertebrado, o outro não, já se sabe. Mas ambos dobram a coluna para a frente, por causa do peso da vida, muito próxima do chão.
Formulemos uma hipótese: este homem é uma árvore andante.
E daí talvez não. Somos nós que andamos e confundimos o movimento.
(Ilusão de óptica.)
Concluímos: O homem anda para dentro. Sempre em frente, para dentro da terra.
Daí as pedras do chão.
E as dos bolsos.

quarta-feira, 26 de março de 2008

O homem triste

Imaginemos um homem mediano, de estatura média, meia-idade e gostos de classe quase baixa, muito preocupado em medir os outros e a vida. Em dias tristes esse homem dizia:
- Estou triste! - com a simplicidade de quem é triste.
E todos se compadeciam dele.
Um dia alguém disse sem pretensões:
- Uma pessoa feliz tem tanto de felicidade como de tristeza.
E ele foi para casa contar os seus dias tristes para saber os dias felizes. O homem admitiu depois:
- Estou triste!
E todos se compadeceram dele.
Naquela noite foi ao cinema para que os outros vivessem por ele e, no final do filme, sentiu que essa vida (a dos outros) era mais interessante do que a sua.
(Uma conclusão algo ingénua para um homem de meia-idade, admitamos.)
O homem triste decidiu então viver a vida de uma outra pessoa (que não a sua) e entrou num bar para escolher o seu actor. Rapidamente sentenciou que nenhuma pessoa do bar era decididamente interessante. Achou, em primeiro lugar, que o problema era seu, que tinha falta de interesse pela vida em geral, mas depois resolveu culpar o mundo. Disse:
- Ninguém é decididamente interessante.
E pediu a conta. Aquele homem mediano, de estatura média, meia-idade e gostos de classe quase baixa, muito preocupado em medir os outros e a vida, decidiu então mudar de ângulo, que é como quem diz: mudar de vida. Anunciou para o copo de vinho:
- A partir de agora, sou realizador de cinema - isto por lhe faltar o talento dramático dos actores, porque o homem triste prefereria encarnar personagens a racionalizá-las.
Pagou a bebida e perguntou ao rapaz que o servia:
- Onde posso comprar uma máquina de filmar?
O outro riu-se da ignorância do homem triste: um rapaz patético, de aparelho nos dentes, presumivelmente feliz.
- A estas horas em lado nenhum. Pelo menos, não na Bélgica.
O homem triste decidiu então começar por mudar de país. E foi para casa.
No silêncio do quarto assaltou-o uma reflexão sobre a vida. E a propósito disso deu um título ao filme por realizar:
No country for sad men.
Não era um título original, é evidente. Mas era mediano e isso bastava-lhe. O homem triste levantou-se do sofá e partiu a meio da noite.
Claro que o homem triste deu a volta ao mundo e não encontrou o lugar que procurava. Concluiu anos mais tarde, quando a sua estatura média se dobrava para a frente com o peso dos anos, que o mundo inteiro era mais triste do que ele. Pensou:
- Sou um pouco menos triste do que antes.
Isso animava-o imenso.
Era um velho feliz.

quinta-feira, 6 de março de 2008

O vizinho polaco

O meu vizinho finge falar sozinho mas eu bem sei que fala com o cão. Passeiam-se pelo quarteirão e eu passo por eles de manhã. Não percebo o que dizem.
O vizinho vê-me, ri-se, cumprimenta. Diz: Bonjour! como quem fala às crianças e eu sorrio. Queixamo-nos normalmente do frio.
À noite desce as escadas desde o 4.º andar e fica à porta do prédio a falar baixinho. O cão ouve-o e cheira insistentemente o passeio. Encontro-o à entrada: eu de saco de lixo na mão e ele de cigarro na boca. Falamos do lixo ou do cão.
Ontem contou-me que tem família em Itália e eu interessei-me. Um minuto e meio de conversa. Depois perguntou-me: Também tem família em Itália? e eu disse que não.
O meu vizinho polaco ficou desolado por eu não ter família em Itália. Apercebi-me disso enquanto abria a porta. Corrigi a tempo: Vou procurar um primo em Roma. Gostava de ter família em Roma.
Ele riu-se. Eu também. Passou-lhe a tristeza. Deseja-me: Bonne nuit! como quem promete sonhos. Respondo no mesmo tom e subo a escada a rir.
Há nestes encontros uma dimensão de amor: o meu vizinho gostava de ser meu avô.
Estava a meio das escadas e decidi aprender polaco.
Para ser sua neta, claro. E falar com o cão.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

A leitora

Em certos dias lia um livro inteiro. Não havia um único barulho de fundo naquela sala além do ressonar longínquo do frigorífico e a respiração quase inaudível do televisor em stand by.
Sentava-se no sofá com o café da manhã e inaugurava a leitura. Levantava-se a meio da tarde para comer qualquer coisa. Normalmente pão barrado com uma espécie de queijo. Depois comia uma maçã (descascava-a vagarosamente para um prato de sobremesa, tirava-lhe a pele e os caroços, mordia cada pedaço como se fosse o último).
Continuava a ler. Tinha sobre a mesa de apoio um caderno preto. E uma caneta sobre o caderno preto. Nele apontava certos nomes de personagens, certas frases promissoras. Nunca lia o que apontava no caderno preto. Apontava apenas.
Certo dia, leu um livro sobre uma mulher que, em certos dias, lia um livro inteiro. Era um livro sobre si própria, adivinhou. A história parecia-lhe desinteressante, a personagem também. Pensou: A minha vida é mais interessante na vida real do que no livro. Devia ser ao contrário.
Na narrativa faltava-lhe certas características excepcionais, por exemplo. Pela primeira vez na vida, aborreceu-se e deixou um livro a meio (a um terço, para sermos mais precisos). Concluiu: Não sou suficientemente interessante para um livro.
Preparou-se para sair de casa. Queria comprar outro livro qualquer, mas lembrou-se a tempo que não tinha a carteira consigo. Deixara-a caída no carro, que tinha entretanto emprestado à senhora do terceiro andar.
(Não se importava de emprestar o carro, mas não gostava de emprestar livros.)
Pensou: A realidade tem ficções verdadeiramente estúpidas. Acrescentou: Os livros são tão mais interessantes do que a vida.
Tinha pressa em ler qualquer coisa, por isso pôs-se a ler o caderno preto. A páginas tantas leu: «O pior pecado é não amar» e lembrou-se imediatamente daquele livro de bolso. Disse: José Eduardo Agualusa, como quem diz o nome de Deus e confessou:
Pequei.
Fechou o caderno. Repetiu:
Pequei.
Sentiu o sabor da palavra na boca, saboreou-a como saboreava as maçãs.
Achou-se um pouco mais interessante do que antes. Pegou no livro sobre si própria e leu a contracapa: A história de uma mulher que aprende a amar.
Recomeçou a leitura. Já agora, queria saber o fim.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

A planta

O Senhor Adelino casou aos 30. Tinha uma casa, dois filhos, dois automóveis, um cão, um gato, um periquito. Divorciou-se aos 50. A ex-mulher ficou com os filhos, o gato e o periquito. Venderam-se a casa e os automóveis. O Senhor Adelino ficou com o cão. Depois de tudo isto reformou-se. Era novo. O cão morreu no ano seguinte. Abatido.
O Senhor Adelino resolveu então comprar uma planta. Parecia-lhe uma forma de vida fantástica: o silêncio profundo, o segredo alquímico da fotossíntese, a natureza completa no toque fibroso das folhas, a simplicidade da vida. Anunciou para as paredes: Vou comprar uma planta.
A florista da rua tinha orquídeas na montra. O Senhor Adelino considerava-as exuberantes. Uma questão de gosto. Não queria flores, queria uma planta. Verde. Só verde.
Entrou na loja. A florista tinha cara de flor: o rosto muito redondo, o cabelo aos caracóis, volumosos como pétalas. O Senhor Adelino disse: Queria uma planta. Verde. Só verde. A florista olhou-o em silêncio, de cabeça um pouco pendurada para a frente, igual às flores.
No fundo da loja havia uma planta verde, de caule longo e folhas largas, cheias de saúde. O Senhor Adelino apontou. Levo aquela.
A florista baptizou-a com um qualquer nome latino, trouxe-a para o balcão. Tratava-se de uma palmeira de interior. Origem mexicana. O Senhor Adelino achou aquele exotismo interessante.
A florista deu conselhos.
Era uma planta cheia de vitalidade. Muita água. Muita luz. O caule crescia tanto que era preciso mudar de vaso daqui a algumas semanas. Também falou da qualidade da terra. Da quantidade de luz e de sombra. Dos cuidados a ter no Inverno. Dos cuidados a ter no Verão.
O Senhor Adelino decidiu não levar a planta verde. Desculpou-se: Sou incompetente. A florista calou-se. Repetiu: Sou incompetente. A florista pendurou um pouco mais a cabeça. Acrescentou: Para cuidar da vida. Da vida dos outros. Para cuidar da vida em geral.
Voltou para casa. Muita água. Muita luz, muita sombra. O Senhor Adelino bebeu um litro de água e plantou-se no sofá. Se criasse raízes, talvez os seus braços crescessem e nascessem outras mãos, outros braços. Assim talvez as coisas se tornassem mais alcançáveis. O tecto, por exemplo. As nuvens. A vida.
O Senhor Adelino resolveu então comprar um escadote.
Na cozinha havia um espaço entre o frigorífico e o armário. Arrumaria aí o escadote. O Senhor Adelino sentia-se menos incompetente. Anunciou para as paredes: Vou comprar um escadote.
Já dava para chegar ao tecto.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

O ponteiro dos segundos

A mulher ouviu o ponteiro pela primeira vez.
Parou de trabalhar.
(Estava sozinha naquele gabinete e nunca antes se tinha apercebido do tempo a passar.)
Observou o relógio de parede e acompanhou os segundos com os olhos. Depois voltou aos ouvidos e logo a seguir desceu até ao peito: ouviu os segundos com o coração.
Eram três ponteiros, mas só um se mexia.
Esperou muitos segundos para apreciar o movimento dos minutos.
Chegada a sua vez, o ponteiro dos minutos moveu-se quase imperceptivelmente: inclinou a cabeça devagar e subitamente já apontava para o minuto seguinte.
O mesmo se passava com o ponteiro das horas. Era tão discreto no seu movimento que as horas não passavam.
A mulher apercebeu-se que, naquele escritório, apenas dois seres se mexiam:
1) ela própria,
2) o ponteiro dos segundos.
Contemplou a estagnação do gabinete, de maneira que agora só o ponteiro se mexia.
(Ouvia os segundos com o coração.)
Passado algum tempo, a mulher deu por si a movimentar os dois olhos.
De um lado para o outro. Ao som do ponteiro.
A mulher passou 100 segundos nisto.
Depois parou. Doíam-lhe os músculos oculares.
A mulher pensou: O movimento dos ponteiros do relógio faz sentido porque tem um sentido.
O movimento dos olhos não.
A mulher concluiu: Não faço sentido porque não tenho um sentido.
Consultou o relógio.
Disse: Não tenho tempo para isto.
E continuou a trabalhar.
No sentido dos ponteiros do relógio.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Chuva

Como se não bastasse, chovia. Torrencialmente.
E ele descia a rua cabisbaixo, trazia os ombros caídos como folhas em final de vida e por cima da cabeça um chapéu-de-chuva murcho, quase roto. Uma mulher apressada subia na sua direcção e ele, de vista curta por causa do chapéu muito negro em frente aos olhos, ia também direito a ela. Noutro dia qualquer ouviria os seus passos (saltos altos falando alto com o passeio), mas hoje não.
A mulher vira-o quase a tempo, desviara-se ainda uns bons centímetros, mas os chapéus-de-chuva bateram um no outro e inexplicavelmente, contra a vontade de um e de outro, contra a chuva e o vento, entrelaçaram-se. Ela puxou do seu chapéu determinada, mas nada parecia quebrar aquele abraço. Ele a querer descer a rua, ela a querer subi-la. Inspeccionaram os chapéus e descobriram que a vareta de um tinha rompido o pano do outro. Ele lançou a mão à vareta, ela ao pano, e tentavam sem êxito desfazer o nó complicado. Não falavam um com o outro, nem sequer se olhavam por estarem demasiado próximos.
Por cada um querer ir para seu lado, resolveram então puxar os chapéus à força. E tanto puxaram que a vareta cedeu e o pano caiu. Ficaram ambos à chuva, um de chapéu partido, outro de chapéu roto. Primeiro não disseram nada: estavam estupefactos com o acontecimento. Depois espantaram-se antes com a chuva e olharam um para o outro. Estavam ensopados.
Deitaram os chapéus no lixo e refugiaram-se debaixo de um telhado. Queixavam-se ambos do tempo. Inicialmente para introduzirem um tópico de conversa, depois para justificarem os males de todos os tempos. Queixaram-se tanto da chuva que a certa altura a culparam de todos os problemas, infortúnios e pecados. Uma hora depois continuavam debaixo daquele telhado e conversavam animadamente sobre os efeitos prejudiciais do tempo. Depois a chuva parou e eles fingiram ter de continuar caminho.
Despediram-se sem saberem se voltariam a ver-se. Choviam torrencialmente por dentro e culparam o tempo por isso. Era naturalmente a última gota naqueles corpos de água.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

A nadadora

Tinha um sonho feito de água que era ouvir o hino nacional no pódio dos jogos olímpicos. Nadava cinco horas por dia (cinquenta metros para lá, cinquenta metros para cá) e no final o treinador batia-lhe nas costas largas. Tinha ganho medalhas em campeonatos regionais e exibia-se nas horas livres em estilo mariposa, qual monstro marinho.
O sonho era só um sonho, por isso a nadadora não chorou quando percebeu que não ia aos jogos olímpicos. Casou nem nova nem velha e teve duas filhas. Dava aulas de natação a crianças, pegava-as ao colo, perguntava-lhes pelas notas. Os miúdos faziam desenhos da nadadora debaixo de água e entregavam-nos timidamente. Isso bastava para a nadadora boiar de felicidade.
No final do dia, quando chegava a casa, os gritos das crianças na piscina ainda ecoavam na cabeça e a nadadora fechava a porta da cozinha para não ouvir as vozes das filhas. Era uma cozinheira certeira no tempero, cheirava os vapores com a ponta do nariz e mexia a colher de pau assertiva. O marido chegava a casa quando o último prato pousava na mesa por a mulher trabalhar ao segundo e viver a vida a crawl, disciplinada e rotineira, de corpo contra a água.
Certo dia, as filhas foram juntas à festa de anos de um vizinho e o marido estava num jantar da empresa, para o qual a mulher não tinha sido convidada. A nadadora sentou-se em frente à televisão mas não a ligou por os gritos dos miúdos ainda ecoarem na cabeça. Nesse momento, a nadadora teve uma ideia e correu para a casa de banho. Levou um relógio consigo para não perder o rumo e trancou a porta.
Encheu a banheira. Verificava de segundo em segundo a temperatura da água com a ponta dos dedos e finalmente, a nadadora saltou nua para a piscina. Aí ficou várias horas, a cabeça debaixo da água e os olhos abertos para o tecto. Vinha várias vezes buscar ar à superfície e voltava de seguida para o fundo do poço. Debaixo de água o silêncio era tão profundo que ela se ouvia por dentro.
Desenhou mentalmente cinquenta metros e percorreu-os a bruços. Para que o sonho não tivesse fim, pensou numa piscina sem fim. Lembrou-se da aula de filosofia em que se falou de Zenão, o filósofo do infinito.
Pensou como ele.
Para nadar metade da piscina, teria de nadar metade da metade da piscina. Fez contas e adivinhou "Doze vírgula cinco metros". Depois calculou a metade da metade da metade e assim por diante até concluir que a piscina era infinitamente divisível: de facto não havia um fim para aquela banheira e o corpo batalhava contra o cansaço.
Crescia um mundo paralelo debaixo de água e a nadadora agradeceu à matemática por isso. Estava tão cansada que adormeceu antes de a família chegar a casa. E nessa noite teve um sonho feito de água.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

A cozinheira preta

Jamais se esqueceria dela, do volume da cozinheira na casa, as ancas enormes, o peito pato-do-mato, as pernas grossas e as panelas redondas nos braços duros. Ninguém se lembrava do nome da cozinheira e agora, que o tempo era cada vez menos real, o seu rosto era cada vez mais difuso. Um dia a mulher decidiu que a cozinheira era parecida com Cesária Évora, substituindo-a para sempre pela cantadeira. De tal forma que, quando ouvia o primeiro verso de Sodade se lembrava da cozinheira a cantar para os tachos, o dialecto sempre risonho e o nariz dilatando no vapor da cozinha, como se a canção fosse dela. Quem mostra' bo ess caminho longe?, perguntava-se agora. Naquele final de tarde lembrou-se da cozinheira. Estava em Gibraltar com os filhos e a mais nova apontou para o mar dizendo: "Ali já é África". O pai falou da Conquista de Ceuta e a mulher ficou a pensar na sua. Veio-lhe à memória a despedida, a cozinheira rindo sempre, o choro da menina a colar-se ao corpo como suor.
A cozinheira enorme, agora com o rosto de Cesária Évora, dizia-lhe com o mesmo sorriso: "Se calhar é melhor assim, menina, cada um para seu lado, assim fica tudo preto no branco. Talvez não voltes mais aqui, mas não tem mal, desde que faças coisas boas do outro lado. A vida é como os tachos da cozinha, menina, não se sabe o que fazer com ela até lhe darmos uso. É preciso aprender a mexer nos tachos, é muito difícil, tudo tem a sua medida certa, o seu tempo de cozedura, é preciso prestar atenção aos pormenores. Não te esqueças dos pormenores, menina. Faz coisas boas na vida, cozinha bem, convida os teus amigos para a tua casa, arranja um moço bonito, dança kizomba com ele, dança sempre kizomba!".
Estava frio e era tarde. Os miúdos entraram no carro primeiro, o pai abriu a porta da frente, ela a do outro lado, quase sincronizados. Olharam-se antes de entrar. Ele perguntou: "Que fazemos agora?" e ficou um segundo suspenso a olhar para ela. Ela pensou: "O moço bonito" e disse: "Vamos dançar".

segunda-feira, 23 de julho de 2007

A mulherzinha

Por volta das 9 horas, a mulherzinha saía de casa e descia a rua para ir ao alfarrabista embora já não ligasse propriamente a livros devido aos problemas que tinha na vista. Tenho cataratas, dizia sempre ao alfarrabista e a mulherzinha gostava do volume daquela palavra na boca por as sílabas serem curtas e saberem a água salgada. Tenho as cataratas do Iguaçu nos olhos, pensava (mas não dizia).
No fundo da loja do alfarrabista havia um armário largo com postais dentro. A mulherzinha escolhia uma gaveta ao acaso e dedilhava centenas de postais durante centenas de minutos até encontrar um retrato de que gostasse (um homem apoiado na bengala, uma mulher penteando longos cabelos, uma família à beira de um lago, duas crianças de mãos dadas). De quando em quando comprava postais de animais – um cavalo, um cão, um gato – mas era raro.
Por volta das 11, a mulherzinha voltava para casa arfando de cansaço e antes de se sentar na cadeira de baloiço, fazia um chá de jasmim na cozinha. Trazia um tabuleiro cheio de loiça que ia falando sozinha a cada passo até sossegar na mesa da sala. Havia o bule, a chávena, o pires, a colher de prata, o açucareiro e o pratinho com bolachas, raramente se esquecia de alguma peça. A mulherzinha bebia o chá de jasmim, comia as bolachas e depois recostava-se na cadeira, baloiçando-se ao som do postal novo.
Ontem trouxera o retrato de uma jovem de rosto escondido atrás de uma sombrinha, tinha sido uma boa escolha. Imaginara-se jovem burguesa sem cataratas nem artroses passeando-se no passeio público do século XIX. Encontrara o Senhor Veloso e a sua esposa, falaram do tempo e dos novos projectos arquitectónicos para a cidade, era realmente escandaloso acabar-se com o passeio público. No final da tarde juntara-se a Aurora Bonifácio, uma brasileira alegre de Porto Alegre e bebera chá da Índia no seu terraço. Tinha sido uma óptima tarde. No final, a mulherzinha dera um nome à personagem, escrevera-o no verso do postal e colocara-o na caixa destinada aos retratos.
Hoje trouxera a imagem de uma mulher idosa sentada numa cadeira de baloiço (de vez em quando também era preciso ser-se velha). Pegou na lupa para ver a sua personagem e ficou espantada ao reconhecer-se a si própria. A mulherzinha levantou-se devagar, dirigiu-se ao espelho da entrada, olhou para ele como há muito não fazia e confirmou: Sou eu. Voltou a sentar-se na cadeira de baloiço e pensou durante muito tempo. Desta vez não havia sonhos para sonhar, portanto a mulherzinha pôs o postal na caixa sem lhe dar um nome e resolveu limpar o pó da sala.Na manhã seguinte, às 9 horas, a mulherzinha saiu de casa mas já não desceu até à loja do alfarrabista. Subiu devagar pelo passeio torto arfando pelo caminho, já não se lembrava onde ia dar aquela rua. No final houve uma brisa forte que a ajudou a respirar, era um vento húmido, bem feito, bem-vindo. A mulherzinha fechou os olhos para sentir melhor o vento e ao abri-los viu as cataratas de Iguaçu, caíam violentamente do outro lado da rua. A mulherzinha sorriu satisfeita, era uma paisagem lindíssima.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

A mulher do eléctrico

Todas as manhãs, a mulher do eléctrico apanhava o 23 na Gare du Midi e saía em Heysel. Era um trajecto demasiado longo e não muito directo, havia várias curvas pelo caminho e o compasso da viagem era lento. Mas a senhora não tinha pressa, ou pelo menos assim pensava o condutor, era provavelmente reformada e parecia conformada e descansada com a vida. Entrava no eléctrico devagar e observava os pés enquanto subia os degraus, certificando-se de que traziam consigo o resto do corpo. Depois deixava-se cair num lugar à janela, pousava uma mão sobre a outra, palma contra palma, e esquecia-se delas no colo. Vinha normalmente a meio da carruagem e não fazia absolutamente nada durante o percurso, senão olhar para fora da janela. Em Heysel, a senhora era sempre a última a sair, sacudia a mão ao condutor em jeito de despedida e descia os degraus olhando para os pés atentamente. Não se sabia o que a senhora fazia em Heysel, mas o condutor imaginava-a, por vezes, sentada num banco de jardim partilhando migalhas do seu pão com os pombos. Outras vezes, imaginava-a numa casa bonita com netos e bisnetos, que talvez a viessem esperar todos os dias do outro lado da linha. Com o cair da manhã, a senhora apanhava novamente o 23, desta vez em Heysel, saindo uma hora mais tarde na Gare du Midi. Tudo isto se repetia de igual forma dia após dia, até que certo dia o condutor, demasiado intrigado com a mulher do eléctrico, resolveu perguntar-lhe: "Desculpe, senhora, bem sei que não tenho nada com isso, mas se tem de ir todos os dias para o outro lado da cidade, por que razão não se muda para lá?". O condutor apanhou a mulher do eléctrico numa má altura, a senhora estava demasiado focada nos seus pés para lhe dar atenção, tinha o ar mais concentrado do mundo e talvez precisasse de silêncio enquanto descia da carruagem. "Como?" perguntou a mulher momentos mais tarde, já liberta dos enormes degraus. O condutor repetiu a pergunta um pouco mais alto do que antes, não fosse a senhora ouvir mal. A mulher do eléctrico ouviu a pergunta respeitosamente e ficou a pensar durante algum tempo. Talvez nunca tivesse considerado essa hipótese e estivesse agora a debruçar-se sobre ela. A senhora parecia agradada com a ideia, havia um esboço de sorriso no seu rosto. Finalmente uniu as sobrancelhas numa ruga profunda e, ainda sorrindo, disse: "Mas assim não andava de eléctrico!".